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Jane the Virgin: a vida real de uma protagonista de telenovela

Quando Jane Gloriana Villanueva tinha 29 anos, ela finalmente publicou seu primeiro livro. Na noite de lançamento, na mesma livraria onde leu tantas obras de autores latino-americanos, Jane encontrou ninguém mais ninguém menos que a própria Isabel Allende, escritora chilena que apresentou a ela o mundo do realismo mágico. Esse é o tipo de coisa que acontece na vida da protagonista de Jane The Virgin, interpretada por Gina Rodriguez. Assim como engravidar ainda virgem por causa de um erro médico. Descobrir que o pai do bebê é o dono do hotel em que ela trabalha como garçonete. Ficar sabendo que o seu próprio pai não está morto e é um ator famoso de telenovelas. E, no momento em que ela mais precisava de um conselho sobre como seguir a vida após perder alguém importante, encontrar por acaso a autora de Paula, livro sobre a morte de uma filha e um dos preferidos da personagem. Mas isso já é assunto da quarta temporada da série.

Jane The Virgin, produzida por Jenne Snyder Urman (também responsável pelo reboot de Charmed), estreou em outubro de 2014 como uma releitura da novela Juana la Virgen, exibida na Venezuela em 2002. A adaptação seguiu o mesmo caminho da série Ugly Betty, baseada na produção colombiana Yo soy Betty, la Fea. Quatro temporadas depois, Jane continua recebendo críticas positivas desde o sucesso inicial, apesar de não ter números muito bons quando se trata de audiência. Vale lembrar que Gina Rodriguez ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Série de Comédia no Globo de Ouro de 2015 pelo papel da protagonista, um reconhecimento até então inédito para a CW, emissora que costuma ficar de fora do circuito de prestígio da TV americana. O último episódio da quarta temporada de Jane The Virgin foi exibido em abril, e o canal já confirmou que a quinta será a última da série, com estreia prevista para 2019.

Atenção: este texto contém spoilers!

A série começa com a história de uma mulher virgem de 23 anos que engravida após uma inseminação artificial feita nela por engano. Jane nasceu e mora em Miami, nos Estados Unidos, e é neta de imigrantes venezuelanos. Pouco depois de descobrir a gravidez, é pedida em casamento pelo então namorado Michael Cordero (Brett Dier). Mas é claro que o relacionamento deles vive uma crise quando entra em cena Rafael Solano (Justin Baldoni), pai do filho de Jane e o dono do hotel em que ela trabalha. Um homem que, inclusive, ela já tinha conhecido anos antes, quando eles tiveram conversas profundas sobre a vida e se beijaram (mas perderam contato depois).

“Parece até coisa de novela, né?”, é o que diz depois do resumo sobre os capítulos anteriores um dos personagens mais marcantes da série, o narrador misterioso que encarna um amante latino (em inglês, “the latin lover narrator”). Essa é apenas uma das referências às telenovelas. Por exemplo, Jane descobre no início da primeira temporada que o seu pai é Rogelio de La Vega (Jaime Camil), estrela de produções latinas como The Passion Of Santos. A partir da aproximação entre pai e filha, um dos núcleos da série passa a ser os bastidores da televisão. Vemos a gravação de episódios da novela fictícia, as cenas finalizadas, a vida de celebridade de Rogelio, as discussões entre roteiristas e atores. E, desde o piloto, Jane aparece no sofá de casa vendo novelas com a mãe e a avó, uma cenas parecida como as noites de boa parte das famílias brasileiras.

Jane The Virgin também aproveita as fórmulas clássicas do roteiro de novela: o triângulo amoroso, o irmão gêmeo secreto do mal (recurso usado duas vezes… até agora), plot twists, inúmeros assassinatos suspeitos, o chefão do crime que ninguém sabe quem é, dramas como a volta de um pai ausente e, claro, romances arrebatadores. A diferença é que, na série, os personagens enfrentam de alguma forma as consequências desses acontecimentos absurdos e têm reações humanas às reviravoltas da trama. Petra Solano (Yael Groblas), por exemplo, de maneira suspeita sempre esteve envolvida com as vítimas ou com os crimes que sempre acontecem no Hotel Marbella, mas na quarta temporada chega perto de se complicar de verdade com a polícia, muito por causa de seu histórico suspeito. E essa criminalidade recorrente também é usada como piada interna na própria narrativa do seriado, como um reconhecimento do enredo nada realista e um aceno aos fãs.

