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Judas e o Messias Negro: o que o grande público não se lembra sobre os Panteras Negras

Fred Hampton, o carismático e determinado líder do partido dos Panteras Negras em Illinois, foi assassinado aos vinte e um anos pelo governo dos Estados Unidos. Sua história é pouco conhecida, embora ele tenha um grande legado de consciência e luta para nos deixar. No filme Judas e o Messias Negro, de 2021, o próprio Fred, interpretado por Daniel Kaluuya nos dá uma pista das razões que levaram à perseguição do partido e a seu assassinato, bem como os motivos para que sua história de vida e a trajetória real dos Panteras Negras tenham sido diminuídas, já que é impossível apagar por completo os feitos de ambos. “Política é guerra sem derramamento de sangue, enquanto guerra é política com derramamento de sangue”, afirma o ativista, ciente de que política e guerra são duas faces da mesma moeda, embora nem sempre as duas derramem sangue da mesma maneira.

Atenção: este texto contém spoilers

O termo “política” vem do grego e tem origem no nome que se dava aos cidadãos das polis — formas organizacionais da sociedade grega que lembram as nossas cidades atuais, mas que também tinham a independência de um estado. Além de fazer referência a essas pessoas, politikos era um termo que se relacionava às sociedades organizadas como um todo. Por sermos seres sociais que evoluíram biológica e psicologicamente para sobreviver com base na convivência e organização em grupos, nos tornamos imediatamente dependentes das nossas comunidades. Tal como afirmava Aristóteles, somos animais politikos e usamos a nossa complexa capacidade de comunicação para fazer política. A palavra atualmente não se refere só a eleições e partidos; uma associação mais óbvia que tende a esconder como a política se entranha no nosso cotidiano, travando guerras silenciosas e nem sempre sem derramamento de sangue, como definiu Fred Hampton. Ela tem a ver com a nossa vida pública e nossa organização coletiva. Embora exista a classe política — aquela eleita por nós com o intuito de se encarregar dessa organização quando ela envolve questões ainda maiores e mais complexas do que os nossos dilemas de convivência cotidianos — todos nós estamos mergulhados em política. Mesmo que não estejamos em cidades estados como as polis é ela quem define muito do nosso dia a dia, seja de forma institucional ou na forma como nos comunicamos com nossos concidadãos para definir nossa vida em comunidade.

Se nossos pensamentos são reflexo daquilo que nos cerca, eles são também reflexos da nossa organização política. Não à toa, o chavão de que tudo é político precisa ser reforçado muitas vezes. Os produtos culturais que chegam a nós também são definidos pela política vigente em nossa sociedade e, em contrapartida, eles ajudam a moldar nosso imaginário político também.

Judas e o messias negro

Muito do que consumimos é produzido, patrocinado, financiado e apoiado de acordo com os interesses das classes dominantes. Não à toa, por anos, a indústria cultural mainstream tem priorizado filmes, séries, livros e toda forma de arte que de alguma forma perpetuem ou estejam de acordo com os ideais da classe no poder, já que, em um mundo onde arte é mercadoria e não apenas uma forma de expressão, é este grupo dominante que tem o poder aquisitivo. Por essa razão, por muitos anos, temos acesso fácil a histórias e mais histórias de homens brancos cis-hétero cristãos e de classe média ou alta. Quando as populações fora desses padrões são retratadas, o mais comum é que seja sob a perspectiva dominante. Muitas vezes estereótipos e visões preconceituosas, distorcidas e ignorantes reforçaram, através da cultura e da arte, a opressão da realidade. Apenas nos anos mais recentes tem-se visto uma maior variedade de protagonistas e produções nas quais os antes excluídos do poder de contar suas próprias histórias vêm tomando as rédeas das narrativas. Claramente, essa abertura tem mais relação com a inclusão de populações minorizadas no mercado de consumo do que com uma luta verdadeiramente comprometida com reais mudanças sociais, econômicas e — obviamente — políticas. Ainda assim, enquanto não rompemos por completo com uma hierarquia social que nos dê um poder distribuído igualmente, essas brechas são importantes para que os que antes não se refletiam no espelho da arte possam se ver e ser vistos. Este já é um passo que permite a gradual construção de uma nova consciência, uma vez que, a partir do momento em que essas histórias são contadas, escapamos do perigo de uma única história. E, quando temos nossa mentalidade transformada, existe também uma mudança material concreta.

