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Meg Cabot, Heather Wells e porque tamanho não importa

Não é somente na publicidade que somos impactados com a ideia de um corpo perfeito. Sem notar, consumimos inúmeros conteúdos e produtos que indiretamente representam apenas uma parcela da população: aquela sem pneuzinho, com vão entre as coxas e quase sem barriga. São novelas, séries e livros em que o padrão apresentado é sempre o mesmo. O corpo magro é uma realidade e ele é a imagem que temos recebido durante muitos anos como a correta. Pessoas que não conseguem se identificar ou espelhar essa realidade projetam esse ideal criado como o único possível.

Como traz Karen Grujicic em seu artigo “De gordas a plus size: uma análise do discurso dos blogs de moda especializada, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo:

“Durante décadas, a imprensa feminina e a publicidade exploraram um padrão de beleza único, eurocêntrico e de magreza, o que movimentou a indústria da beleza e da boa forma e oprimiu as mulheres que não se encaixavam nos padrões estabelecidos.”

A “ditadura da beleza” construiu frentes dominantes que fazem girar toda uma cadeia econômica. Não são apenas os produtos finais que ganham, como marcas de roupas, mas também a indústria farmacêutica com remédios milagrosos que prometem emagrecimento rápido, cremes estéticos para resolver instantaneamente gordurinhas e até chás que transformam sua vida em uma xícara. A mídia faz a grande capitalização disso levando a mensagem para todos os cantos mas, como podemos entender, todo esse movimento é uma corrente.

Curioso, também, é desmistificar os números que representam tais padrões. A criação da fita métrica, por Alexis Lavigne, alfaiate particular da esposa de Napoleão III, Imperatriz Eugênia, foi uma medida prática para facilitar a produção de novas roupas. A partir disso, usou-se esse mesmo método para a construção das medidas de reis. Porém, quando se deu início a criação de roupas em larga escala, não foram feitas adequações. A medida padrão feminina é até hoje a metade da medida masculina. Ou seja, o que o mundo da moda instituiu como P, M e G, 38, 40 e 42, não deveria corresponder a nada. Mas, por outro lado, significa tudo. Como explica Barbara Pavei Souza em seu artigo “O corpo feminino plus size: uma visão através da análise do discurso”:

“O corpo é uma forma de manifestação dos discursos, construído como objeto simbólico sobre o qual atuam as injunções da cultura e da história. Nós, sujeitos de/a linguagem somos sempre atravessados por uma formação discursiva dominante, neste caso a dos padrões estéticos de beleza, e elas organizam os espaços de forma política, por isso corpos diferentes são acolhidos ou excluídos, dependendo da posição — sujeito. O sujeito constrói uma imagem de si como constrói uma imagem do outro, pois ele é sempre submetido então, às circunstâncias que o moldam.”

Mas a ditadura que departamentaliza as medidas também transforma a maneira como vemos cada uma delas. Se a cultura diz que o corpo magro é o “correto”, a maior produção de moda é para esse corpo. Medidas que fujam dessa construção são encontradas com mais dificuldade, quase como se estivessem obrigando a pessoa que difere do padrão a entrar naquele molde regular para que consiga encontrar o que gosta e precisa. Um lembrete diário que a exclui do sentimento de pertencimento em um mundo em que não existam modelos que gerem identificação para esse público.

E isso é bastante claro quando encontramos protagonistas que fogem a essa ditadura. O quanto sofrem para se encaixar em algo que não as condiz, e como encontram formas de tentar chegar nesse patamar. Bridget Jones é o primeiro exemplo que lembramos (e amamos!), mas também Heather Wells pode ser incluída no rol dessas personagens.

Heather foi uma cantora teen em sua adolescência e perpetuava o padrão construído pela sociedade. Instigava meninas a seguirem seu penteado, a cantarem suas músicas e a ficarem com inveja por estar namorando outro ídolo pop, Jordan. Conforme foi ficando mais velha, quis sair um pouco da bolha criada ao seu redor e sugeriu a sua produtora que ela mesma criasse suas canções. Esse foi o início do fim de sua carreira, quando Jordan a largou, sua mãe que era também sua empresária decidiu fugir com seu dinheiro e sua contratante a demitiu. Encontramos Heather com trinta e poucos anos tentando se reerguer.

Agora, ela mora no apartamento do seu ex-cunhado, Cooper, e trabalha em um conjunto habitacional de estudantes da New York University. Heather é uma mulher adulta, independente e que está em busca de renovar sua vida, mas um item a deixa muito insegura: seu peso. Depois de todos os acontecimentos, sua numeração subiu para 42 e ela tem um pouco de dificuldade de aceitar como chegou ali. Mesmo dizendo para si mesma que tamanho 42 não é gorda, esse é um fantasma que a acompanha em toda a história. Porém, enquanto sua vida segue, um acidente que ela acredita ter sido homicídio acontece com uma das estudantes do conjunto em que trabalha e Heather não admite que isso ocorra em seu turno.

