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A violência contra as mulheres de Twin Peaks

Na sétima série, minhas amigas e eu tínhamos o hábito de trocar livros que eram considerados “adultos” demais para nós. Lembro como se fosse ontem quando peguei nas mãos o livro que tinha uma menina morta envolvida em plástico na capa, tão linda e tão pacífica, e em cima estava escrito o título: O Diário Secreto de Laura Palmer. Minha amiga me explicou que se tratava do diário dos últimos dias de uma garota em uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos chamada Twin Peaks, e como naquela cidade nada era o que parecia ser. Essa menina, chamada Laura Palmer (Sheryl Lee), havia sido assassinada aos 17 anos, ninguém sabia por quem, muito embora seu diário tenha exposto tudo aquilo que acontecia por trás da pequena cidade, aparentemente monótona, e todos os segredos que tanto o lugar, quanto Laura, escondiam.

Na época, eu não tinha o costume de ler livros e minha leitura corria bem devagar. No entanto, terminei esse livro em alguns dias, ficando tão impactada que o chamava de meu favorito. Ingenuamente, acreditei quando falaram sobre a história ser real e só anos mais tarde descobri que o livro, na realidade, era baseado em um filme, Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, que imediatamente fui até a locadora alugar. Quando terminei, fiquei tão impressionada, assustada e chocada que assisti ao filme pelo menos mais uma dezena de vezes. Mais alguns anos se passaram até eu descobrir que o filme, por sua vez, era a continuação de uma série de sucesso chamada Twin Peaks. No mesmo momento, decidi que precisava investigar essa história que sempre me fascinou mais a fundo, e foi assim que conheci uma das minhas séries preferidas.

Twin Peaks estreou na televisão aberta em 1990 e fez sucesso imediato. A mistura de drama, mistério e horror criada por David Lynch e Mark Frost sobre uma cidadezinha que não era nada do que aparentava ser foi a primeira, e mais importante, introdução a esse mundo único e enigmático. O grande foco da série nunca foi o assassinato de Laura Palmer em si, mas as consequências que essa tragédia gerou para a pequena cidade e como afetou a vida de cada um, das pessoas mais próximas até as que, teoricamente, não tinham qualquer ligação com a jovem loira de beleza estonteante considerada a rainha da escola. A série tinha uma atmosfera própria, que misturava elementos sobrenaturais, surrealismo, humor peculiar, cinematografia única, personagens excêntricos e melodramáticos em uma trama que unia novela com horror — uma fórmula até então nunca vista na televisão e que obteve sucesso instantâneo, influenciado a cultura pop até hoje e também muitos showrunners, que viram na obra uma inspiração para suas próprias produções. Diversas são as séries de sucesso que bebem da fonte de Twin Peaks, como por exemplo: Bates Motel, The Killing, Arquivo X, The Sopranos e Lost, até títulos mais recentes como The OA e Riverdale. A probabilidade da série ser citada em listas de seriados mais influentes, marcos da cultura pop ou episódios mais marcantes da televisão é muito grande.

Apesar de todo o seu sucesso, Twin Peaks foi cancelada em 1992, durante sua segunda temporada, quando os produtores pressionaram David Lynch e Mark Frost para resolverem de uma vez o mistério do assassinato de Laura Palmer — que nunca foi o foco da história. Depois de uma primeira temporada excelente, a série começou a desandar em seu segundo ano, perdendo ritmo (uma de suas marcas registradas) e o foco na trama principal, até ser, por fim, cancelada. Em 2014, foi anunciado que a série voltaria pelo canal de televisão a cabo Showtime, dessa vez como uma série limitada, com todos os episódios escritos e dirigidos por David Lynch, o elenco original e alguns novos personagens.

Atenção: este texto contém spoilers!

