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Crítica: Corra! mostra de onde vem o medo

Jordan Peele é fã de filmes de terror. Como todo bom fã do gênero, ele sabe que filmes de terror comunicam medos, e os melhores são aqueles que usam monstros e fantasmas para falar de medos maiores e mais reais que monstros e fantasmas; medos que estão muito mais perto do que gostaríamos, mas que não conseguimos pegar com as mãos ou enxergar com clareza — não exatamente. Filmes de terror materializam medos que habitam nosso inconsciente coletivo e assustam ao torná-los tangíveis, algo que Corra!, longa de estreia de Peele como diretor e roteirista, faz de forma extraordinária.

Nas diversas entrevistas que deu enquanto promovia o filme, que concorre ao Oscar de Melhor Filme, assim como Melhor Direção e Melhor Roteiro Original (conquistas notáveis para um cineasta estreante e negro, tendo em vista o histórico racial da Academia e o escândalo #OscarSoWhite de 2016), Jordan Peele citou entre seus títulos favoritos e inspirações filmes como O Bebê de Rosemary, Esposas em Conflito e O Iluminado. Em comum, essas obras compartilham a ideia do medo enraizado em questões sociais. Nos dois primeiros, há um terror de gênero em jogo, relacionado ao medo das mulheres de terem seus corpos controlados por homens, algo que faz sentido nos anos em que foram lançados, 1968 e 1975, respectivamente, e ainda faz, vide a sensação física de pavor que muitas mulheres experimentaram ao assistir The Handmaid’s Tale, por exemplo, ou A Bruxa, que nos faz temer o puritanismo de forma ainda mais extrema. Já O Iluminado tem como maior monstro a violência que se esconde dentro do homem comum. Se retirarmos sua excelente cota de fantasmas aterrorizantes, o que sobra é um personagem alcoólatra cujo impulso de violência é direcionado à mulher e ao filho pequeno, o que não é muito diferente do perfil de tantos agressores que vemos nos noticiários.

A construção do medo nos filmes de terror muitas vezes tem a ver com o temor que sentimos diante daquilo que não conhecemos ou evitamos conhecer, que podem ser nossos monstros interiores, como no caso dos zumbis de George Romero, ou aquilo que enxergamos como o outro, o diferente. As bruxas se tornaram uma figura mítica dos filmes e histórias de terror porque incorporam arquétipos relacionados à feminilidade que desde os tempos bíblicos colocam a figura da mulher sob suspeita. A sexualidade feminina é transformada em ameaça que transforma as mulheres em bruxas e as condena à morte, como acontece nos slashers da tradição de Halloween ou Sexta-Feira 13. Elementos associados a comunidades indígenas, como o cemitério de Poltergeist, ou rituais de religiões de matriz africana — na maioria das vezes representados de forma distorcida — são mostrados como fonte das maldições que assombram os personagens, a famigerada “magia negra” que vemos em inúmeros títulos, como A Chave Mestra.

Ao retratar nossos medos, filmes de terror podem reforçar estereótipos e preconceitos, e para entender o motivo basta observar quem está por trás das câmeras criando essas histórias: homens brancos, na maior parte das vezes, o referencial usado para definir quem será esse Outro a ser exotizado e temido. Ao mesmo tempo, principalmente nos últimos anos, o terror tem sido um gênero muito utilizado como veículo para subverter esses mitos e temores, como no caso de The Love Witch e It Follows, que abordam a suposta maldição da sexualidade feminina de forma inovadora, ou ainda Pânico e Alien, que têm como heroínas personagens femininas que fogem do ideal de garota virgem e pura, chamada de final girl. Em entrevistas, Jordan Peele, que até então só tinha se aventurado em produções de comédia (como no show de esquetes Key & Peele, em que ele também atuava e pelo qual ganhou o Emmy em 2016), disse sentir falta de um filme de terror que também fosse uma crítica social especificamente direcionada ao racismo e àquilo que o diretor chamou de “terror racial (…) especificamente os medos [relacionado] a ser um homem negro hoje. O medo de ser uma pessoa que se sente uma estranha num ambiente que é estrangeiro para ela”, espaço que Corra! veio preencher de maneira criativa e engenhosa.

