Categorias: LITERATURA

Espere Até Me Ver de Coroa: “eu nasci realeza”

Para Liz Lighty, não há nada mais fora do personagem do que participar do baile de sua escola, quanto mais concorrer pela coroa de rainha. Até porque, isso não é o que Liz planeja para si mesma desde que se lembra: ela sairá de sua pequena cidade, no interior de Indiana, nos Estados Unidos, um lugar simplesmente obcecado por bailes de formatura, ingressará na universidade de Pennington, fará parte da orquestra de lá e mais tarde se formará em medicina. Mas seus planos se despedaçam em um piscar de olhos quando a ajuda financeira de que precisa para entrar na faculdade lhe é negada e sua única opção parece ser a mais inimaginável de todas e ela precisa considerar o baile do colégio como uma possibilidade.

Na escola de Liz, o rei e a rainha recebem como parte do prêmio de sua coroação uma bolsa de estudos, e é exatamente disso que ela precisa para continuar a trilhar seu caminho traçado quando era uma criança. O único problema nesse plano é que Liz Lighty se sente “negra demais, estranha demais e pobre demais” para essa empreitada, principalmente levando em consideração que a maior parte de suas concorrentes à coroa é formada por meninas brancas e ricas, feitas na medida para o conto de fadas que é o baile. Mas Liz não estará sozinha nessa tarefa de se tornar rainha e com a ajuda de suas amigas — e uma inesperada crush — fará o possível para dar início ao seu reinado.

“Quando você já sente que tudo sobre você te coloca em destaque, faz mais sentido simplesmente encontrar jeitos de se encaixar o máximo possível.”

Espere Até Me Ver de Coroa é o romance de estreia da autora Leah Johnson — publicado no Brasil pela Alt, selo da Editora Globo, com tradução de Solaine Chioro — e tem todos os elementos perfeitos de uma comédia romântica adolescente, o que transformou a leitura em um dos momentos mais divertidos do meu dia. Leah Johnson é uma escritora espirituosa que sabe bem como desenvolver seus personagens, criando tramas e situações na medida para que o leitor vibre, torça, chore e sorria com eles. É o que acontece com Liz Lighty, a protagonista de Espere Até Me Ver de Coroa: como dito anteriormente, Liz é negra, pobre e se considera muito estranha para os padrões de sua cidade. Ela prefere ficar à margem, sem chamar atenção dos colegas, e concorrer à rainha do baile vai absolutamente contra tudo o que ela conhece de si mesma. Perita em passar despercebida, Liz sempre mantém o cabelo volumoso sob controle, amarrado em um rabo, usa as roupas mais básicas e não quer ter nada a ver com a rede social criada pelos alunos de seu colégio e onde todo mundo fica sabendo de tudo o que acontece nos corredores de lá. Porém, para conseguir ir para a universidade de Pennington, Liz precisará se reinventar — ou, melhor dizendo, se redescobrir.

Em pouco mais de 300 páginas, Leah Johnson nos conta a história de uma menina que precisa abrir seu caminho no mundo à força e contra todas as circunstâncias. Liz Lighty nunca teve uma vida fácil e não ter recebido a bolsa de estudos de que precisava para entrar em Pennington é apenas a cereja no topo do sundae de preocupações que ela tem na vida: além dos estudos, Liz se preocupa com o irmão mais novo, que sofre de anemia falciforme, se preocupa com os avós, que cuidam dela e do irmão desde o falecimento da mãe, e se preocupa com todo o resto que não está em seu controle, deixando-a cada vez mais perto de uma crise de ansiedade.

Espere Até Me Ver de Coroa

Os dilemas de Liz são reais e identificáveis, sendo você uma jovem estadunidense ou não. Tanto por isso é muito fácil torcer por ela e por seu final feliz, seja ele recebendo a bolsa de que precisa para continuar seus estudos ou beijando a menina de seus sonhos. Liz é daquelas protagonistas que dá vontade de colocar em um potinho e proteger do mundo de tão adorável e determinada. Vibrar com seu crescimento e trajetória é um mérito da escrita sempre inspirada de Leah Johnson — a autora é capaz de escrever uma trama que prende o leitor e o instiga a sempre virar mais uma página, mesmo que já tenha passado da meia-noite e você precise levantar cedo no dia seguinte para trabalhar. A mensagem por trás do desenvolvimento de Liz, inclusive, é perfeita: você deve ocupar espaços, mesmo que, a princípio, eles não pareçam ter sido feitos para você. E é justamente isso o que Liz faz em sua trajetória em Espere Até Me Ver de Coroa.

