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Pantera Negra vive, e Wakanda também

Quando a Marvel jogou pra frente a data de estreia de Pantera Negra para acomodar Homem-Aranha: De Volta ao Lar, que passou a fazer parte do universo cinematográfico dos heróis, eu revirei os olhos — o famoso “desapontada, mas não surpresa”. O filme, que viria às telas em novembro de 2017 foi empurrado para fevereiro de 2018. O resultado, porém, foi muito além de qualquer expectativa que eu tinha. E se tem um spoiler nesse texto é: esses dois meses a mais de espera que tivemos valeram muito a pena.

Corta para dezembro de 2009, quase 10 anos atrás, quando eu pude, 16 anos de vida depois, sentar numa cadeira de cinema e assistir uma princesa negra dar o ar da sua graça. Costumo dizer que todo mundo deveria sentir, pelo menos uma vez na vida, ao menos 1% do que eu senti naquele dia. Saindo da sala do cinema da minha sessão de Pantera Negra me senti completa e tive a certeza de que muitas criancinhas não iam precisar esperar 16 anos para sentirem aquilo que eu senti em 2009. E, para começar, isso é algo que bilheteria nenhuma no mundo vai pagar.

O Pantera Negra de T’Challa apareceu pela primeira vez nos quadrinhos em 1966 numa edição de Quarteto Fantástico e, no cinema, surgiu pela primeira vez em 2016, em Capitão América: Guerra Civil, já interpretado por Chadwick Boseman. Ele foi o primeiro herói negro criado pela Marvel, vindo muito antes de personagens como Luke Cage e Falcão, e o primeiro também legitimamente africano, já que T’Challa é rei de Wakanda, reino fictício localizado na África e que seria próximo a países reais como Etiópia, Uganda, Quênia e Somália.

Atenção: a partir daqui o texto possui spoilers leves!

Nossa África está muito viva, obrigada!

Saber onde seria a localização de Wakanda é crucial para começarmos a entender um pouco da importância que um filme como esse tem no mundo de hoje. Pantera Negra é, a começar pelo elenco, ao mesmo tempo uma celebração à África que existe e tudo que ela representa em questão de riqueza humana e cultural, e um canto de lamento à África que poderia ter sido caso sua narrativa não tivesse sido mudada tão brutalmente pelos europeus e o continente pudesse ter se descoberto por si mesmo. Pantera Negra celebra o continente em todos os mínimos detalhes, e a produção do diretor Ryan Coogler (Creed, 2015) deixa evidente o imenso cuidado que foi tomado em cada pedacinho de pano, em cada estampa, em cada máscara ou música nos rituais.

Poderíamos ficar horas e horas falando sobre todas as referências à cultura africana que existem no filme, mas basta dizer que há muito das tribos Mursi, Surma, do povo Maasai e do povo Basotho. Dá para ver todas as referências nesse compilado no Facebook. Todos os filmes da Marvel apresentam cores impecavelmente escolhidas, e é muito interessante notar que nada foi inserido por acaso ou simplesmente porque ficava mais bonito. Um exemplo fortíssimo disso nesse filme é a escolha da “cor de impacto” dos uniformes do Pantera: enquanto a roupa de T’Challa vibra em roxo quando atingida, a de Killmonger (Michael B. Jordan) vibra em dourado. É uma escolha interessante quando lembramos que roxo representa a cor da realeza africana, sendo T’Challa rei por direito, e dourado pode muito bem representar a exploração e o explorador, sendo Killmonger rei por conquista, dominação e força.

Mais que mulheres fortes, mulheres possíveis

Falando em força, uma coisa que não falta nas personagens femininas de Pantera Negra é força. Seja a força mental da rainha Ramonda (Angela Bassett) que vê sua vida desmoronar diversas vezes; seja a força física e estratégica de Okoye (Danai Gurira), a general líder das Dora Milaje; seja a força intelectual de Shuri (Letitia Wright), a cientista de Wakanda responsável por todo o avanço tecnológico do país; seja a força ideológica de Nakia (Lupita Nyong’o), a “espiã” de Wakanda; e por que não falar da força malandríssima da coreana em Busan que é chefe de todo o esquema?

O que Pantera Negra faz com a personagem da mulher negra, porém, é diferente do que muitos filmes e séries por aí e que está em falta: representar a mulher negra como MULHER, e não como ENTIDADE. Enquanto somos bombardeadas de filmes que caracterizam a mulher negra como uma muralha impenetrável nos forçando a alcançar um patamar de força que nem sempre é viável, o roteiro de Ryan Coogler nos dá mulheres que são… humanas. Mulheres que têm questões, amores, desejos, hobbies, defeitos, e apenas por um acaso estão atreladas a uma cultura que as faz assumir papéis fortes que desempenham mais do que bem.

O cinema está acostumado a dar o luxo de entregar sentimentos apenas à mulher branca, e deixa o papel de pedra sem coração para a mulher negra. Em Pantera Negra, a mulher negra não é uma entidade dura e inalcançável: ela é possível. Aliás, se tem um adjetivo cabível para todos os personagens desse filme, esse adjetivo é possível.

Quem é o herói, quem é o vilão?