Esse romance policial pós-young adult, por assim dizer, é o primeiro livro da série Tamanho criada por Meg Cabot, autora norte-americana que escreveu mais de setenta livros, incluindo nessa lista a série O Diário da Princesa, e assina suas criações de três formas: Meg, Patricia ou Jenny Carroll. Se você foi adolescente entre os anos 2002 e 2006, com certeza alguma de suas obras passou por seus dedinhos e mente porque ela escreveu muito young adult nessa época.

Conforme seu público crescia e passava a transição da adolescência para a vida adulta, Meg começou a criar histórias com mulheres de 25 a 30 anos como protagonistas de novas séries e, assim, continuou fazendo parte de nossas vidas. E foi um desses títulos que não me chamou a atenção aos 15 anos que conquistou em cheio a Jéssica de 28 anos.

Tamanho 42 Não é Gorda (Record, 2005) mostra Heather na situação em que é uma adulta responsável, mas que não se sente dessa forma. Lidando com problemas importantes e que estão além do seu controle, ela deve buscar segurança dentro de quem ela realmente é, independente do tamanho da sua roupa. Cooper, seu companheiro de apartamento, é quem hoje desperta o coração de Heather e quem ela mais quer impressionar. Por isso, a resolução desse mistério no conjunto habitacional Fischer vai além de ela comprovar que é uma nova mulher para seu crush, mas também para ela mesma.

O que chama muito a atenção dessa leitura é que, além de muito rápida e contagiante (porque é impossível parar de ler), ela é muito factível e empática. Digo isso por ser uma mulher de 28 anos que também passa pela insegurança de não estar nos padrões diretamente colocados pelos produtos que consumo. Mesmo que no livro o tamanho de Heather não a impeça de executar absolutamente nada, existe aquela espécie de pensamento de comparação, do tipo “será que ele não gosta de mim porque sou assim?”. Porém, também é muito legal ver que ela se empoderar muito com essa situação, busca provar que é capaz e, no decorrer da história, seu peso não tem influência nenhuma sobre quem ela é. Vemos uma construção de personalidade muito forte que transforma como Heather vê a si mesma, transcendendo o que os outros pensam dela. Quando ela para de se importar com o peso, tantas outras coisas acontecem que o foco de todo o livro não se remete mais a isso — nem o da sua vida.

A importante mensagem, além das risadas, é de que Meg Cabot trouxe esse empoderamento num ano em que ainda não existiam modelos a serem seguidos na mídia que trouxessem essa mensagem, visto que o primeiro título da série, The Heather Wells Mystery, em inglês, foi lançado em 2005. Barbara Pavei novamente comenta que:

“Os corpos da publicidade, da fotografia, colocam uma distância entre o real e o imaginário, afinal o que as fotografias propõem são corpos idealizados, abstratos, inatingíveis devido a todas as correções que estes corpos passam através das tecnologias para depois chegar até a grande mídia.“

A busca por um corpo mais natural e pela aceitação de como somos é crescente. Quando os blogs de moda começaram a ter mais protagonistas que saíam do padrão ditado, mais o público passou a encabeçar esse ideal. Karen traz que “A reformulação no conceito de tamanhos grandes incluiu tratá-lo por um novo nome: plus size. Ser uma mulher plus size não é apenas estar acima do peso, o termo envolve o discurso recheado de atributos de autoafirmação como vaidade, sensualidade, alegria e orgulho de suas próprias formas”. A busca pela própria identidade a partir das imagens reforça o poder simbólico da construção do “eu” pela moda no contexto pós-moderno, ou seja, construir um estilo que signifique e transmita algo.

Os produtos midiáticos deveriam ter adotado a postura de que ser gorda não é um problema, que somos donas de nossos corpos e nos sentimos bem com eles, independente se eles seguem a moda ou não. Tendo modelos a serem espelhados e com maior inclusão dessa mensagem em diferentes produtos, fica mais fácil não se sentir sozinha e tomar seu lugar de pertencimento: o protagonismo. Assim como já temos mulheres inspiradoras como Melissa McCarthy, Amy Schumer, Meghan TrainorRebel Wilson, entre outras, atuando na frente desse empoderamento, é extremamente saudável que elas se transformem nos novos modelos de aceitação e identificação para as gerações que estão vindo e as que já vivem o dia a dia opressor da estética.

Queremos esse exemplo sendo repetido, copiado e emoldurado para que a gordofobia tenha severas punições sempre que acontecer. Quando uma pessoa é humilhada por ser quem ela é, o desgaste emocional pode ser irreversível. E não é isso que queremos para nossas mulheres.


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