Outra vantagem é que, por terem essas reações verossímeis, os personagens fogem dos estereótipos mais óbvios. Como protagonista, Jane tem espaço para ser mais que uma virgem grávida, mais que uma virgem grávida latina. Ela é uma mulher que explora a própria sexualidade, num papel que questiona a relação entre virgindade e castidade, uma discussão pouco vista por aí. Ela é uma mulher que tem aspirações profissionais e o sonho de ser escritora enquanto luta para se sustentar. Uma mulher que tem uma família marcada pela descendência venezuelana e amigos… se bem que, nesse caso, ela poderia ter mais amizades além da que mantém com Lina (Diane Guerrero), atriz que aparece pouco na série provavelmente por fazer parte do elenco fixo de Orange is the New Black. E não dá para ignorar que Jane é uma mulher que acredita no grande amor de uma vida.

Como uma leitora apaixonada por romances, ela quer tanto viver quanto escrever as suas próprias histórias de amor e consegue publicar um livro na quarta temporada. Não é à toa que Jane é fã de Isabel Allende e de seu Ted Talk sobre como viver apaixonadamente. Dado esse contexto, faz sentido que Jane seja o tipo de personagem que forma um triângulo amoroso com Michael e Rafael, dividindo a torcida do público entre o namorado que já faz parte da família e o novo pretendente que, apesar de ter um passado (e um presente) conturbado, é o pai de seu filho.

É compreensível que algumas pessoas já estejam cansadas desse plot de mocinha com o coração dividido entre dois rapazes. Até porque, como boa novela que é, Jane The Virgin não desapegou do triângulo amoroso até agora, colocando a protagonista numa eterna troca de namorados, com uma pequena pausa para conhecer outros (dois) caras. O problema é que esse foco nos interesses românticos de Jane ainda parece ser um fator para classificar automaticamente a série como bobinha e, por isso, um conteúdo exclusivo para para o público feminino. É triste ter que convencer homens e mulheres que uma obra que foca, ainda que não exclusivamente, na vida romântica de uma mulher não é necessariamente ruim (e que, se a obra fosse ruim, não seria apenas pela temática).

Também contribui para essa visão negativa e machista contra Jane The Virgin o fato de que a família da protagonista é formada apenas por mulheres. O avô de Jane até aparece em alguns flashbacks, mas ele faleceu muitos anos antes do começo da história. E mesmo que Rogelio de la Vega apareça desde o primeiro episódio e tente recuperar o tempo perdido de relação com a filha, ele nunca conseguirá se integrar totalmente ao clã das três Villanueva. Sem contar que Rogelio não é — ainda bem! — o exemplo de homem heterossexual que estamos acostumadas a ver na TV, sendo ele o personagem mais vaidoso da série, que tem o lilás como a sua cor preferida e que gosta de esconder a idade e parecer mais jovem.

Para falar da família Villanueva, que enquanto Jane é uma virgem grávida se resume à abuela Alba (Ivonne Coll) e a mãe Xiomara (Andrea Navedo), talvez seja mais fácil voltar à primeira cena da série. Jane tem 10 anos, Alba dá a famosa lição de que uma flor despedaçada nunca voltará a ser como antes e faz a neta prometer que só vai fazer sexo depois do casamento. Xiomara assiste à cena e até reclama com a mãe, mas continua pintando as unhas e não interfere.

A relação entre essas três mulheres é praticamente uma releitura de Gilmore Girls. Alba, católica devota e viúva, assim como Emily Gilmore representa o apego a tradições (como a de que uma mulher deve se casar virgem), é durona e tem dificuldade de se abrir até com a própria família. Xiomara engravidou aos 16 anos, mas ao contrário de Lorelai continuou morando com a mãe. Ela é uma pessoa frustrada por nunca ter levado muito a sério o sonho de ser cantora, plano que foi interrompido também por causa da gravidez inesperada. Xo, como é chamada (a pronúncia do apelido é “Zo” e do nome, “Ziomara”), é uma personagem que ajuda a derrubar a ideia ainda corrente de que a vida de uma adolescente acaba quando ela engravida como se ela não fosse mais uma mulher jovem.

