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“Seja livre ou morra”: a vida e a luta da abolicionista Harriet Tubman

Quando o “vilão” Killmonger (Michael B. Jordan), de Pantera Negra, diz para o Rei T’Challa (Chadwick Boseman) de Wakanda que ele preferia morrer a ser preso porque seus ancestrais entendiam que isso era melhor do que não ter liberdade, a Marvel criou uma das cenas mais importantes da sua história no cinema. Essa sequência ficou na minha cabeça durante muito tempo depois que vi a produção, e é quase dois anos depois, por meio de outra obra, que entrei em contato com mais profundidade com seu verdadeiro significado. No caso, Harriet, um filme que conta a história da abolicionista Harriet Tubman, anteriormente conhecida apenas como Minty, e me fez pensar de novo no final de um longa que vi a tanto tempo, e como ele pode marcar o futuro dos blockbusters. Uma das figuras mais importantes da história dos Estados Unidos, Tubman também preferia morrer a não ser livre e durante um pouco mais de duas horas, o longa da cineasta Kasi Lemmons tenta contextualizar sua vida, sua luta e principalmente suas crenças, uma tarefa que é quase impossível tentar colocar em palavras — ou nesse caso, em um roteiro.

A história de Harriet merece ser contada nas telonas e é um absurdo que ninguém o tenha feito até agora. Nascida em Maryland com o nome de Araminta Ross, na década de 1820, Tubman foi uma ex-escrava abolicionista que lutou e libertou milhares de escravos — sendo, de acordo com a conta oficial, mais de 300. Como Minty, ela fugiu uma vez para se libertar e depois voltou milhares de vezes para sua terra natal com objetivo de resgatar seus parentes. Nessa jornada, no entanto, acabou levando milhares de homens, crianças e mulheres para um caminho de liberdade, expandindo suas rotas e suas habilidades. O esquema mais importante que ela tinha para alertar os escravos da sua chegada iminente eram as músicas que cantava para chamá-los.

Harriet

Atenção: este texto contém spoilers

O filme começa a contar sua jornada quando Harriet (Cynthia Erivo) ainda é Minty, uma mulher escravizada, em Maryland. Com um pouco mais de duas horas de duração, a narrativa tem como pontapé inicial sua libertação, e os problemas que ela enfrenta para fazê-lo, sendo que o segundo e o terceiro ato são focados na sua jornada para liberar, no começo, membros da sua família, e, mais tarde, escravos de várias regiões diferentes. Os feitos de Harriet foram grandes e heroicos, com certeza, mas o roteiro tem um erro que chega a ser quase grotesco: atribui todos os seus feitos a sua “conexão” com Deus. É claro que sua ligação com a fé é algo que deveria ser explorado pela obra, mas não existia a necessidade de atribuir toda a sua força a isso.

Sua motivação vinha da sua família, do seu marido, do seu povo que sofria nas mãos de homens cruéis, mas, principalmente, vinha dela mesma. É impressionante como Harriet entendia seu papel na sociedade e o que ela tinha que fazer para alcançá-lo. É muito mais fácil aplicar tudo que acontece com a protagonista, e sua transformação para uma mulher política, a uma força divina, do que realmente entender o que se passava na sua cabeça. É um pouco decepcionante porque, ao invés de estudar a religião em conjunto com sua história, personalidade e até mesmo a música, colocando os fatores em harmonia, a jornada parece muito mais religiosa do qualquer outra coisa, limitando-a.

Além de concorrer a Melhor Atriz, Erivo também disputa na categoria de Melhor Canção Original por seu trabalho na música “Stand Up”, cantada e composta pela atriz. A ligação dos seus feitos com a música, no entanto, também são exploradas de forma superficial pelo longa. Ao invés de mostrar um pouco sobre a necessidade de usar a música para chamar os escravos, ou até mesmo a relação que Harriet tinha com a mesma (ela aparece cantando algumas vezes), esse componente é introduzido de uma hora para outra, sem nenhum desenvolvimento palpável ou gradual. A canção em si é ótima, com uma letra poderosa, mas aplicada no contexto do filme, parece quase fora de lugar, como se aquele recurso tivesse surgido do nada na narrativa. Apesar disso, a cena não parece vazia, justamente por causa do seu peso emocional e histórico.

Harriet

A atuação de Erivo, que é intensa e verdadeira, poderia ser ainda melhor se tivesse acompanhada de uma direção que soubesse o que ou como gostaria de contar sua história. Ora musical, ora uma cinebiografia tradicional, a condução e o roteiro tiram um pouco do brilho da atriz, que mesmo assim se prova uma artista completa, tanto nas horas que ela precisa mostrar sua potência vocal, como na sua capacidade para momentos dramáticos. Apesar de ser uma mulher que cresceu pela violência, Harriet não se deixa ser moldada ou limitada pelas cicatrizes, apesar de saber que elas estão ali e que elas também fazem parte da sua história. Ela entende que ela pode querer mais da vida, e que ela deve seguir em frente por isso. O papel de Erivo é fundamental na hora de criar essa característica da protagonista, e talvez uma atriz que não conseguisse entrar na cabeça de uma figura histórica com tanta facilidade e profundidade teria limitado o filme.

