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Primeiros escritos de Virginia Woolf e o lugar da mulher na sociedade

Um Teto Todo Seu, bem como Profissões para Mulheres e outros tantos textos, fizeram com que Virginia Woolf fosse adotada pelo feminismo, sendo considerada uma voz a escancarar a forma como as mulheres foram diminuídas, apagadas ao longo da história. Essa informação, no entanto, não é uma novidade, mesmo para aqueles que não conhecem tanto a obra da autora: quem nunca leu ou ouviu sua frase “por muito tempo na história ‘anônimo’ era uma mulher”?

O que talvez não se saiba é que, desde muito jovem, Woolf pensa o lugar ocupado pela mulher no mundo ao seu redor. Em seus diários de juventude, escritos entre os 15 e 29 anos, a autora, que à época ainda utilizava seu nome de solteira, Virginia Stephen, já apresentava um olhar atento ao lugar destinado à mulher naquela época. Em sua casa, por exemplo, era permitido a ela e a sua irmã, Vanessa Bell, estudarem, terem atividades próprias, mas às cinco da tarde deveriam estar com o chá pronto a ser servido aos homens da família e às visitas. Elas também precisavam frequentar festas e mostrarem boas mulheres para conseguir bons casamentos. É preciso dizer que Virginia sentia-se bastante deslocada nessas ocasiões: ela desejava conversar, falar sobre suas leituras, o que não era esperado de uma mulher. Em 1903, Virginia escreve em seu diário:

“[…] Atualmente a maioria das jovens do nosso ciclo tem se especializado nesse ramo de aprendizagem. Suas noites são mais importantes para elas do que suas manhãs — de fato é difícil concebê-las pela manhã. Elas realmente existem antes do relógio bater às oito? Minha crença é de que o sino do jantar as chama para a existência — elas florescem nas salas de jantar como jacintos em junho. Ao amanhecer elas estão desbotadas — um pouco amassadas talvez — não importa — elas se fecham no sono — para acordar uma vez mais quando o sol se põe. Então, acho isso muito bonito e atrativo, mas sempre um pouco intrigante. Ela tem um caule ou um corpo? — ela está vestida em seda ou escumilha ou são pétalas de flor que brilham sobre ela? Acima de tudo, sobre o que ela fala? Vejo seus lábios moverem — gotas de mel brotam entre eles aparentemente, mas eu sei que nunca escutarei o que ela diz. Se eu me aproximo, ela fica em silêncio — ela fecha suas pétalas ao seu redor, ela deve, de fato, ser uma flor que passeia à noite.” (tradução da autora)

Ainda nos diários, até no simples ato de ler, de ganhar bagagem de conhecimento, Virginia mostra o peso do lugar em que eram colocadas as mulheres:

“É bem verdade que eu li mais durante essas oito semanas no campo do que talvez em seis meses em Londres. Aprender parece natural para o campo. Acho que eu poderia continuar navegando e saboreando todos os tipos de livro desde que eu vivesse em Salysbury. A atmosfera de Londres é muito quente — e irritadiça também. Eu leio — então abaixo o livro e digo — que direito tenho eu, uma mulher, de ler todas essas coisas que os homens fizeram? Eles ririam se me vissem. Mas esquecerei de tudo isso no campo.” (tradução da autora)

A questão da mulher na sociedade aparece também em seus primeiros textos ficcionais, como em “Phyllis e Rosamond”, um dos seus primeiros contos. E a discussão é ampliada em seus romances iniciais, A Viagem e Noite e Dia — obras pouco discutidas.

A Viagem é o primeiro romance de Woolf, publicado em 1915, e demorou quase uma década para ser escrito. Nele, Rachel Vinrace, uma jovem de 24 anos, viaja da Inglaterra para a América do Sul no navio de seu pai. Helen Ambrose, tia de Rachel, que viaja com ela, convida-a a ficar em sua casa, em Santa Maria — localizada na região amazônica — para ajudá-la a compreender a vida, a pensar, a sentir. A jovem, que foi criada pelas tias paternas no interior de Londres, vive distante de tudo, alheia ao mundo para além das paredes de sua casa. Seu pai aceita que a filha fique com a tia, mas o que ele quer dessa estadia é que a filha aprenda a ser uma mulher digna de estar em sociedade. Ele quer um objeto para ser observado pela sociedade, para agradar os políticos que ele deseja conquistar.

