Categorias: LITERATURA

Rachel de Queiroz: o verdadeiro destino de uma mulher é a liberdade

A primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, feito registrado em 1977, era descendente de uma família tradicional de fazendeiros, tinha aversão ao feminismo e apoiou o golpe militar de 64. Esses são fatos conhecidos e bastante controversos da biografia de Rachel de Queiroz, cearense que já escrevia crônicas para jornais locais quando, aos 19 anos, publicou O Quinze, seu primeiro e principal romance, famoso pelo retrato da rigorosa seca de 1915 no sertão do Ceará.

Aparentada do também escritor José de Alencar, Rachel foi uma romancista, jornalista, cronista e tradutora de autoras como Jane Austen, Emily Brontë e Agatha Christie. Toda a sua obra foi marcada por um regionalismo centrado no Ceará e também no nordeste de forma geral, registrado com uma linguagem enxuta — herança da carreira jornalística ­— e, ao mesmo tempo, com um sotaque carregado, evidenciado pela oralidade do texto.

Outra característica importante de sua produção literária é uma maioria de protagonistas mulheres que, nas palavras de Heloísa Buarque de Hollanda, professora, pesquisadora e amiga de Rachel de Queiroz, são mulheres “autossuficientes, que percorrem, com obstinação, os caminhos que levam aos destinos marcados pela independência e pelo poder”, sendo então “as personagens femininas mais radicais da época”.

Não é difícil de imaginar como era a recepção dos livros escritos por mulheres nos anos 1930, quando a entrada delas na Academia Brasileira de Letras ainda permaneceria vedada por mais de 40 anos. Após o sucesso de O Quinze, o escritor Graciliano Ramos duvidou publicamente da autoria de Rachel, questionando se o nome feminino não se tratava de um pseudônimo para um escritor. Como se comparar a escrita de uma jovem de 19 anos à de qualquer homem de barba fosse necessariamente um elogio. Ainda assim, Rachel teve uma trajetória de sucesso: seus romances se tornaram best-sellers e eram bem recebidos pela crítica. Mas, alegando que não tinha mais sobre o que escrever depois do lançamento de seu quarto romance, As Três Marias (1939), fez uma pausa na ficção por mais de 30 anos. Nesse período, dedicou-se à crônica, principalmente, e também a livros infantis e a peças de teatro.

Já em 1980, quando Rachel tinha voltado a escrever romances, As Três Marias foi adaptado para uma novela da TV Globo. O folhetim contribuiu ainda mais para a popularidade de seus livros, mas deixou a escritora decepcionada devido a mudanças na trama. Em entrevistas, ela reclamava que alguns de seus personagens foram transformados em pessoas racistas, por exemplo. Além disso, a principal trama do livro — sobre as diferentes trajetórias de três amigas que estudaram juntas num colégio de freiras em Fortaleza — foi alterada para o reencontro dessas três amigas no Rio de Janeiro, uma reaproximação afetada pelo problema de se apaixonarem pelo mesmo homem.

Anos depois, Rachel autorizou a produção de uma minissérie baseada em Memorial de Maria Moura (1992). O último romance da escritora conta a jornada de uma mulher que liderou um bando de capangas para ocupar as terras herdadas da família no sertão nordestino, num contexto do Brasil imperial. Interpretada por Glória Pires, Maria Moura entrou para o imaginário do público como uma guerreira que lutou contra “a submissão feminina na sociedade patriarcal do século XIX”, como consta no site da emissora.

Depois de todo esse panorama, fica claro que Rachel de Queiroz já era reconhecida como uma das melhores escritoras brasileiras antes mesmo de ter livros adaptados para a TV e, voltando mais algumas décadas, de se candidatar a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. O que mais, além do talento da autora e da qualidade de seus livros, poderia explicar esse pioneirismo?

