Categorias: MÚSICA

Avril Lavigne e os 20 anos de Let Go

Camiseta branca, calças largas de skatista. Munhequeiras, uma gravata frouxamente pendurada ao redor do pescoço. Cabelo liso e longo, olhos azuis marcados por maquiagem preta. Para meninas no início dos anos 2000, Avril Lavigne era um modelo a ser seguido não apenas por conta de seu look característico, mas com relação à sua atitude de quem não leva desaforo para casa e faz o que deseja fazer como bem entender. Quando alcançou o sucesso mundial com seu primeiro álbum, Let Go, lançado em 2002, Avril não esperava ser vista como modelo ou inspiração de coisa alguma, mas foi o que aconteceu.

Aos dezessete anos, a cantora estava à frente das composições de seu primeiro álbum de inéditas e mudou a cena musical daquele ano para sempre. Com canções pop punk que escrevia inspirada por sua própria vida, Avril Lavigne logo foi rotulada como uma espécie de anti-Britney Spears, alguém que ia na contramão do pop chiclete que dominava as paradas musicais da época. Canções como “Complicated”, “Sk8er Boi” e “I’m With You” chegaram ao topo dos charts de vários países, colocando a cantora canadense definitivamente no mapa da música internacional. Se você não se sentia confortável performando feminilidade e sensualidade como Britney Spears e Christina Aguilera, as grandes estrelas do pop mundial daquela época, você poderia se virar para Lavigne e sua atitude levemente debochada de quem não dava muita atenção à maneira de se vestir e se portar da época. Avril Lavigne se tornou o ícone das meninas alternativas que queriam compor suas próprias músicas, tocar guitarra e andar de skate.

Nascida em uma pequena cidade em Ontario, no Canadá, Avril Lavigne tinha sonhos de grandeza e escrevia sobre eles, assim como sua própria realidade enquanto uma adolescente — o que trouxe identificação com milhares de meninas ao redor do mundo. Ela gostava de meninos que andavam de skate, não se identificava completamente com o universo das meninas ao seu redor e queria viver da sua música. Em entrevista à Vanity Fair, Avril disse que precisou trabalhar duro e com vontade para se fazer notar em um universo que nunca é muito gentil com mulheres: o mundo da música. De acordo com a cantora, ela teve que entender muito cedo, e muito rápido, quem era e o que desejava com sua carreira. E não parou até chegar no topo. Desde pequena Avril participava de concursos e shows de talento, apresentando-se em feiras e exposições em sua pequena cidade, e foi em um desses concursos, do qual saiu vitoriosa, que ela se apresentou ao lado de Shania Twain em um palco à frente de mais de 20 mil pessoas, com apenas quatorze anos de idade.

Seu estilo persistente de lidar com o trabalho entregou o retorno que desejava em tão pouca idade: Avril recebeu cinco indicações ao Grammy daquele ano por Let Go, incluindo categorias como Melhor Álbum Vocal de Pop, Canção do Ano e Melhor Performance Feminina Pop por “Complicated” e Melhor Performance Feminina de Rock por “Sk8er Boi”. E com o sucesso, não demoraram para que as críticas surgissem. Muitos críticos da época diziam que Lavigne era apenas um produto fabricado por sua gravadora e L.A. Reid, que produziu Let Go, e que nada tinha de punk ou de autenticidade. Lauren Christy, parte do trio The Matrix, foi à público na época dizer que ela e seus companheiros escreveram a maior parte das músicas de Let Go e que Avril mudava apenas uma ou outra palavra nas canções. Tanto a cantora quanto a gravadora se defenderam na ocasião, pontuando que todo o álbum foi composto por eles em conjunto.

Para além das controvérsias e das brigas públicas, o fato é que Let Go foi um sucesso mundial que catapultou Avril Lavigne para o tão sonhado estrelato. Foi por meio do álbum que a cantora fez sua primeira turnê, se apresentando nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Europa e Ásia com a sua Try to Shut Me Up Tour. O álbum original conta com treze canções das quais saíram cinco singles, entre eles as já citadas “Complicated”, “Sk8er Boi” e “I’m With You” e também “Losing Grip” e “Mobile”. Já Let Go (20th Anniversary Edition) tem ao todo 19 canções, incluindo a muito desejada regravação de “Breakaway”, escrita por Lavigne e sucesso na voz de Kelly Clarkson em seu primeiro álbum, também batizado Breakaway, lançado em 2004.

