Categorias: TV

Troféu Valkirias de Melhores do Ano: TV – Episódio 2

A televisão ficou repleta de narrativas sobre mulheres complexas em 2019. Vimos Fleabag e Rebecca Bunch saírem do estereótipo de mulher estranha e maluca para se tornarem pessoas conscientes de si mesmas e de suas questões psicológicas. Mas nem só disso viveram as nossas séries. Também ficamos grudadas na tela para tentar descobrir desfechos de mistérios, torcemos por nossas crianças favoritas da televisão (que não são mais tão crianças assim), conhecemos uma família peculiar que precisa salvar o mundo e estamos tentando não pensar na tristeza que será dar adeus a uma das melhores séries de comédia desta década. Passamos muitas horas assistindo a séries durante este ano, e elas certamente nos marcaram de alguma forma. Confira nossa segunda parte do Melhores do Ano na categoria TV.

Pose (Segunda Temporada), FX

Por Isabela Reis

A segunda temporada de Pose consegue ser tão cativante quanto a primeira ou talvez até mais. Agora no começo dos anos 1990, o enredo mostra como Vogue, da Madonna, afetou o ballroom, e como a crise da AIDS continuou a abalar os membros da comunidade. Tocando assuntos de transfobia, racismo, elitismo, preconceito, ativismo e morte, o enredo mantém seu foco em trabalhar a dura realidade de seus personagens. Ponto especial também para a participação de Patti LuPone, que interpreta a vilã Frederica Norman.

O grande malfeitor de Pose, entretanto, são as consequências da vida. Nesta fase, vemos o árduo amadurecimento de Blanca (MJ Rodriguez), Angel (Indya Moore), Elektra (Dominique Jackson), Papi (Angel Bismark Curiel), Pray Tell (Billy Porter) e Damon (Ryan Jamaal Swain) em histórias de derrotas e vitórias, tristezas e felicidades, conflitos e amizades, humilhações e glórias. Os momentos dramáticos ou cômicos vêm na medida certa, na hora certa, fazendo com que a temporada seja devidamente equilibrada. A energia e carisma dos atores, e de um enredo brilhantemente escrito, transformam a história desses personagens em um aceno à resistência, provando que a perseverança e a comunhão do amor são mais fortes que qualquer obstáculo.

Quatro Casamentos e Um Funeral (Primeira Temporada), Hulu

Por Débora

Um bom romance é indispensável para sobreviver à vida. Em 2019, após assistir originais Netflix um atrás do outro em busca da romcom perfeita e falhar, foi na forma de uma produção do Hulu, com Mindy Kaling a sua frente, que encontrei a história que suprisse meu lado apaixonada. Livremente adaptada do filme homônimo e clássico, a minissérie Quatro Casamentos e Um Funeral tem pouco a ver com a produção que lhe dá nome, o que não quer dizer que seja menos icônica. Em 10 episódios acompanhamos a trajetória de um grupo de amigos formado por Maya (Nathalie Emmanuel), Ainsley (Rebecca Rittenhouse), Duffy (John Reynolds), Craig (Brandon Mychal Smith), Zara (Sophia La Porta) e Gemma (Zoe Boyle). O pivô principal da história é a paixão proibida que surge entre Maya e o noivo de Ainsley, Kash (Nikesh Patel) .

Com diversas referências a romances icônicos, Quatro Casamentos e Um Funeral nos entrega uma história recheada de encontros e desencontros e uma montanha russa de sentimentos amarrados por uma escrita inteligente, que sabe muito bem misturar diversos clichês sem se tornar cansativa, com atuações envolventes e cheias de química. Sentimos as emoções e percalços de cada um dos personagens, sofremos e rimos com eles e, como telespectadores, torcemos pela felicidade de cada um dos casais. Apesar de amar o romance, o destaque vai para o episódio do funeral, que arranca lágrimas do início ao fim. Para 2020, só posso desejar que o interesse das produtoras por fazerem mais romcoms cresça mais ainda, e que sejamos agraciados com mais histórias iguais a produzida por Mindy Kaling e menos como as dos originais Netlix.

