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Vida: conquistando espaço para narrativas latinx na TV

Ter uma equipe de roteiristas exclusivamente latinx é algo sempre destacado ao se falar de Vida, série criada por Tanya Saracho para o canal de assinatura Starz. Latinx é uma palavra neutra para designar pessoas de origem hispânica nos Estados Unidos, com uma neutralidade que rejeita principalmente o dualismo de gênero entre o masculino e o feminino. O uso desse termo também tenta quebrar os estereótipos clássicos sobre ser latino (membro de uma gangue ou talvez um homem sedutor) e latina (a irmã ou namorada do membro de gangue ou a empregada doméstica). Criar um novo rótulo é uma chance de ressignificar a representação de personagens latinx, abrindo espaço para pessoas trans, não-binárias e assexuais, por exemplo. E esse é um dos propósitos de Vida, uma história que começa com a reaproximação de duas irmãs de família mexicana após a morte inesperada da mãe delas.

De volta a Boyle Heights, o bairro onde cresceram no leste de Los Angeles, Emma (Mishel Prada) e Lyn Hernandez (Melissa Barrera) precisam lidar com as questões práticas do funeral e da herança enquanto tentam entender por que a mãe não tinha sequer contado que estava doente. Logo nas primeiras cenas, fica claro que as três tinham uma relação distante há bastante tempo e, por isso, esse reencontro de família parece tão estranho. Emma é a irmã mais velha que assume todas as responsabilidades práticas, uma mulher séria e focada na carreira profissional. Lyn, à primeira vista, tem o apelo visual de ser ostensivamente sexy e de ter um estilo boho, mas ainda é a caçula sem muito rumo na vida. Já Vidalia (Rose Portillo), a mãe morta, pouco aparece em cena. O que aparece são os seus segredos e silêncios. Desde quando, por exemplo, ela divide apartamento com Eddy (Ser Anzoategui)?

A série foi desenvolvida a partir da demanda do próprio canal por uma história sobre mulheres millenials, por uma narrativa que envolvesse também chipsters (chicanas/mexicanas hipsters) e gentefication (trocadilho com a palavra gentrification, em inglês, para falar de mudanças na dinâmica social de bairros latinos, impulsionadas pelo retorno de pessoas de classes mais altas que já tinham alguma relação com o lugar). Em Vida, as irmãs Hernandez recebem de herança o bar La Chinita, e o medo dos vizinhos é que elas transformem o local em mais um negócio voltado para um público hipster que adoraria descobrir o ~exotismo~ de Boyle Heights. E é por isso que tem tanta relevância para a série a trama dos ativistas locais contra os agentes de gentrificação. Marisol (Chelsea Rendon), que tem um vlog para criticar as mudanças do bairro, é a personagem que mais se destaca desse núcleo. Logo no primeira aparição em tela, Mari discute com Emma e Lyn sobre a possível venda do bar herdado, acusando-as de whitetinas (latinas brancas), mais pelo comportamento que pela aparência.

Todas essas explicações sobre vocabulário podem dar a impressão de que a série é voltada apenas para o nicho latinx ou de que ela é difícil de acompanhar. E, de fato, a linguagem usada pelos personagens causa um estranhamento inicial. É um spanglish, ou espanglês, bem diferente do que já ouvimos por aí, como naquele filme de Sessão da Tarde com Paz Vega. Logo no piloto, durante uma conversa entre as protagonistas, descobrimos que Emma só sabe falar espanhol porque estudou por conta própria. Lyn, ainda impressionada com a fluência da irmã, só conhece as palavras e expressões latinas que insere entre frases em inglês. Como uma mensagem política, essas falas em espanhol não são legendadas, o que não atrapalha a compreensão geral do telespectador, já que isso nem chega a acontecer em um diálogo inteiro.

