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Por Lugares Incríveis: nenhum lugar é incrível se nele não podemos falar sobre saúde mental

Antes da Netflix anunciar a produção de uma adaptação do romance Por Lugares Incríveis, eu já havia visto muitos produtores de conteúdo literário do YouTube falarem sobre o livro, escrito pela autora estadunidense Jennifer Niven. Com o anúncio da versão cinematográfica, a curiosidade pelo enredo aumentou, me levando a, uma semana antes da estreia, ler a obra que o inspirou, e mais tarde, é claro, pensar sobre tudo o que li e assisti, tanto em comparação às duas perspectivas que a arte nos proporciona quanto de forma individual ao que cada uma abordou — e que deixou de abordar.

Aviso: as obras citadas e o texto tratam de temas como suicídio, depressão, transtorno afetivo bipolar e ideação suicida. 

Violet Markey (Elle Fanning) conheceu o luto muito cedo: sua irmã mais velha faleceu em um acidente de carro em que as duas estavam presentes, um contexto que tornou sua própria existência um fardo para ela que, além de se culpar pelo acontecimento e por ter sido a única a sobreviver, tem dificuldade para passar pelo processo de perda ao longo do primeiro ano que a sucede. Violet não é uma personagem depressiva e nós sabemos disso pelas suas lembranças felizes e pela família com suporte emocional que a mesma possui, mas sim, uma personagem deprimida — o que a leva a nem ao menos notar que seus pais estão passando pela mesma situação e que continuamente tentam mantê-la próxima deles para que a ajuda exista, mostrando-nos uma adolescente que se sente solitária em relação a sua própria dor. Theodore Finch (Justice Smith) ainda não conheceu o luto, mas sua dor é tão válida quanto a de Violet, seu par romântico. Único filho homem de pais divorciados, Finch não possui a mesma base que Violet dentro de sua família, sendo ele mesmo o responsável por saber quando não está bem o suficiente e o que fazer quanto a isso.

É claro que, para os dois, o fardo do final da adolescência e as expectativas criadas com o futuro é alto mas, além disso, ambos possuem problemas que dificultam ainda mais a fase da vida em que as tomadas de decisões parecem sempre tão definitivas (mesmo que, no futuro, acabem não sendo). E, apesar de estarem na mesma escola e serem colegas em algumas matérias, seguindo o modelo norte-americano de ensino médio, nenhum dos dois sabe o que o outro enfrenta. Até certo dia.

É a partir desse momento que o enredo do livro e o roteiro do filme passam a divergir. É completamente entendível que um filme baseado numa obra literária não possa abordar todos os aspectos da mesma, mas, quando a temática é a saúde mental, qualquer detalhe a menos pode fazer muita diferença para a discussão final. No livro, Jennifer Niven incluiu detalhes importantes desde a primeira página a respeito do que ocorre com Theodore. É logo ali, ao abri-lo, que entendemos que o personagem possui algum distúrbio mental não tratado da forma correta. As ideações suicidas dele são presentes, muito mais que as de Violet — um momento que seja no livro, seja no filme, não se repete para ela.

“Será que hoje é um bom dia para morrer?
Eu me pergunto isso todas as manhãs quando acordo. E durante a terceira aula, quando tento manter os olhos abertos enquanto o sr. Schroeder fala sem parar. À mesa de jantar, ao passar a salada. E à noite, na cama, sem sono porque meu cérebro não desliga.”

