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Madam C. J. Walker & Annie Malone: mulheres negras pioneiras na indústria da cosmética

“Cabelo é beleza. Cabelo é emoção. Cabelo é nossa herança. O cabelo diz quem somos, por onde andamos e para onde vamos. Cabelo é poder.” É como começa a série A Vida e História de Madam C. J. Walker, da Netflix. Inspirada na obra On Her Own Ground: The Life and Times of Madam C. J. Walker, escrita pela tataraneta de Walker, A’Lelia Bundles, a série conta a história de Madam C. J. Walker, a primeira mulher milionária americana que se tem notícia, cuja fortuna não adveio de casamento ou de herança.

Outra personagem de destaque na série é Addie Monroe, inspirada em Annie Malone, outra mulher negra pioneira na indústria da cosmética e filantropa. A forma como ela foi retratada pode gerar dúvidas sobre o que é fato ou ficção, com o intuito de impulsionar a trama e abordar outros temas, como o colorismo.

Atenção: este texto contém spoilers!

A vida e o tempo de Madam C. J. Walker

Madam C. J. Walker (Octavia Spencer), cujo real nome é Sarah Breedlove (1867-1919), nasceu em Delta, Luisiana, apenas dois anos após o término da Guerra Civil Americana (1861-1865), que teve como estopim a controvérsia sobre a manutenção da escravização. Tanto seus pais quanto seus cinco irmãos foram escravizados. Os estados do Sul, agrícolas, eram contra a abolição; os do Norte, industrializados, a favor. Os estados do Norte venceram e, como resultado, a escravidão tornou-se ilegal 1865, com a 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos.

Contudo, como resposta, foram promulgadas, especialmente pelos estados do sul, uma série de leis que estabeleciam a segregação racial, conhecidas como Leis de Jim Crow. Dessa forma, estabelecimentos públicos e privados, transporte, instituições de ensino, banheiros e até mesmo bebedouros eram segregados. Criou-se a doutrina jurídica do “separado, mas igual” para justificar a coexistência da segregação racial com os direitos civis e à cidadania previstos na Constituição estadunidense. No entanto, na prática, espaços destinados a pessoas não brancas tinham qualidade inferior, o que acabava por privá-las de direitos. Essas leis somente foram revogadas em 1964-65, com a Lei dos Direitos Civis e a Lei dos Direitos de Voto.

Madam C. J. Walker

Nesse cenário, Sarah Breedlove se viu órfã aos sete anos de idade. Ela trabalhou desde criança como lavradora nos campos de algodão e empregada doméstica. Para escapar dos abusos de seu cunhado, casou-se aos 14 anos, e dessa união nasceu A’Lelia Walker (representada na série por Tiffany Haddish). Viúva aos 20 anos, ela mudou-se para St. Louis, Missouri, onde trabalhou como lavadeira, ganhando apenas US$ 1,50 por dia.

Cabelo é poder

Durante a década de 1890, Sarah Breedlove sofreu com calvície e doenças capilares, comuns na época, em razão da falta de um sistema de água encanada e produtos agressivos. Foi então que ela conheceu Addie Monroe (Carmen Ejogo), empresária negra do ramo dos cosméticos, personagem que representa Annie Malone.

Aqui, a produção diverge dos fatos. Embora o título, em português, seja A Vida e História de Madam C. J. Walker, em inglês é denominada Self Made: Inspired by the Life of Madam C. J. Walker [Self Made: Inspirada na vida de Madam C. J. Walker]. Ou seja, é explicitado que nem todos os acontecimentos correspondem à realidade.

Na série, Addie Monroe é uma mulher negra de pele clara que vendia seus próprios produtos capilares de porta em porta. Na época, produtos direcionados às necessidades de mulheres negras eram escassos. Eles utilizavam gordura, óleos pesados, manteiga e até soda cáustica.

Na vida real, Annie Malone também visava um método de alisamento que não danificasse os fios. bell hooks, em Alisando Nosso Cabelo, demonstra que o alisamento podia ser visto como uma iniciação das meninas na condição de mulheres; ou como um ritual de intimidade no qual mulheres negras compartilhavam suas experiências e desfrutavam de um momento para si.