Mas o que os críticos latinos têm a dizer sobre a representação mexicano-americana na série? Em um compilado de comentários da equipe do Remezcla, um site alternativo sobre cultura latina nos Estados Unidos, a maioria das opiniões é positiva, apesar do apelo irônico para que alguém ensine Mishel Prada, intérprete de Emma, a comer tacos. As memórias da cantora Selena, os flans, os chilaquiles, o espanglês, tudo parece orgânico; a expansão de um universo em que estampas florais e grafite de protesto abundam. Isso se parece menos como uma tentativa de ser autêntico e mais como a autenticidade tornada visível”, escreveu Manuel Betancourt. Com as referências aparentemente certas, Vida mostra como é realmente importante ter roteiristas e diretores que entendam o contexto de seus personagens. E, para o público, essa é uma oportunidade para finalmente aprender mais sobre uma cultura que quase sempre é retratada de forma artificial e como se a América Latina fosse uma região totalmente homogênea.

Ainda que tenha uma repercussão menor, a série se junta ao time de produções progressistas com personagens latinas (ou latinx), como Jane the Virgin e One Day at a Time. A desvantagem é que o canal de assinatura Starz, que tem apenas Outlander como destaque no catálogo, é pouco conhecido no Brasil e tem um público restrito também nos Estados Unidos. Em entrevista para a Variety, Gloria Calderon Kellet, produtora-executiva de One Day at a Time, e Tanya Saracho, criadora de Vida, enfatizam que essas séries não são feitas exclusivamente para o público latino. A mensagem da conversa entre elas é que a diversidade de personagens latinx precisa chegar na TV aberta para influenciar um público maior e, principalmente, para que pessoas de todas as origens possam se identificar com histórias universais apesar das camadas de sotaque mexicano, cubano ou qualquer outro.

Atención: spoilers de la primera temporada!

Depois de toda essa conversa (ainda necessária) sobre representatividade, é hora de falar sobre o enredo de Vida. A morte inesperada da mãe das protagonistas serve como o estopim para a história, mas o drama só começa quando, no funeral, as irmãs descobrem que Eddie, a roommate, obviamente era casada com Vidalia. Se Lyn já fica machucada por ter sido excluída de algo tão importante sobre a mãe, Emma enfrenta uma situação ainda pior. Afinal, ela é lésbica e teve que sair de casa duas vezes porque não era aceita por Vidalia. Primeiro como uma tentativa de que Emma parasse de se interessar por mulheres no começo da adolescência e depois para que ela seguisse a vida longe de Boyle Heights, longe das fofocas dos vizinhos. Por isso é tão doloroso para ela descobrir sobre o casamento da mãe. E que, além disso, o La Chinita, bar que é da família há algumas gerações e onde ela tem tantas memórias de infância, hoje é o único lugar seguro para as pessoas LGBT+ frequentarem livremente no bairro. Nos outros locais, elas são no máximo toleradas. Emma sofre porque, se Vidalia ainda estivesse viva, aquele nunca seria um ambiente seguro para ela. Por que a mãe nunca contou que tinha se casado com uma mulher? E por que, depois disso, nunca tentou uma reconciliação com a filha mais velha?

Em busca dessas respostas, Emma prolonga sua estadia em Los Angeles. A ideia inicial era participar das cerimônias funerárias, resolver o inventário rapidamente e voltar para Chicago depois de vender o imóvel do bar, onde também fica a casa da família e alguns apartamentos alugados para inquilinos. Esses planos são atrapalhados pelo fato de que Vidalia deixou dívidas tão altas que o valor de venda do prédio nunca seria capaz de quitar. Mesmo depois de pagar com o próprio dinheiro os empréstimos devidos, Emma não consegue se decidir o que fazer com o imóvel em meio a brigas com Eddie, que não concorda com a venda, e ao desinteresse de Lyn, que espera que tudo se resolva magicamente. A primeira impressão sobre essa incerteza de Emma é que ela foi ao menos um pouco influenciada pelo debate contra a gentrificação do bairro, mas depois fica claro que os motivos são puramente emocionais. Finalmente, ela está livre para retornar às suas origens, ainda que uma reconciliação com a mãe já não seja possível (ou talvez justamente por isso). Livre para contar que é lésbica para a irmã e livre para voltar a se envolver com Cruz (Maria Elena Laas), por quem se apaixonou na adolescência.