Para saber mais: Quatro Casamentos e um Funeral: um ode às comédias românticas

Queer Eye (Terceira e Quarta Temporadas), Netflix

Por Karina

2019 foi um ano difícil, mas com ele vieram três temporadas novas de Queer Eye e esse foi o afago na alma que precisávamos. Na terceira e na quarta temporada da série, Antoni, Bobby, Jonathan, Karamo e Tan saem da Georgia, estado em que as duas primeiras temporadas foram gravadas, para transformar novos participantes no Kansas e Missouri. A forma como os episódios fluem é fantástica tanto porque os cinco já se conhecem melhor e desenvolveram uma relação mais próxima, quanto porque nós, que estamos assistindo, também já os conhecemos e amamos muito mais. O reality continua sensível e emocionante, abordando temas como autoestima, identidade, vulnerabilidade e autocuidado. Tivemos novos episódios marcantes como o das irmãs Deborah e Mary, que trabalham sem parar; o de Jess, que foi expulsa de casa quando os pais souberam sobre sua sexualidade; e o de Rob, um pai que tenta seguir a vida depois da morte da esposa.

Neste ano falou-se muito sobre Jonathan Van Ness: aprendemos sobre sua identificação como não-binário, seu diagnóstico de HIV e os abusos que sofreu na infância. E a quarta temporada de Queer Eye seguiu a pauta em dois episódios em que podemos conhecer um dos nossos fabulosos favoritos ainda melhor. O primeiro é o episódio em que a heroína da vez é Kathi, uma professora que já teve Jonathan em suas aulas. O episódio é gravado na cidade natal de JVN e temos muitas cenas no seu antigo colégio, assim como muitos comentários que relembram aquela época. O segundo episódio que nos faz conhecer melhor JVN é o que foca em John, um pai divorciado que foi nomeado por sua filha de dez anos, Lucy. Lucy pratica patinação artística, esporte que é uma grande paixão de Jonathan, e que serve como um gancho para que uma de suas ídolas, a campeã olímpica Michelle Kwan, faça uma participação no episódio. É ótimo poder não só se emocionar com os heróis e heroínas participantes, mas também conhecer melhor a história dos próprios Fabulosos. Enfim. Mal dá para acreditar que houve uma época em que esse quinteto não fazia parte das nossas vidas.

Para saber mais: Queer Eye: derrubando a masculinidade tóxica, um corte de cabelo por vez

Queer Eye: We’re in Japan!, Netflix

Por Yuu

Eu acreditava que reality shows não eram do meu gosto até assistir Queer Eye. Inspirado no programa britânico quase homônimo, Queer Eye for the Straight Guy, de 2003, a versão americana traz cinco especialistas nas áreas de beleza e cuidados, cultura, design, gastronomia e moda – Jonathan Van Ness, Karamo Brown, Bobby Beck, Antoni Porowski e Tan France, respectivamente – para transformar a vida de pessoas que, por algum motivo, se deixaram levar pela rotina e não conseguiram motivação o suficiente para dar uma guinada na vida por si próprias. Mas enquanto as quatro temporadas que compõem a série até agora foram focadas em pessoas em solo estadunidense (vide parágrafo anterior), o especial lançado em novembro viaja muitos quilômetros até o Japão, onde seleciona quatro cidadãos japoneses de diferentes faixas etárias para receber a mágica dos cinco fabulosos. E, de quebra, transmitir um olhar interno de uma cultura riquíssima, admirada por muitos ao redor do mundo, mas que ainda carrega um pouco de misticismo em relação a costumes e aos sentimentos dos japoneses, com a ajuda da celebridade nipo-americana Kiko Mizuhara.

