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Pequenos incêndios por toda parte: faíscas entre o coletivo e o individual

Disclaimer: este texto não contempla — nem visa contemplar — as diferenças entre a série e o livro, e tem como foco sobretudo as questões comuns em ambas as produções. 

Apesar de termos todos, em maior ou menor medida, a liberdade cristã de tomar as nossas próprias decisões, somos também definidos por uma série de características que herdamos daqueles que vieram antes de nós. Antes de sermos indivíduos, portanto, somos o produto de uma sociedade específica, marcada por seus costumes, suas lutas e suas verdades, que passam, gostemos ou não, de geração a geração, como uma terceira fita invisível enrolada às outras duas do nosso DNA.

A cor da nossa pele, o peso das escolhas dos nossos ancestrais, o valor que carregamos em cifras visíveis ou não; todas essas coisas podem não definir o rumo das nossas vidas, mas com certeza influenciam muito em como elas são vividas, e essa influência, por sua vez, embora possa ser sutil e invisível, é o que constrói a nossa ampla visão do mundo, dos outros e de nós mesmos.

Em seu romance, Celeste Ng narra três vidas que se cruzam, mas que são moldadas a partir de realidades muito diferentes. Embora tenhamos apenas um plano de fundo — o condomínio planejado de Shaker Heights, com suas cercas brancas e suas regras —, somos apresentados a uma gama de personagens cheios de características próprias que são, ao mesmo tempo, o resultado inevitável das histórias que começaram muito antes deles mesmos e o efeito das decisões que foram tomadas ao longo de suas vidas. Pequenos Incêndios por Toda Parte tem como elementos principais a sutileza das nossas diferenças e o impacto estarrecedor que os detalhes das nossas narrativas causam não apenas em nós, mas nas pessoas com quem dividimos, ainda que brevemente, a nossa trajetória.

A adaptação homônima, lançada em formato de série em março de 2020 e disponível no Amazon Prime, ilustra com precisão essas questões. Seu foco, entretanto, é a característica comum às mulheres que protagonizam a história de Ng: a maternidade.

É impossível questionar o que faz uma “boa mãe” sem, antes, questionarmos em que contexto as mulheres se tornam mães. Mais uma vez, nossa individualidade é moldada pela coletividade — somos um retrato do que as mulheres antes de nós foram; ensinamos aquilo que nos foi ensinado; repetimos, de modo geral, os comportamentos que atravessam nossas gerações. Contudo, não é apenas a mímica que faz a maternidade — é também o desejo de oferecer o que não nos foi oferecido; de acertar onde outros erraram; de ser capaz de proporcionar o que não tivemos. Equilibrar-se nessa linha tênue entre a mãe que tivemos e a mãe que seremos — e, por extensão, entre as histórias dos nossos antepassados e a nossa — é o que permite que hajam tantos tipos de maternidade, e é o que faz com que a pergunta “o que significa ser uma boa mãe?” não tenha, enfim, nenhuma resposta.

Os diferentes modos de maternar de Elena Richardson (Reese Witherspoon), Mia Warren (Kerry Washington) e Bebe Chow (Lu Huang) se cruzam nas ruas perfeitamente limpas de Shaker Heights e, a partir desse encontro, rasga-se o pano que as separa: as três mulheres são obrigadas a encarar suas escolhas e as consequências que advém das mesmas; já não é mais possível resignar-se, esconder-se, arrepender-se.

Mia aparece como a causa central do rebuliço: é ela quem cria Pearl de uma maneira tão livre, tão decidida, tão pronta para ser quem ela quiser, e que, portanto, deixa evidente que o plano perfeito de Elena para si mesma e para os seus filhos tem, na verdade, uma série de falhas. É também ela quem escolhe, sempre e mais uma vez, seguir a vida apesar das suas curvas acentuadas, enquanto Elena tentou ao máximo podar essas voltas e transformar o seu caminho em uma linha reta. E é Mia quem escancara preconceitos de raça e classe e se torna responsável por mostrar a Elena que avós que marcham contra a segregação não impedem que ela e seus filhos ainda sejam racistas, uma vez que as escolhas que fizeram antes de nós não são o bastante para nos eximir de fazermos escolhas também.