Por isso, além da produção de cultura divergente do padrão, é muito importante que os produtos desviantes sejam também vistos. Quando se trata de cinema, uma das principais formas de se obter reconhecimento é a indicação às premiações. Filmes premiados ou concorrentes dessas competições acabam recebendo atenção do público e podem levantar interesse pelos assuntos que abordam. Embora seja uma parte da indústria estadunidense e passe por um julgamento predominante da classe dominante, o Oscar é, muitas vezes, uma ambição de todos que tentam se inserir nessa indústria, justamente por trazer visibilidade às histórias que são contadas usando os recursos da sétima arte.

Os inscritos e indicados que narram histórias divergentes dos grupos dominantes já estão presentes no Oscar e outras grandes premiações há tempos. No entanto, agora, uma mudança de mentalidade cada vez mais forte e massiva dos que criam a arte e do público tem tornado inaceitável que narrativas divergentes fiquem de fora ou sejam relegadas a participações simbólicas nessas competições. Não apenas por questões mercadológicas, mas também porque a partir da inclusão, fica cada vez mais evidente que histórias únicas são de fato perigosas. Se tudo é política e política é guerra, quantas vidas se perdem quando só um tipo de história é contada, a partir de perspectivas opressoras? Quantas narrativas artísticas perpetuam dominações que incentivam a exclusão das oportunidades? Mudar o foco narrativo, por si só, já é uma transformação na maneira como enxergamos os outros. Mas além disso, ouvir essas vozes na arte é uma política com consequências concretas.

Contar histórias sob outras perspectivas nos ajuda a reimaginar o mundo e a mudá-lo. Nas palavras de Úrsula K. Leguin ao receber a Medal for Distinguished Contribution to American Letters:

“Acho que tempos difíceis estão chegando, quando desejaremos as vozes de escritores que possam enxergar alternativas para o modo como vivemos agora (…) Vamos precisar de escritores que possam lembrar a liberdade — poetas, visionários, realistas de uma realidade maior. (…) Livros não são apenas produtos. A motivação do lucro muitas vezes entra em conflito com os objetivos da arte. Nós vivemos no capitalismo, de cujo poder parece ser impossível escapar. Assim também era o direito divino dos reis. Qualquer poder humano pode ser resistido e modificado por seres humanos. Resistência e mudança normalmente começam na arte. E com muita frequência, na nossa arte. A arte das palavras.”

Mas nem só de imaginação é feito o poder transformador da arte. Muitas vezes, não conseguimos visualizar outros mundos porque histórias de resistência e outras alternativas ao modo de vida vigente são apagadas. Outras formas de se pensar a sobrevivência e a convivência já foram sonhadas, planejadas e em alguns casos até mesmo realizadas pelos que vieram antes de nós. Para aqueles que dominam o cenário, é perigoso deixar essas narrativas circulando. Afinal, a esperança é revolucionária. Alguns dos roteiros dos filmes indicados ao Oscar e outras premiações cinematográficas importantes do ano de 2021 nos ajudaram a relembrar esse histórico ocultado. E, deste modo, reforçam a importância política da arte para que os cidadãos das polis modernas criem outros imaginários organizativos a partir de histórias e estórias reais.

Judas e o messias negro

Judas e o Messias Negro é uma dessas memórias trazidas pelo cinema, não só porque parte da organização do Partido dos Panteras Negras é recontada de perto e por dentro, mas também porque o filme tira das mãos dos poderosos a condução dessa narrativa que muito comumente é cooptada pelas ideologias no poder. O nome do partido, associado ao empoderamento negro, acaba sendo reduzido a um símbolo de resistência dentro de uma sociedade com valores competitivos que ainda perpetua desigualdades. Na realidade, muito mais do que mera resiliência, a verdadeira visão política dos Panteras Negras trazia propostas de fato transformadoras e revolucionárias e enfim pode ser relembrada como verdadeiramente foi pelo grande público a partir deste filme.