Nos quatro episódios da temporada, Queer Eye: We’re in Japan! conta as histórias de Yoko, uma enfermeira de meia idade que desistiu de qualquer vaidade que poderia ter em prol de cuidar de enfermos no estágio final da vida de uma forma acolhedora, em memória da irmã falecida; Kan, um jovem gay muito adorável (e fã de Beyoncé!) com dificuldades de ser autêntico dentro do próprio país natal devido ao preconceito ainda muito forte na sociedade japonesa; Kae, uma ilustradora com questões de autoestima que afetam campos importantes da sua vida e a maneira como ela se expressa; e, por fim, Makoto, um homem estagnado em seu casamento com muito receio de falar sobre o que sente. De uma maneira emocionante, o especial consegue penetrar com delicadeza e respeito as barreiras culturais do Japão, trazendo à luz dos olhos do mundo inteiro temas que precisam ser debatidos a fim de tornar até mesmo as sociedades mais conservadoras e retraídas em um espaço mais acolhedor para as pessoas serem vulneráveis e falarem sobre o que as torna humanas, especialmente de um povo que, há muitos séculos, valoriza os sentimentos em sua forma pura, como o amor, a honra e o dever.

RuPaul’s Drag Race (Décima Primeira Temporada), VH1

Por Isabela Reis

Depois de uma década, o show de RuPaul Charles ainda se mostra forte o suficiente para entregar uma temporada agitada e cheia de grandes personalidades. O que faz com que RuPaul’s Drag Race seja tão especial é seu elenco de drag queens, e a décima primeira temporada trouxe um grupo e tanto para 2019. Brooke Lynn HytesVanessa Vanjie Mateo que teve sua segunda chance depois de viralizar nas redes sociais quando foi eliminada no primeiro episódio da temporada anterior , Yvie OddlyNina West e Silky Nutmeg Ganache foram alguns dos destaques.

Com lipsyncs que entraram para a história do programa, um romance que roubou os holofotes e brigas que fizeram com que o Untucked produção à parte de Drag Race, que mostra os bastidores da competição parecesse dos anos mais antigos, esta foi uma das temporadas mais divertidas e estimulantes dos últimos tempos.

Schitt’s Creek (Quinta Temporada), CBC Televison

Por Tati Alves

Schitt’s Creek conta a história da família Rose, donos de um império de locadoras. Após um golpe, a família Rose se vê sem nada e precisam se mudar para Schitt’s Creek, uma pequena cidade no meio nada que John Rose (Eugene Levy) comprou para o seu filho David Rose (Dan Levy) de pegadinha de aniversário. Ao longo da série, a família Rose precisa aprender a viver na simplicidade e retomar o controle de suas vidas. A quinta temporada, porém, tem um lugar especial nos Melhores do Ano, porque ele mostra os Roses com um certo controle das narrativas de suas vidas. Descobertas foram feitas e crescimentos aconteceram no tempo em que a família teve que deixar a vida luxuosa e partiu para o anonimato e agora um novo momento começa para John, Moira (Catherine O’Hara), David e Alexis (Anne Murphy) que nos encaminha para os momentos finais da série em 2020. O ponto alto dessa temporada talvez seja o desenvolvimento da personagem Stevie Budd (Emily Hampshire), dona do motel em que a família Rose se hospeda na cidade, que começa a série apenas sobrevivendo em Schitt’s Creek sem muito objetivo de vida e termina a quinta temporada com uma apresentação de tirar o fôlego de “Maybe This Time”, do musical Cabaret, para a peça do teatro comunitário de Schitt’s Creek.

Schitt’s Creek é um oásis de diversidade e aceitação em um mundo em que não conseguimos ter muito tempo felizes. O seriado canadense não recebeu muita atenção no Brasil em seus quase cinco anos de existência, porém a sua quinta temporada lhe proporcionou em quatro nomeações no Primetime Emmy Awards esse ano, incluindo melhor seriado de comédia — além de outras 37 nomeações em 15 premiações apenas nesse ano. Em janeiro estreia a sexta e última temporada do seriado.