“Não íamos ao salão de beleza. Minha mãe arrumava os nossos cabelos. Seis filhas: não havia a possibilidade de pagar cabeleireira. Naqueles dias, esse processo de alisar o cabelo das mulheres negras com pente quente (inventado por Madam C. J. Walker) não estava associado na minha mente ao esforço de parecermos brancas, de colocar em prática os padrões de beleza estabelecidos pela supremacia branca. Estava associado somente ao rito de iniciação de minha condição de mulher. Chegar a esse ponto de poder alisar o cabelo era deixar de ser percebida como menina (a qual o cabelo podia estar lindamente penteado e trançado) para ser quase uma mulher. Esse momento de transição era o que eu e minhas irmãs ansiávamos. Fazer chapinha era um ritual da cultura das mulheres negras, um ritual de intimidade. Era um momento exclusivo no qual as mulheres (mesmo as que não se conhecessem bem) podiam se encontrar em casa ou no salão para conversar umas com as outras, ou simplesmente para escutar a conversa. […] Para cada uma de nós, passar o pente quente é um ritual importante. Não é um símbolo de nosso anseio em tornar-nos brancas. Não existem brancos no nosso mundo íntimo. É um símbolo de nosso desejo de sermos mulheres. É um gesto que mostra que estamos nos aproximando da condição de mulher […]”

Assim, em um primeiro momento, Sarah compartilha sua intimidade com Addie, enquanto seus problemas capilares são tratados, o que foi importante para que saísse de um relacionamento abusivo.

Madam C. J. Walker

A questão colorismo

Addie tem vendedoras negras de pele clara e as instrui a convencer suas clientes de que usando o produto, ficarão iguais a elas: “Mulheres de cor fazem qualquer coisa para se parecerem comigo, mesmo que no fundo saibam que não vão”, afirma. Ela recusa Sarah como vendedora, por ela ser negra retinta. “Mesmo nas suas roupas de domingo parece que você saiu de uma plantação”, diz.

“Todos sabem que o cabelo delas é bom não por causa do seu produto, mas porque as mães foram estupradas”, responde Sarah.

Para melhor compreender a discussão que a série apresenta, é necessário conhecer o colorismo. O termo foi cunhado por Alice Walker na década de 1980, no ensaio “If the Present Looks Like the Past, What Does the Future Look Like?” (“Se o Presente se Parece com o Passado, Com o que Parece o Futuro?”, em português), publicado no livro In Search of Our Mothers’ Garden. Segundo ela, consiste no “tratamento preconceituoso ou preferencial de pessoas da mesma raça com base apenas em sua cor”. Ou seja, quanto mais escura for uma pessoa, mais discriminação ela sofrerá.

Por exemplo, durante a escravidão, podiam ser atribuídas tarefas menos árduas, em casas, aos negros claros, enquanto aos negros retintos, trabalhos agrícolas. O colorismo também foi utilizado para criar divisão entre os indivíduos escravizados, em razão dessa diferença de tratamento. Contudo, deve-se ter em mente que a miscigenação foi ocasionada, originalmente, pela violência sexual a que estavam submetidas as mulheres indígenas e negras.

Aqueles que possuem o tom de pele mais claro têm mais oportunidades de mobilidade social. No entanto, são somente tolerados pela branquitude nos mesmos espaços, não alcançam o seu patamar. Já àqueles que possuem tom de pele retinta geralmente é negado o acesso a tais espaços, o que dificulta ou impede o alcance de serviços e direitos.

Outro aspecto importante é que o colorismo é utilizado para criar uma ilusão de inclusão da população negra, em razão do trânsito de pessoas negras de pele clara nesses espaços.

Em todo caso, deve-se ter em mente que o colorismo é produto do racismo, como Chimamanda Ngozi Adichie disse em recente entrevista ao Roda Viva: “dentro da comunidade negra, devemos falar sobre colorismo, porque é algo importante e tem consequências para as pessoas, mas também devemos manter o foco no problema fundamental, que é o racismo. Se o racismo não existisse, colorismo não seria um problema.”