Outro ponto positivo da narrativa fica por conta dos demais personagens que orbitam ao redor de Liz Lighty. Diferente do que acontece em vários young adults onde os personagens que não são o protagonista simplesmente não recebem desenvolvimento algum, em Espere Até Me Ver de Coroa acompanhamos os dilemas dos amigos de Liz como Jordan, seu amigo de infância, e Mack, a garota nova da escola e eventual crush. Gosto muito da maneira como Leah Johnson desenvolve ambos os relacionamentos: com Jordan, Liz redescobre como é ter um amigo que está ali para você sem reservas, reconectando-se com ele após anos afastados; e com Mack, Liz sente as borboletas no estômago do primeiro amor, mete os pés pelas mãos por pura falta de jeito e se entrega totalmente no final. É fofo e de deixar o coração quentinho, do jeito que a gente precisa para passar por dias difíceis. Leah Johnson subverte alguns tropos do gênero de maneira exemplar não somente com esses relacionamentos mas até mesmo ao retratar as típicas mean girls do High School estadunidense, e isso foi mais uma grata surpresa da trama.

“Eu nem sequer respondo. Não consigo. Meus lábios encontram os dela antes de conseguir colocar as palavras para fora. É apressado, animado e meio bagunçado, mas assim como um ótimo arranjo na música certa, a beleza está na imperfeição.”

A autora trabalhou tão bem e em tantos detalhes de sua narrativa que todos esses personagens parecem extremamente reais. Eles possuem um senso de humor único que, aliado às várias referências à cultura pop, apenas enriquecem a trama. É ótimo acompanhar o flerte entre Liz e Mack, assim como é perfeito ler os momentos cheios de sarcasmo entre a protagonista e Jordan. O romance, ainda que não seja a parte central da narrativa, é algo trabalhado e cheio de nuances. Não há um amor à primeira vista entre Liz e Mack, mas elas desenvolvem uma amizade que gradualmente se transforma em algo a mais — e isso é extremamente adorável de acompanhar. A falta de jeito do primeiro toque, do primeiro beijo, está tudo lá. Mesmo quando surge um conflito entre elas, Liz e Mack conseguem trabalhar a questão de maneira madura como poucos personagens de young adult são capazes de fazer. Tudo funciona muito bem em Espere Até Me Ver de Coroa, o que o faz soar autêntico, algo único em um mar de tramas recicladas e clichês repetidos à exaustão. A família de Liz também é algo a se notar: da avó, que se esforça para prover tudo na casa, ao avô, sempre dormindo no background (alguém com quem me identifiquei com facilidade) ao seu irmão caçula, todos são genuínos e reais, o que só aumenta o prazer da leitura. Era como se eu os conhecesse, e confesso que tentei postergar a conclusão da leitura o máximo possível para não precisar me despedir.

Dá uma sensação curiosa de orgulho acompanhar a trajetória de Liz: de alguém que desejava somente passar despercebida na multidão do colégio para uma pessoa completamente nova, trilhando seu caminho com segurança, sem deixar sua essência de lado. A transição de Liz de alguém que não queria a coroa para alguém que sabe que nasceu realeza é fantástica e aquece nosso ser. Quando ela diz “Eu nasci realeza. Tudo o que eu precisava fazer era escolher minha coroa”, tenho certeza que isso ressoará em toda menina que, como Liz, já se sentiu “negra demais, estranha demais e pobre demais” para qualquer lugar. Ao final do livro, nos agradecimentos, a mensagem de Leah Johnson é simples:

“E, finalmente, agradeço às garotas negras de todos os lugares — com toda nossa glória imperfeita, livre e fantástica. Eu vejo vocês, e é uma honra compartilharmos essa irmandade. Sou grata pela oportunidade de escrever nossas histórias. Não existe um mundo no qual não somos tanto milagre quanto magia, no qual nós não merecemos todos os finais felizes. Obrigada por me ensinarem a usar minha coroa.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Globo Livros.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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