Sex Education, Netflix

Por Natália Dias

Convenhamos, alguns assuntos, por mais antigos que sejam, estão longe de serem fáceis de abordar. Sexo é definitivamente um desses, especialmente no contexto de uma série teen. Afinal, qual tom usar para tratar de um tema responsável por trazer tantas preocupações, inseguranças ou até mesmo vergonha para a vida de muitos adolescentes? Acredito que não exista receita perfeita para isso, mas Sex Education parece ter encontrado um tom cativante e encantador.

Na série acompanhamos a história de Otis Milburn (Asa Butterfield), filho da terapeuta sexual Jean (Gillian Anderson), que é envolvido na organização de uma clínica amadora na qual ele oferece conselhos para questões envolvendo a vida sexual dos colegas de escola. Tal resumo é o melhor que consigo oferecer em poucas linhas, mas não faz jus aos outros personagens maravilhosos que a série nos apresenta em sua 1° temporada. É um programa para rir, se emocionar e acima de tudo se sentir acolhido na singularidade daqueles que dão forma para essa história.

Para saber mais: Sex Education: um retrato da adolescência

Stranger Things (Terceira Temporada), Netflix 

Por Mia

Apesar de não estar em sua melhor forma, Stranger Things é boa mesmo sendo básica. O combo anos 80 + um toque de Stephen King sempre chama a atenção, e não foi diferente nessa temporada. Entretanto, enquanto em outros anos o trunfo narrativo foi o desenrolar misterioso dos acontecimentos, o grande ponto alto da terceira temporada é a dinâmica das personagens femininas.

Elas salvaram a temporada mais fraca de Stranger Things. Max (Sadie Sink), Eleven (Millie Bobby Brown), Robin (Maya Hawke) e Erica (Priah Ferguson) foram representadas para além do interesse amoroso do herói, coisa que infelizmente ainda vemos em narrativas de ficção científica, tanto nas clássicas quanto em algumas modernas. As quatro, embora envolvidas emocionalmente com alguém, de uma forma ou de outra, são as personagens mais inteligentes, desenvoltas e capazes da série. É interessante ver isso já que, tanto no Sci-Fi comum quanto nas temporadas anteriores de Stranger Things, não víamos muita representatividade feminina de qualidade na tela. Mas o mundo não será salvo apenas por garotos – ou, melhor, Hawkins, salva das mãos dos russos (um plot clichê e forçado, mas que se encaixa bem com a temática da época). Para além da amizade entre Max e Eleven (meninas no shopping tomando sorvete, dando uma pausa na árdua tarefa de Salvar o Mundo), foi realmente um progresso que tenham colocado uma personagem LGBT – e que não foi tratada de forma diferente por isso. É bem verdade que apenas uma personagem LGBT é pouco, mas já valeu a temporada inteira. Quero ver mais de Robin na próxima!

Stumptown (Primeira Temporada), ABC

Por Carol Alves

Para os aficionados por TV, a fall season norte-americana com certeza é uma das melhores épocas do ano, onde várias produções novas chegam para você escolher qual a sua próxima obsessão. E se você é como eu, com certeza faz suas listinhas, pesquisa quem dirige, produz e estrela cada série e espera que pelo menos alguma delas seja boa o suficiente para conseguir acompanhar. E esse ano eu tive sorte. No meio de uma guerra de streamings gigantes e muitas outras, o seriado que mais se destacou para mim foi Stumptown, estrelada por uma Cobie Smulders pós Maria Hill (dos filmes da Marvel) e Robin Scherbatsky (How I Met Your Mother), uma obra feita pela emissora ABC, da tv aberta ou broadcasting TV, como preferir. Na história, baseada livremente nos quadrinhos homônimos de Greg Rucka e Matthew Southwort, Smulders vive Drex Parios, uma detetive particular que fez parte do exército mas agora precisa trabalhar para cuidar do seu irmão Ansel (Cole Sibus), que tem síndrome de down. Para isso, ela conta com a ajuda de Grey (Jake Johnson), um ex-convicto que tem sentimentos mal resolvidos pela protagonista.