A premissa do filme é simples: Chris (Daniel Kaluuya), um jovem fotógrafo, está se preparando para uma viagem para o interior, onde vai conhecer os pais de sua namorada, Rose (Allison Williams). Eles não sabem que Chris é negro, uma perspectiva que o deixa desconfortável, mas Rose garante que não há motivo para ele se preocupar e que seus pais não terão problema com isso. No entanto, seu melhor amigo, Rod (Lil Rel Howery), o alerta que ir na casa da família de uma garota branca nunca é uma boa ideia. Esse comentário é um dos vários momentos em que Peele faz um paralelo entre a experiência de ser uma pessoa branca e uma pessoa negra nos Estados Unidos e o que medo significa para os dois lados. Na abertura do filme, vemos um homem negro sozinho na rua, rodeado por enormes casas de subúrbio, se sentindo ameaçado por aquele meio da mesma forma que o racismo estrutural ensina que uma pessoa negra andando na rua é uma figura a ser temida.

“Se o branco precisa que alguém se fantasie de palhaço pra se assustar, o maior risco para um jovem negro continua sendo um branco. Seja ele um policial abusivo, um segurança que o persegue dentro de alguma loja, o pai preconceituoso de uma namorada. Não é preciso imaginar o terror de um monstro do além ou debaixo da terra, quando você se arrisca só por sair a noite, podendo ser ‘confundido’ com algum criminoso”.

Larissa Ribeiro – “Get Out, O Que Assusta os Jovens Negros

Ruas escuras são cenários comuns em filmes de terror, assim como as casas americanas aparentemente perfeitas, mas a fonte do medo muda de acordo com o ponto de vista adotado, e o de Chris ainda é uma novidade para o gênero.

É verdade que os pais de Rose, Dean (Bradley Witford) e Missy Armitage (Catherine Keener), o recebem bem, mas há algo de estranho e desconfortável sobre o entusiasmo dos dois, seja na insistência de Dean em dizer que votaria em Barack Obama uma terceira vez, ou a forma como Missy, que é terapeuta, parece empolgada para entrar na mente de Chris, lhe fazendo perguntas sobre sua família, seus traumas e até se oferecendo para ajudá-lo a parar de fumar por meio de hipnose. Os Armitage são democratas, liberais, progressistas, mas as únicas pessoas negras que Chris encontra na casa são os empregados, Georgina (Betty Gabriel) e Walter (Marcus Henderson) — uma contradição que o pai de Rose percebe e faz questão de justificar, dizendo que eles são quase da família. Mas não é só isso que intriga Chris: Georgina e Walter também apresentam um comportamento estranho, como se estivessem anestesiados, parcialmente desconectados da realidade.

O desconforto de Chris naquele ambiente se intensifica no dia seguinte, quando a família recebe vários amigos do avô falecido para um grande encontro que já é uma tradição entre eles. Enquanto é apresentado a todos, Chris sofre com demonstrações de racismo disfarçadas de boas intenções: assim como os pais de Rose, essas pessoas fazem questão de se mostrar entusiasmadas com a sua negritude; são pessoas que adoram tudo que vem dos negros, mas não há pessoas negras entre eles naquela celebração. Numa tentativa tosca de tratá-lo como igual, todos acabam por reduzir Chris à sua raça, ao seu corpo, reproduzindo estereótipos como o do homem negro violento e hiperssexualizado ou dizendo coisas como “preto está na moda”.

A sensação de paranoia aumenta quando surge Logan (Lakeith Stanfield), único homem negro no evento. Casado com uma mulher mais velha e vestindo roupas antiquadas, Logan reage de forma estranha quando Chris se aproxima e se diz feliz por “encontrar um irmão” naquela festa, como se ele não se reconhecesse na figura do fotógrafo. Assim como Georgina e Walter, ele parece alheio e desconectado, o que leva Chris a ter certeza que algo definitivamente não está certo e ele precisa sair dali. “Corra!” é a única dica que ele recebe.

