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Mesa-redonda: Coringa e o retrocesso de Hollywood

Com onze indicações ao Oscar, Coringa talvez seja o mais controverso dentre os principais filmes selecionados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas este ano. Mesmo antes de seu lançamento, no segundo semestre de 2019, o longa já havia recebido o reconhecimento de grandes festivais de cinema, incluindo o Festival de Veneza, onde ganhou o Leão de Ouro, e, mais recentemente, Joaquin Phoenix foi agraciado como Melhor Ator pelo Screen Actors Guild Awards, pelo Globo de Ouro e pelo BAFTA. São vitórias importantes, é claro, mas que também evidenciam questões mais complexas, tanto de origem social tanto quanto originadas na própria indústria cinematográfica — esta última, da qual vemos apenas as consequências. Muitas são as histórias sobre homens à beira da loucura (homens brancos, sobretudo), que recorrem à violência como resposta para suas frustrações, reiterando a ligação entre virilidade e violência. Mas até que ponto elas são apenas ficção e quando elas se tornam, de fato, um problema?

Atenção: o texto contém spoilers

MIA: Coringa é um desses filmes contraditórios. Indicado a onze categorias no Oscar, ele possui diversos pontos que merecem um debate aprofundado, dentre eles saúde mental e maternidade no cinema. Divisor de opiniões, parece ser um daqueles filmes que ou se ama ou se odeia. No entanto, nada é tão simples assim em Gotham. Começo perguntando: vocês acham que ele merece todas essas indicações?

DANIELLE: Eu acredito que é um filme a ser debatido. Se vale todas as indicações, também precisa de discussão, pois como você disse, ele também é contraditório. Acredito que a indicação para Joaquin Phoenix foi até merecida devido a sua atuação. Para além disso, algumas indicações podem ser superestimadas. Por conta disso, é necessário um grande debate sobre cada uma delas.

MIA: Eu tenho muitas questões com a atuação do Joaquin Phoenix. Ele é um bom ator, mas sua atuação em Coringa não é a melhor de sua carreira. Fora que me parece que ele mais está sendo indicado por ter passado por um processo árduo no set do que pela atuação em si.

ANA LUÍZA: Não acho que merecia tantas indicações. A bem da verdade, foi um filme de que gostei bastante, mas não acho que o fato de ter gostado o torne automaticamente um filme bom, nem um filme merecedor de tantas indicações em prêmios importantes (que poderiam ir para filmes mais relevantes, inclusive) ou que ignore os problemas dele. Acho que mais até do que ter sido indicado, ser indicado nesse momento específico é muito infeliz justamente porque ele traz um tipo de discurso que a gente não precisa que seja endossado. Isso serve tanto para a questão da maternidade quanto no suposto discurso político, das massas que movimentam uma revolução cujo rosto é um assassino, os crimes de um underdog que parecem ser justificados pelo simples fato de sê-lo.

Coringa

DANIELLE: Acredito que todo o conjunto do filme obteve a indicação pela valorização em exagero do longa. Na minha visão, o Joaquin teve uma boa atuação. Acho que ele foi o menor dos problemas em relação a Coringa. Talvez seu maior problema seja o roteiro meio raso.

MIA: Concordo contigo. A atuação dele é o menor dos problemas mas, ainda assim, acho que foi uma indicação exagerada. No entanto, o roteiro raso é realmente algo que me deixou irritada pois, com um personagem central como o Coringa, não é fácil errar a mão, já que qualquer coisa com esse nome faria sucesso, ainda mais com o Phoenix liderando o protagonismo. Mas o roteiro tem tantos problemas que fiquei verdadeiramente desanimada ao perceber que passaria duas horas e pouco naquela sessão para… aquilo.

ANA LUÍZA: É bem a cara do Oscar premiar atores que passaram por um processo complicado de preparação para certos personagens; na história recente, a gente pode facilmente olhar pra pessoas como Gary Oldman e Eddie Redmayne e ver isso — não que as atuações tenham sido ruins, na realidade, porque algumas são de fato merecedoras. Mas eles gostam de premiar quem se doa dessa maneira, embora isso não necessariamente queira dizer que alguém é um bom ator. Joaquin Phoenix é um ótimo ator, mas tem seus momentos; acho que Coringa acaba sendo muito carregado por ele, já que Todd Phillips faz um trabalho bem precário na direção, e o roteiro é também bastante problemático. Então ele é o filme.

MIA: E um bom ator não basta para segurar um filme. Fora que me incomoda demais essa glorificação hollywoodiana do sofrimento masculino. Phoenix emagreceu um monte, teve o psicológico danificado e chegou a se machucar fisicamente durante as gravações? Sim, mas isso deveria ser motivo de denúncia contra os responsáveis por essa produção que não cuidam do bem estar dos atores e não ser recompensado com indicações ou mesmo eventuais prêmios.

