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Coração Azedo: um mergulho na vida de garotas chinesas na América

Incômodo. Essa foi a sensação que me tomou durante a maior parte da leitura de Coração Azedo. Em seu livro de contos, Jenny Zhang fez questão de não poupar desconfortos no leitor e me fez avançar pelas páginas retorcendo as entranhas. Recém publicado no Brasil, Coração Azedo foi lançado em 2017 nos Estados Unidos e foi bem recebido pela crítica, destacado como um dos melhores livros do ano por uma penca de publicações renomadas. Apesar de já ter um histórico de produções, principalmente de ensaios e poesias, Jenny Zhang faz sua grande entrada no mundo editorial com este que é o seu primeiro livro de contos, falando de um assunto que muita gente faz questão de não ouvir: imigrantes.

Em Coração Azedo encontramos sete contos que, apesar de serem independentes, não têm nada de aleatórios. As sete histórias são narradas em primeira pessoa por garotas, crianças ou jovens, de origem chinesa ou taiwanesa. Essas narradoras são a primeira geração a crescer nos Estados Unidos, com seus pais tendo saído de seus países com as famílias em busca de oportunidades de melhorar de vida; o famigerado sonho americano. O cenário é Nova York na década de 1990, mas não só, já que as histórias saltam livremente no tempo e nos levam tanto para o passado quanto para o futuro. Não é só a escolha de narradoras, temas e cenário que fazem com que a obra tenha uma unidade: a autora também inseriu pequenos pontos de conexão entre cada história. Fica tudo perfeitamente encaixado no mesmo universo de tempo e espaço, seja pelas famílias que moraram no mesmo apartamento coletivo abarrotado ou pelas personagens que frequentaram a mesma escola.

Logo de cara, no primeiro parágrafo do primeiro conto, “Nós te amamos Crispina”, somos lembradas de que o sonho americano não é para todo mundo. Christina, a narradora, fala sobre um dos tantos lugares nos quais ela e os pais moraram em seus primeiros anos nos Estados Unidos, pintando um retrato claro e assustador de um pequeno apartamento cheio de baratas, que amanheciam esmagadas entre os três na cama que dividiam, e segue explicando o quanto eram complicados os arranjos para que a família conseguisse fazer cocô em um banheiro que funcionasse. Sem meias palavras.

A escolha da narração é um dos grandes destaques de Zhang. Com todos os sete contos narrados por meninas, Coração Azedo está longe, muito longe, de trazer aquela proposta comum de livros narrados por crianças. Não é como em Festa no Covil, de Juan Pablo Villalobos, em que encontramos uma narração feita por um garoto que vive o universo do narcotráfico, mas que vê tudo com o olhar infantil. Jenny Zhang é direta. A narração não traz essa visão inocente e pura tipicamente atribuída a crianças, muito menos a delicadeza que ainda se espera de narradoras femininas. A linguagem de Zhang é dura, ácida, escatológica. O texto é adulto. As narradoras têm clareza da situação e fazem reflexões maduras sobre o mundo ao seu redor e seus relacionamentos com outras pessoas.

Vale abrir um parênteses e dizer que, por vezes, os contos trazem situações que podem ser gatilhos. É o caso do segundo conto, “O vazio o vazio o vazio”, em que, enquanto explora e descobre sua sexualidade, Lucy, a narradora, acaba envolvida em uma cena perturbadora em que uma amiga arranja e força um experimento sexual com outras crianças. Há também descrições bastante gráficas de tortura, trazendo casos da história dos pais e suas vidas na China durante a Revolução Cultural. No geral, os contos trazem a situação comum às famílias chinesas e taiwanesas em seus primeiros anos em um país completamente diferente dos lugares de onde vieram. Primeiro, com elementos bem palpáveis: os pais que trabalham em múltiplos empregos, a precariedade das moradias, o preconceito, as dificuldades na escola, as diferenças culturais, a vivência de um novo idioma, a fome.

“Eu achava que minha mãe e meu pai eram lindos, mas meu pai me corrigiu:
— Não na América. Aqui somos feios e não tem jeito. Eles olham para a gente e acham que somos uns cretinos. Pensa que eles gostam que a gente frequente as escolas deles? Pensa que eles não ligam para o fato de que trabalhamos nos escritórios deles? Roubando os empregos? Pensa que ficam felizes em buscar as roupas lavadas e sua comida nos negócios que a gente abriu? Pensa que querem entrar na lojinha da esquina e olhar para os nossos olhos e os nossos dentes e a nossa pele olhando de volta para eles do outro lado do balcão? Não! Eles não nos querem aqui.”

— Do conto “Meus dias e noites de terror”

Os contos também trazem uma perspectiva mais íntima e subjetiva, colocando sempre a relação familiar em pauta. Embora hajam contos em que o principal relacionamento abordado seja da narradora com o irmão ou com a avó, a maior parte deles tem como cerne as relações entre as filhas, mães e pais. São relacionamentos que diferem entre si, mas que têm em comum uma intensidade absoluta, que chega a ser sufocante.

São relatos de um amor tão imenso que as filhas ficam paralisadas diante da possibilidade de se tornarem seres independentes, separadas dos pais. Ou são relatos de filhas que se sentem como algo indiferente na vida dos pais, convivendo sempre com a ausência. Ou ainda relatos de uma pressão asfixiante, em uma relação de cobrança e dependência emocional. Os textos trazem sempre alguma angústia ou sofrimento nessas relações familiares, com contextos tão complexos e narrados de forma tão sensível que é como se estivéssemos acompanhando as narradoras em um divã, não só porque as descrições são tão íntimas, mas também porque são percepções que exigem uma visão do todo muito clara.