A razão pelo qual essa série funciona tão bem, é simples: a química dos personagens é sensacional desde o começo, e a força de Dex (uma mulher bissexual) é uma mistura de independência, vulnerabilidade e lealdade, algo que é incrível na personagem. A trilha sonora é maravilhosa, e Stumptown reforça algo que eu achei que estava se perdendo no mundo da TV. Com todas essas séries de prestígio e na procura pelo “próximo Game of Thrones”, as pessoas esqueceram de aproveitar produções que contam histórias mais contidas, que dão prioridades aos seus personagens e tem o poder de te fazer ficar apaixonada pelos mesmos por causa de pequenos momentos nos episódios, que levantam questões morais, de sentimentos irresolvidos e a necessidade do ser humano de melhorar. Stumptown ainda está só no começo, e se ela vai chegar a ter segunda temporada ainda é um mistério. Mas é uma série com muito potencial.

The Crown (Terceira Temporada), Netflix

Por Thay

A aguardada terceira temporada de The Crown, aclamada série da Netflix, demorou a chegar ao serviço de streaming e, quando finalmente estreou, deixou uma sensação estranha em seus fãs. A mudança de elenco já havia sido anunciada há meses e nos preparamos psicologicamente para dar adeus à Claire Foy, Matt Smith e Vanessa Kirby, mas não deixou de ser agridoce ver novos rostos — e interpretações — para os personagens que conhecemos tão bem. Olivia Colman, Tobias Menzies e Helena Bonham Carter fazem bons trabalhos encarnando versões mais velhas da Rainha Elizabeth, do Príncipe Philip e da Princesa Margareth, mas o roteiro não é desenvolvido com tantas conexões entre os episódios como vimos nas duas primeiras temporadas.

De qualquer maneira, acompanhar The Crown enche os olhos. A produção da Netflix continua belíssima, com cenários e locações de tirar o fôlego, e a narrativa nos faz ter empatia com personagens que, à rigor, não precisam da nossa simpatia. A série permanece como uma das melhores já criadas pelo serviço de streaming e prossegue na história romanceada dos Windsor de maneira exemplar.

Para saber mais: Crítica: The Crown e a solitária Rainha Elizabeth; Crítica: The Crown, família em primeiro lugar

The Good Doctor, ABC

Por Natália Dias

Confesso: não sou grande fã de dramas médicos. Resolvi dar uma chance para The Good Doctor porque fui cativada pela atuação impecável de Freddie Highmore em Bates Motel e para conferir como seria adaptada essa série que é baseada num K-Drama. Já se passaram três temporadas e eu não me sinto nenhum pouco arrependida pela escolha. The Good Doctor conta a história de Shaun Murphy (Freddie Highmore), um residente de medicina que possui Autismo e Síndrome de Savant. Porém, vale destacar que o maior acerto da série é entender desde o princípio que não há como representar num personagem todas as nuances que o Autismo possui. Ao invés disso, a série se concentra em mostrar Shaun como um indivíduo com características próprias relacionadas ao seu passado, sua formação, seus interesses, ou seja, a série vai além da concepção de um personagem autista cujo as únicas características exploradas na obra são resultantes do próprio autismo.

Com boas histórias, um elenco equilibrado e um protagonista impossível de não se apegar, The Good Doctor se tornou a série de maior audiência no mundo balanceando drama com a estrutura típica das séries médicas. A terceira temporada consegue manter o ritmo imposto pelas anteriores e trazer novidades temáticas com desafios ainda maiores para Shaun. Destaque para a atuação de Freddie Highmore que parece se aprimorar cada vez mais no personagem e nos deixar perguntando: cadê o Emmy que esse ator merece há anos?

The Good Place (Quarta Temporada), Netflix

Por Mia

Se The Good Place alguma vez errou, não lembro. A série, politicamente correta e divertidíssima, entrou na sua quarta e última temporada neste ano, após nos apresentar ao universo injusto do Grande Além. É triste pensar que não veremos mais Eleanor (Kristen Bell), Chidi (William Jackson Harper), Tahani (Jameela Jamil) e Jason (Manny Jacinto) juntos na tela mas, ao mesmo tempo, é gratificante ver quando uma série possui tempo para conduzir seu roteiro de forma coerente, ainda que tenha pouca duração. Na onda de cancelamentos prematuros na TV, ver um show que nos entrega comédia de qualidade e não-ofensiva sendo enaltecido e tendo tempo para ser finalizado de forma correta é um alívio.