ANA LUÍZA: Às vezes até segura, mas são casos isolados; a transformação, por outro lado, não segura. E é uma tradição muito antiga essa, de glorificar o quanto o artista se doa, como se isso fosse suficiente para separar os bons artistas dos maus. E não é. Outras pessoas que concorrem ao Oscar e que concorriam a outros prêmios tiveram desempenhos bem mais significativos, muito mais fortes até, mas a sutileza não é necessariamente o que conta nesses casos — raramente é. E a mensagem que se passa, de que esse tipo de coisa é o que define os grandes atores, é realmente problemático, faz as pessoas se submeterem a coisas que nenhum ser humano deveria (o que também serve pra diretores abusivos que assumidamente são tidos como gênios, etc etc).

MIA: A Jessica Bandeira, uma das nossas editoras, publicou a crítica de Judy recentemente, falando sobre como Judy Garland sofreu diversos abusos em sets de filmagem para construir sua carreira. No entanto, ela não foi valorizada nem metade do que o Joaquin é. Nada contra ele, mas aí podemos perceber como essa questão da glorificação do sofrimento masculino é uma coisa de gênero. Mulheres sofrem e tudo bem, homens sofrem e são aclamados.

DANIELLE: Eu também concordo que para o momento atual, o roteiro pode promover um discurso de revolução com a cara de assassino. Eu lembrei de quando estavam comentando sobre o longa ter uma narrativa “que incita o ódio aos ricos”, eu realmente acreditei que o roteiro teria algo mais profundo sobre uma discussão de classe. E não simplesmente do por que a “raiva” aos ricos. Não teve uma discussão coerente sobre a questão de classe. Foi jogada de forma rasa, faltou aspectos a serem abordados.

Este é outro ponto. Por que o ator precisa se submeter a todo esse tipo de abuso para poder fazer um papel bom em um filme?

Coringa

MIA: Existe uma discussão muito rasa ali. A questão da saúde mental do personagem é toda jogada, primeiramente, no Estado, que falha com as pessoas pobres, especialmente com aquelas que precisam de auxílio. Mas, num segundo momento, toda a culpa é jogada na mãe do Arthur, como se ela fosse a grande vilã por ser, ela mesma, neuroatípica. E nenhum tema é desenvolvido, nenhuma dessas conclusões possui sequer um esboço de desenvolvimento. Somos jogados num enredo que nos aponta culpados, mas não nos explica os porquês, nem mesmo nos mostra como, de fato, se poderia lidar com isso para além de quebrar coisas e atirar em pessoas. E ainda se coloca esse homem como herói do povo. Claro, a ficção não precisa ter moralidade, não estou aqui para discutir isso. Mas não vejo a narrativa caminhando para a construção de uma figura popular entre palhaço assassino e população. É tudo jogado na nossa cara, sem aprofundamento algum, sem construção de personagem que vá além do umbiguismo do Arthur… é tudo raso demais.

DANIELLE: Exatamente. Em diversos filmes há sempre uma culpabilização da mãe. Conhecemos os problemas do personagem e depois entendemos que a mãe “causou” a dor daquele protagonista, como aconteceu com o Coringa. E isso naturaliza e até justifica a morte dele, o assassinato, melhor dizendo. A história da mãe foi mal desenvolvida de fato para que a gente tivesse uma certa compaixão sobre o Coringa. Muito arriscada a narrativa.

ANA LUÍZA: Sem dúvida. É um filme que tenta ser inteligente quando na verdade ele não é; que tenta alcançar um negócio que, no fundo, ele não está realmente interessado — e aí entra o grande problema da direção. Particularmente, gosto de filmes que não dão respostas concretas, que deixa a cargo do espectador refletir sobre as coisas. Mas Coringa é tendencioso, ele dá respostas ao mesmo tempo que não dá, de um jeito ruim, porque não sabe direito o que está fazendo. Ele funciona perfeitamente como entretenimento, e nesse sentido gosto bastante dele, mas é um filme que tenta ser político tão equivocadamente que não ajuda em nada, só reforça padrões que a gente já se cansou de ver. Colocar a culpa na mãe do Arthur é uma questão muito problemática, por exemplo, e absolutamente desnecessária — não porque mães são seres iluminados que devem viver pros filhos; essa é outra visão que temos que reverter também. Só que a questão não é de todo trabalhada, não tem a profundidade que mereceria uma relação tão complexa. A mesma coisa com a questão do serviço de saúde pública que deixa seus cidadãos à mercê da própria sorte. Poderia ser um tema explorado mais enfaticamente, porque é de fato um problema, e um problema real; basta olharmos para o nosso próprio serviço de saúde pública para percebermos o quanto é preciso melhorar, quantas são as pessoas que precisam de atenção e como a sociedade é prejudicada por esse descaso que parece afetar apenas indivíduos, mas que no fundo afeta todo mundo. Nada é individual quando se fala em sociedade. Mas o filme também não quer isso. Arthur desencadeia uma revolução, é o rosto da luta dos fracos e oprimidos, ele próprio um fraco e oprimido socialmente, embora ainda se trate de um homem, e um homem branco, ainda por cima, e é uma visão que acaba sendo muito moralista, que coloca a classe desfavorecida como que responsáveis pela bagunça, pelo crime, pela balbúrdia; não é um filme que se dedica a entender por que essas coisas acontecem em primeiro lugar, o que é meio o que a gente vê acontecer o tempo inteiro.