O longa dirigido por Shaka King acompanha a história de uma figura controversa como o próprio Judas bíblico: alguns defendem que ele traiu Jesus, outros acreditam que seu destino era inevitável. A trama começa quando Bill O’Neal, vivido pelo carismático Lakeith Stanfield, é pego pela polícia em uma tentativa de roubo na qual se passa por agente do governo. Levado às mãos do verdadeiro FBI, Bill, que já tem uma ficha criminal anterior, é chantageado a cooperar com as investigações conduzidas em torno do Partido dos Panteras Negras. Em troca, ganha a chance de se livrar dos entraves jurídicos pelo roubo do carro, o que para ele significa escapar de julgamentos injustos, um longo tempo na prisão e o abandono sob o qual vive a população carcerária estadunidense, majoritariamente negra, desde então e até os dias de hoje. Como homem negro, ele tem consciência do poder desigual e abusivo do aparelho do estado sobre ele e seus iguais. Tanto que, ao ser interrogado, uma das justificativas para ter falsificado um distintivo do FBI e se passar por agente federal é que, no lugar onde estava “um distintivo é mais assustador que o cano de um revólver”. Segundo ele, qualquer um poderia conseguir uma arma, mas o distintivo intimida mais porque significa que o exército inteiro está na sua cobertura. A moralidade de Bill é questionável, mas ao decidir colaborar, ele entende exatamente a posição em que está sendo colocado.

Bill é então encaminhado, sem que pudesse de fato optar, para o capítulo de Illinois do Partido dos Panteras Negras, onde o promissor Fred Hampton vem liderando a organização do partido na região. Assim como outras personalidades e grupos têm sua essência sintetizada apenas em uma iconografia estética, como o movimento punk, o movimento hippie, Frida Kahlo e, muitas vezes, o próprio movimento Black Power, o partido dos Panteras Negras costuma ser reduzido à poderosa imagem de pessoas com os punhos fechados e erguidos, como no momento icônico em que os corredores Tommie Smith e John Carlos ergueram seus punhos no pódio dos jogos Olímpicos de 1986. A imagem ficou como símbolo de resistência, do movimento Black Power e da Luta pelos Direitos Civis, o que já é muito dentro de uma sociedade que deseja dominar e calar esses grupos minorizados. No entanto, mais do que resistir, sobreviver e ter uma identidade visual marcada por boinas, óculos escuros e roupas sóbrias e fechadas, os Panteras Negras tinham um projeto para um novo modo de viver. Junto a Bill, que ouve algumas falácias sobre a organização antes de se infiltrar, o filme vai resgatando esse ambicioso projeto, comumente minimizado pelo status quo para que a força dos Panteras Negras não se mostre tão grandiosa como de fato era.

Somos apresentados à organização e aos objetivos do partido e entendemos o quanto ele era muito mais do que um desafio ao poder vigente. Seus integrantes representavam e incorporavam materialmente um imaginário de novas polis e políticas: uma sociedade com igualdade para o futuro, mas já se articulando no presente para mudar a realidade.

Judas e o messias negro

Além de estudos teóricos organizados pelos integrantes do partido, treinamento de táticas e criação de alianças com outros grupos locais, o partido também atuava apoiando a comunidade, oferecendo café da manhã diariamente para centenas de crianças cuja primeira refeição teria sido recebida apenas na escola, não fosse o programa da organização. Muitas vezes lembrados apenas como uma organização de luta pelos direitos civis, os Panteras Negras não só lutaram por igualdade, mas conseguiram de fato construir um pouco do mundo que sonhavam enchendo estômagos vazios e alimentando mentes sem perspectivas de mudanças. Eles materializaram o que pregavam e ver que isso é possível é perigoso para quem está no poder. Exatamente por ser capaz de concretizar e inflamar as mentes dos que o ouviam com o desejo de firmar ainda mais aquela materialidade que já era construída pelo partido, Fred Hampton se tornou um alvo. A genialidade na oratória do jovem líder, um prodígio na arte de convencer e empoderar quem ouvia seus discursos, a preparação para os desafios futuros e as mudanças que o partido já promoviam se mostravam tão ameaçadoras para o governo dos EUA.