No primeiro conto, por exemplo, temos uma narradora que se sente infinitamente amada pelos pais, e é esse amor todo que lhe causa angústia: Christina não aceita se ver longe da proteção e do amor dos pais, e sente a necessidade permanente de se sacrificar tanto quanto seus pais se sacrificavam por ela. Em um relato particularmente forte, Christina relembra de uma época em que ela não conseguia comer nada sem vomitar e que, para não desperdiçar a pouca comida que tinham, seu pai pegava colheradas do que tinha sido vomitado e enfiava direto na própria boca. Mais uma vez, o desconforto. Em uma entrevista para a publicação literária Electric Literature, Zhang diz o seguinte: “na América nós idealizamos relacionamentos românticos em que um homem faria qualquer coisa pela mulher que ele ama, mas ficamos assustados por pais que fariam o mesmo por seus filhos”.

“— O que te deixa feliz deixa a mamãe feliz — ela sempre me dizia, às vezes em chinês, idioma no qual eu não era lá muito boa, mas tentava falar por causa dela e do meu pai, e quando não conseguia respondia em inglês, idioma no qual eu também não era lá muito boa, mas supunha-se que eu ainda podia melhorar em qualquer uma das línguas, já meus pais não, eles tinham entrado num beco sem saída, os dois bloqueados por uma parede, então era minha missão ficar boa de verdade, era minha missão brilhar muito, e isso me assustava porque eu queria ficar para trás com eles, não queria dar nem um passo além do que eles pudessem dar.”

— Do conto “Nós te amamos Crispina”

Em paralelo, temos também relacionamentos que trazem o oposto desse sentimento claro de ser amada incondicionalmente. Há contos em que a relação com os pais causa angústia porque as filhas se sentem desimportantes e, embora desejem a todo custo conquistar a atenção e o afeto explícito dos pais, sofrem experimentando a sensação de indiferença. Ou sofrem com a pressão que sentem em amar os pais, como se fossem sempre insuficientes e estivessem constantemente decepcionando-os. São relações que criam um ambiente de culpa e cobrança emocional tão marcado que nos deixa sem ar.

Ao meu ver, são essas construções de relações familiares o ponto mais forte de Jenny Zhang. Não são histórias de famílias essencialmente tristes; é toda a composição de algo complexo, que envolve sentimentos conflitantes e que, por isso mesmo, causam tanta agonia e desconforto. É impossível não pensar o que nossas próprias mães, pais e irmãos nos fazem sentir, qual é o papel que eles têm nas nossas próprias vidas. Lembra a sensação que fica ao ler Elena Ferrante e ser absorvida pelas tramas intrincadas das personagens típicas da escritora italiana.

“— E daí? — minha mãe disse, e eu me arrependi imediatamente de ter dito aquilo. Ela tinha esse jeito de me olhar que me fazia sentir que eu precisava pedir desculpa por ser sua filha, que não era justo que ela precisasse me amar até mesmo quando eu insistia em ser idiota e mesmo estando constantemente frustrada diante da minha incapacidade de compreender o óbvio. Desculpa, eu dizia o tempo todo na minha cabeça, mas nunca na vida real, igual à minha mãe, que também nunca me dizia desculpa na vida real, e eu não fazia ideia se ela também me pedia desculpa em pensamento e se percebia que tinha o poder de me machucar e de me decepcionar tanto quanto eu a decepcionava, e de fazer com que eu me sentisse tão sozinha que às vezes chegava a não me reconhecer no espelho e nas fotos.”

— Do conto “O vazio o vazio o vazio”

Tudo é real demais. Não só pelo que é dito, mas pela forma como é dito – são sentimentos tão profundos que transbordam do papel e pintam um retrato muito vívido da realidade de inúmeras famílias. Inclusive a da autora. Nascida em Xangai, Jenny Zhang emigrou para Nova York aos cinco anos de idade. Sabendo disso, a linha entre o que é ficção e o que de fato pode ter acontecido pode ficar difusa na cabeça de quem lê.

Eu criei um universo fictício em Coração Azedo que nunca poderia ser inteiramente separado da realidade que vivi, porque eu não usei o cérebro de outra pessoa para criar as histórias que eu criei”, diz Zhang na já citada entrevista para a Electric Literature. Ainda na entrevista, a escritora deixa seu recado: “eu não acho que a questão da autobiografia vai ser resolvida no meu trabalho enquanto mulheres e pessoas não brancas forem vistas como memorialistas, independente do que elas façam, e enquanto homens brancos forem vistos como experimentalistas e inovadores, não importa o quão explicitamente eles estejam se baseando em suas vidas pessoais”.

O resultado de Coração Azedo é único, sim, porque traz na bagagem toda essa vivência da autora. As escolhas de narração e composição também fazem a diferença nas histórias. A habilidade de Zhang ao estabelecer toda uma conexão entre os contos faz com que a leitura seja consistente, mesmo que os contos acabem de forma um tanto quanto abrupta e obriguem o leitor a se desligar da vida de uma personagem para mergulhar nos dilemas de outras. A questão de se essas coisas correspondem cem por cento a casos da vida real da autora ou não, é pequena quando pensamos que, independentemente disso, as histórias de Coração Azedo são histórias que existiram, existem ou poderiam existir com facilidade, porque todos os elementos que formam esse universo de fato existem.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine.

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