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Remember all their faces, remember all their voices: a última temporada de Orange is The New Black

Depois de seis anos nas nossas vidas, Orange is The New Black finalmente se despediu dos fãs, após entrar em decadência nas temporadas anteriores. A sétima e última temporada da série foi disponibilizada na Netflix em 26 de julho de 2019, e vem com a imensa responsabilidade de dar encerramentos às personagens que aprendemos a amar nos últimos anos. Essa responsabilidade é ainda maior após as controversas quinta e sexta temporadas, que retrataram, respectivamente, a rebelião protagonizada pelas detentas da ala de segurança mínima de Litchfield após o assassinato de Poussey Washington (Samira Willey) por um guarda durante uma confusão no refeitório no fim da quarta temporada e as consequências dessa rebelião. Essas temporadas foram amplamente acusadas de explorarem de forma leviana o sofrimento e o trauma de pessoas não brancas.

Na temporada anterior, demos adeus a parte considerável das personagens fixas da série. Após a rebelião, todas foram enviadas para penitenciárias de segurança máxima, divididas em dois grupos: um, na própria Litchfield, que acompanhamos durante a temporada; outro, despachado para a penitenciária do estado de Ohio, que perdemos de vista. Piper (Taylor Schilling), a suposta protagonista que há algum tempo deixou de ser a protagonista, e sua então namorada Alex (Lauren Prepon) pertencem ao primeiro grupo, assim como Taystee (Danielle Brooks), Suzane (Uzo Aduba), Cindy (Adrienne C. Moore), Daya (Dascha Polanco), Marisol (Jackie Cruz), Gloria (Selenis Leyva), Red (Kate Mulgrew), Nicky (Natasha Lyonne) e muitas outras. Apesar disso, a estrutura que conhecíamos antes sofre uma forte desestabilização. Etnias se misturam e novas amizades e alianças são formadas quando nossas personagens já conhecidas precisam se integrar e se proteger nesse novo ambiente, mais hostil e perigoso do que estavam acostumadas. Em alguma medida, a sétima temporada é uma continuação da temporada anterior, mas também é bem diferente.

Atenção: o texto contém spoilers!

A última temporada de Orange is The New Black, mais do que todas as anteriores e especialmente após Tamika Ward (Susan Heyward) ser promovida a diretora da prisão e buscar colocar em prática suas visões humanizadas de reforma para a instituição, tenta encerrar a série com críticas diretas ao sistema penitenciário e perspectivas de mudança. O sofrimento, mesmo que continue muito presente, é drasticamente reduzido nos novos episódios, e tanto as detentas quanto os guardas são representados sob uma luz muito mais humanizada.

Além das questões de sempre, a nova temporada transborda para abarcar e criticar também a questão imigratória, tão em pauta desde a eleição de Donald Trump com seu discurso xenófobo e violento contra imigrantes e refugiados. Além do cenário tradicional da penitenciária, entramos também em um centro de detenção de imigrantes que descobrimos fazer parte do complexo de Litchfield, e esse centro consegue ser ainda pior do que tudo o que tínhamos visto antes. Não existem celas minimamente separadas, todas as mulheres são enclausuradas em um grande galpão cheio de beliches e sem nada além disso. Não existem áreas de recreação, aparentemente não existe direito a ver a luz do dia, elas não têm direito a nenhuma ligação telefônica gratuita, a trabalhar em troca de pagamento lá dentro, a nada. Muitas ali foram detidas sem nenhum direto a contactar um advogado ou a notificar a família sobre seu paradeiro. A defesa jurídica não só não é espontaneamente garantida, como é em geral dificultada ao máximo. Números telefônicos de entidades de assistência jurídica são bloqueados, e quem tenta burlar as dificuldades é punido sem dó. Não há chance de defesa, não há esperança, e o fundo do poço é atingido quando assistimos uma sessão de julgamento de crianças pequenas e bebês, separados de seus pais, levados para se apresentar perante o juiz sem nenhum tipo de defesa.