Atenção: grandes spoilers a partir daqui!

Quando o grande monstro do filme é revelado, fica claro que a tensão e o medo construídos tão bem na atmosfera da primeira parte do filme não vêm de monstros e fantasmas convencionais, mas do racismo, que opera em nossa realidade de forma parecida com a sociedade secreta da história, que abduz pessoas negras para que seus corpos sejam usados e controlados por pessoas brancas. Corra! inova, pois traz uma alegoria que remete tanto à escravidão, que via os negros apenas como corpos desprovidos de humanidade, cuja finalidade era o trabalho, quanto às manifestações mais modernas e sofisticadas da opressão racial, sendo a apropriação cultural a metáfora mais direta que o filme evoca. Como escreveu Rebecca Carol, o ethos da família Armitage é se apoiar no poder do privilégio branco ao ponto de literalmente habitar um corpo negro e usufruir de tudo que ele oferece, enquanto enterra a mente da pessoa que existe ali dentro no chamado The Sunken Place, um abismo da consciência que tira da pessoa negra sua voz e sua agência enquanto seu corpo é controlado por um cérebro branco. “O sunken place significa que estamos marginalizados. Não importa o quanto a gente grite, o sistema vai nos silenciar”, escreveu Jordan Peele em seu Twitter.

Lançado em 2017, Corra! é um projeto no qual Jordan Peele trabalhou por quase dez anos. Quando começou a escrever o filme, Barack Obama tinha se eleito presidente dos Estados Unidos e existia uma forte narrativa pós-racial no país, parecida com a ilusão da democracia racial brasileira, como se a eleição tivesse resolvido toda a complicada questão racial naquele lugar onde 50 anos antes a população negra não tinha direitos civis garantidos. A vitória de Donald Trump mudou completamente esse cenário e revelou o quão enraizado está o racismo e o medo do Outro na sociedade americana: o monstro agora tem menos vergonha de mostrar seus dentes, mas ainda que o país tenha visto uma marcha nazista nas ruas de Charlottesville no ano passado e o índice de assassinato de pessoas negras por policiais só cresça, para Peele era importante centrar sua narrativa num ambiente liberal, onde os vilões são os “brancos de bem”.

Essa é uma das nuances mais importantes do filme, pois seria muito fácil fazer com que os pais de Rose fossem confederados do sul ou supremacistas brancos declarados. Corra!, no entanto, mostra que o ódio está em todo lugar e o racismo não é personalista, não é um problema individual de pessoas radicais, mas sim um mecanismo estrutural de opressão que os brancos, ainda que de forma inconsciente, perpetuam. Essa inconsciência, aliás, é parte do problema. Ignorar o racismo e lavar as mãos diante dele é um privilégio branco que sustenta a condição de subalternidade de pessoas não-brancas. Ainda que não estivessem planejando abduzir Chris, as pessoas brancas de Corra! já seriam vilãs, e o filme é ótimo ao usar da sátira e do horror para ilustrar isso de forma que seja visível e palpável.

Todas nós somos mergulhadas nessa lógica. Se você está num lugar social que permite que você violente, mesmo que não perceba as dinâmicas, está caindo nas armadilhas dela. Sua função é desconstruir esse olhar automático e isso só é possível parando para ouvir o que as pessoas subalternizadas têm a dizer. Obviamente, haverá histórias de dor, desconforto, solidão que você reconhecerá de alguma forma, mesmo não tendo sofrido diretamente. Porque, moralmente, você acha que isso é ruim, é injusto. A questão é repensar em quem é você naquelas situações.

