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Cherry Bombe: mulheres na cozinha – e para além dela

Ao longo dos anos, as relações entre homens e mulheres sofreram diversas mutações, sejam elas no âmbito profissional ou pessoal. Desde os primórdios, a estrutura imposta pela sociedade era a de uma família patriarcal, sendo o homem o gerador único e total de renda da casa. A condição feminina imposta pela sociedade mostrava as mulheres como santas do lar. Seres que desempenhavam uma missão e, portanto, eram valorizadas pela sua pureza. À mulher associava-se a sensibilidade, o coração, o lar, enquanto o homem estava ligado à razão, à criatividade e à ambição.

No artigo escrito por Mariana Ribeiro de Castro e Lyovan Neves Maffia, intitulado Gênero na Cozinha Profissional, as autoras levantam a questão de que uma profissão qualificada é naturalmente atrelada ao homem, como uma representação do sexo forte e de maior acesso ao conhecimento. Já às mulheres são atribuídas tarefas que não necessitam de qualificação (ou necessitam de menos qualificação), como as tarefas domésticas, cujo conhecimento poderia ser passado de mãe para filha. Homens, por muito tempo, também teriam maiores oportunidades de alcançar níveis mais avançados na educação tradicional, adentrando as universidades em cursos tradicionais como a Medicina e o Direito, enquanto que, às poucas mulheres que alcançavam a graduação, reservavam-se cursos como a Enfermagem e a Pedagogia, comumente associados ao cuidado, confirmando a tese de que, historicamente, muitas profissões mantinham o caráter dicotômico da divisão baseada em gênero.

“A divisão sexual do trabalho na sociedade contemporânea pode ser observada quando ouvimos frases como ‘lugar de mulher é na cozinha’, em que se percebe que as tarefas de preparar alimentos e de cozinhar estão ainda associadas à figura feminina. Sobre essa divisão sexual, Barbosa (2011) argumenta que : ‘Homens e mulheres, desde que o mundo é mundo, sempre estiveram presentes nas cozinhas e envolvidos no preparo de alimentos. Mas sempre estiveram em cozinhas diferentes. As mulheres nas cozinhas das ‘casas’, os homens nas cozinhas das ‘ruas’. Ou seja, mulheres cozinhavam e cozinham para a família. Homens cozinhavam e cozinham para pessoas estranhas em restaurantes, castelos e palácios de governo. Os homens sempre foram chefs e as mulheres cozinheiras.’ (p.188) Assim, fica evidente o papel de cada um dos gêneros nas tarefas relacionadas à cozinha. Enquanto a mulher está associada à função de cozinhar para a família, como um apêndice das tarefas domésticas que cabem a ela executar, o homem está associado à função de cozinhar como profissão, como exercício de uma arte com fins lucrativos.”

A cozinha como o centro da casa

Pensando em como o universo da cozinha mudou nos últimos 60 anos, pode-se deduzir toda uma transformação cultural que teve adaptações em função de como as pessoas consumiam seus almoços e jantares. A clássica imagem da mulher cozinhando para toda a família, seguindo um livro de receitas, responsável pela alimentação diária dos moradores da casa, deixou de ser a regra para se tornar a exceção, dando lugar a uma família que não come mais em casa e que mudou sua relação com a comida. A mulher que cozinhava agora trabalha fora e, muitas vezes, não quer mais acrescentar a tarefa de “pilotar” o fogão à sua extensa lista de atividades. Com isso, a alimentação de toda uma geração também muda.

Cherry Bombe
As perfeitas donas de casa da década de 50.

No artigo Analisando a gastronomia na perspectiva de gênero, Maria Francinete de Oliveira, Antonio Vitorino de Oliveira Bisneto e Ianna Lima de Souza, os autores, argumentam que quando a mulher deixa de estar envolvida integralmente com os cuidados do lar ou deixa de ser a única responsável por produzir alimentos para a família, “o sistema capitalista recorre às novas técnicas de conservação de alimentos (cocção, fermentação e embalagens, entre outros), que retardam a decomposição, prolongando o tempo de consumo e comercialização. Além disso, os eletrodomésticos tornam-se cada vez mais sofisticados, como por exemplo, o micro-ondas. Entretanto, essa modernidade vai quebrar a dinâmica da reunião familiar em torno da mesa e abalar a saúde da população, dando margens para o desenvolvimento de doenças crônicas degenerativas.” 

