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Minari: criando raízes em terras desconhecidas

Durante uma das entrevistas que deu enquanto divulgava Parasita, o diretor Bong Joon-ho disse que a reação universal das audiências ao redor do mundo em relação ao filme não era realmente surpreendente, sendo que todos nós vivemos no capitalismo e, portanto, podemos nos relacionar com o que está relatado no longa. Algum tempo depois, a produção sul-coreana reforçou seu relacionamento com as audiências de diferentes culturas e levou os prêmios mais importantes do Oscar 2020, incluindo Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Direção. 

Mais de um ano depois, outro filme da Coreia do Sul está em destaque entre os indicados. Após ter sua estreia em Sundance, Minari, um filme falado em 90% na língua coreana, mas que foi produzido em parceria com os Estados Unidos, está concorrendo às principais categorias. Apesar de ser uma obra essencialmente diferente de Parasita, é impossível não traçar um paralelo entre ambos por três motivos: o primeiro, obviamente, é que os dois contam histórias de pessoas coreanas, com diretores e atores também coreanos e, portanto, retrata a experiência de uma cultura; em segundo, foram nomeados ao Oscar com um pouco mais de um ano de diferença e representam, de certa forma, a mudança na política de inclusão da Academia, que vem a passos de formiga; e por fim, ressalta que um bom longa pode falar com audiências amplas mesmo contando uma situação específica.

No caso de Parasita, Bong Joon-ho usou o sistema do capitalismo para ressaltar porque as pessoas se identificavam tanto com a história retratada ali, bem como os empecilhos que a família protagonista enfrenta na sua rotina. Com Minari, que explora a vida de uma família imigrante nos Estados Unidos na década de 1980, pode-se dizer algo parecido. O longa retrata uma experiência extremamente pessoal e específica, mas é justamente por esses mesmos fatores que consegue ser tão universal e sensível de se assistir. Assim como a maioria das boas produções, ela consegue falar com o público em diversas camadas diferentes e colocar um olhar empático na vida de pessoas que tiveram/têm uma vida completamente diferente da nossa (ou não).

Minari

Atenção: este texto contém spoilers

Dirigido e escrito por Lee Isaac Chung, Minari contém não apenas uma ambientação pessoal e sensível, como também uma metáfora que faz alusão ao título da obra. Na história, Soonja (Yoon Yeo-Jeong) pergunta para o seu neto, pouco tempo depois de chegar nos Estados Unidos da Coreia do Sul: “você pelo menos sabe o que é minari?”. David (Alan S. Kim) não responde. Afinal, ele é uma criança que, apesar de ter descendência coreana, foi criada nos EUA e, portanto, não necessariamente conhece tudo sobre sua cultura de origem (apesar de falar coreano, por exemplo). A seguir, a avó continua explicando que minari é tudo de bom. É um vegetal que cresce em qualquer lugar, em qualquer condição, depois da sua segunda estação, e por isso é acessível para todos os tipos de pessoas, ricos ou pobres.

“Minari é realmente a melhor coisa. Cresce em qualquer lugar, então qualquer um pode pegar e comer. Rico ou pobre, qualquer um pode aproveitar e ser saudável.” 

O título lembra que, de muitas formas, Minari é um filme sobre uma família tentando criar raízes. E sobre as dificuldades de fazê-lo.

A história do filme acontece em 1980 e começa quando os pais de David, Monica (Han Ye-ri) e Jacob (Steven Yeun), dois imigrantes coreanos, resolvem mudar da Califórnia para o Arkansas, onde o pai vai tentar a qualquer custo tocar sua própria fazenda e dar um destino melhor para sua família. Enquanto ele não alcança seus objetivos, ambos trabalham em uma fábrica onde passam o dia separando pintinhos fêmeas de machos (as fêmeas, no caso, são transformadas em carne e os machos são descartados). Como antes eles viviam em uma grande cidade, a rotina do casal e dos dois filhos, David e Anne (Noel Cho), sofrem mudanças bruscas de ritmo, algo que tentam concertar ao chamar Soonja, mãe de Monica e avó das crianças, para morar com eles.