MIA: Amiga, eu acho que é bem isso que tu falou. Enquanto entretenimento, tudo bem. Mas ele se propõe a ser político, se vende como um filme político, no entanto, o discurso é raso e culpabilizador. Talvez não me incomodasse tanto com ele se fosse apenas mais um filme, mas é um filme bancado por um estúdio grande, que fez uma campanha imensa e está concorrendo a muitos prêmios e sendo enaltecido na award season. Sendo que ele está longe de ser um filme suficientemente bom para isso. Existem muitos, muitos filmes melhores, mais aprofundados, inclusive politicamente, que não foram sequer cogitados para o Oscar (Us, estou falando de você). É bem complicada essa discussão, mas me incomoda muito todo o burburinho que se criou em cima de um filme fraco.

ANA LUÍZA: Sim, é um ponto que me incomoda muito também. E aí a gente pensa nas declarações do Todd Phillips dizendo que o filme não é político e é notório que ninguém parece ter a menor ideia do que estava fazendo com ele durante o processo de produção.

O que a Dani disse sobre ser uma narrativa arriscada também é muito verdadeiro. Ainda na época de Cavaleiro das Trevas, mais de dez anos atrás, Christopher e Jonathan Nolan, que escreveram o roteiro, falaram que não queriam dar uma história pregressa para o Coringa justamente para não correrem o risco de humanizá-lo, de não tornarem suas atitudes justificáveis, de certa maneira. E eu acho isso muito sensato. Falar sobre como ele se tornou um vilão pode parecer uma boa ideia no início, mas não necessariamente é uma boa ideia se pararmos para pensar no que ela pode fazer: transformá-lo em algo que não o homem mau. E o Coringa é mau. Gosto muito que ele nunca teve uma história definitiva, como o mau que existe por si só, o rei do caos e da maldade, o que é bom de se pensar também; nem toda maldade é justificada, algumas pessoas são apenas seres humanos horríveis, e eu não quero enxergá-lo como alguém que foi moldado para ser dessa forma — e especialmente não por uma suposta culpa da mãe e definitivamente não como um reforço de que pessoas mentalmente instáveis são más ou tendem a sê-lo.

Coringa

DANIELLE: Eu acredito que o problema não é humanizar o Coringa. Acho até bom desmitificar, como se ele fosse um monstro. É bom mostrar que ele é um homem que gosta apenas do caos, um homem que é um psicopata. Conhecer história dessas não é ruim. E nem ver que eles são de fato humanos. O problema do filme é trazer sua origem, tentando justificar por que ele é o que é, mas não conseguem assumir que o Coringa quando assumiu o risco de matar alguém, ele fez isso e precisa ser responsabilizado. Para além de sua saúde mental. Não fazer como fizeram de colocar apenas na conta da mãe ou da saúde pública. Pode-se mostrar que sim, o governo pensa apenas no lucro, que ele não teve o tratamento adequado, mas como vocês já citaram era preciso uma discussão maior sobre tema. E mostrar a linha tênue de quando o Coringa passou do oprimido ao real opressor, quando escolheu matar por matar. Esses pontos poderiam ser abordados. Mas levando em consideração que ele foi um filme que quis trazer uma narrativa mais política, sobre saúde mental, sobre classe, eles apenas jogaram as informações pra gente comprar que o Coringa fez o que fez por diversos fatores. Mas foi tudo de forma muito mal contada.