A partir dessas informações, a sensação é a de que a mulher é frequentemente tratada como a culpada pelas mudanças econômicas e de comportamento social das famílias no quesito alimentação. Muito diferente desse pensamento, no entanto, deve-se levar em conta que a conquista por mais espaços profissionais e oportunidades de trabalho só começaram a ser abertas através das lutas do movimento feminista, sobretudo durante a década de 1960, o que garantiu a liberdade que existe hoje.

Novos hábitos alimentares 

Nos últimos anos, porém, é perceptível uma busca por uma alimentação e uma rotina alimentar mais saudáveis, que vai desde movimentos como a #SegundaSemCarne até os hambúrgueres veganos, a busca por orgânicos ou a sobremesa de vó recriada no YouTube. Há uma vontade de reconstruir uma alimentação que está diretamente atrelada ao afeto, seja ele conosco ou com os outros, e a tradição de se cozinhar dentro de casa. Ao mesmo tempo, a oferta de produções voltadas para o tema, sobretudo realities show como Masterchef (franquia de programas do mundo todo que existe desde 1990), The Great British Bake Off (2010), Top Chef (2006) e suas respectivas variáveis, provam que esse é um formato que está em alta e que não apenas vende como intriga e vicia. Mas eles também expõe outra realidade, que para muitos pode passar despercebida: a tímida presença feminina na cozinha profissional.

“É possível verificar, no caso da carreira das mulheres na cozinha profissional, uma dificuldade de ascensão que é conhecida como teto de vidro. O teto de vidro, segundo Steil (1997), é uma barreira sutil e transparente, mas suficientemente forte para bloquear a ascensão das mulheres a níveis hierárquicos mais altos. É uma limitação com base no gênero e não na qualificação da mulher e visa à manutenção das desigualdades como forma de opressão, estando presente em brincadeiras, políticas administrativas, metáforas e linguagens utilizadas.” 

Assim, mesmo que a sociedade tenha conseguido, em alguma medida, reverter papéis tradicionais de gênero — sai a dona-de-casa que cozinha, entra o homem que sabe cozinhar —, a partir do momento em que a figura masculina passa a fazer parte do ambiente culinário, a cozinha deixa de ser vista como sinônimo de servidão para se tornar uma profissão.

Chefs ou Chefs?

“Quem nasceu até a década de 1970 deve ter escutado que cozinha não é lugar de homem. Com isso, criou-se um sistema de gênero relacionado com a produção do alimento no meio familiar. No decorrer da década em questão e até então, o mundo vem sendo marcado pela industrialização e por uma mudança social e econômica que interferem diretamente nos hábitos sociais e, consequentemente, nos costumes alimentares.”

Mesmo quando se busca a palavra chef no no dicionário, ela se remete a cozinheiro, não contemplando as mulheres que exercem o mesmo trabalho. E esse é um pensamento que faz parte da realidade de muitas profissionais do ramo e que torna o mundo da cozinha um universo extremamente machista. Sobre isso, Maria Francinete de Oliveira, Antonio Vitorino de Oliveira Bisneto e Ianna Lima de Souza escrevem que:

“A passagem do cozinhar do espaço privado para o espaço público implica na construção de um novo sistema de gênero. A cozinha gastronômica é espaço de homens e não combina com a fragilidade feminina. Se a cozinha de casa é um espaço feminino, não valorizado socialmente, a profissão de chef de cozinha, hoje disputada no mercado, tem sido destinada, sobretudo, aos profissionais masculinos, dos quais se exige cada vez mais qualificação. Geralmente as mulheres são encaminhadas para trabalhos mais delicados como confeitaria, saladas, sopas e caldos. Além disso, é comum um universo exclusivamente feminino quando o chef é uma mulher. Essa profissão pela qual algumas mulheres estão lutando para conseguir, tendo em vista a predominância masculina no setor.”

Aline Marcelina Resende e Marlene Catarina Melo escrevem em Lugar de Mulher é na Cozinha? uma análise na qual tentam explicar a dominação masculina dentro do ambiente da cozinha profissional.

