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De Repente, Irmãs: um dramalhão revigorante sobre criar vínculos

Solidão é uma questão da vida adulta que logo aparece em De Repente, Irmãs, série de comédia dramática que entrou para o catálogo de produções originais da Netflix depois de ser exibida na Austrália em 2017. A partir da revelação de que um médico ganhador do Nobel e pioneiro na fertilização in vitro usou amostras do próprio esperma para inseminar centenas de clientes, os sete episódios da primeira temporada contam uma história de aproximação entre três mulheres que se descobrem irmãs. Quando as personagens são apresentadas, percebe-se que, além de estarem unidas pelo pai biológico, elas também compartilham um mesmo sentimento de vazio. Como se, aos 30 anos, elas não soubessem exatamente o que está errado em suas vidas, mas se sentissem desajustadas e solitárias no mundo. Ao mesmo tempo em que mostra a jornada das protagonistas com suas crises internas, a história é agradável de assistir por dar ênfase ao desenvolvimento da relação entre as três irmãs, unidas quase que por coincidência e depois por escolha de cada uma delas.

Antes da revelação do escândalo médico que abalou Melbourne e arredores, somos apresentados primeiro à Julia (Maria Angelico), uma mulher que tenta encontrar um tempo para si enquanto é consumida pela rotina de trabalho e de cuidados ao pai doente. Ela chega em casa atrasada e precisa se arrumar para um encontro marcado por aplicativo e, já no bar, abre o jogo para o cara: ela está dando um tempo da própria vida por causa do pai, mas também quer se sentir viva e é para isso que aquela noite serviria. O pai doente é justamente Julius Bechly (Barry Otto), o cientista que resolve, no leito de morte, divulgar para a imprensa a informação de que usou as próprias amostras para a fertilização de clientes durante quase uma década. As outras duas irmãs aparecem depois que veem a notícia nos jornais e, como já sabiam que eram fruto de inseminação artificial, confrontam os pais para descobrir se elas também são filhas biológicas do famoso ganhador do Nobel.

Edie (Antonia Prebble), uma advogada que enfrenta problemas no casamento, recebe uma confirmação da mãe, que queria ter filhos sozinha e decidiu pela inseminação na Clínica Bechly, supostamente com a ajuda de um doador anônimo. Um fator que complica a situação é que Julius era um amigo da família e, consequentemente, Edie e Julia cresceram juntas, mas a amizade entrou em crise depois de alguns conflitos. A última irmã é Roxy (Lucy Durack), que está internada numa clínica de reabilitação quando fica sabendo da notícia, liga para os pais e descobre que, sim, eles procuraram o renomado Julius Bechly quando enfrentaram dificuldades para engravidar. Ela é retratada como alguém que se sente sufocada por ainda morar na casa dos pais e com a carreira estagnada como apresentadora de um programa infantil, frustrações que ela tenta amenizar com o vício em remédios controlados.

Entre centenas de filhos de Julius Bechly, o trio de protagonistas é justificado quando elas são as únicas mulheres entre os presentes numa festa organizada pela própria Julia para reunir todos os seus irmãos até então desconhecidos. Momento que ela aproveita para distribuir exames de DNA e, assim, poder confirmar quem realmente é seu parente. A união entre as irmãs é inicialmente forçada por Roxy, animada pela oportunidade de aumentar a família. Tanto ela quanto Julia e Edie têm a mesma idade e pensavam que eram filhas únicas. Por que não tentar recuperar o tempo perdido entre elas? Lembrando que as três passam por situações complicadas, a novidade de ter todos esses novos parentes é, sim, um problema a mais para elas. Só que, ao mesmo tempo, a relação recente entre irmãs é uma oportunidade para que elas tenham ajuda para resolver suas crises internas ou simplesmente tenham companhia em meio à correria do dia a dia.

O melhor de De Repente, Irmãs é que os episódios são reconfortantes apesar de tratar de temas pesados como traição, vício e luto. Vivendo um drama atrás do outro, as protagonistas precisam tomar decisões que vão mudar o rumo de suas vidas, e é desconfortável ver o esforço emocional delas para sair da zona de conforto. O viés positivo da história só se mantém porque a união entre as irmãs é tratada com autenticidade, num processo que começa com desconfiança e reticência para avançar naturalmente para uma relação carinhosa de apoio mútuo (não sem antes passar pelas brigas necessárias, claro). Pensando no vínculo fraterno, as personagens lembram as irmãs de Charmed, com suas diferenças e seus bons momentos no intervalo da luta contra as forças do mal. Mas, já que Julia, Edie e Roxy têm essa conexão tardia, também dá para associar a estrutura da série a histórias sobre a amizade entre mulheres, como nos livros brasileiros As Três Marias (Rachel de Queiroz) e As Meninas (Lygia Fagundes Telles).

