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Os desejos e sonhos da mulher Carolina Maria de Jesus

Um clássico é aquilo que não terminou de dizer o que precisava. Adapto a frase de Ítalo Calvino para falar que Carolina Maria de Jesus — nascida em Sacramento-MG em 1914, falecida em 1977, em São Paulo- SP — não terminou de dizer o que precisava. Ela tinha um grito dentro de si que foi ignorado ao longo de toda a sua vida, mas que hoje reverbera por meio de seus diários, contos, romances, poemas e músicas que finalmente estão ganhando o mundo.

Carolina se tornou figura conhecida do mercado editorial na década de 1960 ao retratar as agruras da vida na favela do Canindé — hoje inexistente — no livro Quarto de Despejo. Mas essa mulher, negra, mãe, catadora de papel, empregada doméstica, poetisa, escritora e cantora vai muito além da fome e da miséria retratada nas páginas de sua mais popular obra. Em livros recém-lançados, Carolina se mostra de forma mais íntima. Vemos mais da mulher Carolina, que quer ser amada, desejada, usar uma fantasia de carnaval linda, uma vizinhança calma, segurança para os filhos e o reconhecimento de seus escritos. Uma Carolina viva.

Casa de Alvenaria: a realização de um sonho que se frustra

Ao longo da narrativa apresenta em Quarto de Despejo, Carolina fala do sonho de deixar a favela e conseguir sua casa de alvenaria. Com o sucesso da obra, ela consegue ter renda suficiente para realizar esse sonho.

“[…] fiquei pensando na minha vida que pareçe uma tragédia, a gente nasçe, e no decorrer da existência a vida vai ficando atribulada. […] Vamos ver como é que vae ser a minha vida aqui na sala de visita.” (Casa de Alvenaria – Volume 1: Osasco, pág. 32, 2021)*

Em 2021, a versão integral dos diários que compõem o livro Casa de Alvenaria, publicado originalmente em 1961, foram lançados em dois volumes pela Companhia das Letras. As obras são divididas entre os períodos em que Carolina viveu em Osasco (vol. 1), município da Região Metropolitana de São Paulo, e Santana (vol. 2), bairro da Zona Norte da cidade de São Paulo.

No  Volume 1: Osasco, que reúne escritos de 30 de agosto a 20 de dezembro de 1960, podemos acompanhar uma Carolina se descobrindo como celebridade, constantemente parada nas ruas ao ser reconhecida. No decorrer das páginas, contudo, o brilho inicial de Carolina, que acreditava estar realizando um sonho, vai se perdendo. Os eventos e viagens para divulgação do livro e a presença de sua foto em destaque nas vitrines das livrarias são situações que vão deixando de ser motivos de alegria ao ter que lidar com o assédio e a invasão de sua privacidade.

Além disso, a vida fora da favela se torna ainda mais custosa. Seus filhos ainda são agredidos por vizinhos que os culpam por qualquer problema na rua. A própria “riqueza” de Carolina se torna mais um obstáculo para a vida tranquila que ela tanto almejava. E a frequente aparição de pessoas desconhecidas que pedem ajuda financeira alimentam a sensação de perda de liberdade, do controle de sua vida.

Mesmo nos dias em que o cansaço não dava trégua, ela tentava ajudar todos que apareciam, principalmente os que buscavam apoio para estudo e trabalho. Se torna uma resignação para Carolina, uma situação da qual não consegue fugir. No primeiro volume de Casa de Alvenaria vemos uma Carolina em transição, que deixou a favela devido a revolta dos vizinhos retratados no livro e que precisa se virar em um novo ambiente ainda hostil a ela.

“Xinguei a minha vida. Quando eu não tinha dinheiro, não tinha sossego com a fome. Agora, tenho dinheiro e não sossego com os oportunistas, os piratas que querem aproveitar-se de minha situação. Eles vê vender muitos livros e pensam que o lucro é todo meu. Eu ganho comissão nas vendas!” (p.189)

A vida em Osasco se torna insustentável para Carolina que decide finalizar o mais rápido possível a compra da sua tão sonhada casa de alvenaria. No Volume 2: Santana, acompanhamos quase três anos da vida de Carolina em Santana (24 de dezembro de 1960 a 18 de dezembro de 1963). A compra da casa começa cheia de problemas, com um valor alto e parentes do antigo proprietário ocupando o imóvel e se recusando a mudar.

