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A hierarquia da violência em Hollywood

2019 foi um ano difícil. Não só politicamente falando, mas também porque foi o ano em que finalmente comecei a questionar a violência e a forma como ela é retratada no cinema. Não apenas abordar o tema superficialmente, mas realmente falar sobre isso, analisá-la a partir de diferentes obras e pensar o tipo de impacto que elas têm nas pessoas que estão assistindo. Na jornada, aprendi um bocado de coisas. Aprendi que em Hollywood existem dois tipos de violência: aquela que acontece atrás das câmeras, silenciosamente e com todos os tipos de profissionais mulheres envolvidas na indústria. Ela acontece todos os dias, tira oportunidades e é tão estrutural e comum quanto a forma orgânica de se produzir um longa-metragem. O segundo tipo é a violência que toma lugar nas próprias telas. Essa não necessariamente precisa ser silenciosa, mas pode vir acompanhada de diversas formas narrativas, com direito a explosões e o nome de um diretor consagrado atrelado ao projeto. Ela pode ser direcionada ao homem, a mulher ou a humanidade no geral. E por que não deveria? Afinal, não existe nada retratado nas produções que não seja tirado da vida real. A arte imita a vida.

O que acontece, no entanto, é uma predominância massiva desse tipo específico de trama, sendo que as mesmas sempre vão ser consideradas “arte de verdade”, enquanto outros temas vão cair sempre em uma categoria inferior. É só pegar qualquer qualquer lista das melhores produções de 2019. Na listagem de séries, The Boys aparece em quase todas. A série tem na sua essência uma característica cínica, que pretende dar um tom realista para histórias de super-heróis no geral. Para isso, existe uma quantidade absurda de estupros na narrativa, mesmo que algumas personagens não tenham tempo para processar o que aconteceu com elas. Isso sem falar da maneira como o roteiro trata todas as suas personagens não-brancas.

Ironicamente, no cinema, um dos maiores destaques de 2019 tem exatamente as mesmas características. Coringa tem sim uma boa atuação de Joaquin Phoenix, mas é fraco no roteiro e na direção, não conseguindo transmitir com êxito nenhuma das mensagens que tenta explorar. O longa também aparece em todas as listas de melhores do ano, tem um tratamento bizarro das mulheres negras ali presentes e uma tentativa patética de falar sobre classes, pobreza e uma sociedade que está doente. Mesmo assim, é considerado o supra sumo das obras de heróis, como se a violência brutal, explícita e muitas vezes cruel apenas por ser cruel fosse algo brilhante.

Ambos foram produtos e marcas culturais fortes em 2019. The Boys ganhou um painel gigante na CCXP, enquanto Coringa não só fez mais de 1 bilhão em bilheteria, como também recebeu um total de 11 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Todd Phillips como Melhor Diretor.

Essa obsessão com a violência vem sendo refletida no cinema e na TV de forma massiva, desde sempre. Não é algo que surgiu com Coringa ou The Boys, nem mesmo com Quentin Tarantino ou Martin Scorsese. Alguns dos clássicos absolutos da sétima arte são filmes extremamente violentos e os nomes mais aclamados na direção geralmente tem um longo histórico explorando tramas com essas características. Corta para 2020. Depois de um ano excelente para o cinema em geral, com filmes plurais e cheios de nuance, atuações complexas e gêneros completamente diferentes, chegam as indicações ao Oscar — que deixam um gosto agridoce na boca. Sim, Adoráveis Mulheres, Jojo Rabbit e História de um Casamento conseguiram indicações a Melhor Filme, mas ambos foram ignorados na Direção. De resto, todos os longas que aparecem tem um fator em comum… a violência. Mais do que isso, a violência do homem branco.