A desvantagem do seriado, ao menos para o público brasileiro, é a semelhança da premissa com o caso do ex-médico Roger Abdelmassih, condenado a mais de 200 anos de prisão pelo estupro de dezenas de clientes. Ainda que as circunstâncias sejam um tanto diferentes, a motivação de Julius Bechly para ter utilizado suas amostras em inseminações não é bem explicada e, aparentemente, ele era apenas um homem narcisista e egocêntrico. O alívio é que o personagem não tem tanta relevância para o desenrolar de De Repente, Irmãs e nem aparece muito tempo em tela. É melhor voltar a falar das protagonistas.

Atenção: este texto contém spoilers!

Julia Bechly, a irmã que abraça os problemas do mundo

Tudo na história gira ao redor de Julia. As primeiras cenas já revelam bastante da personagem, uma mulher que combina estampas e roupas coloridas, que vai de bicicleta ao tal encontro marcado por aplicativo, quando sem muita paciência avisa logo ao date que ela basicamente está ali por sexo. Dali, volta para a casa do pai para cuidar dele, descobre a notícia sobre os “novos” irmãos na manhã seguinte pelo jornal e até tenta confrontar Julius, mas ele não dá nenhuma explicação e muito menos pede desculpas pelos anos de mentiras. Mesmo abalada, ela acaba marcando a festa para conhecer os novos familiares, quando ela descobre que entre os seus possíveis irmãos estão Edie, sua antiga amiga de infância, e o mesmo cara do encontro casual do início do episódio. Nada que um espectador de novela brasileira não esteja acostumado, mas a reação de Julia é encher a cara e, num discurso vergonhoso, revelar que provavelmente dormiu com um de seus irmãos. O vídeo desse momento viraliza na internet e ela acaba sendo demitida da escola em que trabalha como professora tamanha a repercussão negativa do caso.

De Repente, Irmãs

Desempregada e tendo que lidar com a desmoralização da clínica de fertilidade que ela vai herdar do pai, o que Julia faz é assumir os problemas dos outros para si, colocando para dentro de casa qualquer um dos novos irmãos que precise de abrigo ou de apoio emocional. E, como Julius não abre o jogo, ela tenta obter respostas por conta própria. Assim, Julia ao menos descobre que seus irmãos biológicos pararam de ser gerados quando ela nasceu, o que permite que ela acredite que ela ao menos teve alguma importância para interromper qualquer que fosse o plano maluco do pai. Decepcionada com a situação, ela tenta se distrair apoiando Edie e Roxy em seus problemas e demora a perceber como evita assumir o protagonismo de sua própria vida, preferido ser coadjuvante das jornadas alheias. Com o apoio das irmãs e com o incentivo de um novo interesse romântico, ela finalmente percebe, já nos últimos episódios, que precisa se colocar até se conhecer melhor depois de anos se escondendo sob o rótulo de filha do médico ganhador do Nobel, algo que nem é mais exclusivo dela.

Edie Flanagan, a irmã que não consegue lidar com tantos sentimentos

Decepcionada com a mãe que mentiu por tanto tempo sobre seu pai, Edie tem uma crise ainda mais urgente para resolver. Na primeira sessão da terapia de casal que aparece na temporada, fica claro que o principal problema daquele casamento envolve sexo. Ela diz amar Tim (Dan Spielman), mas algo que ela ainda não sabe nomear a impede de sentir desejo pelo marido ou de sentir prazer quando eles dormem juntos. Edie é uma mulher séria e formal, preocupada com a carreira de advogada, sempre vestida de cores neutras em roupas discretas. Demonstra ser uma pessoa contida, guardando boa parte das angústias para si. Ainda no piloto da série, ela sai para tomar um drink com uma colega de trabalho (Amanda, interpretada por Zindzi Okenyo) para discutir a possibilidade de iniciar um ação judicial coletiva contra o pai biológico, já que ele obviamente cometeu algum tipo de crime ao engravidar pacientes com o próprio esperma. Por mais que o foco do encontro seja profissional, logo a conversa ganha um tom mais íntimo. Edie tem motivos justificáveis para estar com raiva da situação — afinal, ela conviveu por muito tempo com Julius sem saber que ele era seu pai —, e o processo seria uma forma de vingança. Em meio a um desabafo, rola um clima entre as duas colegas e elas começam a se envolver numa relação extremamente complicada já que Tim também trabalha no mesmo escritório que elas.

