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Histórias protagonizadas por personagens masculinos e seus reflexos no Oscar

Os indicados ao Oscar 2020 reproduzem um conhecido padrão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e da indústria do entretenimento, de modo geral: a falta de diversidade e — principalmente — de proporcionalidade. Em particular, com relação às mulheres. Mais uma vez nenhuma mulher foi indicada ao prêmio de Melhor Direção, apenas uma pessoa negra (Cynthia Erivo) foi indicada nas categorias de atuação e vários nomes elogiados pela crítica foram ignorados. É o caso das atrizes Lupita Nyong’o (Nós), Jennifer Lopez (As Golpistas) e Awkwafina (A Despedida), além das diretoras Lorene Scafaria (As Golpistas), Kasi Lemmons (Harriet), Lulu Wang (A Despedida) e Melina Matsoukas (Queen & Slim), só para citar algumas.

Greta Gerwig, indicada a Melhor Direção em 2018 por Lady Bird, era uma das apostas para a categoria com Adoráveis Mulheres. No entanto, o longa conta apenas com indicação a Melhor Roteiro adaptado e Melhor Filme. Tudo isso logo após o ano em que doze dos cem filmes de maior bilheteria foram dirigidos por mulheres. Ainda que seja pouco, o registro é um recorde já que essa é a melhor porcentagem da última década e meia, segundo o Inclusion in the Director’s Chair: Analysis of Director Gender & Race/Ethnicity Across 1,300 Top Films from 2007 to 2019. Sendo assim, a justificativa de que mulheres recebem menos indicações porque fazem menos filmes não cabe mais.

Outras premiações relevantes da indústria, como Globo de Ouro e o BAFTA, que acontecem anteriormente ao Oscar, também não indicaram mulheres na categoria de Direção em 2020. O que reforça a tese de que há, nos votantes, uma nítida falta de interesse em olhar para fora da própria bolha. Exemplo disso é o caso das primeiras exibições de Adoráveis Mulheres que contavam com público predominantemente feminino simplesmente porque homens não estavam indo às sessões. Vale destacar que, mesmo após pressões para dobrar mulheres e outras minorias entre seus membros até 2020, atualmente a Academia responsável pela votação do Oscar segue sendo composta por 68% de homens e 84% de pessoas brancas.

personagens masculinos

Some a isso o fato de que “existe uma crença sistêmica de que histórias sobre homens importam mais do que histórias sobre mulheres”, segundo Amy Pascal, ex-presidente da Sony Pictures e produtora de Adoráveis Mulheres. Dessa forma, não há como descartar que existe uma relação direta entre essa rejeição sexista e o desempenho de filmes dirigidos por mulheres nas premiações.

“Não é que os prêmios sejam árbitros do progresso ou que eles devam ser determinados com base em representatividade. Mas eles conferem importância (…) estabelecem o molde daquilo que é considerado cinema bom, sério e ‘importante’, e esse molde ainda diz que histórias de homens são as principais, a configuração padrão, a norma. Todo resto é um desvio”, escreveu Adrian Norton para o jornal The Guardian.

Ainda sobre a percepção do público, em artigo para a Folha de São Paulo, a cineasta Marina Person observa o fato de o Retrato de Uma Jovem em Chamas, um drama lésbico, é recebido de forma diferente por homens e mulheres:

“Ao me deparar com a crítica de Inácio Araújo de Retrato de Uma Jovem em Chamas, publicada na Folha em 8 de janeiro, ficou evidente que esse não é um filme que fala à maior parte do público masculino. Penso nisso quando vejo que eu e minhas amigas adoramos o filme, e meus amigos homens não acharam tanta graça. Para além das discussões de existir um cinema masculino ou feminino, não podemos negar que há grande variação no que sensibiliza mais ou menos um grupo”. 

Marina conta que quando fez faculdade, no fim dos anos 1980, não se questionou sobre a quase total ausência de mulheres citadas durante as aulas. Até entrar para o mercado audiovisual e dirigir seu primeiro longa. A partir daí ela começa a pensar sobre o desequilíbrio que há na indústria e faz coro também sobre a importância de críticas mulheres para que filmes como o longa francês não fiquem restritos a perspectiva de um único gênero.