A história de Twin Peaks, no entanto, começa muito antes, em uma manhã de fevereiro, em 1989. Um senhor sai de sua casa para ir pescar e no caminho avista algo estranho próximo ao mar. Ao chegar mais perto, ele toma um susto e percebe que é um corpo embalado em plástico. A polícia e o médico do município são chamados para verificar o ocorrido e reconhecem o rosto de Laura Palmer. Esta é a primeira cena de Twin Peaks, o início de um grande filão de mulheres que são violentadas durante toda a trama. Uma das maiores características da série era como ela se aprofundava em personagens que à primeira vista não deveriam ser mais do que coadjuvantes. Episódios se passam e você percebe que cada morador tem um papel proposital na dupla personalidade da cidade. Ninguém aparenta ser quem realmente é e apesar de ser considerada uma série de suspense policial, ela nunca foi tão explícita ou cheia de mortes.

A violência e o sofrimento contra mulheres sempre esteve presente nos filmes e histórias de Lynch; a grande maioria com um motivo, que se desenrolaria ao longo da história, aprofundando o personagem e as pessoas ao seu redor. Twin Peaks não era perfeita, o que seria facilmente observado pelo número reduzido de personagens femininas em comparação às masculinas ou ao fato de homens serem, quase sempre, os protagonistas das tramas. Na década de 1990, muito pouco se falava sobre desigualdade de gênero, mas era de se imaginar que, 26 anos depois e uma nova temporada da série, esse cenário mudaria de figura — o que realmente acontece, exceto que essas mudanças tornam o contexto ainda pior.

Nos primeiros episódios do retorno, a trama é ambientada em três lugares diferentes — Twin Peaks, Las Vegas e Dakota do Sul. A princípio, ninguém entendia muita coisa nem sabia o que estava acontecendo, apenas a partir da Parte 9 (Lynch não identificava os capítulos como episódios, mas como partes de um grande filme) é que as coisas começam a fazer algum sentido. A Parte 10, no entanto, marca o absurdo da situação — um episódio quase sadicamente focado em violência contra mulheres. Todas as personagens femininas que aparecem no episódio sofrem algum tipo de violência, mesmo aquelas que nunca tinham aparecido antes. Elas foram machucadas psicológica e fisicamente, violentadas e/ou assassinadas, todas vítimas de uma violência sem propósito algum. À essa altura, ninguém mais podia deixar de falar que tinha algo de muito errado com a série.

Já no primeiro episódio, a cabeça de uma mulher é encontrada ao lado do corpo de um homem assassinado. No decorrer dos episódios, as coisas vão ladeira abaixo, contando com uma personagem que é assassinada junto com seu parceiro, depois do sexo, por uma entidade não identificada. Ele está vestido com a parte debaixo da roupa, mas ela está coberta somente com roupa íntima. O nome desta mulher nunca é revelado, tornando-a somente mais um corpo. Outra mulher cujo nome também não sabemos e termina assassinada de uma forma parecida é a namorada do Evil Cooper, que aparece na série por minutos, quando ele fala que irá matá-la por estar traindo-o e a segura de forma sexual ao mesmo tempo que a violenta para em seguida atirar na sua cabeça. Ela é deixada em um quarto de motel barato somente de lingerie. E não vamos esquecer de Richard Horne (Eamon Farren) entrando na casa de sua avó, Sylvia Horne (Jan D’Arcy), agredindo-a e ameaçando-a enquanto a rouba e a deixa jogada no chão chorando em pânico, dando indícios em cena de que isso já acontecera diversas vezes antes.

Becky (Amanda Seyfried) é agredida pelo seu marido, Steve (Caleb Landry Jones), introduzido na trama como um cara agressivo e usuário de metanfetamina. Carl (Harry Dean Stanton), dono da área em que fica o trailer onde eles moram, está do lado de fora tocando violão. Ele percebe a agressão, balança sua cabeça e lamenta a violência, mas não faz nada. Por que em briga de marido e mulher não se mete a colher, certo? Não era esse o ditado que ouvimos por décadas? Vinte e poucos anos antes, o mesmo aconteceu com sua mãe, Shelly Johnson (Mädchen Amick), quando ela ainda era casada com Leo Johnson (Eric DaRe). Mãe e filha têm um histórico de se apaixonar por homens violentos, traficantes de drogas e que não querem trabalhar muito, deixando todo o serviço da casa e dinheiro fixo para elas. Shelly foi ameaçada de morte e conviveu com a violência diariamente em sua casa, antes de voltar a namorar o pai de Becky, Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e foi graças a um acidente que resultou na paralisia e, eventualmente, na morte de Leo que ela encontrou forças para voltar a ter o controle da sua vida. Assim como foi necessário o suicídio de Steve para Becky ficar livre — ou assim esperamos, já que não sabemos o seu fim. O problema reside em ambas serem mulheres fortes, sobreviventes do histórico de homens violentos em suas vidas, mas ainda assim é necessário que eles saiam de cena em consequência de algum motivo causado por eles mesmos para que elas ganhem força. Em nenhum momento elas exercem poder ao se impor e decidir mudar de vida e seu futuro por elas próprias; cabe a Steve tirar sua própria vida para o caso de Becky ser resolvido, e Bobby ajudar a planejar o acidente de Leo no caso de Shelly. Elas não demonstram controle nenhum sobre suas vidas, sempre contando com a ajuda de outro homem para resolver seus problemas.

