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Stranger Things chega à adolescência com homenagem ao cinema slasher

O que faz com que Stranger Things ganhe o coração de tantos apaixonados por horror é uma coisa só: os Irmãos Duffer poderiam ser qualquer um de nós. Eles foram crianças criativas, aficionadas por cinema e que sempre desejaram contar histórias. Assim, por volta dos 10 anos de idade ganharam uma câmera HiB de presente dos seus pais e começaram a trilhar o seu caminho. Desde os seus primeiros projetos até a sua estreia oficial, Hidden (2015), eles nunca se desviaram das suas paixões e sempre acreditaram que o seu diferencial era o coração no lugar certo.

Não surpreende a ninguém, então, que o primeiro projeto dos Duffer, ainda na pré-adolescência, tenha sido uma adaptação do jogo de cartas Magic: The Gathering. E foi a partir deste contato que eles começaram a desenvolver o seu gosto pelo horror, que se tornaria mais acentuado no ensino médio e os levaria diretamente para a faculdade de cinema na Califórnia.

Então, em 2015, ano em que a Netflix mostrou interesse pelo roteiro de Stranger Things, Matt e Ross Duffer já sabiam exatamente o que queriam fazer: homenagear as suas referências oitentistas e o universo fantástico e apavorante que os acompanhava desde os seus primeiros anos como cineastas. E seja no tom aventuresco e coming of age ou nas histórias sobre jovens que se tornam alvos de experimentos do governo, Stranger Things não se desprende dos anos 1980 para construir a sua ambientação e a sua trama. Desse modo, o tom mais adulto da quarta temporada encontra justificativa exatamente na fidelidade da série à década. As crianças que acompanhávamos desde a primeira temporada cresceram. Agora, elas são adolescentes lidando com questões intrínsecas a este momento da vida — e se no horror de 1980 a adolescência encontrava o seu espaço principalmente no slasher, este padrão se repetiu na série.

O slasher é um subgênero do horror que possui regras bem definidas, como um assassino e uma final girl. Iniciado com Halloween – A Noite do Terror (1978), rapidamente ele se tornou um fenômeno. Devido ao baixo orçamento do seu filme inaugural e ao seu retorno expressivo em bilheteria, os estúdios passaram a se interessar cada vez mais por produções do estilo. Isso levou a uma saturação rápida do slasher, que se reinventou em 1984 nas mãos do jovem Wes Craven.

Craven foi o responsável por introduzir no slasher o elemento sobrenatural. Se até então os assassinos eram somente seres humanos com algum tipo de conexão com as suas vítimas, a partir do lançamento de A Hora do Pesadelo (1984) as coisas se tornaram mais abrangentes. O vilão, Freddy Krueger (Robert Englund), usava os sonhos dos jovens da Rua Elm para aterroriza-los e mata-los. Desse modo, é fácil fazer a conexão entre Freddy e Vecna (Jaime Campbell Bower), o poderoso vilão da quarta temporada.

Induzindo as suas vítimas ao pavor usando apenas os seus traumas, Vecna manipula a noção de realidade dos jovens de Stranger Things até que eles cheguem ao estado de medo absoluto. Então, de forma mais gráfica do que qualquer antagonista da série, ele os aprisiona na versão invertida de Hawkins, deixando no “mundo real” corpos quebrados e olhos furados. Embora essa referência seja bastante explícita, Ross e Matt Duffer sabem que estão lidando com fãs tão fervorosos quanto eles, e vão além, se aprofundando um pouco mais na franquia de Krueger.

Stranger Things

Desse modo, embora a morte de Chrissy (Grace Van Dien) seja visualmente impactante e remeta imediatamente a Tina (Amanda Wyss) suspensa no teto enquanto tem a barriga dilacerada pelas garras de Freddy, o maior eco de A Hora do Pesadelo surge na figura de Max (Sadie Sink), que guarda algumas semelhanças com Kristen Parker (Patricia Arquette), a protagonista do terceiro volume da franquia, Guerreiros dos Sonhos.