Enquanto isso, Lyn foge de todas as responsabilidades relacionadas à herança, vivendo a ilusão de que vai receber um bom dinheiro com a venda do imóvel da família. Em algumas cenas, ela até menciona o plano vago de criar uma linha de cremes inspirada na cultura azteca, mas a personagem transparece desde o começo não ter grandes propósitos para a própria vida. Esse vazio existencial fica mais evidente depois que ela é rejeitada pelo namorado e volta a se relacionar com Johnny (Carlos Miranda), já que os dois têm um caso amoroso marcado por idas e vindas desde o ensino médio. Na falta de algo melhor para fazer, ela se dedica a convencê-lo a largar Karla (Erika Soto), sua noiva em estágio avançado de gravidez.

Assim tão resumida, essa parece ser aquela trama batida da mulher vadia que destrói casamentos. Em Vida, o envolvimento com Johnny e os confrontos incômodos com Karla servem para que Lyn perceba que sempre viveu em função dos homens com quem se relacionava e, a partir disso, entenda que precisa escolher que tipo de vida ela quer pra si e parar de aceitar o que simplesmente aparece no caminho. A mudança da personagem também é impulsionada por uma limpia, ritual de purificação espiritual tradicional do México, feita para livrar Lyn de todas as porquerías. Como a cerimônia acontece no último episódio, a expectativa é que o desenvolvimento da personagem seja mais abordado na próxima temporada, com estreia confirmada para 2019. Vai ser interessante acompanhar amadurecimento de uma mulher que afinal se coloca como responsável por suas ações enquanto passa a enxergar as dificuldades de estar em certas relações heteroafetivas.

A partir dessa transformação, Lyn também começa a valorizar a sua família e dar apoio emocional para Emma de modo que as irmãs conseguem se reconectar para idealizar um objetivo em comum: reviver o negócio familiar, fortalecendo o caráter de ambiente seguro do bar para a comunidade LGBT+. Um propósito ainda mais urgente e necessário depois que Eddy sofre uma agressão homofóbica num outro bar e vai parar no hospital, inconsciente. O primeiro passo para a reestruturação do estabelecimento é mudar o nome de La Chinita — vinculado à representação de uma gueixa — para Vida, o apelido de Vidalia. Um maior protagonismo do bar, evidenciado no título da série, vai dar espaço para o desenvolvimento de personagens secundários cativantes como Mari, a ativista de internet; Cruz, o par romântico de Emma; e até mesmo Johnny, prestes a ter um filho com uma mulher que ele tanto magoou.

Já que a primeira temporada foi curta — com apenas seis episódios de meia hora cada —, a trama serviu basicamente como uma boa apresentação de Boyle Heights e das protagonistas: Emma, Lyn e Eddy. Voltar com um enredo mais dinâmico seria um bom caminho para a continuação dessa história, valorizando o formato de capítulos curtos. Depois de uma estreia promissora, o seriado de Tanya Saracho merece destaque pela retratação de personagens ainda invisibilizados e pelos ensinamentos sobre cultura latinx de uma forma divertida. Tanto que Vida já aparece em listas parciais de melhores do ano, como a do A.V. Club e a da Vulture.

Na cena final da temporada, Emma e Lyn estão se embebedando (provavelmente de mezcal) no terraço de casa e fazem novos planos para o bar durante toda uma madrugada. Esse momento é como uma promessa de que a série vai se aprofundar na relação entre as irmãs, que precisam aprender como voltar a ter um vínculo afetivo forte. Sem a mediação da mãe, mas com a presença da madrasta, Eddy. A televisão precisa de bons momentos de uma família conflituosa sem que seja necessário derramar as lágrimas típicas de This is Us. Bons momentos como aquele desfecho, mesmo que ele tenha sido levemente cursi com um amanhecer ao som de Latinoamérica, de Calle 13. No puedes comprar mi Vida.

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