Ainda na Folha, Helen Beltrame-Linné traz uma declaração da diretora de Retrato de Uma Jovem em Chamas, Céline Sciamma, que sintetiza como esse desequilíbrio acaba refletindo na identificação do público com o que é retratado em tela: “O cinema foi construído pelo olhar masculino, isso forjou meu imaginário cinematográfico”. E não só masculino, como também predominantemente branco, magro, hétero, eurocêntrico e/ou americanizado.

A mesma ideia é defendida por Glênis Cardoso, editora da revista Verberenas, no artigo “Reflexões Sobre Universalidade”. Segundo ela, historicamente a maioria das narrativas produzidas pela indústria cultural foram protagonizadas por personagens masculinos, afinal essa mesma indústria sempre foi comandada por homens (brancos). E esses mesmos homens queriam contar histórias sobre eles, ainda que de variadas formas. Mas geralmente sobre eles. Então, décadas e décadas com tantas histórias protagonizadas pelo mesmo padrão de personagens masculinos criou-se no imaginário do público consumidor de cinema uma noção de que existia uma universalidade nessa representação.

“Embora homens brancos heterossexuais componham uma parcela muito pequena da população mundial, eles se tornaram porta-vozes do que quer dizer ser humano e todo o resto do mundo tem que ouvir e empatizar com eles”.

personagens masculinos

Se por um lado as mulheres foram naturalmente condicionadas a ter empatia por personagens masculinos pelo simples fato da grande maioria das tramas serem protagonizadas por eles, dotados de diferentes camadas e complexidade, o mesmo não necessariamente aconteceu com os homens, como expõe Max Valarezo no vídeo ensaio “Me identificando Com Personagens Femininas”:

“Não fomos condicionados da mesma forma a nos identificar com personagens femininas porque o número de histórias que consumimos sobre protagonistas mulheres foi historicamente muito menor. E essa disparidade entre tramas sobre homens e tramas sobre mulheres têm um reflexo claro na identificação que o público sente”.

E por ser um número menor, a chance de encontrar uma personagem feminina que fale diretamente a um indivíduo também é menor. Mesmo assim, é inegável que há mudanças acontecendo, mas elas ainda são relativas se postos em comparação ao tempo que levaram para acontecer e a quanto ainda pode ser alcançado.

De volta ao Oscar 2020, há uma categoria não delimitada a gênero em que as mulheres se destacaram, a de Melhor Documentário. Dos cinco filme indicados, quatro foram dirigidos ou codirigidos por mulheres, entre eles Democracia em Vertigem, da brasileira Petra Costa. Também concorrem ao prêmio Indústria Americana, de Julia Reichert e Steven Bognar; For Sama, de Waad Al-Khateab e Edward Watts; e Honeyland, de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov. Mas como bem disse Greta Gerwig ao jornal El País: “Existe um impulso de contratar mais mulheres e colocar seus filmes no centro da conversa. Mas eu também diria que, para os estúdios, é como comer verdura”, ou seja, algo feito mais por obrigação do que por convicção. “Hollywood não se importa de onde vem o dinheiro, desde que venha. Eles perceberam que os filmes dirigidos por mulheres como Mulher Maravilha ou As Golpistas funcionam financeiramente”.

Além de receber críticas por manter as diretoras de fora, as escolhas da premiação também foram questionadas com relação ao modo como tratam suas personagens femininas. Em O Irlandês, por exemplo, Anna Paquin teve apenas sete falas, e em Era Uma Vez… em Hollywood, Margot Robbie também ficou a maior parte do tempo em silêncio, no papel de Sharon Tate. Mais do que isso, outros longas que estão na competição são considerados expressões da frustração de personagens masculinos em meio a um mundo que busca constantemente reavaliar conceitos e padrões. É o caso de Ford vs. Ferrari, História de Um Casamento e — principalmente — Coringa. Para a professora da Universidade do Sul da Califórnia, Stacy L. Smith, em entrevista ao jornal New York Times, afirma que o modelo do que é ser um líder e, nesse caso, um diretor, ainda é masculino e isso explica o porquê de mulheres ainda não serem indicadas em premiações de forma proporcional a quantidade que é produzida por elas. Sendo assim, não é a toa que olhar e consumir produções que fogem do padrão e contam histórias mais abrangentes do que aquelas protagonizadas por personagens masculinos possa fazer toda a diferença nesse cenário.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Vieira.

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