Em cada temporada, há uma grande questão norteadora. Eles já lidaram com a não-existência de consumo ético sob o capitalismo e com outras grandes questões filosóficas mas, agora, é o momento de pôr à prova tudo que aprenderam nas lições de Filosofia de Chidi e descobrir que o que importa não é se as pessoas são boas ou más, mas se elas estão tentando melhorar. Após provarem que o sistema de pontuação do Grande Além é extremamente falho, a ponto de estar condenando todos os humanos, há séculos, ao inferno, os nossos anti-heróis conseguem a possibilidade de mudar as coisas com um novo experimento: nele, a grande questão é se os humanos, de fato, conseguem melhorar, mesmo após a morte. É uma pergunta arriscada, com uma aposta mais ainda, porém pode ser o único jeito de salvar a humanidade da danação eterna. Ainda não chegamos ao grande finale, mas confio totalmente nesse roteiro, que nunca me decepcionou.

Para saber mais: The Good Place: não precisamos de demônios para fazer um inferno; O humor possível: The Good Place;

The Mandalorian (Primeira Temporada), Disney+

Por Débora

2019 foi um ano pesado e, em sua maioria, cheio de coisas não muito agradáveis. Mesmo nos momentos de maior esperança (esta que vos fala acreditou, mesmo que por alguns segundos, que a estatueta de Melhor Filme no Oscar seria de Pantera Negra), o clima de agouro do ano não chegou a se dissipar. Isso até o dia 12 de novembro, aos 45 minutos do segundo tempo, com o lançamento do novíssimo serviço de streaming da casa do Mickey Mouse, o Disney+. Foi quando veio ao mundo um serzinho que o fandom de Star Wars decidiu chamar de Baby Yoda e que salvou o ano. Se você passou cinco segundos no último mês na internet sabe muito bem do que estou falando. O personagem é uma das peças chaves da nova série The Mandalorian, ambientada no universo de George Lucas e que se passa cinco anos após a queda do Império. Mando (interpretado por Pedro Pascal) é um caçador de recompensas que vive de acordo com o código mandaloriano, ou seja, usa um capacete que representa suas escolhas na vida e retirá-lo significa cair em desonra. Em uma de suas missões, ele encontra Baby Yoda, chamado assim por fazer parte da mesma espécie que o Mestre Yoda, mas sobre quem ainda se sabe muito pouco.

Porém, se engana quem acha que o personagem misterioso e capaz de matar qualquer um de tanta fofura seja o único motivo do sucesso da nova série da Disney+. Para alegria dos fãs de Star Wars, The Mandalorian é uma dose semanal do que há de melhor nos filmes da franquia. Roteiro, fotografia, direção, atuação e a construção de mundos e relações interpessoais estão impecáveis e de tirar o fôlego, deixando um gostinho melhor na boca dos fãs a cada semana que se passa. Outro ponto em que The Mandalorian acerta é finalmente consertar algumas negligências cometidas nos mais de 40 anos de Star Wars: Graças a série Deborah Chow foi a primeira mulher a dirigir uma produção live-action da franquia. E ela logo ganhou companhia nesse novo ranking, visto que alguns episódios depois foi a vez de Bryce Dallas Howard fazer história dirigindo um episódio. As boas escolhas não param por aí. No quinto capítulo, Mando negocia passagem por um território em Tatooine pertencente aos Tusken Raiders. A conversa na cena ocorre por meio de linguagem de sinais que, segundo o site Star Wars Autograph News, é o primeiro registro no canon da franquia da utilização de tal linguagem. Além disso, um dos atores a interpretar os Tusken, Troy Kotsur, é surdo. São detalhes que fazem toda diferença.

