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Julia: a chefe que se tornou um ícone

Na década de 1960,  Julia Child, uma escritora e chef de cozinha, conquistou as donas de casa dos Estados Unidos ao levar para a televisão receitas e técnicas da cozinha francesa em uma época em que a comida enlatada ganhava holofotes nas prateleiras das despensas das casas. Assim, Julia, atração da HBO Max, é uma história biográfica que explora os bastidores e o processo de criação do The French Chef, programa de culinária que transformou Julia Child em um dos rostos mais familiares da TV dos EUA.

Julia Child (1912-2004) despertou para a gastronomia após se mudar para França, quando o marido e diplomata Paul Child foi trabalhar no país. Ao se apaixonar pela cozinha francesa durante sua estadia em Paris, Julia resolveu frequentar a famosa escola de culinária Le Cordon Bleu. Na época, ela, por ser uma mulher aprendendo técnicas da alta gastronomia, precisou lidar com preconceitos e discriminação — apesar de, historicamente, as mulheres terem sido as responsáveis por cozinhar no ambiente doméstico. Em outras palavras, para a mulher cabe a condição de cozinhar para a família, ou seja, no âmbito do afeto e cuidado, questão que ainda permanece como uma condicionante do que é ser feminino, do que se é expressar amor e dedicação. Entretanto, quando expressada no campo profissional, principalmente no universo da alta gastronomia, a cozinha passa a estar relacionada ao homem. Questão que evidencia a divisão do trabalho em virtude das relações sociais entre os gêneros.

Em 1951, Julia Child conquistou o Diplôme de Cuisine e, posteriormente, decidiu “traduzir” as receitas e técnicas francesas para o público estadunidense. Assim, depois de 12 anos,  em 1961, lançou o Mastering the Art of French Cooking (Dominando a Arte da Culinária Francesa), co-escrito com as chefs francesas Simone BeckLouisette Bertholle, que até hoje é homenageado e considerado a bíblia da gastronomia.

Julia começa no início dos anos 1960, com a protagonista (Sarah Lancashire) e seu marido (David Hyde Pierce), já aposentado da diplomacia, vivendo nos Estados Unidos depois de um longo período na França, quando Julia é convidada pela pequena emissora pública de Boston, a WGBH, para ser entrevistada em um programa dedicado a livros. Na ocasião, ela surpreende a todos ao tirar uma frigideira da bolsa, assim como um fogão elétrico, ovos, manteiga, sal e pimenta, e preparar uma omelete ao vivo. Entusiasmada com a repercussão de sua participação no programa, que foi um sucesso — a emissora recebeu um recorde de 27 cartas endereçadas à Julia —, Child propõe a criação de um show centrado em ensinar receitas francesas em 30 minutos, o The French Chef.

A ideia não é bem recebida pelos produtores (lê-se: homens brancos) da emissora, que se concentram em zombar da culinária e da figura não convencional de Julia, que tinha praticamente 1,90m de altura e uma voz muito única — que foi muito parodiada na cultura pop —, além de já ter 51 anos. Aliás, Sarah Lancashire está perfeita no papel de Julia Child, visto que a atriz não cai na caricatura e consegue entregar uma protagonista amável e magnética. Contudo, apesar da resistência da emissora e até mesmo de Paul, que no início não apoia a ideia, Julia se cerca de amigas e profissionais que acreditam e defendem a criação de seu programa.

A produtora da WGBH, Alice (Brittany Bradford), é a primeira — e, no começo, a única — a identificar o potencial do show e de Child como apresentadora. Em um ambiente quase que completamente dominado por homens, Alice, que é uma jovem negra, luta para ganhar o respeito que merece. Mas, apesar de todo seu esforço para tirar o The French Chef do papel, são seus colegas do sexo masculino que recebem os créditos por seu trabalho. Entre eles, Russell Morash (Fran Kranz), também produtor da emissora que, mesmo inicialmente sendo contra a ideia de um programa de culinária pertencer à TV pública erudita, assume a produção do programa e, deste modo, acaba ficando com os louros da repercussão positiva do show. Ao contrário de todos os outros personagens presentes na série, Alice é uma personagem fictícia criada para, mesmo que superficialmente, trazer uma discussão de gênero e raça para a produção.

Julia também conta com o suporte da melhor amiga, Avis DeVoto (Bebe Neuwirth) e da sua editora, Judith Jones (Fiona Glascott) — famosa por escolher O Diário de Anne Frank de uma pilha de rejeições, Judith ajuda Julia a convencer Paul a apoiar a ideia do programa. Assim, com todos juntos, é filmado um episódio piloto divertidamente amador, no qual Julia prepara coq au vin, clássico francês feito com frango, vinho tinto e cogumelos. Ao escolher fazer essa receita, que demora aproximadamente quatro horas em vinte e oito minutos, acompanhamos como Child e sua equipe criaram o formato do programa.

