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Derry Girls: um achado direto da Irlanda do Norte

Um grupo de adolescentes cursando o ensino médio em uma escola só para garotas. Pensar nesse combo imediatamente me faz lembrar de Gossip Girl, mas Derry Girls nos leva para bem longe da vida dramática e abastada dos jovens do Upper East Side. Ambientada nos anos 1990, a sitcom — criada por Lisa McGee e lançada no início de 2018 no Reino Unido — segue um grupo de cinco adolescentes na pequena cidade de Derry, na Irlanda do Norte, ao longo de sete episódios, todos disponíveis no catálogo da Netflix.

Depois de anos e anos consumindo filmes e séries que retratam o típico cenário de ensino médio norte-americano, já conhecemos os estereótipos tão bem que é quase como se tivéssemos passado nosso próprio ensino médio em um colégio nos Estados Unidos. Derry Girls não pinta esse mesmo quadro: na série, não vamos encontrar um holofote na turma popular, não vamos acompanhar os protagonistas no baile da escola e não há líderes de torcida nem atletas de basquete ou futebol americano em nenhum lugar visível — e por mais que eu saiba amar um bom clichê, é uma grata mudança de ares.

Já no início do primeiro episódio somos apresentadas a Erin Quinn (Saoirse-Monica Jackson) por um narração que conta quem ela é e onde vive. Logo em seguida, porém, a cena revela que a voz é, na verdade, de Orla McCool (Louisa Harland) que lê o conteúdo de sua fala diretamente do diário de Erin. É uma boa forma de fazer a introdução de ambas as protagonistas e também de um dos ambientes mais frequentes da série: a casa de Erin. Erin e Orla são primas e vivem na mesma casa com a família — a mãe de Erin, Mary (Tara Lynne O’Neill); o pai de Erin, Gerry (Tommy Tiernan); a mãe de Orla, Sarah (Kathy Kiera Clarke); e o avô das garotas, pai das duas mães, Joe (Ian McElhinney). Depois de apresentar a família, a série nos apresenta os amigos de Erin no segundo cenário mais comum da produção: o colégio. Aqui, entram Clare (Nicola Coughlan) e Michelle (Jamie-Lee O’Donnell), fechando o quarteto de amigas inseparáveis e que já parecem amigas há muito tempo. Entra também uma novidade com a chegada de James (Dylan Llewellyn), primo de Michelle que passa a viver em Derry.

Esse é o universo da série, mas não é só. Ainda que o conceito de acompanhar a vida de adolescentes no ensino médio e suas relações com a família em uma cidade pequena já seja passível de render uma sitcom bacana, Derry Girls tem alguns toques a mais. O primeiro deles é que, como pano de fundo e sempre permeando o enredo dos episódios, temos “O Problema” [“The Troubles”], conflito na Irlanda do Norte que durou desde o final da década de 1960 até o final da década de 1990. O conflito tinha, de um lado, os protestantes e, de outro, os católicos, e envolveu questões políticas e religiosas, além de ter sido bastante violento. Nesse contexto, a série insere no universo tipicamente adolescente dos protagonistas toda a bagagem do conflito, seja com uma bomba que deixa as personagens irritadas por as obrigarem a fazer um caminho mais comprido ou com pichações políticas surgindo nas paredes da cidade.

Outro ponto que vai além do que seria esperado é que James chega para estudar no mesmo colégio que as garotas, um colégio católico só para meninas. Vindo da Inglaterra para morar com a família da prima, James é considerado “feminino demais” para ir para uma escola só de meninos e, além disso, ele é inglês — duas coisas que fariam com que ele apanhasse dos outros garotos, como explicam na série. À exceção de uma questão de uso de banheiros no primeiro episódio, James não parece incomodado em ser o único menino do colégio nem é encaixado em um dos estereótipos mais clichês a que poderiam recorrer nesse contexto: o cara tarado com pose de pegador que olha para todas as meninas como potenciais parceiras sexuais ou o garoto gay que se sente mais confortável com companhias femininas. Ele só está ali, vivendo sua vida, ainda que passe por cobranças de um padrão de masculinidade no qual não se encaixa.