MIA: Eu acho muito complicado humanizar o Coringa porque ele é um dos maiores vilões justamente por não se importar, por ser um psicopata de fato. E justificar toda a agressividade dele com problemas psicológicos… isso não me parece humanizar, me parece simplesmente uma narrativa mal-desenvolvida e preconceituosa. Por muito tempo, pessoas com deformidades ou neuroatípicas foram as vilãs de filmes e livros. Agora, parece que isso está voltando. E é muito perigoso seguir por esse caminho. Fora que descaracteriza completamente a figura do Coringa cuja única diferença psicológica é ser um psicopata, e não ter aquele caminhão de transtornos que aumentam o drama, mas não a empatia. Mas Todd Phillips é o mesmo homem que disse que é impossível fazer comédia atualmente por causa do politicamente correto, né. Não dá para esperar muito dele.

ANA LUÍZA: Humanizar é um negócio muito problemático nesses casos. Eu não acho que o argumento da Dani de que entender que tratam-se de homens, não de monstros, esteja errado, no entanto. Na verdade, acho que isso é importante, até pra termos uma noção de que essas pessoas podem estar em literalmente qualquer lugar e serem literalmente qualquer pessoa. Só que, ao mesmo tempo, é muito fácil passar a mão na cabeça do homem branco underdog. E justamente porque a linha que o separa de ser o oprimido para se tornar opressor é muito tênue, o filme acaba perdendo a mão. É preciso ter muita sensibilidade para abordar uma questão dessas, o que o Todd Phillips definitivamente não tem — e ele não é o único, na verdade, porque o que mais temos são histórias sobre serial killers e psicopatas que se tornam verdadeiros heróis.

DANIELLE: É isso, Ana. Eu acho que a direção seria mais ou menos essa. Colocá-lo como um homem que poderia ser qualquer um. Mas no caso do Coringa é verdade que ele ultrapassa o limite do “ser qualquer um” e eu acho que por isso concordo que seria difícil humanizá-lo. Talvez com outro roteiro e narrativa. No entanto, da maneira como foi escrito deu uma visão muito anarquista da maneira errada. Não é sobre o oprimido que está lutando para conseguir o seu espaço. É sobre o homem branco que sofreu uma opressão de classe e decidiu descontar em toda a sociedade, porque acha que, de alguma forma, todos ficaram devendo pra ele. E acho que por isso vou concordar que é difícil humanizar o Coringa.

MIA: Talvez com outro diretor, outro roteirista, o filme tivesse sido melhor. Com um aprofundamento, até poderia tratar de questões de saúde mental sem ser problemático. Mas, infelizmente, não é o que tivemos.

ANA LUÍZA: E mesmo assim ainda poderia dar errado, né. Por outro lado, a Academia costuma ter um problema com filmes baseados em quadrinhos de super-heróis. Vocês acham que as múltiplas indicações de Coringa é um passo nesse sentido ou o filme foge ao gênero? E mais: será que ele realmente vai ganhar tantas estatuetas quanto foi indicado?

Coringa

MIA: Acho que Coringa não é considerado um filme de herói. Apesar de seu personagem central ter saído dos quadrinhos e fazer parte das histórias do Batman, ele foi vendido como um drama, sua roupagem é de drama. Não há grandes ações, há sofrimento e reação. Não vejo isso como um passo além da Academia nesse sentido.

DANIELLE: Se por um lado Coringa não é visto exatamente como de herói, por outro lado, ao mesmo tempo é. Eu acho que é um filme baseado nos mundos dos heróis que as pessoas veem como uma narrativa de vilão e sobre a sociedade. E não exatamente sobre acontecimentos de lutas entre vilões e heróis. Mas eu acho que pode abrir um espaço para outros do gênero.

ANA LUÍZA: Também acho que ainda é um filme baseado em um personagem de quadrinhos, mas justamente essa roupagem de drama faz ele passar como outra coisa, pelo menos aos olhos da Academia. Definitivamente ele não é um filme de ação ou de aventura, então certamente não é um filme de herói tradicional e não representa nenhum avanço nesse sentido. Ainda assim, me surpreende que ele tenha passado tão facilmente no prêmio; se a resistência deles é tão grande, basta uma abordagem diferenciada pra que eles considerem o filme como um candidato válido?

MIA: Acho que é isso. Eles querem ver drama, não ação. Mas gostaria que mais filmes de heróis fossem reconhecidos, porém filmes bons, como foi o caso de Pantera Negra, no Oscar passado. Quanto aos prêmios… tudo ele não ganha, mas vai levar algumas coisas. Ele é um dos grandes favoritos, talvez O Grande Favorito, o que não é tão espantoso, se pensarmos nos votantes.

DANIELLE: Eu ainda acho que ganha o prêmio de Melhor Ator, visto que ganhou no Globo de Ouro. Posso estar enganada. As outras indicações não acho que leva. Principalmente Melhor Filme que acredito que quem vai ganhar é Parasita. E que torço pra que ganhe.