Não somente de violência vive a série, que carrega, além disso, vários estereótipos de gênero: Tammy (Chrysta Bell), a nova detetive que acompanha Gordon (David Lynch) e Albert (Miguel Ferrer) é jovem e bonita. O primeiro comentário feito quando a veem é se está dormindo com Gordon. Ninguém fala da sua competência para ter conquistado uma posição tão alta. Nunca perguntariam isso para um homem e sua aparência nunca seria relevante para tal posição. Tammy acaba, para surpresa de algumas pessoas, sendo uma agente excelente que descobre informações importantes que ajudam a solucionar o caso principal da nova temporada — o Cooper bom e o ruim —, mas como personagem é pouquíssimo desenvolvida. Outra personagem famosa desde a série clássica por ajudar um oficial do FBI, o agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan), a entender e solucionar parte do mundo sombrio de Twin Peaks é Audrey Horne (Sherilyn Fenn). Diferentemente de Tammy, Audrey foi uma personagem com bastante profundidade, importantíssima no desenrolar da série, e uma das mais adoradas pelos fãs, mas, ainda assim, ela era uma jovem de 19 anos, muito mais nova do que Dale, já em seus trinta e poucos, e por isso era inicialmente vista, inclusive pelo próprio agente, como uma jovem que estava apenas metendo o nariz onde não era chamada. Foi necessário Audrey provar para Dale, e para o público, que não era uma jovem “comum” (como se houvesse algum problema nisso) tomando iniciativa na investigação que conduzia a trama. Infelizmente, na nova temporada, enquanto a inédita Tammy teve um tempo de tela notável, mas com pouquíssimo desenvolvimento, a aparição de Audrey — uma das mais esperadas pelos fãs da série — foi mínima, nem um pouco importante para a trama e, ao que tudo indica, resumiu a vida daquela jovem ambiciosa e inteligente a uma mulher louca que ficava gritando o nome do seu possível amante para o marido, deixando ainda mais evidente que mulheres jovens são interessantes enquanto mulheres mais velhas são descartáveis e quando expressam ou mostram seu descontentamento com alguma coisa são consideradas loucas.

Beverly Paige (Ashley Judd), secretária do Great Nothern Hotel, empreendimento do pai de Audrey, por sua vez, aparece na série por poucos minutos e sua única função é ficar procurando um barulho com seu chefe, Benjamin Horne (Richard Beymer), e trocar flertes na hora do trabalho. Afinal, mulheres só servem para isso: servir os homens e seduzi-los. Candie (Amy Shiels), Mandie (Andréa Leal) e Sandie (Giselle DaMier), três companheiras/serventes dos irmãos Mitchum (Jim Belushi e Robert Knepper) que os seguem para onde vão, mesmo aparecendo em quase todos os episódios, não têm praticamente nenhuma fala. Das três atrizes, somente uma delas fala pouquíssimas vezes. Todas parecem estar sempre no mundo da lua.