Esses são pontos que ajudam a enriquecer a série que traz, apesar de ser bastante simples, alguns toques sutis que nos convidam a pensar, principalmente no contraste entre o violento conflito político e a vida cheia de preocupações corriqueiras dos adolescentes. Erin e os amigos se preocupam com o que há de mais comum na vida do jovem do ensino médio: provas difíceis, crushes impossíveis, a proibição dos pais para fazerem alguma coisa, a rivalidade com outras colegas. Derry Girls não é uma série altamente complexa, com tramas absurdamente elaboradas e ideias mirabolantes, mas é nessa simplicidade que mora a graça da produção. Além de todo o clima dos anos 1990, os figurinos típicos, a trilha sonora. E, é claro, as personagens.

Para mim, gostar ou não das personagens é algo decisivo no ato de continuar ou não a ver uma série de comédia. Enquanto nas séries de dramas posso ser movida pela força do ódio por temporadas e temporadas, nas comédias preciso ser cativada pelas personagens. É o que acontece nesse caso. Para começar, é sempre um alento ver uma produção em que a maior parte das personagens são mulheres, visto que a maioria masculina não é nada difícil de encontrar. Em Derry Girls, temos apenas três personagens homens relevantes — James, Gerry e Joe.

O grupo de protagonistas — os adolescentes — é ótimo em trazer personalidades bem diferentes e que mesmo assim funcionam bem juntas. Erin é uma garota cheia de grandes sonhos e aspirações, que quer se tornar escritora e tem uma tendência a romantizar as situações. Já sua prima, Orla, é meio aérea e inocente, tem interesses excêntricos e me lembra a querida Luna Lovegood de Harry Potter. Clare vive sempre no limite, tem reações exaltadas e entra frequentemente em pânico. Por fim, Michelle é a adolescente rebelde do grupo, a que fala muitos palavrões e bota banca de encrenqueira. As quatro formam um bom grupo de amigas que realmente parecem se conhecer há muito tempo, daquelas amigas que cresceram juntas e adquiriram sua própria dinâmica, acostumadas às particularidades de cada uma. James entra nessa dança como um estrangeiro em todos os sentidos possíveis — porque é menino, porque é inglês e porque cai de paraquedas em um grupo que já tem uma vida própria. Mesmo assim ele se encaixa, com seu jeito meio conformado em moldar uma nova rotina.

O núcleo de adultos também funciona bem. As cenas com a família de Erin são ótimas e traçam o perfil de família meio amalucada e cheia de manias que as comédias gostam de fazer. Mas o grande trunfo entre os adultos é a irmã Michael (Siobhan McSweeney), freira e diretora do colégio das meninas. Com uma personalidade e atitudes que vão muito além do que poderíamos esperar de uma freira, a irmã Michael participa de algumas das melhores cenas da série, com comentários irônicos e decisões de alguém que está um tanto entediada e só quer ver no que as coisas vão dar. Por outro lado, a diversidade não é um ponto forte da série visto que todo o elenco principal é branco. Só no último episódio da primeira temporada é que temos a revelação de que uma das protagonistas é lésbica, o que abre possibilidades de mudanças para o cenário essencialmente heterossexual na segunda temporada.

Derry Girls não é uma série revolucionária e que vai mudar a sua vida. Mas, é uma comédia com boas sacadas e que traz de brinde algumas coisas que não estamos tão habituados a ver em séries do gênero. Com uma boa recepção no exterior e uma segunda temporada já garantida e em processo de produção, meu palpite é que a série volte mais forte e traga boas novidades. Ficamos de olho.

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1 comentário

  1. Essa série foi uma surpresa super positiva pra mim. Pela chamada dela na Netflix eu também achei que encontraria algo mais clichê, ou se não, uma série com pegada de My Mad Fat Diary. Porém, ela surpreende mostrando o dia dia desse grupo de meninas irlandesas (já que sempre vemos os norte-americanos e os britânicos). Eu também amei a dinâmica dos personagens!