Você já deve ter notado que os programas que ensinam receitas na TV, como o Mais Você comandado por Ana Maria Braga, deixam todos os ingredientes separados em recipientes, assim como as etapas mais demoradas da receita ficam prontas, ou pré-preparadas, o que adequa o passo a passo à duração do programa. Como esses processos estão muito presentes na televisão, não racionalizamos como eles surgiram, então é muito interessante e divertido acompanhá-los descobrindo jeitos de realizar em frente as câmeras preparos que demoram horas em poucos minutos.

Depois do episódio piloto, aliado a muito charme e humor, Julia vai conquistando aqueles que duvidavam dela e fãs por todo o país. Criada pelo produtor de The Marvelous Mrs. Maisel, Daniel Goldfarb, é possível enxergar semelhanças nas produções, uma vez que ambas fazem um trabalho admirável ao colocar em tela uma mulher branca de classe média-alta cuja personalidade carismática acompanha um talento memorável. Além do mais, outra semelhança entre as protagonistas dos shows, Julia e Midge Maisel (Rachel Brosnahan), é que ambas contam com uma rede de apoio sempre disposta a ajudá-las quando as coisas dão errado.

Nesse contexto, embora a série seja sobre os bastidores do The French Chef, em sua essência a produção retrata a mudança na dinâmica do amoroso casamento de Julia e Paul: ela, com uma vida pública crescente, passa a ser o centro das atenções, após décadas dele sendo a figura central do casamento. No entanto, apesar do que se pode esperar, Paul está ciente dessa mudança e, embora não esteja confortável com a situação, auxilia Julia nas filmagens do programa e na produção do segundo livro de receitas dela.

No episódio “Pães”, Paul e Judith assumem a tarefa de chegar a uma receita perfeita de pão, enquanto Julia está ocupada. Eles testam dezenas de formas de se fazer pão o que, para os entusiastas da panificação, é um baita episódio. Um ponto que merece ser notado e apreciado é a direção de arte da série, com destaque para o design das cozinhas, estúdios de TV, além das comidas super-realistas usadas nas cenas culinárias.

Muitas pessoas com seus 20 e poucos anos se sentem pressionadas para alcançar sucesso profissional e conquistar “tudo” o quanto antes e, de preferência, ainda jovem. Uma figura como Julia, que alcançou o status de celebridade televisiva com mais de 50 anos, nos faz refletir que novas realizações e o sucesso podem vir com mais idade, no seu próprio tempo. A carreira de Julia na TV começou a decolar no mesmo período que o movimento feminista dos anos 1960 começava a ter mais destaque. O lançamento do The French Chef aconteceu exatamente no mesmo ano da publicação do livro A Mística Feminina, ensaio de Betty Friedan e pioneiro sobre a norma social que define as mulheres a partir de uma existência devotada ao lar, ao marido e aos filhos, ou seja, limitadas à esfera doméstica. Tendo em vista esse contexto, no penúltimo episódio, a série ficciona um encontro entre Julia e Betty Friedan, que não sabemos se aconteceu ou não na vida real.

Na ocasião, Betty critica Child, afirmando que ela não está ajudando em nada o movimento de libertação das mulheres. “Você acha que está abrindo portas para as mulheres, expandindo seus horizontes. Elas podem estar sonhando com a França, mas estão presas na frente de um fogão quente.” Friedan também afirma que as receitas do programa apenas criam mais horas de trabalho para as mulheres, amarrando-as à cozinha.

Realmente, principalmente entre as décadas de 1960 e 1980, programas como o The French Chef acabavam reafirmando que o “lugar de mulher” era na cozinha, preparando refeições maravilhosas para os filhos e marido. Contudo, destaca-se também que Julia, num período em que os estadunidenses tinham adquirido o hábito de comer enlatados, ajudou a promover uma alimentação baseada em vegetais, laticínios e ingredientes integrais. Além de defender que preparar e ingerir as refeições pode ser também uma atividade prazerosa.

Com cada episódio com o nome de um prato, Julia é uma produção leve e descontraída, que mostra como, com muito entusiasmo, confiança e persistência, Julia Child começou uma carreira de sucesso na televisão americana. Pioneira no ramo de programas culinários, assistir à Julia é como ver a história desses programas começando a ser escrita sendo, desta forma, uma feliz adição ao crescente cânone de produções sobre Child, como o filme Julie & Julia (2009) e o documentário Julia (2021).

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