O poder de contar sua própria história

Nesse ínterim, Sarah Breedlove casa-se com Charles Joseph Walker (Blair Underwood), quando adotou o nome Madam C. J. Walker e montou seu próprio negócio com a fórmula de Addie, de acordo com a série.

O método de venda de produtos de Madam C. J. Walker, de porta em porta, com demonstração de seus produtos, privilegia a formação de vínculos entre mulheres negras. Em uma reunião com clientes, ela diz:

“Estive em silêncio a vida inteira, mas alguma coisa mudou quando comecei a fazer meu produto e contar a minha história. Tem poder nisso. (…) Às vezes o silêncio é a única proteção que as mulheres de cor têm. Agora eu finalmente aprendi a contar a minha história e não vou mais me calar.”

No final do século XIX e início do século XX, a Gibson Girl era considerada a personificação da feminilidade da nova mulher. Tratava-se da ilustração de uma mulher branca, alta, esbelta, com o torso no formato de S, um coque alto, esvoaçante, criada por Charles Dana Gibson. Ela podia apresentar certa independência, mas dentro dos limites dos papéis atribuídos então às mulheres brancas de classe média-alta.

A Dra. Giovana Xavier demonstra que os periódicos do mesmo período, voltados ao público negro, associavam beleza, modernidade, urbanidade e sucesso à tez clara, como um ideal de negritude no pós-emancipação nos Estados Unidos.

Também no início dos anos 1900, o estereótipo da mammy se popularizou, ele retratava mulheres negras que trabalhavam para famílias brancas com fidelidade e zelo. Elas não tinham história própria, família, amigos ou interesses. Em geral, a mammy era apresentada como uma mulher mais velha, gorda e de pele escura. O objetivo desse estereótipo era mascarar as violências sofridas por mulheres negras durante a escravização e associá-las ao trabalho doméstico.

Em dado momento da série, o marido de Madam C. J. Walker, um publicitário, sugere que adotem como estratégia de marketing “a garota Gibson de cor”, uma mulher negra de pele clara que remete à ilustração de Charles Dana Gibson. Mas Madam C. J. Walker responde que deseja mostrar uma beleza diversificada, que represente todas as mulheres não brancas, por isso, a modelo era antiquada, não era o futuro.

Por tudo isso é que o ato de Madam C. J. Walker eleger-se como “garota propaganda” do seu próprio produto é tão importante: ela rompe com estereótipos que tentam confiná-la. Madam C. J. Walker reconhece quem é, abraça a sua jornada e faz da sua autenticidade a sua força.

A versão ficcional de Annie Malone, Addie, segue C. J. Walker a Indianápolis, conspira com seu genro e atrai um grupo de agentes de Walker, em uma série de estratagemas para frustrar seu crescimento. Na realidade, isso não aconteceu.

Madam C. J. Walker construiu uma fábrica, abriu centros de treinamento, expandiu seus negócios para o Harlem, onde sua filha, A’Lelia, tornou-se patrona das artes no Renascimento do Harlem.

Quem foi Annie Malone, a mulher que inspirou a personagem Addie Monroe?

Na realidade, Annie Malone (1877-1957) empresária do ramo dos cuidados capilares, que se tornou milionária e filantropa, não tinha a pele clara. Annie fundou a primeira escola de cosmetologia focada no cabelo afro, na qual Chuck Berry teria estudado em 1950.

A biógrafa de C. J. Walker e tataraneta de Madam C. J. Walker, A’Lelia Bundles, afirma que não concluiu se Annie Malone foi importante para que Walker saísse de St. Louis e rompesse seu casamento conturbado ou se o relacionamento entre elas era apenas de negócios. Walker vendeu os produtos de Malone antes de criar sua própria linha de cuidados capilares. O diálogo no qual Addie recusa Walker como vendedora por ela ser negra retinta provavelmente nunca aconteceu.