Preta, Nerd e Burning Hell – “O que é a branquitude

Nesse sentido, a escalação de Allison Williams como Rose é perfeita porque evoca o estereótipo de garota branca inocente que costuma ser heroína nos filmes de terror. Jordan Peele subverte o gênero mais uma vez ao transformá-la na grande ameaça, levando a tensão até os últimos momentos do filme, invertendo a narrativa do homem negro predador. Além disso, a atriz traz consigo a herança de Marnie, sua personagem em Girls, uma referência que encapsula o feminismo branco e liberal e o ponto cego do movimento para as questões raciais — uma negligência que remete desde o período da luta pelo direito de voto, por exemplo, até a participação das mulheres brancas de classe média na eleição de Trump. Apesar de compartilharem a opressão de gênero, mulheres brancas e negras experimentam o mundo de forma diferente, suas demandas não são as mesmas, nem suas posições na hierarquia social, o que faz com que mulheres brancas, mesmo as feministas, sejam também figuras opressoras de formas diretas e indiretas.

Como mulher branca, esse foi um dos aspectos mais fortes que pude apreender da história, que quando se é diferente o medo existe em lugares inesperados e talvez seja mais forte por isso, por ser difícil de enxergar quando você não é o alvo. Nesse sentido, Corra! é muito eficiente ao materializar micro e macro agressões que pessoas negras sofrem cotidianamente, a partir de recursos de filmes de terror que provocam tensão, medo e sustos de forma universal. Não há dúvidas de que é uma obra para pessoas negras, que vão enxergar as camadas mais profundas desse retrato que Peele constrói sobre ser negro num país racista, mas o filme também é didático (e aqui isso não é um defeito) ao escancarar esses medos para quem tem o privilégio de não enxergá-los.

Pessoas brancas nunca vão saber o que é racismo, não exatamente, mas todos nós reagimos ao medo, é uma resposta evolutiva programada quando nos vemos diante de uma ameaça. Usar isso como ferramenta transforma Corra! num filme essencial para esse momento político em que a ignorância, intencional ou não, custa vidas. O medo faz parte da esfera dos filmes de terror, e Jordan Peele se apropria de elementos reais e dá a eles um tratamento exagerado para provocar o efeito dramático desejado, e é muito bom nisso, mas o final do filme eleva Corra! a um outro patamar ao escolher um final feliz a uma alternativa mais trágica.

“Corra! é um documentário.”

Em sua primeira versão, o filme não terminava com Rod saindo do carro de polícia para salvar Chris, mas com Chris se encontrando com a polícia todo ensanguentado sobre uma Rose agonizante. Jordan Peele decidiu mudar o final depois da morte de Trayvon Martin, adolescente de 17 anos assassinado por um vigilante que alegou estar se defendendo do jovem que andava desarmado a caminho de casa, carregando doces e um chá gelado. A morte de Trayvon, seguida pela absolvição de seu assassino, alavancou o movimento #BlackLivesMatter, que desde 2013 tem servido de estandarte contra a violência direcionada a pessoas negras, em especial contra a violência policial. Diante desse quadro, Peele disse que os negros precisavam de um herói que sobrevivesse. Corra! entrega esse herói e um final feliz para seus personagens, o que faz com que sua maior cartada de horror seja aquele último ato não concretizado nas telas e o gosto amargo que ele deixa quando o filme acaba.

Quem precisa de filmes de terror quando se tem a realidade?

Corra! recebeu 4 indicações ao Oscar, na categoria de: Melhor Filme, Melhor Ator (Daniel Kaluuya), Melhor Direção (Jordan Peele) e Melhor Roteiro Original (Jordan Peele).

Para saber mais:

Get Out cospe de volta os horrores do racismo;
Get Out, o que assusta os jovens negros;
Get Out: Os simbolismos de um terror racial cotidiano;
Está na moda ser preto desde que você não seja preto;
GET THE FUCK OUTTA HERE: A dialogue on Jordan Peele’s Get Out;
Get Out perfectly captures the truth about white women;
Horror and race: How Jordan Peele flips the script;


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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