Por último, mas definitivamente não menos importante: Laura Palmer. A rainha do colégio que nunca pode ser ouvida, nunca realmente teve uma cena na série, e acaba sendo somente mais uma das várias garotas mortas em que sua única relevância está na questão sobre como os outros, principalmente os homens, se sentem sobre isso. Apesar do fantasma da Laura estar em todos os personagens e na cidade de Twin Peaks, não foi até o filme, feito anos depois de a série ser cancelada, que conhecemos, em seus últimos dias, um pouco de quem era e o que realmente acontecia em sua vida. Ela foi, sim, um gatilho para toda a trama, mas poderia, em diversos momentos, ter sido relembrada como mais do que uma menina bonita e problemática — claramente sendo uma personagem obscura que fazia coisas erradas, já que meninas boas vão para o céu e meninas más vão para o inferno, como diria o ditado popular — vivendo uma vida dupla com medo de ser julgada por quem era, inclusive por si mesma.

Há 26 anos, Twin Peaks contou com diversas personagens femininas que, por menor que fosse seu tempo em tela, acrescentavam algo a história — Audrey Horne, Shelly Johnson, Donna Hayward (Lara Flynn Boyle), e outras que não receberam atenção durante a nova temporada — em uma época em que o papel das mulheres era muito mais estereotipado do que hoje. Então, o que mudou agora? Deveríamos falar que o mundo ficou mais violento contra as mulheres ou mais aceitável perante a isso nas duas últimas décadas antes do movimento feminista ganhar mais popularidade? Twin Peaks nunca foi igual ao resto do mundo. Ela sempre foi uma cidade em uma realidade alternativa, diferente de todas as outras séries por aí. Esse foi e ainda é um dos fatores que a tornava tão interessante, então como reagir a essa nova temporada? Como fã, posso dizer que é decepcionante e parece um retrocesso. Existem boatos de que mais uma temporada esteja pode vir daqui a uns bons anos e, pela primeira vez, espero que seja verdade para essas mulheres terem justiça. Para que nós mulheres tenhamos justiça em como somos retratadas na televisão. Para não sermos o meio para um fim. Senão, é melhor que esse tenha sido o fim definitivo da própria série.

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5 comentários

  1. Sim!!! Concordo totalmente, Tany. Foi bem decepcionante. Uma das coisas que mais me incomodou logo no início foi a única personagem negra que apareceu ao longo da série (que minha nossa, como falta representatividade), ser uma prostituta que durante metade de seu tempo de tela apareceu completamente nua. Desnecessário, hipersexualizado e racista. A única gorda que aparece, quase não fala e o filho da Audrey a espanca quase até matá-la, inclusive ele acha que a mata, por isso larga ela lá. Eu fiquei para entender se o Lynch queria dizer alguma coisa com isso, sobre a banalização da violência contra a mulher e hipersexualização da mulher negra, mas também não acho que se há uma crítica deveria ter sido feita dessa forma. Fiquei com um grande WTF? Parece que ele só reforçou um monte de estereótipos e ficou nisso aí mesmo, não se aprofundou em nada e só se apegou na parte mística da coisa que para mim nunca foi o que me motivou a gostar da série e sim a construção das personagens. Fiquei bem chateada.

  2. SENTA QUE LÁ VEM TEXTÃO. A pessoa não pode ver qualquer coisa sobre Twin Peaks que nossa.

    Entrei em um monte de briga no Reddit durante a temporada por dizer exatamente isso o que você expos aqui sobre a hipersexualização e violência desnecessárias nessa temporada. Isso foi algo que nunca senti nos filmes do Lynch – Mulholland Drive é um dos filmes da minha vida com personagens maravilhosas – e nem no TP original. Inclusive vou discordar de ti no esterótipo de Garota Morta da Laura – pra mim, mesmo aparentemente ela caindo no trope, o fato de ela ser desenvolvida em Fire Walk With Me e no livro meio que quebra isso.
    Voltando ao Return – e o colocando em contraste com a série original – o desenvolvimento das personagens femininas é absurdo de destoante. As únicas mulheres que meio que têm o controle da própria vida são a Nadine e a Norma, um pouco a Chantal e a Janey-E (minha personagem preferida nessa temporada) e talvez a Diane mas não sei bem o que pensar, haha. Inclusive, se deixar eu faço mais um textão só sobre o ranço que peguei do instalove do Cooper com a Diane, então melhor nem começar. A Tammie provou ser uma excelente agente, principalmente quando a gente leva os livros em consideração, mas o male gaze gritou mais que isso. Fora a nudez desnecessária que desde o primeiro capítulo me deixou desconfortável.