Coringa, que já foi citado anteriormente; Era Uma Vez em… Hollywood, que não só é um filme violento, como também se promove com um roteiro cheio de nostalgia a uma época onde “as coisas eram melhores”; 1917, outro filme de guerra e conflitos liderados por homens europeus; O Irlandês, mais um filme sobre a máfia, temática em que é inevitável tocar no assunto; e até mesmo Ford Vs. Ferrari, que não é uma produção violenta em si, mas por horas exibe o comportamento bem agressivo de homens considerados ambiciosos — lembrando que, se uma mulher apresenta o mesmo comportamento, ela é apenas louca ou “difícil”. Até mesmo Parasita, que não tem nenhum homem branco envolvido e nem sequer é um longa norte-americano, tem na sua essência uma violência brutal e estrutural, que é difícil de esquecer e ignorar.

Meu objetivo não é entrar no mérito dos filmes em si. Veja bem, eu amei Parasita e achei 1917 primoroso, sendo que torci pelos personagens do mesmo durante as suas jornadas épicas. Até mesmo Scorsese tem muito a oferecer na sua visão sobre os homens que aparecem na sua história. O objetivo aqui, no caso, é estudar porque são esses filmes que são considerados obras de arte, criando uma verdadeira hierarquia da violência em Hollywood. Não importa o tipo de violência retratado, esse tipo de produção está no topo de cadeia alimentar da sétima arte, enquanto obras com outras temáticas caem em uma cadeia inferior. Sendo assim, a impressão que fica é que os profissionais envolvidos nos bastidores de um longa-metragem fazem um trabalho melhor e conseguem tirar mais dos seus atores quando a violência é um fator decisivo na história.

Cada vez mais a discussão sobre a violência e tal hierarquia que foi criada baseada nesse aspecto é discutida nos meios do cinema. Se no começo dos anos 2000, Quentin Tarantino podia liberar um filme como Kill Bill e não ser questionado sobre as motivações das suas personagens femininas, que são moldadas pela vingança e pela violência, hoje não acontece mais isso (mesmo que a violência não enxergue gênero, como é o argumento geral). Também existe uma conversa profunda sobre o porquê da importância estar apenas em uma narrativa resumida ao male gaze. Ou seja, histórias que são focadas em outros sentimentos como alegria, amizade, amor, etc, não são consideradas tão “profundas”.

Durante uma das cenas mais importantes de Adoráveis Mulheres, Jo (Saoirse Ronan), Meg (Emma Watson) e Amy (Florence Pugh) estão conversando sobre o próximo projeto da protagonista e as duas irmãs perguntam no que ela está trabalhando. “Estou escrevendo apenas sobre nossa pequena vida”, Jo responde. Ela não pensa que apontar a caneta para dificuldades domésticas e o sentimento de alegria é uma história que chamaria atenção de qualquer pessoa, justamente porque ela cresceu achando que a voz masculina é a definitiva e que essas histórias são tudo o que importa. E no leque desses assuntos, a prioridade da guerra, violência descontrolada e romantização desses aspectos. O público, que acompanha a jornada de Jo tentando encontrar sua voz como escritora, vê que suas heroínas femininas não são bem recebidas — e que casá-las é algo essencial para fazer sua trama funcionar.

Nesse ponto, Amy diz que talvez as pessoas não achem essas histórias importantes porque ninguém se deu ao trabalho de escrevê-las ainda. Essa parte específica do longa exemplifica bem como a obra de Greta Gerwig, e a tese que ela criou baseada no livro de Louisa May Alcott, funciona como uma aula de metalinguagem, que se torna tão essencial para entender o cinema no geral e as histórias que são consideradas importantes ou, nesse caso, digna e merecedora de prêmios.

Em um texto para a Variety, Gerwig falou exatamente sobre esse aspecto:

“Eu concordo com Amy nesse caso, não Jo. Eu acredito que escrever sobre qualquer coisa é importante. Eu acho que May Alcott, sabendo ou não, fez a vida comum de meninas e mulheres algo extraordinário ao apontar sua caneta para elas. Ainda acho que existe uma hierarquia para histórias no geral. O topo da hierarquia é violência masculina, homem contra homem, homem contra mulher, etc. Se você olhar para os livros, filmes e histórias que consideramos importantes, esse é um tema comum, de forma explícita ou implícita.”