No lado positivo, temos todas as mudanças que Tamika institui quando assume a diretoria de Litchfield, começando pelo banimento do isolamento como forma de disciplina e terminando na instituição de estímulos positivos para o “bom comportamento” das mulheres detidas. A apresentação da educação e da cultura como forma de re-humanizar as detentas e promover a sociabilidade entre elas e com os guardas é um ponto muito positivo da nova temporada. Dos quatro programas implantados pela nova diretora — contato terapêutico com animais (voltado principalmente para detentas neuroatípicas), oficina de crochê, supletivo e curso de justiça restaurativa — são o supletivo e o curso de justiça restaurativa que ganham mais atenção e tempo de tela.

No supletivo, até que tudo vá por água abaixo, temos a felicidade de ver um professor competente, motivado e interessado em fazer seu trabalho e impactar positivamente na vida de mulheres que nunca tiveram a oportunidade de terminar os estudos. Entre as frequentadoras do supletivo, a história mais emocionante é a de Tiff Doggett (Taryn Manning), que vem de uma família pobre e com estrutura precária, e que sempre se achou burra até que esse professor enxerga seus sinais claros de dislexia e a ajuda a superar suas limitações. Mas a imagem é muito maior do que ela. É comovente ver como todas as mulheres que estão ali têm esperança, como encaram aquilo como uma oportunidade de tentar mudar de vida e construir algo melhor quando saírem dali.

Já a justiça restaurativa é trazida em Orange is The New Black na forma de um curso ministrado pelo ex-diretor Joe Caputo (Nick Sandow), que se tornou professor universitário depois de perder seu emprego em Litchfield. A justiça restaurativa é uma questão muito interessante que vou desenvolver em breve em outro texto, mas cabe aqui menção honrosa à inserção do tema nessa temporada, ainda que com limitações. Apesar de pouco explicado em cena, a justiça restaurativa é uma forma de resolução de conflitos que não passa pelo direito penal. O objetivo é proporcionar um espaço de acolhimento que permita a participação direta de quem cometeu o ato e de quem o sofreu para tentar reparar a situação e dar às partes uma satisfação que não é dada pelo sistema criminal.

A série também aproveitou a oportunidade para criticar, mais uma vez, o mito da “reinserção social” de pessoas que estiveram presas. Isso é feito de diversas formas, desde a mais sutil, com as dificuldades de Piper de se desligar da prisão e construir uma vida do lado de fora, apesar de todos os seus privilégios e recursos materiais, até a nova prisão de Aleida (assim como já vimos antes com Taystee, Alex, entre outras), por não encontrar meios lícitos de sustentar a si e recuperar os filhos depois de ser libertada. A crítica também é feita de forma ainda mais expressa e didática durante uma aula de matemática que Taystee ministra para algumas das meninas que frequentam o supletivo, na qual elas tentam calcular os custos mínimos que elas terão quando saírem e descobrem que é uma matemática simplesmente impossível. É aí que surge a ideia do Fundo Poussey Washington, idealizado por Taystee com o objetivo de conceder microcrédito a ex-presidiárias para que tenham condições de recomeçar a vida sem precisarem cometer novos crimes. Esse fundo não é apenas fictício e foi de fato criado na forma de um GoFundMe (campanha de financiamento) que vai direcionar seus ganhos a ONGs de assistência jurídica e visam estimular a reforma do sistema prisional, e reuniu mais de cem mil dólares em menos de uma semana. Outro ponto sensacional e digno de nota é que Taystee não pensa no fundo apenas como transferência de crédito, mas integrado com uma educação financeira prévia que estimule que o dinheiro seja usado da forma mais proveitosa possível e o projeto atinja seu objetivo.