Se no filme temos a abertura com um Finch estável, correndo pelas ruas como uma atividade prazerosa, que encontra Violet em uma ponte cogitando o suicídio, no livro, desde o primeiro momento, é ele quem parece se encontrar em um momento de dissociação, percebendo que está a seis metros de altura na torre do sino de sua escola e dizendo que não sabe como chegou ali, mas que sabe ter ficado desacordado nos últimos dias e que, quando finalmente voltou a frequentar as aulas, a vontade de morrer seguiu sendo parte de sua rotina. A única coincidência com o filme, até então, passa a ser Finch ajudando Violet a não se suicidar quando percebe que a garota está do outro lado do parapeito parecendo, na verdade, mais assustada com o que fez do que decidida. Violet pensa em suicídio, mas com arrependimento, o completo oposto de Finch, que pesquisa maneiras de realizá-lo e se seriam ou não efetivas o suficiente.

por lugares incríveis

Apesar da premissa em comum, nenhum desses momentos é o responsável por aproximar os dois adolescentes na obra original, tampouco na baseada. Nos dias que seguem o ocorrido, o professor de Geografia dos alunos solicita um trabalho voltado para descobrir localizações turísticas de Indiana, estado onde se passa a trama, com o objetivo de aproximá-los de suas origens já que a maioria pode, na próxima estação, sair da cidade em busca de uma universidade. Lembrando da garota que ajudou a sair do parapeito e que naquele momento despertou seu interesse, Finch decide que será seu parceiro no trabalho e, a partir dali, mesmo que no início com pouca vontade da parte de Violet, o casal começa a se conhecer melhor e, como diz o próprio título das obras, a conhecer lugares que, quando juntos, se tornam incríveis.

Se o roteiro, escrito por Liz Hannah (indicada ao Globo de Ouro por The Post) em parceria com Jennifer Niven, já parece errado ao camuflar a importância do que acontece com Theodore desde o primeiro instante, alguns detalhes importantes que constroem a história e a personalidade do personagem fazem falta. No livro, assim como no filme, o adolescente não pode contar com a família, mas é no livro que os porquês são esclarecidos e nos levam a importantes conclusões sobre o final da trama. Finch vive em uma casa com sua irmã mais velha, uma presença relapsa, mas, ainda assim, a mais segura para ele, uma irmã mais nova, e uma mãe ausente que precisa trabalhar em dois empregos diferentes para sustentar a casa desde a ausência do ex-marido — e, acima disso, uma clara vítima de um relacionamento abusivo que não teve ajuda e que continua a exibir comportamentos relacionados a isso. É também no livro que sabemos que, apesar de não morar na mesma casa que o pai, os três irmãos o visitam constantemente aos finais de semana, por obrigação, lidando com seu novo casamento e seu irmão mais novo. São nesses momentos que as lembranças e as vivências das visitas de Finch nos mostram o difícil relacionamento com o pai que, além de ausente desde cedo, violenta o filho de formas físicas e verbais, com tendências explosivas que não possuem razões para ocorrer, um ponto que o personagem chega a questionar para a irmã mais velha no filme, quando relembra o passado da família, visto que as visitas não estão presentes no filme, mas que no livro tornam claro o que é crucial para o desfecho dado a Theodore: o histórico familiar de transtorno afetivo, popularmente conhecido como bipolaridade.

Dados do Ministério da Saúde classificam-no como um transtorno de difícil diagnóstico, com prazo médio de dez anos para ser efetivamente tratado, uma vez que suas características podem possuir semelhanças com outros transtornos, o que dificulta o processo para o serviço da saúde e para o paciente. Seus principais alertas são a ideação suicida, as fases de mania ou euforia, de mudanças repentinas no humor, a ausência de resposta a antidepressivos e o histórico familiar positivo. Além disso, são características da fase obsessiva a sensação de extremo bem-estar, aceleração, diminuição do sono, da concentração, aumento de energia, desinibição e impulsividade. Quanto a fase depressiva, as alterações de peso e apetite, a fadiga, apatia, ideação suicida, a ansiedade, a irritabilidade e a tendência ao isolamento são presentes. Todos os sintomas acima são claros em Finch, cujo único apoio é o de seu psicólogo orientador contratado para prestar serviços para a escola — com quem, obviamente, Theodore não se sente à vontade para se expressar. Tem-se nesse personagem mais uma diferença significativa entre as tramas: no livro, trata-se de um personagem mais apático com o tratamento do aluno, que comenta sobre a ideação suicida de maneira quase obrigatória, enquanto no filme mostra-se mais interessado e disposto a lidar com o isolamento e as piadas autodepreciativas de Finch, sinais que, quando identificados, devem ser motivo para intervenção.