Outro exemplo claro é a cena onde Jo, já uma mulher mais velha e separada da sua família, fala sobre a solidão e as expectativas da sociedade em relação às mulheres e seu lugar no mundo. O momento é de total entrega pela parte de Ronan, que mostra uma sensibilidade honesta e comovente, tornando aquele um um momento catártico e libertador. Sua parceria com Gerwig, que começou em Lady Bird, com certeza tem grande influência no resultado, sendo que ela conseguiu tirar um sentimento imbatível da atriz — que, inclusive, concorre ao seu quarto Oscar pelo papel.

“Mulheres, elas têm mente e alma, além de coração. Elas têm ambição e talento, além de beleza. Estou cansada das pessoas dizendo que amor é tudo que uma mulher pode querer. Tão cansada… e ainda sim, estou tão solitária.” 

Em certa parte de Era Uma Vez em… Hollywood, o personagem de Brad Pitt, Cliff Booth, mata algumas mulheres ao espancá-las. Essa escolha chega para substituir o assassinato de Sharon Tate (Margot Robbie), que chocou os Estados Unidos no final da década de 1960. O roteiro também não faz muita questão de esconder que Booth é um feminicida, e que já matou sua esposa no passado. Mesmo com tudo isso indicado, a cena onde ele bate nas mulheres arrancou algumas gargalhadas das pessoas que estavam no cinema comigo. As críticas apontaram aquele momento como “catártico”.

Em Coringa, as cenas onde Phoenix tem de entrar de cabeça na insanidade de Arthur Fleck são consideradas as melhores e cada uma deles culmina na sequência final, onde ele atira no comediante Murray (Robert DeNiro) em horário nobre da TV norte-americana. Algo que também foi considerado como arte pura, como se Phillips tivesse encontrado naquela cena o âmago dos problemas da sociedade, sem tirar nem pôr. Pitt, Phoenix e Ronan todos estão indicados por suas atuações. Phillips e Tarantino também aparecem na categoria de Melhor Diretor, mas Gerwig foi ignorada. As razões para isso são milhares, sendo que nem mesmo um texto só para cobri-las seria o suficiente, mas fica a questão: o que a academia considera um bom trabalho por parte do diretor? Com várias funções, uma delas com certeza é tirar o melhor desempenho dos seus atores. Mas, no geral, cenas onde loucura e violência são expostas são consideradas como mais árduas de realizar.

O que, enfim, faz com que as cenas de Booth e Fleck sejam mais catárticas e merecedoras do que as de Ronan? Qual é a diferença entre Tarantino, Phillips e Gerwig? A resposta é simples: a eterna obsessão do cinema com a violência. E como eles recompensam filmes que a têm.

Analisar outras indicações, a falta de mulheres em inúmeras categorias e o histórico do Oscar é fundamental para entender o plano geral. Em 2019, Lulu Wang se destacou como diretora após The Farewell, um filme norte-americano que é falado 90% em chinês, distribuído pela A24 e que explora assuntos como família e senso de comunidade; As Golpistas, de Lorene Scafaria, fala sobre mulheres que foram empurradas pelas circunstâncias da vida e dá um novo viés para profissionais que trabalham em clubes de strip; Atlantics, conduzido por Mati Diop, é um drama romântico do Senegal, com uma visão sensível sobre a trama que conta; a lista de produções catárticas que não necessariamente falam de violência — ou usam desse recurso só para chocar — são várias. Mesmo assim, a prioridade ainda é essa.