“O termo violência simbólica é utilizado por Bourdieu (2007) para definir um tipo particular de violência, que está fundamentado na legitimação da dominação masculina na sociedade. Não é uma violência física, contudo traz consequências para as suas vítimas, pois segundo o autor, determina a mulher o papel de ‘dominada’ e por isso as limita em muitas esferas sociais. A violência simbólica é uma forma de reafirmar e consolidar a dominação masculina na sociedade, caracterizando-se através do poder que o dominante exerce sobre o dominado, sem que o dominante precise exercer nenhuma forma de coerção física sobre o dominado, porque a ‘força ou poder simbólico’ tem essa ‘magia’, de coagir o dominado, esse poder é carregado de pressupostos, conceitos e valores que foram introjetados no dominado pelas estruturas que fundamentam essa dominação (BOURDIEU, 2007).”

Entrevistas realizadas pelas pesquisas aqui relacionadas, com chefs de diferentes regiões do Brasil, apontaram a cozinha profissional como um ambiente bastante tóxico. Muitos relatos apontaram que mulheres chefs são inicialmente colocadas em cargos menores dentro do ambiente de trabalho ou alocadas em subcategorias — como a confeitaria, já citada anteriormente — por sua suposta “delicadeza e sensibilidade”. Outros pontos levantados pelos estudos também mostram exemplos de dominação masculina quando um chef não respeita uma superior mulher ou quando vagas de emprego são preenchidas por homens sem qualificação ao invés de mulheres devidamente capacitadas.

Nesse sentido, os programas de culinária também são um reflexo desse problema; basta observar como muito desses formatos padecem da chamada Síndrome de Smurfette: entre dois a três chefs homens, existe apenas uma chef mulher que comenta e avalia os profissionais na competição. O mesmo acontece entre os competidores, onde homens ainda costumam ser maioria.

Síndrome de Smurfette: Paola Carosella é a única mulher jurada no Masterchef Brasil.

O mais recente caso de misoginia e machismo em um reality show culinário aconteceu no Masterchef Brasil, em 2016, transmitido pelo canal Bandeirantes. Durante a edição, inúmeros comportamentos inapropriados puderam ser observados contra profissionais do sexo feminino. Fosse contra Paola Carosella, a única chef jurada do programa, fosse contra qualquer colega de competição, como foi o caso de Dayse Paparoto, que ouviu inúmeros desaforos durante toda a sua participação no programa.

“Apesar das mulheres estarem ocupando um espaço que antes não tinham acesso, percebe-se que a ‘porta de entrada’ da cozinha profissional ainda é muito estreita e seletiva. Não permite o ingresso das mulheres em todos os ambientes e tem maior preferência pelos homens. Tal fato é percebido tanto pelos homens quanto pelas mulheres. 

É possível perceber que a ascensão da mulher na cozinha profissional ainda é limitada, assim como parece ser mais difícil para uma mulher se destacar na gastronomia. Conforme mencionado anteriormente, somente 15% dos chefs de cozinha associados à ABAGA (Associação Brasileira de Alta Gastronomia) são mulheres.”

Mulheres na cozinha

Felizmente existem iniciativas e profissionais que estão lutando para mudar esse cenário. A própria Paola Carosella fez — e faz — inúmeros manifestos na internet contra práticas machistas e misóginas, assim como outras apresentados e chefs pelo mundo buscam, ao seu próprio modo, construir ambientes mais igualitário. A cozinha não é um espaço exclusivo de nenhum gênero, mas sim um lugar que precisa urgentemente de atenção para que toda e qualquer violência seja evitada. Afinal, são muitas as mulheres que amam cozinhar e sonham em fazer da alta gastronomia sua profissão.

Exemplo de que esse assunto deve ser levado à atenção do público é quando o próprio buscador de pesquisas do Google relaciona o nome de Paola a outros termos procurados como seu peso e altura, seu signo ou sela ela faz parte de alguma lista de mulheres mais sexy. Apenas um dos termos pesquisados refere-se a um de seus restaurantes, todos os outros são sobre a mulher Paola, não a profissional. Mas ela está longe de ser a única. A chef Danielle Dahoui também já relatou que mesmo depois de ter sete restaurantes sob sua supervisão e se tornar a primeira mulher a apresentar o programa Hell’s Kitchen no mundo, ela ainda escuta piadas ou tem seu trabalho diminuído. Ou seja, nem mesmo a competência profissional as impedem de serem vítimas da misoginia diária da profissão.