Também dando prosseguimento a um tema já abordado em diversos momentos anteriores, as questões de classe e raça são mais uma vez trazidos à tona. Ainda falando sobre reinserção social, só nessa temporada temos três exemplos que fornecem uma ótima base para comparação: Piper, Cindy e Aleida. Aleida, que começa a vida em liberdade ainda na temporada anterior, tenta viver de forma “honesta”, mas não demora a se dar conta de que não vai conseguir reunir e sustentar os filhos dessa forma. É assim que ela acaba cometendo novos crimes, traficando drogas para dentro da prisão e é presa novamente por quebrar o carro que ela acredita ser do traficante adulto que “namora” sua filha de 13 anos. Cindy, que tem uma família estruturada que a apoia, sai determinada a mudar de vida e, com o seu carisma, de fato consegue um emprego logo que sai da cadeia; apesar disso, ela acaba se desentendendo com a família e indo morar na rua. A trama da Cindy também permitiu trazer à tona outra questão social importante: a da população em situação de rua; infelizmente, o tema não é desenvolvido mais a fundo, mas fica o gancho. Finalmente, Piper também tem dificuldades em lidar com a família após a saída, mas isso não a impede de conseguir um emprego, ainda que entediante, na empresa do pai. É só essa estrutura familiar dotada de privilégios econômicos que permite que ela tenha o tempo necessário para se reestruturar psicologicamente e construir sua nova vida, mas é óbvio que pouquíssimas pessoas contam com a mesma sorte.

O que toda a sétima temporada de Orange is The New Black parece querer fazer é recuperar a humanidade de mulheres que, por terem sido condenadas por algum crime, perdem seu status humano e passam a ser, aos olhos da sociedade, apenas “criminosas”, a quem se pode retribuir o mal feito com outro mal, na forma das violências e desumanizações sistemáticas realizadas pelo sistema penal e seus operadores. Retribuir um mal com um mal é justamente a mentalidade do sistema de justiça penal retributivo (e quem já assistiu talvez se lembre dessa palavra de uma das aulas do Sr. Caputo), o que acaba por tornar esse sistema mais uma máquina de moer gente do que algo com uma finalidade social minimamente positiva. É um sistema que adoece todos os envolvidos, não importando de que lado das barras esses se encontrem, mas — obviamente — tem seu efeito mais forte e mais danoso no lado encarcerado. Nessa temporada, esse efeito é apresentado em diversas frentes pelo adoecimento generalizado das detentas: Red com a demência desencadeada por um surto psicótico que começou quanto esteve na solitária, Lorna (Yael Stone) com o surto devido à morte do filho e a ausência de qualquer tratamento adequado, Taystee com sua decisão suicida por muito pouco não concretizada. Nesse mesmo contexto, a prisão perpétua (a que tanto Taystee quanto Daya foram condenadas) é um tema muito pouco aprofundado e que mereceria um debate muito mais qualificado.

Mais um dos muitos pontos altos da temporada é a trama de Suzane com as galinhas, adotando uma pegada Senhor das Moscas e fazendo ligação com o processo de amadurecimento da personagem, no qual ela se dá conta da injustiça do sistema e de sua própria prisão. Se uma das cenas mais emocionantes da temporada é o diálogo da personagem com a mãe no qual ela questiona se ela deveria estar ali, toda a questão das galinhas acaba sendo uma alegoria para a forma como a sociedade e sua suposta justiça funcionam. Nós conseguimos ver a injustiça em alguns casos individuais, mas dificilmente enxergamos que o sistema penal como um todo é injusto, ineficaz e sem sentido. É a mentalidade punitiva que perpassa toda a sociedade (e não só o sistema de justiça criminal), que faz com que perpetuemos o mesmo padrão e se contrapõe a outros paradigmas possíveis, como o da justiça restaurativa.