Ela cria Jane — com a ajuda de Alba, claro — sem revelar quem é o pai por um bom tempo (bom, ela teve o seu motivo), e continua sendo a mulher vaidosa que sai para se divertir, que se apaixona e quebra a cara. Ou seja, uma mulher que não se resume à maternidade, como as mães da vida real que ainda são raras na TV. E, por fim, temos Jane, personagem já analisada neste texto, e que tem as suas semelhanças com Rory: é apaixonada por livros, viciada em listas, organizada e também vive essa relação confusa de amizade e autoridade entre mãe e filha.

O trio diversificado da avó católica, da mãe jovem e da mocinha romântica é um importante marco para a representatividade de mulheres latinas em séries dos Estados Unidos. Como nem todos os personagens principais têm origem hispânica, é interessante perceber que Jane The Virgin não é especificamente sobre ser uma mulher latina, mas também é inevitável tratar de questões óbvias relacionadas à imigração. Ainda na primeira temporada, descobrimos que a situação de Alba no país é ilegal quando ela vai parar no hospital após ser empurrada do alto de uma escada (mais um recurso típico de novela). Sob ameaças de ser deportada de volta para a Venezuela, ela só consegue evitar o processo por interferência de Michael que, como delegado, avisa ao hospital que ela é uma testemunha importante de uma investigação e deve continuar em Miami.

Alba, inclusive, fala em espanhol na maior parte do tempo, e a sua parte nos diálogos é legendada para o público americano. Os outros personagens respondem a ela em inglês, idioma que ela só usa em situações estritamente necessárias ou quando alguém supõe que ela não sabe falar a língua local. É um ótimo recurso para representar famílias de imigrantes, considerando que Gina Rodríguez se comunicava dessa mesma forma com a avó, por exemplo. A dúvida é se há um cuidado para que Ivonne Coll, atriz nascida em Porto Rico, ao menos simule um sotaque venezuelano. Não há referências tão específicas à Venezuela ao longo das quatro temporadas. Quando uma prima de Jane aparece, ela fala vagamente sobre problemas financeiros da família, mas ela poderia estar falando sobre qualquer lugar. E se não há essa referência direta à cultura venezuelana como é feito com a cultura cubana em One Day At A Time, por que não dizer que as Villanuevas são porto-riquenhas, que é coincidentemente a origem das três atrizes principais?

Ao mesmo tempo, porém, a personagem de Petra Solano é da República Tcheca e representa uma visão estereotipada dos habitantes de um país que é tão distante do nosso imaginário, com um sotaque muito carregado (e dificilmente realista) e com o hábito esquisito de comer picles como lanche. Não que a República Tcheca se compare aos países latino-americanos, que estão muito mais perto dos Estados Unidos, onde a população de origem hispânica representa 17% do total de habitantes. É complicado falar sobre a escolha de atores para retratar famílias de imigrantes e seus diferentes sotaques, porque não necessariamente só quem veio da Venezuela pode interpretar um personagem venezuelano. Mas é importante levantar esse tipo de discussão para evitar que todos os países que falam espanhol sejam vistos como uma massa homogênea, algo parecido com a visão que se tem do nordeste brasileiro ou do continente africano.

No final das contas, Jane The Virgin é uma novela com a parte boa de ter personagens complexos e de dar espaço para discussões importantes além da questão migratória, como a dinâmica de uma família da classe trabalhadora e a maternidade (além da paternidade, já que Rafael é um pai presente que divide as responsabilidades da criação de Mateo Solano Villanueva, nascido no final da primeira temporada). E a parte ruim é a mesma dos folhetins brasileiros: a abordagem superficial de alguns temas às vezes resulta na reprodução de discursos problemáticos ou num tratamento apressado que mais atrapalha do que ajuda o roteiro.

Um dos exemplos mais incômodos é o de Luisa Alver (Yara Martinez), irmã de Rafael, uma alcoólatra em recuperação e médica responsável pela inseminação artificial que mudou a vida de Jane. Essa mulher é atormentada pelo fantasma da mãe, que teria cometido suicídio quando a filha ainda era uma criança. Isso não é bem explicado de início, mas dá para imaginar que a mãe enfrentava um quadro depressivo sério e chegou a ser internada em um hospital psiquiátrico. Por causa desse histórico, Luisa é acusada o tempo todo de ser louca, de estar ficando louca que nem a mãe e, em determinado momento, chega a ser internada contra a sua vontade. Todo essa trama prejudica uma conversa decente sobre transtornos mentais ao optar pelo caminho da loucura feminina como um recurso banal de comédia.