Por Lugares Incríveis

A situação-problema do romance adolescente se torna então clara: Violet consegue avançar nas etapas do luto com o apoio de Theodore, mas o mesmo não ocorre com o garoto por este possuir um transtorno sério, que exige suporte familiar, médico, psicológico e de uma rede de apoio, além das reuniões anônimas por ele (pouco) frequentadas. O luto também não precisa ser um momento de solidão ou tratado como menos, mas é de extrema importância frisar que todas as ocorrências das duas obras se dão pela falta de um procedimento correto com os dois adolescentes em momentos de dor emocional e psíquica, e que apenas o apoio de pessoas não formadas profissionalmente não é capaz de reverter casos clínicos, sendo toda a ajuda prestada por Violet — a única a notar os sumiços e de fato correr atrás de Finch, não aceitando que o isolamento faz parte de sua personalidade e que em breve tudo voltará ao normal —, excelente, mas jamais o suficiente ou uma alternativa aos métodos tradicionais de tratamento.

Seria importante não ter passado tais detalhes de forma rápida ou então sequer passá-los, pois isso gera confusão para aqueles que assistiram ao filme de forma relapsa ou sem o apoio da obra literária — foram muitos os comentários pela internet sobre pessoas que não conseguiam compreender o que acontecia com o personagem masculino e o consequente não entendimento a respeito das cenas finais, o que, de certa forma, não leva o público a de fato falar e entender a importância da saúde mental. Por se tratar de um filme cujo público pode ser muito novo para a discussão, apesar da classificação ser acima dos 16 anos, existe a possibilidade da tentativa de amenizar os possíveis impactos do entendimento real sobre o que se passa com o personagem. No entanto, torna-se contraditório tentar falar de forma abrangente e realista sobre saúde mental sem de fato demonstrá-la. Nesse quesito, em comparação ao que foi feito pela autora no livro, a adaptação de Por Lugares Incríveis deixa a desejar.

A concorrente da Netflix, Amazon Prime Video, por meio do episódio “Take me as I Am, Whoever I Am”, de Modern Love, série baseada na coluna do The New York Times, mostra o dia a dia de Lexi (Anne Hathaway), personagem já diagnosticada com transtorno afetivo bipolar, entre suas fases de obsessão e de depressão, salientando de forma responsável e real a necessidade do tratamento correto e as características daqueles que convivem com a alteração.

No Brasil, dados da Associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ABTB) estimam que 30% a 50% dos portadores do transtorno afetivo bipolar possuem ideações suicidas e que dos que tentam o suicídio, 20% atingem o objetivo. Todos os anos, no dia 30 de março, data que celebra o aniversário do pintor Vincent Van Gogh, postumamente diagnosticado com transtorno afetivo bipolar, é, de certa forma, celebrado o Dia Mundial do Transtorno Afetivo Bipolar. Se você ou alguém próximo possui sintomas, ou o diagnóstico, não hesite em procurar ajuda profissional. O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma rede de apoio anônima disponível para conversar com pessoas em situação de sofrimento psicológico pelo telefone 188 e pelo site, www.cvv.org.br.

Por Lugares Incríveis

Tati Ferrari aprendeu a juntar a primeira sílaba aos sete anos e nunca mais parou. Dogperson, híbrida de Rory Gilmore e Paris Geller, nasceu na internet quando tudo isso aqui ainda era mato.

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1 comentário

  1. Realmente o filme deixou mesmo a desejar no quesito de se aprofundar melhor no transtorno do Finch, eu assisti ao filme tendo lido o livro, então sabia do que se tratava. Já uma prima minha que não teve essa base, e não está tão por dentro do tema, achou confuso a motivação do Finch no final…