Por ser baseado abertamente na experiência do roteirista e na forma como ele via as figuras de sua vida, um dos maiores triunfos de Minari é desenvolver personagens que são admiráveis e fáceis de amar. Todos eles são complexos de formas diferentes e, portanto, estão lutando suas próprias batalhas internas, algo que é explorado pela visão pessoal de Chung, criando uma ambientação íntima e contida que combina com a atuação dos atores. Jacob, por exemplo, tem que desempenhar o papel do “homem da casa”. É óbvio ali que ele se sente pressionado a ser o provedor da sua família e tirá-los do status da pobreza. Além disso, ele é um homem com ambições bem claras, que não pretende passar o resto da sua vida separando pintinhos pelo sexo. Mas, na medida em que a história se desenvolve, fica claro também sua frustração com os empecilhos no caminho e o papel que ele parece ter pegado para si. A pressão de ter que lidar com uma cultura completamente diferente da sua e, ao mesmo tempo, ganhar a vida nesse contexto é um fator que parece fundamental na construção de Jacob e na forma como ele lida com as coisas ao seu redor — sempre tentando consertar algo, mesmo que para isso tenha que abrir mão de outras coisas. Frequentemente ele é mostrado buscando um sonho que parece ser quase impossível, ao mesmo tempo que sua família sofre as consequências das suas ações, e ele não parece perceber. Isso não quer dizer que Jacob faça isso por mal. Sua vontade de dar algo melhor para sua família do que existe no momento é quase palpável, mas ao mesmo tempo é quase melancólico ver esse embate entre seus sonhos e a vida real. Esses pequenos detalhes fazem com que a performance contida de Yeun, que já tinha demonstrado seu talento antes em Burning e The Walking Dead, seja sofisticada e completamente digna da indicação ao Oscar de Melhor Ator que recebeu.

Monica, por sua vez, responde a essa necessidade com um certo ceticismo. Seu drama é complexo porque fala muito sobre comunidade e o fato de que está longe de casa, em vários níveis diferentes. Ela sente falta da Coreia do Sul (é possível vê-la chorando quando sua mãe chega com mantimentos do país, reforçando a falta que sente da sua cultura), mas também não consegue se acostumar com a vida no Arkansas. Ela sente falta de uma comunidade que possa acolhê-la, além de se sentir solitária ao lado do marido que está muito perdido no seu próprio sonho para reparar em qualquer pessoa ao seu redor, inclusive na esposa. A história dos dois está sempre entrelaçada e é uma boa forma de explorar, ainda que minimamente, como é difícil fazer um casamento dar certo quando os contextos externos são mais fortes do que o amor. É preciso muita dedicação e esforço para colocar as diferenças de lado e conseguir trabalhar em prol de um objetivo em comum. Quando duas pessoas estão olhando para lados distintos, é ainda mais complicado.

Minari

A situação se agrava no casamento porque David tem um sopro no coração. Sem poder fazer esforço físico, o menino é monitorado pela mãe constantemente e a pressão de ter uma criança doente morando tão longe da civilização (o hospital mais perto é a uma hora de distância, por exemplo) é algo que parece pesar muito na forma como Monica vê o marido. Levando em conta que a saúde nos Estados Unidos não tem um sistema básico e que qualquer visita ao hospital é cara, é até compreensível o lado de Jacob, que tenta constantemente ganhar dinheiro com sua fazenda. Mas ao mesmo tempo existe o imediatismo da doença. Se a qualquer momento David pode ter um problema sério e seu coração parar de bater, então a prioridade seria, certamente, ficar perto de um lugar onde ele possa ser atendido. A forma como Monica e Jacob pensam nesse aspecto está constantemente em conflito e contribui muito para o jeito como eles se enxergam no final do filme.