No ensaio “A Roupa de Rachel”, Heloísa Buarque de Hollanda escreve que a eleição da cearense para a Academia representou “um caso notável de ‘exceção’ no quadro quase exclusivamente masculino da história da literatura”. Ao mesmo tempo em que a eleição de Rachel representou uma abertura daquele mundo às escritoras, essa concessão também serviu como uma desculpa para o machismo velado da instituição, como se de fato todas as portas estivessem abertas para as mulheres. E também como uma espécie de justificativa de que outras escritoras não foram eleitas por falta de mérito literário. Tanto que, depois de Rachel, apenas sete mulheres entraram para a lista de imortais: Dinah Silveira de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Zélia Gattai, Ana Maria Machado, Cleonice Berardinelli e Rosiska Darcy de Oliveira.

Heloísa também lança uma pergunta interessante para se pensar a participação feminina na vida pública: “O que há por trás da imagem, quase invariavelmente conservadora, das poucas mulheres que conseguiram não apenas manifestar-se na cultura de forma atuante, mas ainda serem aceitas pela sociedade desse período?” Por mais que ela defenda que Rachel de Queiroz era uma “feminista a seu modo”, a cearense frequentemente dizia em entrevistas que não era romancista, apenas uma boa dona de casa, melhor cozinheira do que escritora. Às vezes, afirmava, no máximo, que era jornalista. Era uma brincadeira, claro. O problema é que isso era usado em reportagens como uma forma de explicar a concessão daquele espaço dado a uma mulher: olha só, ela é bem-sucedida, mas ao menos defende valores tradicionais. A impressão é que Rachel evitava ocupar um espaço no mundo literário de forma mais enfática. Sem contar as frequentes críticas ao movimento feminista, incluindo opiniões negativas sobre as ideias de igualdade e até do uso da palavra feminismo.

Assim, a escolha de Rachel para ser a primeira mulher a ocupar uma cadeira na ABL representa a opção de dar espaço para uma mulher que, após um envolvimento com o comunismo e o trotskismo, representava bem o status quo de sua família tradicional e de suas posições conservadoras, envolvendo questões políticas ou o papel da mulher na sociedade em oposição ao homem provedor. Tanto que esse espaço foi negado a Júlia Lopes de Almeida, que participou da criação da Academia e foi excluída da primeira leva de imortais para manter o ambiente exclusivamente masculino. Dinah Silveira de Queiroz também foi ignorada ao fazer uma campanha pública pela alteração do estatuto que vedava a entrada de mulheres. Mesmo com a militância (ou por causa dela), conseguiu apenas ser a segunda e não a primeira escritora a vestir o fardão. As circunstâncias foram parecidas à recente candidatura de Conceição Evaristo, que envolveu uma campanha popular na internet. Ela poderia ter sido a primeira mulher negra a entrar para a Academia, mas recebeu apenas um voto.

Rachel de Queiroz

Passados quinze anos da morte de Rachel de Queiroz, no entanto, as críticas ao feminismo já caducaram com os jornais antigos em que essas falas foram publicadas, e não se sabe o que ela opinaria hoje em dia sobre o assunto. Talvez fizesse as mesmas críticas, talvez ainda dissesse que nunca foi feminista, que a sociedade deve crescer em conjunto. Ou que é um erro combater o homem, como disse certa vez. Mas, ao pensar sobre o legado da escritora, existe a opção de deixar essa questão de lado para focar na herança de protagonistas mulheres bem construídas em seus livros.

O destino da mulher na sociedade, por exemplo, foi um tema recorrente na obra de Rachel. Logo na estreia, em O Quinze, uma das personagens é Conceição, mulher que saiu de uma fazenda no interior do Ceará, estudou em Fortaleza e ali trabalhava como professora. Ainda que não esteja no foco da trama da seca, ela é uma das voluntárias dos campos de concentração nos arredores da capital, onde ficavam as famílias do sertão cearense que precisavam de apoio do governo. Conceição é uma personagem que demonstra as contradições entre o campo e a cidade, entre a vida na fazenda e o estudo, entre a mulher que constitui família no interior e a que se dedica inteiramente à profissão, dizendo “alegremente que nascera uma solteirona”.