Carolina enfrenta a todos, até as pulgas, para conseguir seu espaço. Contudo, ela entra em uma rotina ainda mais sufocante, tendo que administrar a educação dos filhos, a escrita e a divulgação do livro, a limpeza da casa e as contínuas visitas que minam qualquer tempo que poderia ter para si. É agonizante ver Carolina encurralada nessa vida, com poucos momentos para gozar de suas conquistas.

“Fiquei pensando na minha vida, não decorre como desejei. Eu queria viver recluída, lendo, porque gosto de lêr.” (Casa de Alvenaria – Volume 2: Santana, p. 196, 2021)

A alta dos preços dos alimentos, do custo de vida como se refere, tornam os escritos de Carolina ainda atuais. O racismo observado em suas viagens e o desconforto da burguesia com a sua presença nos espaços que, pela regra social vigente, eram restritos aos brancos e ricos, mostram como a sociedade estava disposta a ouvir Carolina Maria de Jesus até certo ponto. E, ao vê-la ultrapassando a linha limite que divide pobres e ricos, sua presença logo se tornou um incômodo.

“Quando avistam-me, é que recordam que ha favelas no Brasil. Quando eu morrer, o problema será olvidado [esquecido] como decreto de politico que vão para as gavêtas. Será que surge outras Carolinas? Vamos ver!” (CA – Vol. 1: Osasco, p. 170, 2021)

A mulher Carolina

Carolina nunca quis se casar. Para ela, o casamento seria uma prisão. Não queria homem nenhum lhe colocando cabresto. Mas, como qualquer pessoa, ela queria ser amada e desejada. Em Quarto de Despejo, não vemos muito de seus desejos para além da sobrevivência e dos conflitos com o pai ausente de Vera, sua filha mais nova. É justamente por trazer esse contraponto que os volumes de Casa de Alvenaria, que podem ser lidos de forma independente, ganham destaque. Neles, vemos uma Carolina que beija um jornalista gringo no meio no aeroporto, mesmo com olhares reprovadores em volta, que canta e rir.

“Vi um homem bonito. Alto ia andando na minha frente. Pensei: que tipo agradável. Se ele fosse meu! Havia trata-lo com todo carinho” (Casa de Alvenaria – Volume 2: Santana, p. 142-143, 2021).

É importante ver uma Carolina que quer viver, sentir, principalmente após a leitura de Quarto de Despejo. Até então, sua companhia mais íntima era a fome. Agora, vemos uma mulher que se dedica a fazer uma fantasia de penas para o carnaval porque quer se divertir e estar bonita, por exemplo. Ao longo do livro, Carolina chega a se relacionar com um homem, o qual chama de seu “preterido”. É bonito ver como ela se alegra em sua companhia, revelando como lhe fazia falta uma felicidade cotidiana, não relacionada aos afazeres domésticos ou de trabalho.

Vale ressaltar que Carolina Maria de Jesus é uma pessoa além de poetisa. Ela tem defeitos e preconceitos. Em muitos momentos do Volume 2: Santana, ela defende uma visão idealizada do papel de esposa que hoje não se enquadra mais como algo natural. Por isso, é importante lê-la como uma mulher de seu tempo. Ela não era uma pessoa fácil, não estava ali para agradar ninguém. E, como qualquer ser humano, sentia raiva, frustração e solidão.

No final, ela saiu às escondidas de Santana para enfim ocupar o sítio que comprou em Parelheiros, distrito do extremo sul da capital paulista. Neste refúgio rural na cidade, ela encontrou a calmaria que tanta buscava e foi onde viveu até a sua morte, esquecida por muitos. Nos últimos anos, com o crescimento e popularização do movimento da literatura periférica e marginal, Carolina vem sendo redescoberta, mesmo que a passos lentos.  A questão é se dessa vez vamos ouvi-la.

“As portas das Academias do Brasil ainda estão fechadas para Carolina Maria de Jesus”. (Casa de Alvenaria – Volume 1: Osasco, p. 127, 2021).

*Os trechos citados seguem a grafia original de Carolina mantida nas edições de 2021.


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