Analisando as indicações na categoria de Melhor Atriz, isso começa a ficar cada vez mais claro. Cynthia Erivo, que vive a protagonista Harriet, uma escrava que lidera um movimento abolicionista, é a única atriz negra a concorrer na categoria. Uma mulher que viveu na escravidão sofreu uma violência imprescindível com seu corpo, sua liberdade, sua personalidade. No mesmo ano, Lupita Nyong’o viveu a protagonista de Nós, de Jordan Peele, uma mulher bem sucedida, com uma família estável em um papel que com certeza exigiu muito emocionalmente, mas não recebeu a indicação de Melhor Atriz no Oscar. As duas entregam atuações exemplares, cada uma delas em sua respectiva história. Mesmo assim, só Erivo, que está dentro de uma produção violenta, onde o homem branco é o perpetuador, conquistou uma indicação. Vale lembrar que Nyong’o já levou o Oscar — quando interpretou uma escrava em 12 Anos de Escravidão. Assim nasce um padrão.

É por isso também que Kathryn Bigelow foi a única mulher a levar o prêmio de Melhor Diretor. Sem querer tirar o mérito da norte-americana — pelo contrário; ela fez história —, seu longa é sobre guerra e claro, tem violência e uma visão que é preferência entre os votantes da Academia. A história é, claro, muito mais complexa do que a exposta aqui, onde posso apenas tentar. A diferença na forma com que esses temas são tratados se dá também ao fato de que, no centro dessas narrativas, estão os homens.

A violência na mãos dos homens 

Dentro dessa análise, existe uma questão ainda mais profunda. Com certeza a violência é o topo da cadeia em Hollywood, mas isso acontece principalmente quando ela é contada por homens. Afinal, histórias com viés masculino são e sempre foram a prioridade, enquanto tramas femininas caem no esquecimento. The Nightingale é um longa que representa muito bem esse aspecto. Na trama do longa, a diretora Jennifer Kent acompanha uma mulher, que foi estuprada brutalmente pelos soldados ingleses, e um homem negro, que é constantemente humilhado e privado da sua cultura pelos mesmos. No primeiro momento esse parece ser um longa sobre vingança com uma violência mais voltada para o shock value, mas os dois protagonistas desenvolvem uma relação tão genuína e tocante que todas aquelas cenas brutais são recompensadas com um desenvolvimento real e palpável. Mesmo assim, esse foi um longa que passou despercebido do radar das grandes premiações — e até mesmo das pessoas em geral.

Esse descaso existe por dois motivos diferentes: ainda há uma grande resistência a aceitar filmes de terror pela obra-prima que eles podem ser, assim como qualquer produção dramática. Também existe o fato de que The Nightingale mostra o reflexo da violência do homem na mulher e no homem negro, contada pela visão não romantizada de uma cineasta. Enquanto isso, a Academia gosta realmente de ver produções que de certa forma trazem uma visão heróica do homem… seja na guerra ou como nos exemplos citados anteriormente neste mesmo texto. Ainda que seja possível argumentar que Coringa não tenha essa “valorização”, certos momentos dizem exatamente o contrário.

Acredito que todas as histórias merecem ser contadas, e que todas as vozes merecem ser ouvidas — principalmente aquelas que foram marginalizadas durante tanto tempo. Não acredito que um filme possa influenciar alguém a ser violento, mas acho que ele pode, sim, validar certos tipos de pensamentos. Como produtos culturais, nenhuma produção está isenta de ser analisada politicamente e como ela reflete a sociedade e os nossos pensamentos. É tempo de analisar porque exatamente certos temas são considerados mais importantes do que outros. Ou mais dignos. E porque a violência, o estupro, a guerra ainda são os maiores motivadores para personagens que são considerados profundos — ou histórias que são chamadas de obras-primas.

oscar 2020


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Vieira.

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1 comentário

  1. Quando assisti O Poderoso Chefão eu tive essa sensação. Não consegui ver a tal “obra prima”. Vi apenas um filme com muita violência e com uma história boba. Pode ser que eu não tenha entendido a mensagem do filme tbm . Se alguém souber me explica por favor??