Ter 22 anos naquela época era ser uma mulher madura. E é por isso que Conceição passa boa parte do livro se questionando por que não pensava em casamento ou até mesmo em namoros. Deveria dar uma chance aos sentimentos que tinha por Vicente, primo que seguiu a vida na fazenda da família, um criador de gado? Como seria a sua vida se voltasse a morar no interior? Talvez naquele ambiente bucólico, num casamento por conveniência, a solidão fosse ainda maior do que na vida de solteira em Fortaleza. Afinal, Conceição é independente, uma mulher que caminha sozinha pelas ruas e, em determinado momento, lê um livro que trata “da questão feminina, da situação da mulher na sociedade, dos direitos maternais”. Até o fim, ela pondera se “o verdadeiro destino de uma mulher” não é realmente a maternidade, mas parece satisfeita com a sua liberdade na capital e com o afilhado que adotou para criar.

Rachel de Queiroz

Já em As Três Marias, um romance com toques autobiográficos, a autora apresenta três possibilidades de futuro para jovens que acabaram de sair do internato num colégio de freiras. Maria José começa a trabalhar como professora e ajuda a sustentar a mãe e os irmãos, abandonados pelo pai. Numa vida solitária, o que lhe resta é apoiar-se na religião. Maria da Glória faz um bom casamento e assume o papel da esposa e mãe exemplar, distanciando-se das amigas da adolescência. Por último, a narradora e uma provável encarnação de Rachel, Maria Augusta volta brevemente para a casa dos pais no interior, onde se sente sufocada, até conseguir um cargo de datilógrafa em Fortaleza.

É a partir dessa guinada que Guta, como era chamada, experimenta, depois de anos enclausurada, a vida independente da forma que era possível às mulheres na década de 1930 numa capital nordestina. Uma independência restrita. O salário da repartição quase não era suficiente para pagar o aluguel numa pensão, o jeito foi dividir um quarto com Maria José. Em contraste com a vida de privações da amiga, Guta tinha o desejo de conhecer o mundo e o amor, mas a liberdade conquistada tinha limites.

Sem esperanças e deprimida, ela não sabia qual passo deveria dar para chegar a uma nova etapa da vida, não sabia qual espaço lhe seria concedido na sociedade. O máximo que consegue é uma viagem de férias ao Rio de Janeiro, quando novamente é livre para explorar uma cidade sem, no entanto, sentir que pertencia a aquele lugar. A volta a Fortaleza reacende a preocupação com o seu destino, a mesma preocupação de Conceição em O Quinze: seria o casamento e a maternidade os acontecimentos necessários para dar o sentido que faltava em sua vida?

E é importante contar que Guta viveu um romance no Rio, mas um romance com um estrangeiro que precisa deixar o país por questões burocráticas. O casamento não é, então, a solução para a protagonista. Doente, ela retorna ao sertão, “se reintegra na sua paisagem”, mas a volta à casa do pai pode ser apenas uma pausa. O que estaria por vir na vida dela? Esse é um destino que fica em aberto, como se, em 1939, quando o livro foi lançado, Guta, Rachel e outras mulheres brasileiras ainda tivessem muito o que descobrir sobre si, sobre o seu espaço no mundo.

Rachel de Queiroz

Maria Moura, por sua vez, não tinha dúvidas e nem muita escolha do que fazer da vida. Após a morte da mãe, quando a adolescente tinha 17 anos, continuou morando com o padrasto e levando a vida de sinhazinha até perceber que corria o risco de perder o sítio onde morava para algum homem da família: para o próprio padrasto ou para os primos.