Apesar de existir dentro de um contexto que é um pouco cruel e delicado, um humor leve se faz presente ao longo do filme, algo reforçado pela avó Soonja e seu relacionamento com David. O embate cultural e geracional entre eles é apontado desde o momento em que ela chega na casa, mas também é de longe o melhor aspecto da produção, seja por causa do desempenho dos dois atores, ou porque o longa se apoia na visão de David. Porque é uma história autobiográfica sobre um tempo específico da vida de Lee Isaac Chung, que era apenas um menino na época, o olhar de David é determinante e diz muito sobre o estilo de narrativa escolhido aqui. O menino não vê Soonja, por exemplo, como uma “avó de verdade”, nas suas próprias palavras. A personagem, que rouba absolutamente todas as cenas do filme, gosta de xingar, ver luta livre e jogar. “Ela nem sequer cozinha”, diz David. Já a avó não consegue entender todas as manias do neto e se questiona se ele é realmente uma criança coreana. Mas a verdade é que, de fato, ele não é. David vive a experiência única de ser coreano-americano, eternamente entre duas culturas diferentes, absorvendo o embate entre elas. Essa grande diferença na forma como os dois veem a vida é rica na trama e cria momentos genuinamente engraçados e absurdos, sempre com base no conflito, mas que eventualmente se torna algo mais (uma conexão entre avó e neto, mesmo que eles ainda sejam muito diferentes entre si).

O viés de David, ingênuo e gentil, como a maioria das crianças, também é um dos responsáveis por criar uma experiência que é tão acolhedora. Até mesmo os momentos que seriam mais pesados, como quando eles enfrentam racismo na igreja local, se torna algo quase inofensivo. “Por que sua cara é tão achatada?”, pergunta uma criança para David. É lógico que essas pequenas coisas podem ter eventualmente um efeito grande nele, mas no momento é tratado com estranheza, que é a forma com que David absorve ali. Outro momentos que podemos ver essa mesma característica é quando seus pais estão brigando e os dois irmãos mandam pequenos aviões de papéis para eles, com “parem de brigar” escrito na lateral, quebrando a seriedade da discussão.

Minari

O grande defeito do longa é a falta de atenção que Anne recebe da narrativa. Existe uma possibilidade real de ser apenas porque o olhar de David é o grande catalisador para os eventos gerais e, por isso, as figuras centrais da sua vida (mãe, pai e avó) têm mais destaque. Mesmo assim, Anne parece ser a única que não ganha um momento mais complexo dentro da história, o que é realmente uma pena.

Minari é uma experiência que pode ser absorvida em diversas camadas. O relacionamento de David e Soonja aborda um embate de gerações, enquanto o casamento de Monica e Jacob explora muito os papéis de gênero e casamento na década de 1980; já a experiência de todos eles, coletivamente, fala sobre como é ser de um contexto social e cultural completamente diferente daquele em que se está inserido. É interessante perceber que, sim, Minari fala sobre como é ser um imigrante, mas não necessariamente coloca a experiência dessa família em específico como uma verdade universal. Ao explorar os personagens e a forma como eles lidam com as coisas ao seu redor, o longa se torna mais humano e rico, além de oferecer uma visão empática sobre os problemas que eles eventualmente enfrentam. É como se o amor que Chung tem por sua família tivesse, de alguma forma, transbordado da vida real para as telas e criado algo que não necessariamente é sentimental ou dramático demais, mas sim extremamente pessoal e amável, como são feitas todas as coisas cujo envolvimento é pautado pela dedicação.

No final do filme, quando Soonja sem querer acaba queimando toda a produção de vegetais que Jacob fez até então, a família tem que recomeçar de muitas formas. Monica e Jacob têm que arrumar uma forma de recuperar a fé que um dia eles depositaram um no outro, e a família precisa, mais uma vez, lutar para prosperar em um ambiente que até então não tinha sido muito gentil com eles. Apesar de terem perdido toda a produção e ainda terem um longo caminho pela frente, a narrativa indica que talvez as coisas vão ficar bem. Que eles vão tentar de novo e finalmente criar raízes naquela pequena terra do Arkansas. Como minari, eles vão crescer e prosperar depois da sua segunda estação. Não por acaso, a última cena do filme mostra justamente Jacob e David recolhendo os minari que a avó plantou perto do rio antes. Na visão do menino, um recomeço. Na visão do público, uma bela metáfora sobre tentar, perder e recomeçar.

Minari recebeu 6 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Direção (Lee Isaac Chung), Melhor Ator (Steven Yeun), Melhor Atriz Coadjuvante (Yuh-Jung Youn), Melhor Roteiro Original e Melhor Trilha Sonora. 


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