Apesar de pequenos defeitos, que resultam em uma falta de harmonia, uma coisa interessante do longa é como ele retrata a relação de Harriet com os negros que já tinham liberdade quando ela consegue a sua, e como ele trabalha esse aspecto. Janelle Monáe, por exemplo, vive Marie Buchanon, uma mulher que já nasceu livre e herdou uma propriedade dos seus pais, que ela usa para abrigar escravos fugitivos oferecendo amparo, comida e um teto. Quando Harriet chega para ficar na casa, ela aponta o privilégio de Marie. Um dos diálogos que ela tem é como ela, mesmo sendo uma mulher negra, tem uma vantagem em relação a Harriet, por causa da sua liberdade e condição financeira. É uma das melhores cenas da obra, por causa da atuação das atrizes, além de levantar um ponto interessante. Mesmo assim, no final do longa, Marie acaba morta pelas mãos de homens brancos. Apesar da sua morte não ser exatamente bem desenvolvida, serve como um contraponto para Harriet: apesar de sua acolhedora, e, mais tarde, amiga, e ter uma vida que pode ser considerada mais “privilegiada”, ela também sofre com o racismo brutal e violento. Naquele momento, a protagonista vê que sua luta não deve e não pode acabar, impulsionando-a para o terceiro, decisivo e último ato da produção, onde mais uma vez ela entra em contato com seu destino e propósito. Afinal, para ela, a morte era uma opção mais agradável do que ficar presa. “Seja livre ou morra”, declara mais de uma vez.

Harriet Tubman foi e é um símbolo importante para o mundo, sendo que sua influência pode ser vista em diversos produtos históricos e culturais da sociedade moderna. Um dos primeiros contatos que tive com sua história foi durante um episódio de Um Maluco no Pedaço, onde Tia Viv (Janet Hubert-Whitte) explica para os seus alunos quem ela foi e como ela usava da música para resgatar escravos. Hoje, ela é um símbolo heroico da Guerra Civil e do abolicionismo, além de ser estudada por escolas do mundo inteiro. Durante o governo de Barack Obama, foi decretado que seu rosto estamparia todas as notas de 20 dólares do país, substituindo o ex-presidente escravocrata Andrew Jackson. Quando Donald Trump assumiu a Casa Branca, a medida foi derrubada.

Harriet

É justamente por causa da resistência em aceitar mudanças, do renascimento do fascismo cada vez mais presente no século XXI e movimentos preconceituosos sendo tratados com naturalidade é que a história do longa se faz importante. Apesar de ter os seus defeitos na execução, Harriet foi uma figura de resistência e força e seus feitos mudaram o mundo sem precedentes. Se com o trabalho em conjunto no longa-metragem de Lemmons e Erivo conseguir chamar mais pessoas para estudarem Tubman e sua trajetória, ele já terá cumprido o seu papel.

Um problema de diversidade

É importante mencionar que Cynthia Erivo, que vive a protagonista no longa, é a única mulher negra que concorre na categoria de Melhor Atriz no Oscar. Ela está ao lado de Charlize Theron (O Escândalo), Scarlett Johansson (História de um Casamento), Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres) e Renée Zellweger (Judy). É 2020 e mais uma vez o movimento #OscarsSoWhite ainda é um dos assuntos mais falados e a diversidade em todas as categorias é pífia, para dizer o mínimo. Essa falta de representação em um ano onde produções com atores não-brancos foi tão rica e multifacetada (Lupita Nyong’o e Awkwafina, são bons exemplos) reforça mais uma vez não só que a Academia tem um problema sério nos bastidores, mas que eles ainda resistem a acolher filmes de gênero e preferem apostar em produções mais óbvias. Harriet é, afinal, uma cinebiografia.

Harriet também era uma ex-escrava. A Academia, que achou pertinente nomear apenas uma mulher negra, colocou ainda uma que estava em um papel violento e complicado. Nyong’o, por exemplo, só foi reconhecida pelo Oscar quando viveu uma escrava em 12 Anos de Escravidão. Em outros papéis, foi ignorada. O trabalho de Erivo é de longe a melhor parte de Harriet, mas como ela mesma disse para a imprensa norte-americana, não é suficiente que apenas ela esteja na lista. Mais do que isso, não é suficiente que a Academia só escute a voz de pessoas negras quando elas estão falando de escravidão. Afinal, elas são muito mais do que isso e contam histórias que abordam gêneros e perspectivas diferentes.

Se tem uma coisa que Harriet deixa claro é que a revolução não é fácil e que não existe escolha: as coisas têm que mudar. Talvez, a Academia possa interpretar a mensagem presente no filme e aplicar o conceito no esquema de votação, tendo em mente que mudança é inevitável e que diversidade, respeito e igualdade não é uma questão de escolha, é uma necessidade.

Harriet recebeu 2 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Atriz (Cynthia Erivo) e Melhor Canção Original (“Stand Up”).

oscar 2020

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