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Fun Home: uma relação entre pai e filha

No tarô, a carta que representa o arquétipo paterno é O Imperador, o Arcano Maior de número IV. Na imagem dessa carta vemos um homem sentado em seu trono, o semblante sério, o cetro (em formato estranho, semelhante a uma cruz) e a orbe em cada uma das mãos, a presença animal — no meu baralho, o bode que ornamenta o trono; em alguns outros, a águia desenhada em um escudo —, a secura do ambiente. Ele olha para frente, para além (eu diria até: através) de quem o observa. Li em algum lugar que ele representa a Autoridade.

A Carta ao Pai, de Franz Kafka, é, antes de qualquer coisa, a tentativa de elaborar o medo que aquela figura inspira, as consequências desse medo, a paralisante existência diante (ou debaixo) dele: “Você influiu sobre mim como tinha de influir, só que precisa deixar de considerar como uma maldade especial da minha parte o fato de eu ter sucumbido a essa influência”. É impossível abandonar o pai. É impossível resistir a ele.

No universo masculino, a figura paterna assume um peso especial, profundamente marcado pelo senso de ordem e rigidez. O pai dos homens é sempre grave, sério, imponente. Ele assume os papéis da vitória — o conquistador; o homem de negócios; o lutador; o aventureiro — e carrega o manto da memória que nos cobre a todos. É sob a sua imagem que dormem a literatura, o cinema e também a cultura pop.

Darth Vader. Don Corleone. Tiago Potter (mas também Sirius Black e Dumbledore e Hagrid). Mufasa. Thomas Wayne (e então Alfred). Ned Stark. De forma mais absoluta, toda obra de Kafka. Esse ou aquele autor russo. A mitologia grega. Deus. Em todos esses casos, pais são mais do que pais — são arquétipos, símbolos, pontos de partida. Em todos esses casos, seus filhos são homens.

Fun Home - imagem 1

A história da relação entre pais e filhas, por outro lado, carece de profundidade. Nós não temos uma figura a superar — ou mesmo uma diante da qual sucumbimos. Pais são sempre aqueles que nos abandonam. E, em um mundo marcado pela ausência paterna, isso não seria uma surpresa; no entanto, somos só nós, protagonistas femininas, que não sabemos transformar essa ausência em qualquer outra coisa.

Para nós, pais são sempre aqueles que deixam um buraco a ser preenchido por outro homem. Mesmo nossas mães sofrem com esse vazio (a morte ou o abandono), desmancham diante dele, são guiadas por ele. Nós vamos à tiracolo. No nosso universo, pais são bússolas invisíveis, imãs gigantescos, qualquer coisa a ser experienciada em segredo. Nós não construímos narrativas; somos submetidas a elas.

Os pais de mulheres são sempre meio bobos e desconectados da sobriedade que teriam caso fossem pais de homens, mesmo quando eles são os únicos pais presentes na narrativa. Da cultura erudita à cultura pop, eles parecem existir fora, nunca fazendo parte de nenhum conflito individual. Não é com eles ou diante deles que elaboramos a nossa identidade, mas a partir do seu rastro, da sua memória, do seu efeito sobre uma realidade que não é a nossa. Nós não voltamos aos nossos pais; não escrevemos para eles. Ou assim parece.

Em Fun Home, Alison Bechdel vai na contramão desse silêncio absoluto. Sua HQ é um livro de memórias, uma autobiografia, um jogo de mistério e culpa. Como pode o seu pai estar morto, se a sua presença é tudo o que ela carrega em si? Existe alguma coisa além dessa lembrança; uma força formadora de uma segunda identidade.

“Como muitos pais, o meu às vezes podia ser convencido a me levantar no ‘avião’. Conforme eu era lançada, todo meu peso recaía sobre o eixo entre os pés e o estômago dele. Era um desconforto que valia pelo raro contato físico, e certamente pelo momento de equilíbrio perfeito quando eu voava sobre ele. No circo, chamam-se as acrobacias em que alguém no chão equilibra o outro de ‘jogos icários’. Tendo em conta o destino de Ícaro, que desprezou o conselho do pai e voou até perto do sol, derretendo suas asas, talvez haja aí um tanto de humor negro. Em nossa reconstituição particular dessa relação mítica, era meu pai e não eu que despencava do céu.”

Fun Home - imagem 2

Partir da morte, da ausência material, e da memória não são formas de elaborar os conflitos simultâneos ao pai, ou à figura do pai com a qual ela se relaciona. Ao longo da sua história, é ela quem se constitui, entre as estantes, as falas e o (suposto) suicídio. No fim do livro, é diante de Alison que nos vemos, mas ela mesma está entrelaçada em seu pai, lutando contra e a favor dele, negando-o e aceitando-o como uma força que a constitui e a destrói na mesma medida. Em Fun Home, mulheres ganham o contorno de uma paternidade que, até então, eu só vira ser dado aos homens.

Nos jogos icários, cena que abre a HQ, é Alison quem se lança sobre o pai, apesar da mudança de papéis que a própria autora anuncia. É ela quem, de braços abertos, paira sobre ele, tentando equilibrar-se. E é ela quem tem as asas moldadas pelos outros; que aprende a voar graças ao trabalho que seu pai — em sua biblioteca, perdido entre celulose e segredos — realiza. Lendo a sua história, acompanhando seu desenvolvimento, passei a me perguntar se também não sou eu quem me lanço sobre essa figura, talvez mais até do que sobre a Mãe; se também não sou eu quem pairo, por alguns segundos que sejam, sobre a imagem do Pai: diante dela, sobre ela, confiando na força que ela exerce como minha base.

Minha formação cultural não difere da maioria. Cresci sob o arco narrativo de protagonistas que ou ignoram completamente seus pais (presentes ou ausentes, não importa), ou sofrem seus efeitos: não sabem se relacionar; desenvolvem uma rebeldia cansativa; sofrem a perda sem nunca efetivamente trabalhá-la. Um pai, em uma narrativa para mulheres (com todos os pormenores que essa definição carrega), sempre foi uma figura menor. Assim como nossos interesses, nossos planos, nossa personalidade, eles existem em segundo plano — quando presentes, para dar um conselho pontual; quando ausentes, para serem lembrados em no máximo uma cena.

Me parece, hoje, que exigir que sejamos vistas e pensadas como indivíduos completos significa também reconhecer que muitas de nós estamos submetidas a essa outra figura. Somos influenciadas por ela, brigamos com ela, nos elaboramos conjuntamente a ela. Não importa a relação que estabelecemos com os pais que temos (ou deixamos de ter); importa que elas existem, e, como todas as outras relações, são constitutivas de nós mesmas. O Imperador se impõe também ante nós, afinal. Resta compreender como interpretamos a Autoridade.


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