Mesmo com poucos episódios exibidos, The Mandalorian se consolida como um dos melhores lançamentos do ano e um facho de esperança para os fãs de Star Wars, que ficam órfãos da franquia no cinema, mas que tem a chance de ver um pedacinho a mais deste grande universo em uma história tão cheia de sensibilidade e cuidadosamente contada.

Para saber mais: De Uma Nova Esperança aos Últimos Jedi: a representação feminina em Star Wars; De Rey a Leia Organa: as mulheres de Star Wars Os Últimos Jedi; Rogue One: Uma História de Star Wars; Star Wars Day: uma homenagem às mulheres da trama;

Trinkets (Primeira Temporada), Netflix

Por Tati Alves

Baseado no livro de mesmo nome de Kirsten “Kiwi” Smith (10 Coisas que Eu Odeio em Você, Ela é o Cara), Trinkets conta a história de três adolescentes que se conhece no Furtadores Anônimos, encontro de pessoas com tendências cleptomaníacas. Elodie (Brianna Hildebrand) é a novata, que acaba de se mudar para Portland após a morte de sua mãe e não sabe como se encaixar em sua nova vida; Moe (Kiana Madeira) é a que tem reputação rebelde na escola, mas não é próxima de ninguém de verdade; e Tabitha (Quintessa Swindell) é a menina rica e popular do colégio, que todo mundo acha que conhece.

As três garotas formam uma amizade em um contexto perigoso, porém encontram ali uma irmandade que nunca haviam formado antes. Juntas, Elodie, Tabitha e Moe percebem que não são o que as pessoas acham que elas são, mas que também podem usar suas reputações para se livrarem do que quiserem e encontrar suas verdadeiras identidades. Com episódios de menos de 30 minutos e com a parte final chegando na Netflix em 2020, a narrativa despretensiosa de Trinkets prende o telespectador nas diferentes personalidades das protagonistas e em tudo aquilo que as une.

The Twilight Zone (Primeira Temporada), Amazon Prime Video

Por Jéssica Bandeira

Minha dinda foi a grande responsável por parte dos gostos que me acompanham nesta vida. Um deles é The Twilight Zone, a icônica série criada por Rod Serling nos anos 1960. Jordan Peele foi o responsável por trazer o universo da zona do crepúsculo de volta à televisão. Mas o que o além da imaginação, o limiar entre realidade e ficção, teria nos dizer em 2019? Muita coisa.

Em 2019, The Twilight Zone ressignificou os medos da nossa era por meio de seus episódios. Há espaço para, por exemplo, falar sobre racismo em um episódio onde uma mãe e um filho revivem a mesma situação diversas vezes, porém com pequenas variações. Também há espaço para discutir o machismo estrutural. Algumas pessoas argumentaram que The Twilight Zone estava ficando militante demais. Errado. A série sempre foi militante. Rod Serling falava muito sobre o medo do Outro, personificado através de situações onde as pessoas mostravam seu verdadeiro caráter. O reboot é um presente para os fãs da série de Serling. Senti um quentinho ao ver Jordan Peele apresentando os episódios, exatamente como Rod fazia. O diretor de Corra! e Nós adicionou seu toque único à série.

The Umbrella Academy, Netflix

Por Mia

Eu não estava preparada para The Umbrella Academy. Em meio a tantas séries que a Netflix lança anualmente, algumas passam despercebidas, mas esse não foi o caso da história criada originalmente no formato HQ por Gerard Way e Gabriel Bá. A série está no top 5 melhores do ano, certamente, e não é pra menos: com um enredo sensível e instigante, ficamos conhecendo uma família excêntrica cujo destino está ligado ao do planeta Terra.