Cherry bombe: Uma maneira de mudar essa história 

Cherry Bombe

Somente é possível executar algum tipo de mudança dando lugar de fala e oportunidades iguais para todos, além de iniciativas que promovem a construção coletiva de uma forma de ver profissões sem preconceitos, independente do ambiente de trabalho. No caso da cozinha, existe um coletivo (inicialmente pensado nos Estados Unidos, mas que hoje tem alcance global) que está fazendo sua parte: o complexo Cherry Bombe; um grupo de mulheres entusiastas da culinária e suas influências e descobertas que transformam os alimentos em criações gastronômicas. Autointituladas como BombeSquad, elas são mulheres que produzem conteúdo sobre o mundo da gastronomia e trazem voz a tantas outras chefs do mundo.

Claudia Wu e Kerry Diamond, responsáveis pelo projeto, se conheceram em 2015, com Kerry abrindo seu primeiro restaurante e Claudia publicando revistas alternativas. A ideia de criar o projeto da Cherry Bombe aconteceu como parte da inauguração do espaço de Kerry, onde ela gostaria de oferecer um livro de culinária. Logo elas chegaram à conclusão de que a ideia poderia ir muito além, enaltecendo o trabalho de outras mulheres dentro das cozinhas do mundo todo, a forma como elas se relacionavam com a comida, e transformar tudo isso em um conteúdo rico de informações, criatividade e assuntos que envolvessem a paixão pela culinária.

Atualmente, a Cherry Bombe conta com quatro grandes produtos: a revista, o podcast, as conferências e os livros de receitas. A revista, que não está disponível no Brasil, é uma publicação semestral que, como não poderia deixar de ser, celebra mulheres e comida. Sempre recheada de perfis, receitas, artigos, fotos e manifestos de profissionais de diversos ramos, a revista já contou com contribuidoras famosas como Martha Stewart, Padma Lakshmi, Lauren Conrad e Chrissy Teigen. Já o podcast, chamado Rádio Online Cherry Bombe, traz conversas ao vivo semanais com profissionais que têm diferentes visões sobre o mundo da culinária. De estilistas que gostam de cozinhar, a chefs de cozinha que fazem arte em seu tempo livre ou escritoras que sonham em ter sua própria sorveteria, as conversas traduzem a importância da presença feminina em muitos lugares e como diferentes pessoas relacionam-se de maneiras distintas com a comida. Os episódios são gravados em Brooklyn, Nova York, e fazem parte da programação da Heritage Radio Network. Segundo as autoras, o podcast funciona como um conteúdo complementar à revista, e, ao contrário desta, também tem um alcance mais abrangente, visto que está disponível em plataformas como o Spotify.

Cherry Bombe

Algumas vezes por ano, as mulheres do Cherry Bombe também produzem um evento com palestras, degustações e discussões sobre comida e seu poder transformador. No ano passado, por exemplo, a edição de abril contou com a presença de Nigella Lawson, uma das chefs de cozinha mais celebradas no mundo, enquanto que, neste ano, uma nova edição já está confirmada. Por fim, o livro de receitas, é um material mais sofisticado, com receitas pensadas exclusivamente por 100 chefs premiadas do mundo todo.

A missão principal do complexo é abrir lugares de presença para mulheres ao redor do mundo através da culinária. Com esse tipo de trabalho, elas pretendem conectar pessoas e histórias sempre mostrando a força feminina dentro da cozinha por livre (e muito estudada) vontade de fazer a diferença. Dessa forma, é possível encorajar outras mulheres, e até mesmo meninas, que têm o mesmo sonho e trazer mais confiança para aquelas que vivem nesse ambiente. As chefs estão em suas posições por merecimento e talento, mas é sempre importante que elas conheçam as histórias de outras mulheres como elas, que saibam que não estão sozinhas, que encontrem exemplos de uma representatividade de sucesso. O lema do BombeSquad é, não por acaso, muito atual e muito importante: Super women, super foods! (“super mulheres, super comidas”, em tradução livre) — um lembrete de que lugar de mulher pode e deve ser na cozinha, se ela assim quiser.

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