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A perda da cidadania das minorias em The Nevers

Capitaneada por Amalie True (Laura Donnelly) e Penance Adair (Ann Skelly), The Nevers revisita a história das mulheres na era Vitoriana, mas não a reescreve. Sob a estética “steampunk”, em seis episódios a produção constrói uma realidade completamente alternativa do século XIX ao mesmo tempo em que tateia diversos questionamentos sensíveis, tanto histórica quanto atualmente.

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Nos anos 1800, um grupo aparentemente aleatório de pessoas — em sua maioria mulheres — misteriosamente desenvolve poderes especiais após um acontecimento inexplicável ocorrido três anos antes: os Tocados. Apesar de ser fato amplamente conhecido, ainda existe um sentimento de temor que reflete o estigma em relação àqueles que, sem distinção de cor, raça, etnia ou credo, receberam características diferentes. A partir dessa premissa, The Nevers centra sua narrativa em reunir o normal e o anormal de modo a refletir a estranheza das relações entre humanos comuns e Tocados, explorando as motivações psicológicas, religiosas e sociais por trás da insistência em conservar uma barreira tácita do grupo claramente discrepante que forma os Tocados e até reprimi-lo.

Como a alquimia e a astronomia já foram censuradas sob o argumento de feitiçaria apenas por não serem facilmente compreensíveis ou não gozarem de explicação divina, o mesmo ocorre com aqueles que receberam poderes: pelos mais radicais de forma escancarada, esbravejando a possível “obra do demônio” que foi o acontecimento sobrenatural, mas também pelo restante de uma sociedade, que aprendeu a ser superficial e estrategicamente tolerante, relegando a discriminação de minorias à implicitude de exigências questionáveis — como a aceitação por subordinação dos Tocados e o sinal em forma de laço azul que estes devem usar ao se misturarem com a sociedade comum.

“O horror e o fascínio andam de mãos dadas”, é dito a certa altura da série, claramente uma produção que se compreende e teve de compreender a História do mundo para que pudesse funcionar de maneira a atingir a sensibilidade necessária ao tipo de narrativa que se propôs. São diversas as referências a episódios históricos de discriminação contra minorias de todos os tipos, especialmente ao Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, após a deliberada marcação de judeus, pessoas LGBTQIA+ e deficientes na Alemanha Nazista; e contra o que ainda persiste com os ciganos estrangeiros e nativos na França atual, considerados párias e renegados pela população em geral, mesmo sendo nativos.

The Nevers

Assim, o interesse da sociedade vitoriana pelos Tocados, limitado pela curiosidade superior e pelo o que pode explorar deles, é justificável na mesma medida em que historicamente nocivo, tendo em vista a posição desfavorável em que eles se encontram socialmente e sua inevitável e desesperada luta por pertencimento à realidade daqueles que regem o mundo conforme suas próprias regras — desigualmente maleáveis a depender da posição social.

Em The Nevers, a guerra por sobrevivência dos Tocados é costurada a partir da realidade de mulheres em posições sociais diversas. Aproveita-se do fato de que a misteriosa viúva Sra. True, a jovem genial e sensível Penance Adair, a rica aristocrata Lavinia Bidlow (Olivia Williams) e a assassina procurada Maladie (Amy Manson), possuem propósitos e personalidades totalmente diversos para que seja explorado um panorama ainda mais completo e complexo da Londres traiçoeira e suja do período da Revolução Industrial, tomando tempo para apresentar personagens, que fogem dos comportamentos monocromáticos de bem e de mal.

Por estarem encaixadas neste mundo imperfeitamente ideal da Londres Vitoriana revolucionada pelo gênero “steampunk” — utilizado na produção não somente na abordagem fantasiosamente ultramoderna da ciência e tecnologia da época, como também no comportamento das protagonistas e suas coadjuvantes, mais caracterizado pela autonomia e empoderamento feminino em meio ao inevitável e inerente machismo vigente — The Nevers alastra as possibilidades de atuação dessas mulheres, tornando o impossível mais e mais possível e crível a cada episódio.

Contudo, como sempre, todas ainda encontram obstáculos e limitações sociais, sejam eles manifestos ou não. Enquanto a Srta. Bidlow, filha e herdeira mais velha de uma família tradicional, tem suas vontades garantidas através do dinheiro e posição social, a maioria esmagadora de jovens mulheres (imigrantes, prostitutas e filhas renegadas) Tocadas amargam a opressão sistêmica traduzida por Harriet Kaur (Kiran Sonia Sawar): “Eu preferiria ser advogada. Então poderia processar os homens… Entretanto, não vejo como. Nem posso me matricular na escola do Aneel. Como teremos justiça se não fazemos parte dela?”.