Elas romperam relações em 1906 e há poucos indícios sobre quais seriam as razões do seu desentendimento. Contudo, o fato foi exagerado para efeitos dramáticos, segundo A’Lelia Bundles, com a finalidade de abordar outros temas, como ela esclarece no trecho abaixo traduzido da entrevista:

“Self Made cria uma rivalidade entre Madam C. J. Walker e uma personagem chamada Addie Monroe. Addie Monroe é uma pessoa real? Qual é a inspiração para esse personagem?

Ao tentar mostrar muitos dos obstáculos que Madam Walker enfrentou, os roteiristas disseram que Addie Monroe é uma composição representando vários personagens e temas e não deveria ser uma pessoa específica. Inevitavelmente, muitos espectadores que já sabem algo sobre Madam  Walker farão comparações entre Monroe e Annie Turnbo Pope Malone. […]

Ainda que as duas mulheres fossem competidoras ferozes, a rivalidade entre Madam Walker e ‘Addie Monroe’ — incluindo os confrontos diretos e discussões — é exagerada na série para efeito dramático.”

A’Lelia Bundles revisou o roteiro e opinou, algumas de suas sugestões foram incorporadas ao projeto, outras não. Por exemplo, ela afirma que teria enfatizado o papel que outras mulheres tiveram no desenvolvimento do negócio, como Jessie Batts Robinson e Alice Kelly, mentoras de Madam C. J. Walker, bem como o seu envolvimento político.

Por outro lado, Elle Johnson, uma das produtoras executivas, defende que:

“a decisão de incluir conflitos sobre o tom de pele tão proeminentemente, dizendo ‘Eu não acho que você pode contar a história sem abordar isso, especialmente quando você está falando sobre Madam C. J. Walker e como ela queria explorar toda a gama de beleza para as mulheres negras. Essa foi uma das coisas que era tão importante para ela em termos de elevar a raça, elevar as mulheres negras e dar-lhes uma oportunidade de não só ter empregos que as tiraram do trabalho estritamente doméstico, mas também as fez se sentir bonitas sobre quem eram e o que elas são.'”

Quanto à autoria da fórmula, Annie acusou C. J. Walker de tê-la copiado, já essa afirmava que a fórmula do produto lhe apareceu em um sonho. Segundo A’Lelia Bundles, biógrafa e tataraneta de C. J. Walker, nem Annie nem Walker foram descobridoras do produto que vendiam. Tratava-se de uma pomada com a consistência de vaselina, contendo enxofre, utilizada para curar infecções no couro cabeludo. A fórmula-base já era conhecida em textos médicos desde 1700.

Além disso, Madam C. J. Walker fornecia produtos para limpeza do couro cabeludo, caspa, doenças capilares e calvície, não alisamentos. Ela popularizou o uso do pente quente como alisamento, ao ensinar a técnica.

Por sua vez, Annie Malone sofreu revezes financeiros, uma campanha difamatória movida por seu ex-marido e sua fortuna não foi documentada. Por essas razões, sua história não é tão conhecida quanto a de Madam C. J. Walker, no entanto, é importante ressaltar que ambas são figuras históricas pioneiras na indústria da cosmética e filantropas. Elas articulavam o cuidado de si com autoestima e ascensão profissional.

Madam C. J. Walker se envolveu com o movimento antilinchamento da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), tendo visitado a Casa Branca, junto a um grupo de líderes, para defender uma lei contra essa prática. Já Annie Malone fez doações à Faculdade de Medicina da Universidade Howard, em Washington, D.C. e à St. Louis Colored Orphans Home.

Seus feitos foram notáveis, tendo em vista que, no pós-emancipação, afro-americanos eram vistos com ressentimento pela população branca estadunidense, que tencionava impedir o seu desenvolvimento econômico, político e social.


Referências

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BUNDLES, A’Lelia. Madam Walker’s Mentors, Sister Friends & Rivals.
BUNDLES, A’Lelia. The Facts about Madam C. J. Walker and Annie Malone.
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BUENO, Winnie de Campos. Processos de resistência e construção de subjetividades no pensamento feminista negro: Uma possibilidade de leitura da obra Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, And The Politics Of Empowerment (2009) a partir do conceito de imagens de controle. Dissertação (Mestrado em Direito) — Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Programa de Pós-Graduação em Direito, São Leopoldo, RS, 2019.

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