Bill parece perceber que talvez estivesse mais do lado de Fred e dos Panteras Negras do que do FBI. E esta é mais uma questão política abordada com sensibilidade pelo diretor. Na série de podcasts sobre o filme, Shaka King, que também assina o roteiro junto a Will Berson e ao lado de Kenneth Lucas, afirma que ao invés de focar apenas na traição do Judas, o filme se divide entre mostrar também a história do Messias que prometia um reino dos céus justo a quem o seguisse. Nas palavras do diretor, o filme é como um Cavalo de Tróia: o telespectador deixa passar pelos portões de sua mente uma história de competição ou traição entre dois iguais, mas acaba recebendo muito mais. Acompanhamos a história de Fred Hampton, honrando seu legado indissociável da trajetória do próprio partido, ao menos em Illinois. Daniel Kaluuya, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel, dá o peso e a leveza exatos que o papel exige em cada momento, tornando aquela personalidade tão fascinante quando o Fred real foi e contrastando com o carisma covarde que Lakeith entrega no papel do infiltrado. Esse contraste é complementar e compõe perfeitamente o clima de tensão crescente do filme.

Por um lado, vemos a genialidade, o carisma e o embasamento sólido do líder do partido e por outro, vemos que Bill, coagido a ser informante para o FBI e a entregar o outro homem que aparenta começar a compreender, não tem saída a não ser cometer aquela traição. A decisão dele de entregar o outro é muito maior do que uma escolha individual e sim fruto de uma sociedade que põe um homem negro a mercê do governo para que obtenha o mínimo: um julgamento justo por seus erros. É o próprio FBI que o transforma em Judas daquele Messias tão revolucionário quanto o próprio Jesus foi em seu tempo. E o filme tem o cuidado de não colocar um homem contra o outro. Eles apenas são forçados a estar naquela situação, algo que não aconteceria no mundo sonhado e buscado por Fred.

Acompanhar as trajetórias dos dois protagonistas em lados aparentemente opostos nos faz perceber que o poder de uma minoria organizada, embasada e unida é aterrorizante demais para as autoridades no poder. Por isso, a revolução proposta por Fred, assim como a proposta por Jesus acaba sendo cruelmente impedida antes que aconteça. Bill não consegue evitar seu destino de traidor, e entrega não só várias estratégias do partido, como enfim a localização de Fred. O ato acaba culminando no assassinato de Fred, que deixa Akua Njeri, então conhecida como Deborah Johnson, grávida. Sua companheira perdeu um parceiro para a vida e o pai de seu filho e o partido um grande líder. Depois do fato, O’Neal, embora tenha vivido uma vida financeiramente tranquila, dá indícios de que sua mente não está tão tranquila assim. Baseado em fatos reais, mas preenchendo lacunas vazias, o roteiro nos mostra uma entrevista concedida por Bill anos depois do assassinato de Fred e da dissolução do partido, mas fica evidente na atuação oferecida por LaKeith Stanfield que o infiltrado no partido não estava em paz com o que teve que fazer. Algum tempo depois dessa sua rara aparição na TV, Bill teve o mesmo fim que o Judas bíblico: suicidou-se.

Judas e o messias negro

Mais do que contar essa história de como o sistema põe pessoas que deveriam se unir umas contra as outras, Judas e o Messias Negro expõe os objetivos, meios de organização e o passado de uma organização ainda hoje lembrada, tamanha sua importância, mas muitas vezes reduzida a algo menos poderoso do que verdadeiramente foi. Os Panteras Negras foram brutalmente combatidos e perseguidos pelo aparelho do estado justamente porque representavam uma revolução consciente, unida a outras causas e organizada prestes a acontecer.

Mais do que um documento histórico, o filme devolve ao nosso imaginário político a única saída existente do sistema cruel que vivemos: a organização coletiva e revolucionária. A reencenação dos discursos de Fred Hampton, muito mais do que uma expressão da arte de repetir a realidade, comove, arrepia e nos desperta o desejo de mobilização por uma revolução. E, para uma outra célebre filiada do partido, Angela Davis, é justamente este o papel da arte:

“Historicamente (…) tem-se a idéia de que os artistas existem para promover o entretenimento das pessoas. Dessa maneira, perde-se de vista o profundo papel dos artistas, que é colocar uma nova consciência, uma vez que eles têm recursos visuais e performáticos, usam o corpo como forma de expressão artística, enfim, possuem modos de dizer as coisas que o discurso político não dá conta.”

Judas e o Messias Negro é política, cria política e transforma a política, relembrando o passado e tornando outra vez possível, em ampla escala, imaginar possibilidades de revolução. E, como o próprio diretor admite, contar uma história intrigante de traição acaba sendo um Cavalo de Tróia para relembrar o legado de Fred Hampton e do partido dos Panteras Negras. Desejamos assistir entretenimento, mas levamos do filme inspiração revolucionária.

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