Mas ela é mais do que um agente transformador, ou um lembrete de tudo que Elena, por medo, efetivamente escolheu não ser. O incômodo maior não são as inúmeras diferenças que ela ressalta, mas as semelhanças entre os modos de criar: também Mia projeta em Pearl seus medos; também Mia impede que sua filha seja um indivíduo de vontades próprias; também Mia mente e manipula sob a desculpa de estar fazendo “o que é melhor”; também Mia é movida apenas pela profunda necessidade de fazer o certo. E se ela oferece, para os filhos de Elena, uma alternativa à vida perfeitamente adequada e cheia de rotinas, também é verdade que Elena oferece para Pearl uma realidade em que ela pode criar afetos permanentes, abaixar a guarda, ou ter mais de uma parede pintada no quarto.

Mia e Elena têm origens diversas e são os efeitos dessas origens em suas personalidades que permitem que seus mundos não se adequem um ao outro. Mas elas também funcionam como duas partes de uma mesma peça, um ying-yang existencial esquisito e pouco funcional, opostos absolutos que manifestam dentro de si um pouco da outra. Seria impossível exigir que Mia visse em Elena o que lhe falta, e vice-versa, e é isso que Celeste Ng exige: que ambas se contemplem, que se assumam. Diante de Elena, Mia não pode mais agir como se a mobilidade absoluta e os segredos não afetassem quem ela é e quem Pearl está se tornando; da mesma maneira, diante de Mia, Elena não pode continuar acreditando em planos perfeitos, em linhas retas, em filhos ideais, ignorando as particularidades dos quatro jovens que cria. É preciso abdicar do controle que ambas passaram a vida tentando obter, ainda que de modos distintos.

Bebe Chow, ao contrário de Mia e Elena, vive um embate consigo mesma. Suas vivências são próximas das de Mia — a luta por dinheiro, a dificuldade em criar laços —, mas sua história tem nuances próprias: o abandono do marido, a depressão pós-parto, a luta para acolher uma bebê que ela sequer reconhece, a decisão de deixá-la. Ela existe em um ponto próprio da história de Ng — um que Elena e Mia tentam alcançar e não conseguem, porque a elas foi dado o direito de cuidar dos seus. À Bebe, não. Enquanto as duas primeiras mulheres precisam abandonar um pouco da sua força, Bebe precisa fazer o caminho inverso, construindo-a dia a dia, lutando sozinha em um sistema injusto e racista, buscando reparar o maior erro que já cometeu.

Sua redenção, ao contrário do que acontece com Mia e Elena, não vem pela lição. Ela não aprende a viver sem sua filha, resignando-se — essa não é uma realidade possível. Da mesma forma, ela não aprende a continuar lutando, pois não tem mais forças. Bebe toma o que é seu, o que lhe foi roubado, e sua lógica pode não ser exata, ou ter bases legais, mas é a manifestação pura do sentimento, a única coisa que lhe cabia fazer: pegar sua filha, ir embora, reconstruir-se. De certa maneira, como Mia também fez ao fugir com Pearl; e também como faz Elena, ao ser meticulosa, incisiva, exata.

Pequenos Incêndios por Toda Parte, livro e série, é uma história de mulheres e de mães. Embora seja possível elaborar textos enormes sobre as suas minúcias, essa leitura ponto a ponto seria responsável por tirar da produção de Celeste Ng a sua característica mais marcante: a sutileza. É fácil sentir-se atraído pelas personagens, pelas suas dimensões, pela forma como elas se erguem tão reais, tão incômodas, tão cheias de defeitos. Não é uma narrativa sobre heroínas e vilãs, sobre respostas exatas; não é uma aula sobre maternidade. Ng narra, com excelência, as nuances que nos atravessam, as nossas linhagens, o nosso lugar no mundo — e o modo como tudo isso se mistura em nós, no que passamos para frente. 

Longe de ser um livro e uma série sobre o que é absoluto, o que se constrói são histórias sobre o que é, ao mesmo tempo, muito universal e muito particular, e talvez por isso seja difícil não terminar esse trajeto como outra pessoa. O que existe em mim de Elena, o que existe em mim de Mia, o que existe em mim de Bebe? Quais são os pontos que nos unem enquanto mulheres, mães, indivíduos? E quais são os pontos que fundamentalmente nos afastam? Somos levados, por Ng, enquanto espectadores, a questionar nossas próprias decisões, a olhá-las mais de perto, sob outra ótica. E, nesse processo, somos convidados a descobrir mais de nós mesmos, não a partir da nossa individualidade, mas a partir do que nos constrói coletivamente: gênero, raça, classe e as escolhas que trazemos já feitas desde o nascimento.

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