Assim, embora as mulheres de The Nevers soem revolucionárias e inspiradoras por si mesmas, ainda vivem num Mundo de Homens, característica que a série deixa gritante em todas as cenas onde um governo composto apenas por homens brancos e de idade avançada discutem os rumos dos Tocados e a necessidade de serem controlados, especialmente por serem maioria feminina, para evitar ceder espaço e voz a elas e a minorias ainda mais vulneráveis que compõem o grupo: “O que choca mulheres hoje, elas aceitarão amanhã e exigirão depois disso. E o imigrante e o depravado…”, diz Lorde Massen (Pip Torrens).

The Nevers

O controle dos corpos femininos, por sua vez, está implícito na condenação da liberdade sexual da Sra. True, assim como em toda a trama de Maladie, a assassina em série Tocada, que desencadeia os questionamentos da comunidade londrina — curiosamente atiçada pelo “timing” perfeito da imprensa — quanto à segurança das pessoas comuns em convivência com superdotados, que aparentam ser absolutamente normais (!), mas podem significar um suposto risco.

Sob um enredo direta e descaradamente inspirado no período da Inquisição, a personagem de Amy Manson encarna a “bruxa” que a sociedade clama, mas, ao mesmo tempo, teme: cruel, descontrolada e Tocada. A perversidade de Maladie em sua criminalidade, baseada na figura da mulher-louca, é o suficiente para justificar uma onda de violência e repressão estatal contra os indesejáveis, assim como todos os acontecimentos da série.

São paralelos como este, tão palpáveis em relação a ação do Estado — independente de sua forma —, onde fica claro como seus agentes, poucos e privilegiados, utilizam de seus mecanismos em atendimento a interesses pessoais sob o escopo de manter a ordem pública, que tornam a série próxima da realidade, ainda que efetivamente se passe num mundo fantástico, conferindo peso ao enredo.

Isso porque os Tocados passam por um processo tácito, mas planejado, de perda de cidadania, que vem a justificar a violência do governo e de seus membros. O conceito, segundo a especialista em Direito Penal, Ana Silvia Serrano, está ligado “à relação do indivíduo com os demais componentes da sociedade e também com o Estado”. Uma vez que o vínculo social tácito sofre uma ruptura a partir dos eventos que tornam alguns cidadãos superdotados, esta relação entra em crise e se rompe no lado mais fraco, pois a ordem pública, a qual visa preservar as condições essenciais à convivência da sociedade, deve ser mantida… Mas, em nome dos cidadãos.

Então, o que acontece com aqueles deixados à margem, por motivos diversos, que não podem exercer plenamente a própria cidadania e não são tomados como atores de direito do vínculo social mantido pelo Estado, que por sua vez tem como objetivo manter apenas uma parcela de cidadãos dignos em segurança? Em The Nevers basta uma fagulha chamada Maladie para saber, o que faz com que a vila-orfanato gerida pela Sra. True se torne ainda mais essencial aos superdotados.

The Nevers

Trata-se de um local de acolhimento, onde os Tocados são aceitos em suas diferenças sem serem reprimidos, assim como uma centelha de esperança para os que buscam sobreviver sob a realidade do Estado-Opressor de 1800. É um acerto da produção, que se seja um ponto de referência gerido por e para mulheres, que não estejam motivadas pelo característico e batido mote da maternidade ou de um suposto instinto de cuidados inerente ao sexo feminino.

Tal descrição, inclusive, não poderia ser mais distante do que representa Amalia True na série. Com um passado misterioso, origem e missão desconhecidas, a fechada viúva se mantém distante das outras Tocadas, como uma governanta eternamente desgostosa de um local ao qual não pertence, sendo perfeitamente descrita por Penance Adair, como a “Patrona da Paciência e da Ironia”, muito porque Laura Donnelly acerta perfeitamente no tom da personagem, capaz de agir sob as convenções da época, mas também de fazer o necessário entre becos sujos e bailes pomposos sem levantar a voz e sem torná-la desprovida de sentimentos, em detrimento do distanciamento, o que fica ainda mais claro na relação de irmandade com a personagem de Ann Skelly, com quem se sente à vontade para compartilhar o fardo da liderança.

Por fim, apesar de fazer um ótimo trabalho de construção de mundo com os pés bem fincados no chão sob uma direção de arte praticamente perfeita, que se desdobra em figurinos impecáveis de Michele Clapton (The Crown, Game Of Thrones) e Jane Petrie (O Rei, As Sufragistas), além de cenários palpáveis da Era Vitoriana, a série, que tem Joss Whedon como um dos principais nomes na produção executiva, centra-se apenas no seguro por cinco episódios antes de conduzir a um último ato, que muda toda a realidade apresentada até então e apenas tateia os questionamentos desenvolvidos numa tentativa de captar o público para a segunda parte, que não deveria ter ficado para 2022.

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