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104 anos de Carolina Maria de Jesus: revisitando o Quarto de Despejo

Mulher negra, mãe solo de três filhos pequenos, catadora de papel, moradora da favela do Canindé, em São Paulo – essa foi Carolina Maria de Jesus. Leitora assídua, escritora, mulher trabalhadora que tinha um sonho e fez o que estava ao seu alcance para concretizá-lo – essa também foi Carolina Maria de Jesus. Hoje, se estivesse viva, Carolina completaria 104 anos. Mesmo que ela não esteja mais fisicamente entre nós, seu legado literário permanece, e a memória dessa mulher que ficou tanto tempo no esquecimento, em algum canto empoeirado de um quarto de despejo, merece ser reconhecida e celebrada em todos os dias do ano.

Carolina nasceu em Sacramento, Minas Gerais, no ano de 1914. Fruto de um relacionamento extraconjugal de seu pai, sua vida foi difícil desde o começo. Aos sete anos, começou a frequentar o Colégio Allan Kardec, com o financiamento da esposa de um fazendeiro rico da região, mas só pôde completar dois anos de educação formal. Mesmo com essa curta passagem pela escola, Carolina aprendeu a escrever e se apaixonou pela leitura e pela escrita, continuando sua educação por si própria, com a ajuda de livros. Se mudou para São Paulo em 1937, e se estabeleceu na extinta favela do Canindé, em 1947, ano anterior ao nascimento do primeiro dos seus três filhos. Trabalhou inicialmente como empregada doméstica, mas eventualmente se tornou catadora de papel para reciclagem. Paralelamente, em seu tempo livre, se dedicava a ler os livros que colecionava com carinho e a registrar sua realidade em diários, contos, poemas e romances. Enquanto coletava papéis e outros materiais para vender, a escritora aproveitava a oportunidade para resgatar do lixo os cadernos que viriam a se tornar os mais de 20 volumes do seu diário.

Em 1958, o jornalista Audálio Dantas, que visitava a favela com o intuito de escrever um artigo para o Jornal da Noite, entrou em seu caminho. Carolina mostrou a ele seus diários, cujos trechos acabaram por substituir o artigo que seria escrito pelo jornalista. Posteriormente, em 1960, foi publicado pela primeira vez o livro Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada, contendo trechos selecionados dos diários da escritora entre os anos 1955 e 1960. O livro esgotou as 10.000 edições da tiragem original já na primeira semana do lançamento, e desde então já vendeu mais de 1 milhão de cópias e foi traduzido para 14 idiomas. Os livros seguintes de Carolina não repetiram o sucesso do seu título de estreia, mas a renda de Quarto de Despejo permitiu que a autora realizasse seu sonho de sair da favela e morar em uma casa de alvenaria, primeiro no bairro de Santana, depois em Paralheiros, ainda em São Paulo.

Quarto de Despejo é um livro riquíssimo em temáticas e assuntos relacionados a gênero, raça e classe. Acima de tudo, a obra retrata vidas vividas em situação de extrema pobreza e precariedade. O formato de diário faz com que seja uma leitura, por si, relativamente rápida, mas os temas retratados não têm nada de leves. O que vemos se desenvolver diante de nós, desde o primeiro registro com que temos contato, no aniversário de Vera Eunice, sua filha mais nova, em 1955, no qual a narradora lamenta não ter dinheiro para comprar um par de sapatos para a filha, que odeia andar descalça, é sofrimento, dor e privação. Por incrível que pareça, o primeiro ano retratado no livro, ainda que comece dessa forma dolorosa, parece ser o mais próspero de todos os retratados na obra. O ano é interrompido antes do fim e quando reencontramos Carolina e seus filhos, em 1957, se torna cada vez mais recorrente um tema que não apareceu de forma tão insistente durante o primeiro ano: a fome – a Amarela.

“Eu sou negra, a fome é amarela e dói muito.”

Carolina Maria de Jesus

Além da fome, a pobreza também aparece na questão da saúde. Sem dinheiro para pagar por atendimento médico, qualquer doença era tratada apenas com comprimidos e angústia. A própria Carolina se declara doente em diversos momentos; em outros momentos, seus filhos. Quando absolutamente necessária, a visita a um médico ou a um dentista significa privações ainda maiores para a família toda, que depende de todo o dinheiro que Carolina consegue juntar para poder se alimentar. Essa situação de negação absoluta de direitos humanos básicos só não é inacreditável por ser, infelizmente, tão real e atual; e se torna ainda mais grotesca e gritante quando posta por contraste, em situações onde a denúncia da desigualdade social é mais evidente.

Paralelamente à questão da pobreza – inegavelmente a parte central do livro – diversas outras questões são abordadas pela autora na obra. A começar pela preocupação constante com a saúde e segurança dos filhos, mas também com a sua idoneidade moral, seu caráter e sua educação. A situação de Carolina com seus filhos mais velhos, João JoséJosé Carlos, dois meninos negros pobres em uma sociedade que criminaliza e mata a população pobre em geral e a população negra especialmente, é a situação vivida por milhares de mulheres negras pobres todos os dias, obrigadas a saírem de casa para ganhar o sustento da família, levando consigo a preocupação com o destino dos filhos durante a sua ausência, forçadas a trancarem os filhos sozinhos dentro de casa na tentativa de mantê-los a salvo. Durante o livro, Carolina chega a deixar de sair para trabalhar para garantir que um dos filhos não saia de casa e permaneça seguro. No meio disso tudo, a escritora também se preocupa em garantir que os filhos tenham acesso à educação formal que ela não teve, na esperança de que o futuro deles seja melhor.