Revisitar Let Go vinte anos após seu lançamento rendeu a Avril Lavigne um passeio pela alameda das memórias, como a artista contou em entrevista à Vanity Fair — eu, como ouvinte assídua da cantora quando adolescente, poderia dizer o mesmo, mas estaria mentindo se falasse que não tive longas sessões ouvindo o álbum nos últimos vinte anos, seja durante a faculdade ou colocando uma boa e velha música de conforto para conseguir prosseguir com o dia, bem ao estilo dramático (e millennial) de ser. O fato é que Avril Lavigne fez parte da minha trajetória musical, assim como Gwen Stefani e o No Doubt, Amy Lee e o Evanescence e tantas outras bandas lideradas por garotas que não se conformavam aos papéis em que a indústria as colocava. Avril foi rotulada como a “menina rebelde do pop”, mas conta que fazia todo o seu trabalho de maneira impecável, mesmo que os tabloides gostassem de fazê-la parecer mais louca do que de fato era.

Let Go me capturou aos quatorze anos e ainda me captura hoje em dia, mostrando que o trabalho de Avril Lavigne continua, de alguma maneira, atemporal. O álbum possui um conjunto de canções que vão das baladas, como a minha favorita “I’m With You”, ao pop punk divertido e debochado de “Sk8er Boi”. São canções que conversavam com a minha eu adolescente mas que, de alguma forma, ainda falam com a mulher que sou hoje em dia, seja por conta das memórias que são desbloqueadas a cada vez que canto o refrão de “Complicated” quando estou dirigindo para o trabalho, ou mesmo pelos versos de “Nobody’s Fool”, outra favorita. A Avril Lavigne de dezessete anos que compôs canções falando sobre sua adolescência, relacionamentos amorosos que só poderiam dar em problema, solidão e insegurança, ainda se comunica comigo depois de todos esses anos — e com a própria Avril também. Todos esses sentimentos são humanos e relacionáveis, independente do momento da vida em que você se encontra: sofrer por estar insegura ou confusa, mergulhar em um relacionamento problemático e passar por momentos de descoberta sobre seu verdadeiro eu não são coisas que passam com a idade, mas atuam em diferentes escalas durante toda a vida.

E são esses sentimentos que transbordam durante toda a reprodução de Let Go: Avril canta sobre a incerteza de ser uma mulher em desenvolvimento, sua luta para encontrar sua verdadeira voz e seu desgosto por aqueles que se deixam moldar, persuadidos pela sociedade ao seu redor. “Sk8er Boi” tem o storytelling que aprenderíamos a amar nas músicas de Taylor Swift, enquanto “Anything but Ordinary” é um conto sobre descoberta e amadurecimento como nenhuma outra canção de Let Go é capaz de ser. O sucesso do álbum se provou de diferentes maneiras, desde os sete certificados de platina que recebeu pelas vendas, aos artistas que surgiram na esteira de Avril Lavigne com seu pop punk tão característico. Lauren Christy e sua Matrix logo foram chamados para colaborar e compor para outras artistas que buscavam se desvencilhar do pop adolescente dos anos 1990, e logo a atitude pop punk das canções de Lavigne podiam ser percebidas nos trabalhos de Hilary Duff, Ashlee Simpson e até mesmo Lindsay Lohan. O sucesso de Avril Lavigne não ficou restrito a inspirar outras meninas, mas também rompeu as barreiras e, de acordo com a Pitchfork, chegou a influenciar os trabalhos de bandas como Simple Plan, Good Charlotte e Yellowcard. Hayley Williams, do Paramore, disse em entrevista para a The Father que se não fosse pelo sucesso de Avril Lavigne, ela dificilmente teria conseguido um contrato com uma gravadora. O sucesso da cantora e seu estilo musical abriu as portas para outros novos talentos que se voltavam para outro gênero musical que não somente o pop.

Se o legado de Avril Lavigne e Let Go já mostrava frutos vinte anos atrás, atualmente é possível vê-lo nas composições e canções da nova geração de meninas como Olivia Rodrigo, Soccer Mommy, Alex Lahey, Willow Smith e Snail Mail. É curioso notar que após vinte anos do lançamento de Let Go tem surgido também uma espécie de revival do pop punk, tão característico de Avril em 2002. Para além das novas vozes que redescobrem o gênero, está também a própria Avril Lavigne que com seu Love Sux, de 2022, reencontra sua persona de dezessete anos em canções como “Bite Me”, “Love it When You Hate Me” e “Bois Lie”. Agora, escrevendo música por meio de uma perspectiva mais madura, de uma mulher que se casou, divorciou, e enfrentou a doença de Lyme, Avril Lavigne diz saber muito bem quem é, o que amou e o que perdeu.

Colaborando com Travis Barker, baterista do Blink 182 e sua gravadora DTA, a cantora também trouxe Mark Hoppus para uma canção em seu álbum e participou de “G R O W”, com Willow. Depois de vinte anos de carreira e de navegar por gêneros e versos um tanto duvidosos — vamos concordar que “Hello Kitty” foi um delírio coletivo, por favor — Avril Lavigne relembra Let Go enquanto revive o gênero que a deixou famosa mundialmente, inclusive se preparando para lançar uma versão cinematográfica de “Sk8er Boi”.

O pop punk vive — ainda bem.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.