O personagem W’Kabi, interpretado por Daniel Kaluuya (do incrível Corra!, indicado a quatro estatuetas no Oscar 2018), talvez seja a alegoria perfeita para o espectador desse filme e todo um povo de Wakanda, já que seu coração se divide entre Killmonger e T’Challa — assim como o nosso. Muito embora não tenha deixado os principais aspectos d’A Jornada do Herói de T’Challa de lado (a construção, a motivação, a redenção), Ryan pegou a fórmula dos filmes da Marvel e a modificou de um jeito que deixou a linha entre herói e vilão mais borrada do que nunca, do jeito que Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) poderiam ser, mas jamais serão.

Uma das maiores questões apresentadas em Pantera Negra talvez seja a maior auto-crítica de todas: o que Wakanda, com todo o dinheiro que tem, pode fazer pelos seus irmãos negros ao redor do mundo? E, mais importante que isso: porque demorou tanto tempo para fazê-lo e escolheu fechar os olhos priorizando sua própria segurança? É interessantíssimo notar que o argumento e a motivação de Killmonger, suposto vilão, tenha sido uma questão levantada primeiro por Nakia, logo no começo do filme – a linha herói-vilão é borrada nesse nível!

E é impossível não pensar junto com ele. Se por um lado entendemos o lado de T’Challa de querer esconder Wakanda do resto do mundo a todo custo, já que nós bem sabemos o que acontece quando países “de primeiro mundo” descobrem as riquezas de um país do continente africano, por outro entendemos a frustração de Killmonger quando pensa e questiona o por quê de todos os negros no resto do mundo viverem à mercê dos brancos enquanto seus irmãos de Wakanda vivem na segurança e na riqueza. Nesse sentido, a segurança de Wakanda é o último guerreiro em pé que sobrou na África, é o que poderia ter sido, mas ela é tudo isso às custas dos negros que morrem todos os dias vítimas da violência policial nos Estados Unidos, por exemplo, ou dizimados por guerras civis ou desastres naturais.

A crítica funciona justamente por ser negro criticando negro, e é interessante como nenhuma vez Everett K. Ross (Martin Freeman), por muito tempo, o único branco relevante na trama, questiona a moral de T’Challa ou de Killmonger, pois esse não é o seu lugar. Ser exposto a seus erros humaniza T’Challa de um jeito que jamais vemos em Tony Stark (Robert Downey Jr.) ou Steve Rogers (Chris Evans), uma vez que os heróis brancos em sua maioria tentam consertar seus erros cometendo mais erros impulsivos e sozinhos, enquanto T’Challa envergonha-se, pergunta-se onde errou e procura trabalhar junto com outras pessoas. Não é sobre ser melhor ou estar mais certo, é sobre fazer o seu melhor e o que é mais certo para seu país.

Passado, presente e o ciclo sem fim

Magistralmente, Pantera Negra nos dá um presente com cara de passado, um futuro com cara de presente e um presente tão futurista quando um episódio dos Jetsons, de forma a mostrar que ao mesmo tempo que tudo está conectado, tudo também é absolutamente independente. O filme começa e termina em uma quadra de basquete num bairro negro de Oakland, na Califórnia, e isso não poderia ser mais significativo.

Ao mostrar crianças começando e terminando a narrativa, o filme nos faz lembrar de Tupac e seu Thug Life: “The Hate U Give Little Infants Fu.cks Everyone”, ou em tradução livre, “O ódio que você semeia nas crianças acaba com todo mundo”. Tudo muda na vida do pequeno Erik “Killmonger” Spencer quando ele acha seu pai morto dentro de casa, e o ódio semeado nele naquele momento é o que o motiva a ser o que é. Em meio a grandes ícones e heróis brancos, Pantera Negra é a resposta brilhante da Marvel para toda uma geração de pequenos garotinhos e garotinhas negras que imploravam por uma representação, por menor que fosse. Nas mãos de Ryan Coogler, eles ganharam mais do que isso: a lembrança de que são (somos!) todos descendentes de reis e rainhas.

Wakanda para sempre!

Pantera Negra recebeu 6 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Trilha Sonora Original (Ludwig Göransson), Melhor Figurinho (Ruth E. Carter), Melhor Mixagem de Som (Steve Boeddeker), Melhor Direção de Arte (Hannah Beachler e Jay R. Hart) e Melhor Edição de Som (Steve Boeddeker).

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4 comentários

  1. Acho tão interessante como andam a tentar criar super heróis novos, diferentes dos outros e que ajudem toda a gente a ter um herói com que se identificar! Não conhecia a Kamala e fiquei fascinada 🙂

  2. eu lendo e pensando AI ESSE TEXTO TEM TANTO A CARA DA DUDS ai eu termino de ler achando maravilhoso e OPA OLHA A DUDS AI HAHAHAHA ♥

    na minha ignorância, já fiquei extasiada pelas questões trabalhadas e como foram trabalhadas. fico imaginando, mesmo sabendo que é impossível a minha imaginação chegar perto disso, de como foi a sensação de assistir essa maravilha, pra quem realmente tá sendo representado. o poder que isso tem!

    maravilhoso! ♥