Essa confiança na educação escolar é algo muito palpável no decurso do livro. Ainda que pouca, é da sua alfabetização que Carolina tira não apenas seu lazer, como seu senso de importância, em um meio onde a maior parte das pessoas nunca aprendeu a ler e escrever. Sua escrita é sua arma, não só para denunciar sua própria realidade, mas também para se defender como uma mulher negra e pobre em um mundo que é hostil à sua própria existência. Uma ameaça que vemos constantemente no livro, e que é estranhamente eficaz, é pura e simplesmente a de colocar o nome de algum dos vizinhos no suposto livro que Carolina está escrevendo.

O fato de Carolina ser mãe solteira é muito determinante para a forma como ela é tratada em sua comunidade. Dentro do microcosmos retratado em Quarto de Despejo, a presença masculina é muito valorizada. No contexto em que se passa a história de Carolina, isso vai muito além da necessidade de validação masculina que perpassa toda a sociedade patriarcal – o racismo institucional faz com que homens negros sejam diariamente encarcerados, dividindo famílias e aumentando o peso já carregado pelas mulheres que precisam assumir toda a responsabilidade pela família. O que parece irritar ainda mais a sociedade patriarcal, entretanto, é o fato de Carolina rejeitar declaradamente o casamento. A narradora-personagem se relaciona afetiva e/ou sexualmente com mais de um homem durante o período retratado, além de rejeitar diversos outros pretendentes, mas afirma que nunca quis se casar por não querer obedecer a nenhum homem.

Carolina Maria de Jesus e Ruth de Souza
Carolina Maria de Jesus e Ruth de Souza. São Paulo, 1961. Fotógrafo não identificado. Coleção Ruth de Souza

Nos relatos de Carolina, são frequentes as cenas de violência doméstica em praça pública. Em geral, a vizinhança encarava os acontecimentos como uma espécie de entretenimento, se aglomerando em torno do casal da vez e participando da algazarra. Parece causar mais escândalo o fato de as mulheres saírem seminuas de casa, fugindo da agressão, do que a agressão em si. Essa situação também não é exatamente nova ou surpreendente, nem exclusividade das classes sociais mais pobres. Casos de violência doméstica em sociedades patriarcais são ainda hoje encaradas como “brigas de casal”, que devem ser resolvidas pelo próprio casal na esfera privada, sem interferência de terceiros. Agressões contra mulheres dentro de relações afetivas familiares ainda são consideradas normais em muitos círculos, e a culpa com frequência recai sobre a própria vítima.

A chegada contínua de migrantes nordestinos no final da década de 50, também retratada na obra, é ainda mais uma fonte de conflito e choque cultural, exacerbados pela situação de privação e precariedade em que vivem os moradores da favela do Canindé. Os novos moradores chegam com costumes e hábitos próprios, que geram estranhamento e, com frequência, hostilidade na população local, acrescentando uma nova variável à tensão já vivida pela população local e pelos recém-chegados. Ainda assim, mesmo que a comunidade retratada em Quarto de Despejo em geral seja majoritariamente hostil, o livro nos fornece de tempos em tempos vislumbres de solidariedade, seja compartilhando a pouca comida que se tem, seja ligando para a polícia quando situações violentas passam dos limites. Em seu livro, Carolina nos mostra uma sociedade feia – que é a nossa como um todo –, mas traz também algumas luzes que ajudam a diminuir a escuridão. A começar pela sua própria existência.

Carolina teve muitos “azares” na vida, mas teve a sorte de alcançar alguns dos seus sonhos. Sorte que muitas pessoas em situações similares nunca têm. Enquanto isso, nós, aqui do outro lado, tivemos a sorte de receber esse testemunho que nos obriga a sair de nossas próprias bolhas de privilégio e enxergar realidades às vezes muito distantes, ainda que geograficamente tão próximas, das nossas. Carolina era uma das invisíveis, e ela rasgou o véu da invisibilidade com a sua caneta. Ela nos deu conhecimento sobre uma realidade para a qual muitas de nós passamos a maior parte das nossas vidas cegas, mas ela não fez isso para o nosso entretenimento. Ela fez isso para que nós sejamos também atores de mudança e parceiras de luta. Resta a nós decidir se vamos fazer jus a esse presente que nos foi dado.

“Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.”


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma Engelke.

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6 comentários

  1. que coisa mais linda esse texto ♥ ninguém morre quando é lembrado, especialmente quando falamos de uma pessoa que escrevia. tô pra ler carolina já faz tempo! espero que não passe desse ano 🙂

    1. Muito obrigada, Dandara. Escrevo com o meu olhar de jurista e de admiradora, com o objetivo de homenagear mesmo. Adoraríamos colocar os créditos das imagens, mas não conseguimos encontrar. Você tem essa informação? Obrigada pelo comentário!

  2. Emocionante esse texto. Acabei de ler “Quarto de Despejo” e estou aflita. Quantas Carolinas ainda existem pelo Brasil e quantas crianças que ainda passam fome e a sociedade e o governo estão inertes. As políticas públicas que deveriam chegar até essas pessoas não chegam. Triste.

  3. Minha avo Dona isaltina foi vitada na obra de carolina…queria o trecho e em qual livro falam dela….uma portuguesa que morava no Canindé e criava galinhas…se puder me ajudar…obrigado