A história começa em 1989, quando 43 crianças nasceram misteriosamente de mães que, ao início daquele dia, não estavam grávidas. Convencido de que isso só poderia significar que essas crianças estavam destinadas à grandeza, o milionário Sir Reginald Hargreeves (Colm Feore) adota sete delas. A partir daí, temos vislumbres tristes e geniais da infância daqueles irmãos, criados para serem super-heróis, não sendo permitidos desfrutar da alegria de uma infância normal. Como a mansão Hargreeves era mais uma escola do que um lar, os irmãos crescem sem grandes laços emocionais com o pai e uns com os outros. Isso, obviamente, só poderia resultar num plot de uma família destruída, com membros emocionalmente quebrados. Anos depois, após a morte do pai, os irmãos reúnem-se pela primeira vez em muito tempo e o retorno de um dos irmãos, desaparecido há 17 anos, traz sentimentos à tona e dá aos membros da Umbrella Academy um sólido motivo para se unirem: eles precisam impedir o apocalipse. Parece um pouco clichê e dramático, mas a solução encontrada para mostrar os motivos por trás do fim do mundo é sensacional. Contudo, para além da trama de heróis, o ponto alto são as relações interpessoais entre as personagens, com destaque para Vanya (Ellen Page), a irmã sem superpoderes que descobre ser a peça-chave para tudo.

Unbelievable, Netflix

Por Thay

Unbelievable não é uma série fácil. Assistir aos oito episódios me fez mergulhar em uma série de pensamentos chocados e choro doído, é simplesmente horrível ver o quanto de violência uma mulher pode receber apenas por ser mulher. Inspirada em uma história real e com base em uma reportagem investigativa vencedora do prêmio Pulitzer em 2016, a minissérie de Susannah Grant é capaz de mostrar os casos cruéis de estupro sem fetichizar suas vítimas em momento algum — o que também aponta a diferença visível na maneira como uma mulher conta uma história que envolve estupro e como um homem a conta.

Estrelada por Kaitlyn Dever, Merritt Wever e Toni Collette, Unbelievable é uma daquelas séries doloridas e necessárias. Dolorida pois não nos poupa do que é real e necessária exatamente pelo mesmo motivo. A minissérie da Netflix é impecável e, muito mais do que reconstruir os eventos traumáticos pelos quais suas personagens passaram, se preocupa em humanizar e reconstruir as vidas dessas mulheres sem nunca dar espaço ao estuprador serial que marcou para sempre cada uma delas. A ideia de Susannah Grant nunca foi fazer da minissérie um produto sobre o agressor e que seu desejo era o de contar a história dessas três mulheres, Marie, Grace e Karen.

Para saber mais: Unbelievable: a inacreditável história de um estupro

Vida (Segunda temporada), Starz

Por Luisa Pinheiro

Ainda pouco conhecida no Brasil por ser de um canal de assinatura estadunidense, Vida é o tipo de série para fãs de One Day at a Time e The L World interessados em mais tramas sobre a interseção do mundo queer e do mundo latino. Após a apresentação das protagonistas, Emma (Mishel Prada) e Lyn (Melissa Barrera), duas irmãs de origem mexicana que voltam a morar no bairro latino onde foram criadas, a segunda temporada avança na trama de renovação do bar que elas herdaram da família. Um bar que representa um espaço seguro importante para a comunidade LGBTQ+ de Boyle Heights, nos arredores de Los Angeles. Emma, a irmã mais velha, tenta recriar os laços com o bairro da infância depois de ter sido forçada a morar com parentes distantes por ter se envolvido com uma mulher na adolescência. Lyn, a caçula, está numa jornada de descobrir quem ela realmente é enquanto uma pessoa independente, não em relação aos homens com quem ela se relaciona.

Os dez episódios da segunda temporada têm mais drama familiar, mais debates sobre gentrificação e mais boas cenas de representação de culturas latinas nos Estados Unidos. A trilha sonora e a forma com que as cenas de sexo servem para desenvolver os personagens continuam pontos fortes da série. Isso sem contar a reviravolta final que vai render uma boa terceira temporada e, claro, o casal de mulheres para shippar, algo ainda raro na televisão.

Para saber mais: Vida – Conquistando espaço para narrativas latinx na TV

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