Kristen é uma garota traumatizada que é internada em uma clínica após alegar que está sendo perseguida por um homem nos seus sonhos. Entretanto, ela consegue escapar das investidas de Freddy guiada por Nancy Thompson (Heather Langerkamp), a final girl do primeiro longa da franquia. Posteriormente, ela precisa encontrar subterfúgios para se manter viva e para quebrar de vez a “maldição”, se libertando da perseguição implacável do vilão. Aqui, Nancy funciona como uma espécie de Eleven (Millie Bobbie Brown): ela é capaz de entrar nos sonhos de Kristen para guia-la de volta para a realidade, impedindo que Freddy concretize a sua maldição.

Se em Stranger Things Max tem o apoio do Hellfire Club, em Guerreiros dos Sonhos Kristen precisa combater o ceticismo dos responsáveis pela instituição para recrutar outros jovens traumatizados e lutar contra o mal que os assola, o que revela mais um paralelo entre filme e série. Afinal, em ambos os casos têm-se um grupo de desajustados tentando vencer um inimigo invisível no qual adulto nenhum acreditaria exatamente porque somente a juventude é tocada por ele.

Isso também é algo bastante comum no cinema slasher. Os longa metragens tinham como alvo o público jovem, que passou a ser percebido como consumidor e gerador de lucro pouco antes. Essa percepção está ligada ao contexto de popularização dos drive-ins na década de 1960 e a o boom do Home Video, que aconteceu nos anos finais da década de 1970. Foi também essa mentalidade de indústria que fez com que mais de 100 slashers fossem produzidos somente em 1981, três anos depois da consolidação das características do estilo.

Assim, é inegável que o subgênero assumiu uma faceta de controle da juventude. Esse lado pode ser condensado na frase “mostre os peitos e morra”, do crítico Rick Worland. Afinal, a final girl durante a era de ouro do slasher era sempre uma garota virginal e cheia de virtudes, que tinha a chance de vencer o assassino usando a sua inteligência exatamente porque não gastava o seu tempo com assuntos “fúteis”.

Em Stranger Things, devido à faixa etária dos personagens, essas questões não entram em pauta, mas ao colocar o trauma como a porta de acesso de Vecna a série faz uma releitura da final girl. Chrissy teria tudo para assumir com louvor o arquétipo, mas lutava com questões relativas à autoestima e silenciava os seus demônios com o uso de drogas. Em contrapartida, Eleven, que até aqui é quem ocupa este posto, também é marcada pelo trauma, mas encontra no entendimento dos seus poderes uma via de superação que a distancia das demais garotas tocadas por Vecna e a coloca em posição de vencer o vilão no seu jogo.

Essa homenagem ao cinema slasher trouxe Stranger Things definitivamente para o horror. Embora a série tenha flertado com várias produções do nicho através das suas referências a clássicos como Poltergeist (1982) e Alien, o Oitavo Passageiro (1979), foi somente com o desenrolar do quarto ano que os irmãos Duffer assumiram definitivamente a faceta mais pesada e dramática que o gênero possibilita. Embora isso possa parecer tardio para alguns, na verdade, é algo que serve para demonstrar o controle que os dois sempre tiveram da história que desejavam contar e para deixar claro que eles sabem onde querem chegar com Stranger Things. Afinal, este foi um amadurecimento construído e possibilitado por um caminho pavimentado com referências que só podiam culminar em uma homenagem ao estilo de horror mais prolífico da década de 1980.

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3 comentários

  1. Esse blog me cativou muito, está impecável em todos os aspectos, meus parabéns! Essa penúltima temporada definitivamente foi uma carta de amor ao gênero slasher por qual tanto nutro um afeto mórbido, talvez a última temporada se baseie em filmes sobre catástrofes naturais como Moonfall ou O Dia em que a Terra parou.

  2. Ótima análise, e meu ver, nessa temporada quem assumiu o papel de final girl foi a Nancy, a forma como ela foi desenvolvida da primeira temporada até agora mostra um arco perfeito disto.