“[…] Veja, Helen — prosseguiu ele, agora confidencial —, quero criá-la como sua mãe teria desejado. Não concordo com as posições modernas… […] Estou quase decidido a alugar uma casa em Londres, deixando minhas irmãs em Richmond, e levá-la para conhecer uma ou duas pessoas que seriam boas com ela por minha causa. Começo a perceber — continuou ele, esticando o corpo — que tudo isso me levará ao Parlamento, Helen. […] Nesse caso, naturalmente, eu devo querer que Rachel participe mais das coisas. Certa quantidade de diversão seria necessária: jantares, uma festa eventual. Nossos constituintes gostam de ser alimentados, eu acho. Em todas essas coisas, Rachel poderia me ajudar. […] se você pudesse ajudar minha menina, fazê-la desabrochar… ela é um pouco tímida ainda… transformá-la numa mulher, o tipo de mulher que a mãe dela gostaria que fosse […].”

Uma ideia completamente contrária à de Helen, que como visto, é fazer de Rachel uma mulher completa em si, com desejos próprios, com voz própria. E, com o correr das páginas, é o que enxergamos, uma Rachel tendo contato com sentimentos e percepções que nunca tivera antes. Ela se descobre um ser pensante, crítico, com certezas e incertezas. Uma mulher que não deseja habitar o mundo calando-se e enaltecendo todo e qualquer homem.

Por sua vez, Noite e Dia, o segundo romance de Virginia Woolf, publicado em 1919, traz uma trinca de mulheres que apresentam ao leitor diferentes personalidades femininas que se mesclam num momento em que as estruturas sociais sofrem mudanças, em diferentes aspectos, inclusive no lugar que uma mulher ocupa na história da sociedade.

“As regras que devem governar o comportamento de uma mulher solteira estão escritas com tinta vermelha e gravadas em mármore se, por qualquer aberração da natureza, não estiverem escritas no coração dela. Katharine estava pronta a acreditar que algumas pessoas consideram uma honra lançar, aceitar, entregar suas vidas a um aceno da autoridade tradicional; poderia até invejá-las; no seu caso, porém, as questões se tornavam fantasmas logo que tentava seriamente encontrar uma resposta, prova de que a resposta tradicional não lhe serviria, individualmente.”

Temos assim, Katharine, a personagem principal. Em meio a um noivado que ela sabe que não deveria existir, a jovem mergulha em diversos questionamentos acerca da obrigatoriedade do casamento, sobre o que ele de fato significa e faz com a vida de uma mulher.

“Ele a tomara pelo braço, e tinha a mão dela presa com força na sua. Katharine, porém, não pensava em resistir ao que agora lhe parecia uma enorme superioridade física. Muito bem: submeter-se-ia, como sua mãe, sua tia e a maior parte das mulheres, talvez, se haviam submetido. Contudo, sentia que cada segundo dessa submissão à força dele era um segundo de traição.”

Como exemplo de mulher tradicional, que aceita ser o anjo do lar, ou seja, submissa ao marido, devotada a cuidar da casa e dos filhos e cuja voz não se escuta, tem-se Cassandra, prima de Katharine. Cassandra está sempre pronta a elogiar um homem, a fazê-lo sentir-se mais inteligente, especial.

“[…] — Qual o caminho para o Pavilhão dos Répteis? — perguntou-lhe Cassandra, não movida pelo desejo de visitar os répteis, mas em obediência à sua nova sensibilidade feminina, que a impelia a encantar e conciliar o outro sexo.”

Por último, Mary, a representação da mulher emancipada, que se mantém sozinha e toma suas decisões sem precisar do aval de ninguém. O ambiente no qual Mary está inserida é cercado por questões políticas, por discussões acerca do sufrágio feminino — na Inglaterra, mulheres donas de propriedades ganharam direito ao voto em 1918, mas o voto para todas chegou apenas em 1928.

“Essa mulher era, agora, um ser humano prestativo, senhor de seu próprio destino e assim, por alguma obscura associação de ideias, próprio para ser adornado com a dignidade de correntes de prata e broches cintilantes.”

Conclui-se, então, que Virginia Woolf pensa a mulher, seus anseios, seus não-lugares, seus desejos de ter voz desde muito cedo. As discussões acerca do assunto perpassam suas obras como um todo, de diferentes formas, mas estão lá, sempre presentes.


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