MIA: Duvido que Parasita ganhe, dificilmente a Academia premia um filme estrangeiro como Melhor Filme. Acho que 1917 pode levar, mas Coringa tem boas chances, infelizmente. No meu coração, Parasita e Little Women são os grandes vencedores.

DANIELLE: Vocês acham que ele teve um apelo muito grande mesmo quando ainda não tinha sido lançado? Depois de seu trailer o que mais se falava era em Oscar. Entre os fãs da DC, eu mesma sendo fã, vi muita apelação sobre o filme. Claro que isso não é o suficiente. Mas achei até inusitado.

ANA LUÍZA: Eu achei que ele fosse acabar esfriando ou que talvez, justamente por causa do hype, os votantes fossem acabar ignorando. Não imaginei que fosse uma possibilidade real, embora, claro, quem é indicado e quem não é acaba sendo mais uma questão de quem conhece quem do que da qualidade dos filmes em questão.

DANIELLE: Eu também achei que iria acabar esfriando essa excitação pelo filme. Quando assisti senti gosto de que faltava mais para ser exaltado como foi.

ANA LUÍZA: No final das contas, não acho que ele vá realmente ganhar tantos prêmios quanto foi indicado, mas a visibilidade que ele ganha com a indicação por si só já é um problema. Fora que deve levar categorias importantes. Joaquin deve ganhar o de Melhor Ator e embora eu não ache que vá ganhar como Melhor Filme, a lamentável direção do Todd Phillips tem chances reais de ser premiada — o que é um absurdo, mas quando a Academia não foi absurda?

DANIELLE: Sim, concordo. Você acha que o nome do Todd é o mais forte dos candidatos?

ANA LUÍZA: Não necessariamente o mais forte, mas um dos que têm uma chance real de levar a estatueta pra casa. Não é minha torcida, claro, mas ainda assim.

MIA: Ele é um dos favoritos, infelizmente.

DANIELLE: Eu não acho que ele vá levar as indicações relevantes, a não ser para o Joaquin como Melhor Ator.

MIA: Acho que o Joaquin vence, mas torço pelo Adam Driver por diversas razões, mas especialmente porque não é certo premiar uma atuação para glorificar o sofrimento de um ator. Isso deveria ser denunciado, não premiado.

DANIELLE: Eu concordo. Isso fica sempre naturalizado.

MIA: Pra mim, essa é a grande discussão que esse filme suscitou: como o sofrimento masculino é glorificado em Hollywood, ao passo que o feminino é visto como mais do mesmo. E me incomoda não ser essa a discussão geral, já que o filme, como conversamos, é fraco em outros pontos e não possui uma discussão aprofundada em nada. Fico realmente chateada quando filmes problemáticos como esse são enaltecidos e não existe uma discussão maior a respeito do porquê.

ANA LUÍZA: Na verdade, acho que ele suscita até mais discussões — o grande problema é como faz isso. Mas se fosse pra tirar algo válido daí, acho que seria justamente isso. Até que ponto a arte justifica a degradação? A dor? O sofrimento? Queria que tivéssemos mais discussões a esse respeito. Mas definitivamente é um padrão, por mais problemático que seja. Até quando a gente vai ver esse tipo de coisa? São quase 100 edições do Oscar. Acho que já passou da hora de repensarem os critérios utilizados na hora de escolher os premiados.

MIA: Na minha opinião, isso só vai começar a mudar quando existir diversidade entre os votantes da Academia.

ANA LUÍZA: E essa diversidade, de fato, vai algum dia vir? Se continuarmos sempre premiando as mesmas pessoas, a tendência é que o poder continue sempre preso às mesmas mãos, ou mãos muito similares, que se encaixam no mesmo padrão. No fim das contas, Coringa acaba justamente reforçando isso: o status quo de Hollywood.

DANIELLE: A pergunta é exatamente essa: a diversidade algum dia vi vir? Está muito difícil. Enquanto filmes como Coringa continuarem a ser aclamados, com uma narrativa rasa, sem uma responsabilidade ao que está sendo contado. Ao passo que filmes como Us ficam de fora da premiação.

Coringa é divertido como entretenimento, chega até a ser lúdico com o fato de ser meio trash, dramático. Mas ele possui requisitos para ser tão indicado e aclamado ou Hollywood só está exaltando mais do mesmo? Filme com narrativa rasa que não tem profundidade, mas é visto como obra de arte. Um homem branco que pode ser bom ator, mas não é uma das melhores atuações.

A diversidade um dia vai vir?


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Vieira.

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