De Repente, Irmãs

Liderar o processo coletivo contra Julius seria um marco importante para a sua carreira e, ao mesmo tempo, sua chance de controlar a situação, já que a ação judicial teria ela e seus novos irmãos como protagonistas. Porém, quando Julia e Roxy descobrem que Edie está cogitando processar o pai delas — que, vale lembrar, está prestes a morrer —, elas ficam extremamente chateadas e é nesse momento que a relação entre as três começa a estremecer (para depois amadurecer e avançar). Paralelamente a isso, Edie precisa entender o que está sentindo por Amanda e passa a questionar a própria sexualidade de forma que fica confusa entre o amor e o comodismo do casamento aparentemente perfeito com Tim e a paixão que sente pela colega de trabalho. São tantas dúvidas e inquietudes reprimidas que Edie acaba tendo um piripaque no meio do escritório, fisicamente paralisada até conseguir verbalizar algumas preocupações e alguns sentimentos depois que é ajudada pelas irmãs, numa das cenas mais bonitas e interessantes da série.

Roxy Karibas, a irmã que melhor esconde suas angústias

Roxy é a pessoa que fica mais feliz (ou uma das únicas) ao ficar sabendo da revelação de Julius e da confirmação de que ele é seu pai biológico. A partir daquele momento, ela pode usar o fato de que foi privada de conviver um familiar tão importante para justificar todos os problemas que enfrenta, sendo o principal deles o vício em remédios controlados para se desconectar da realidade. Como se não ter conhecido antes todos aqueles novos parentes fosse a explicação para aquele vazio na vida que ela não entendia muito bem. Afinal, ela tem 30 anos e não apenas mora na casa dos pais, mas é tratada por eles como uma adolescente que ainda precisa de aprovação para tomar certas decisões. No programa infantil que Roxy apresenta, ela interpreta o papel de uma princesa, levando para a vida real a caricatura da mulher de cabelo perfeito, que usa roupas tradicionalmente vistas como femininas (o rosa é definitivamente a sua cor) e que precisa ser simpática e agradável com todos, sempre com um sorriso no rosto.

Logo que passa a euforia inicial da novidade familiar, Roxy percebe que a relação com as irmãs e os momentos com Julius não são suficientes para milagrosamente substituir o tratamento da clínica de reabilitação para que ela não sinta mais a necessidade de se drogar com objetivo de manter a imagem de uma pessoa animada e otimista. Numa trama paralela, ela revela às irmãs que é virgem, mais uma consequência da infantilização imposta pelos seus pais (e, consequentemente, também por ela mesma), aliada à criação religiosa que a fez assimilar a ameaça de que fazer sexo traria consequências ruins para ela. Julia e Edie só percebem que essa não é a única questão que precisa ser trabalhada na vida de Roxy quando ela colapsa no banheiro, numa overdose após roubar os remédios que Julius tomava para controlar suas dores.

É só no último episódio da temporada que Roxy vai parar no hospital, quando Edie já alcançou uma espécie de paz com o fim inevitável de seu casamento e quando Julia chega ao encerramento de mais um ciclo, pontuado pela morte de Julius Bechly. Tanto Edie quanto Julia precisam descobrir quais caminhos seguir dali para a frente, mas o foco da trama está realmente em Roxy, que precisa de tratamento especializado para poder voltar aos seus planos já traçados, principalmente para a carreira. Em despedida, as três irmãs se abraçam apertado na frente da clínica de reabilitação, uma mostra de que a relação entre elas já alcançou um patamar de apoio mútuo em que elas não se sentem mais solitárias ou incompreendidas pelo mundo ao redor. Ver a evolução do vínculo afetivo entre elas é um alívio para quem estiver procurando uma série que, na falta de uma palavra melhor, poderia ser descrita como leve.

Existe bastante espaço na trama para a continuação da história, mas não se falou ainda em uma segunda temporada. De qualquer forma, o prognóstico não é animador. Segundo o Deadline Hollywood, a emissora Fox está produzindo um piloto com a versão americana de De Repente, Irmãs, inclusive com participação de uma das cocriadoras da série, Imogen Banks. Para quem também já estava se acostumando ao sotaque australiano, vale torcer para o projeto não ir para a frente nos Estados Unidos e para o elenco original voltar a se reunir numa futura temporada.

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1 comentário

  1. Eu vim parar aqui justamente pela versão americana. E eis que eu descubro que a versão original é Australiana e de repente me deu vontade de assistir a versão original, honestamente nunca assisti nenhuma série da Austrália e nem sei como é o sotaque de lá mas essa série eu vou assistir