Por volta de 1850, em pleno nordeste, qual seria o destino de uma jovem sem pai nem mãe? Permanecer sob a guarda ameaçadora do padrasto ou casar com um de seus primos para que as terras continuassem em família? Para Maria Moura, nenhuma dessas opções era realmente uma alternativa. A única saída era abandonar o posto de dondoca e reunir um grupo de capangas — entre os funcionários de confiança na fazenda e ex-escravizados — para fugir daquela encruzilhada de submissão e, assim, estabelecer um pequeno império nas terras antigas e nunca ocupadas da família, na Serra dos Padres.

A inspiração para criar essa personagem veio das trajetórias de Elizabeth I, rainha da Inglaterra e filha de Ana Bolena, e da pernambucana Maria de Oliveira, uma mulher que assaltava fazendas em grupo com os filhos e “cabras” para sobreviver à seca de 1602, como uma “precursora de Lampião”. Memorial de Maria Moura é, então, uma história sobre a conquista de poder, prestígio e liberdade por uma jovem que não vê problema em usar violência para alcançar seus objetivos. Os capangas é que fazem o trabalho sujo, é claro. O que Maria Moura quer é ser uma líder temida. Ser vista como uma mulher brava é uma forma de emancipação, e é por isso que ela também assume um visual dito masculino, com cabelos curtos e roupas adequadas para o trabalho numa fazenda (que, definitivamente, não são vestidos).

Conquistada essa posição de respeito, a protagonista acaba se apaixonando por um homem sem caráter e interesseiro. Uma reação inicial a essa anti-história de amor é o questionamento do leitor: como ela pode se iludir por um rapaz qualquer? Mas, pensando bem, por que uma mulher que conquistou sua autonomia não teria o direito de se apaixonar e cometer erros como qualquer outra pessoa? Maria Moura está bem longe de ser uma heroína perfeita e, ainda assim, não deixa de ser um bom exemplo de mulher capaz de assumir o controle de seu destino.

Rachel de Queiroz

A personagem é a herança derradeira de uma Rachel de Queiroz que tinha 82 anos quando escreveu o livro, premiado na categoria romance do Prêmio Jabuti, em 1993. Naquele mesmo ano, foi também a primeira mulher a receber o Prêmio Camões de Literatura. É, sim, decepcionante ler entrevistas com a escritora que venceu tantas barreiras quando ela fala que “mulher é um bicho muito traiçoeiro”, que “com mulher sempre ficamos com o pé atrás”. Rachel fez questão de dizer uma vez: “nunca fui feminista, nunca entrei para os grupos feministas, nunca fui feminista”. O mínimo a se fazer é subverter a obra dessa grande escritora e cravar o rótulo que ela tanto evitou. Rachel pode não ter sido feminista, mas suas personagens com certeza eram.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 comentários

  1. Ahhh, duvido que as personagens fossem. As personagens eram pessoas comuns, assim como minha querida mãe. Tanto quanto as personagens de Rachel, mamãe nasceu na roça, trabalhou duro, casou-se duas vezes e NÃO SE ARREPENDEU, nem do primeiro casamento. Apenas lembrava que ‘foi incompatibilidade de gênio’ que a levou a separação. No fundo, ela sempre condenou o divórcio. NUNCA deu bola pra feminismo nenhum, assim como a querida Rachel. É por isso que ela é minha autora favorita: POR NÃO SER FEMINISTA/COMUNISTA.

  2. Creio que a acunha “Feminista” se dá mais para Rachel de Queiroz do que as muitas mulheres que se dizem ‘Feministas’, entretanto não perdem tempo em assistir filmes ou séries ou principalmente ler livros eróticos que predominam a sodomização da mulher(as vezes de forma direta, outras vezes de forma indireta). Hipocrisia de ambos os lados. talvez.

  3. Oii! Tudo bom? Amei o texto. Eu estudo o Graciliano, e acho importante falar desse comentário sobre a Rachel. Teriam a referência pra eu poder citar? Obrigada!