O que se observa nessa temporada é que, por mais bem intencionada que seja Tamika na tentativa de “humanizar” o ambiente prisional, ele continua sendo injusto, ineficiente e violento. Porque reformar algo que é podre desde as estruturas não é suficiente. E é por isso que o fracasso das tentativas dela, marcado pela sua demissão, no episódio final, é sim muito triste; mas também é só mais uma mudança conjuntural, no meio de tantas (geralmente para pior) que vimos no decorrer da série. Ao fim e ao cabo, não importa o quanto ela, ou qualquer outra pessoa, seja bem intencionada, ela segue atada pelas amarras da estrutura brutal e capitalista que controla tudo, para a qual o humano não tem nenhum valor e muito menos o humano que já foi rejeitado pela sociedade desde o começo.

É interessante ressaltar que a última temporada de Orange is The New Black não apenas questionou o maniqueísmo da nossa visão com relação às detentas, mas — diferente das temporadas anteriores — buscou fazer isso também com os guardas. Se até agora as demonstrações de humanidade entre eles eram mínimas, essa temporada muda isso de maneira bastante drástica. Claro que os “maus” continuam a existir, e também os “sem noção” que simplesmente não ligam a mínima para nada, mas o que mais apareceu nessa temporada foram aqueles que são apenas humanos, errando, acertando e tentando sobreviver. Apesar de tudo, é bacana ver isso, uma conexão possível, e permite redirecionar o foco para o problema real: guardas “maus” são o produto de um sistema ruim. Claro que toda a violência individual realizada por um guarda contra uma detenta é errada e não deveria existir, mas em uma análise fria, é perceptível que essas situações apenas correspondem à lógica do sistema penal e da mentalidade punitiva como um todo. Os indivíduos são consequência e instrumentos para a perpetuação do problema, mas eles em si não são o problema.

Os episódios ainda abordam, de passagem, outros temas importantes que são apenas pincelados de forma que indica uma reprovação, mas imediatamente deixados de lado como se não importassem. Um exemplo disso é o momento em que constatamos a diferença salarial entre os guardas homens brancos, a guarda mulher branca e a (então) guarda que é uma mulher negra. O absurdo da situação é evidente por si só e não exige mais explicações, mas a forma como elas apenas se conformam e seguem com a vida é incômoda. Esses temas importantes que são apenas tangenciados e nunca desenvolvidos deixam a impressão de que talvez se tenha tentado abocanhar mais do que se podia mastigar, e nesse ponto algumas coisas importantes foram deixadas de lado.

No lugar desses temas importantes, o romance à distância entre Alex e Piper talvez tenha ganho muito mais destaque e tempo de tela do que o necessário, sem nenhum proveito real além de dar satisfação às fãs do casal. Nunca vou ser contra o amor e o romance, mas elas poderiam ter recebido uma solução mais simples que economizasse um tempo de tela que teria sido muito mais útil em outras frentes, especialmente porque o final delas acaba sendo aberto de qualquer forma. Me pareceu uma tentativa de recobrar o protagonismo de uma personagem que não cabe mais (se é que algum dia coube) naquele lugar de destaque. Além de tudo, essa trama insossa acabou sendo a única que Alex recebeu durante toda a temporada, sugada e confinada ao papel de interesse romântico da protagonista.

Orange is The New Black se encerrou de forma ambígua, agridoce. Mais azeda do que doce. Enquanto buscou dar doses homeopáticas de esperança, principalmente com a questão da justiça restaurativa, do Fundo Poussey e dos finais felizes de algumas das personagens, também trouxe várias mensagens de desesperança com a demissão de Tamika em prol de Hellman (Greg Vrostos), o mais babaca dos babacas, o fim dos programas educativos e vários finais nada felizes. Ouso arriscar que o objetivo era passar uma mensagem de esperança, “está tudo uma porcaria mas existe luz na escuridão”, mas a verdade mais crua é que nada realmente mudou. A mesma estrutura comedora de gente continua atuando, e enquanto algumas das personagens que amamos estão seguindo suas vidas em rumos melhores, milhares de outras mulheres estão ocupando os lugares que elas deixaram para trás. Não existe final feliz enquanto a lógica capitalista estiver de pé.

Orange is the new black - 7ª temporada: 4,5 estrelas


* A arte em destaque é de autoria da editora Paloma Engelke.

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