Aberto o precedente, é comum que as outras personagens da série também sejam chamadas de doidas por qualquer motivo. E, quando Jane e Rafael começam a se relacionar, Petra logo é colocada no papel de ex-mulher louca, algo que nunca acontece com Michael, que está na outra ponta do triângulo amoroso oficial da série e, bem, é homem. Considerando esses deslizes, é difícil passar pelos primeiros episódios da série, mas ao menos esse problema específico tende a desaparecer… até a quarta temporada, quando Luisa (e o público) é levada a acreditar que está sofrendo alucinações e se interna voluntariamente em uma clínica psiquiátrica. A reviravolta é bem feita e até contribui para o andamento da história, mas não dá para ignorar o contexto de erros da série ao abordar a suposta loucura de suas personagens femininas.

Outro aspecto da quarta temporada que vale comentar é o da inserção de personagens bissexuais, um tema que, apesar de aparecer em dois momentos diferentes, foi tratado de forma apressada. Num dos primeiros episódios, Jane ainda está namorando com Adam (Tyler Posey) — um dos caras que aparecem como uma alternativa ao triângulo amoroso — quando descobre que ele já se relacionou com homens no passado. Ela não recebe a informação muito bem, mas sequer tem muito tempo para processar a notícia. Não demora muito e o namoro termina porque Adam recebeu uma proposta de emprego em outra cidade. Passa para a próxima cena. Já Petra começa a ter sonhos eróticos com Jane Ramos (Rosario Dawson), advogada que ela contratou para se defender das acusações de mais um assassinato ocorrido na série. Vemos como as duas começam a se aproximar e engatam um relacionamento sério sem nunca ter uma conversa sobre o fato de que Petra nunca tinha se interessado por mulheres até então. E, considerando que elas se envolvem em mais um crime no final da temporada, é de se suspeitar que talvez essa conversa nunca aconteça.

Mesmo com alguns defeitos, a quarta temporada tem os seus bons momentos, como as participações de Eva Longoria (de Desperate Housewives) e de Isabel Allende, mencionada no início deste texto. Temos ainda a volta dos assassinatos misteriosos no Hotel Marbella depois de uma terceira temporada mais sentimental (já que na série os crimes estão sempre associados à comédia), a trajetória de Xiomara no tratamento do câncer de mama e, outra vez, a questão migratória, um tema que ganha mais relevância dado o contexto político americano.

Depois de anos passando nervoso perto de policiais com medo de ser deportada, Alba decidiu solicitar (e conseguiu) o green card ainda na segunda temporada, mas só agora passou por todo o trâmite para se tornar uma cidadã americana. Um processo que começou com um advogado especializado avisando que nada estava garantido porque as regras estão sempre mudando e terminou com a personagem gabaritando o teste teórico de cidadania. Alba teve o seu final feliz, como Lydia (Rita Moreno) em One Day At A Time, para usar outro exemplo de uma mulher que tinha chegado muito nova aos Estados Unidos e conseguiu a naturalização.

No final da 14ª temporada de Grey’s Anatomy, no entanto, uma das médicas residentes corre o risco de ser deportada para El Salvador, onde ela apenas nasceu, e só consegue escapar porque todo o hospital se mobiliza para que o agente de imigração não a encontre. Sam Bello (Jeanine Manson) estava protegida pela lei por ter emigrado com os pais quando menor de idade (os chamados dreamers), mas perdeu todos os direitos quando cometeu o crime de avançar no sinal vermelho. Toda essa história serviu para explicar a saída da atriz na série, mas é alentador ver a recorrência do debate sobre imigração latina na TV em tempos em que as crianças estão sendo separadas dos pais em centros de detenção na fronteira.

Deixando a política de lado, a graça de ver Jane The Virgin realmente está no tom novelesco da série, no ritmo acelerado do roteiro e na forma com que os personagens abraçam os acontecimentos absurdos como vida real. Como disse River Fiels (um alter ego de Brooke Shields) quando finalmente aprendeu a amar as telenovelas, essas são obras que te surpreendem, te emocionam e te fazem sentir viva. Quem não teve reações parecidas quando um suposto Michael reapareceu na season finale depois de termos visto a sua morte e todas as mudanças na vida da protagonista após perder o marido em episódios anteriores? Com mais essa reviravolta, temos tudo para acreditar a série vai voltar em boa forma para a última temporada, quando conheceremos o centésimo e último capítulo da novelinha sobre Jane.


** A arte em destaque é de autoria da editora Anna Vitória.

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