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A transcestralidade em Brenda Lee e o Palácio das Princesas

A trajetória do audiovisual brasileiro está repleta de cinebiografias. De políticos influentes, a figuras televisivas, passando por serial killers e humanitários, grandes bilheterias de nosso cinema são filmes do gênero e a própria retomada do cinema nacional nos anos 1990 se deu com uma cinebiografia: Carlota Joaquina de Carla Camurati (1995). O musical Brenda Lee e o Palácio das Princesas não foi concebido como cinebiografia, mas sim como um musical de palco. Porém, com a pandemia de 2020 e 2021, o coletivo do Núcleo Experimental decidiu trazer o palco à casa de todos os interessados, transformando a peça musical em, tecnicamente, uma cinebiografia musical disponível no canal da companhia no YouTube de 14 de outubro até 24 de novembro de 2021 em sessões gratuitas às 21h.

Completando 15 anos em 2020, o Núcleo Experimental já é um coletivo de teatro consolidado na cidade de São Paulo, mas que aposta em histórias não “tradicionais” protagonizadas por minorias, principalmente as LGBTQIA+. Lembro Todo Dia de Você, uma das montagens originais de maior sucesso apresentada no teatro do coletivo, fala sobre a vivência gay cis em relação ao HIV. Brenda Lee e o Palácio das Princesas vem para apresentar ao público nacional de musicais outras existências LGBTQIA+, focando especificamente nas histórias transtravestigênere.

A mistura de teatro e teledramaturgia coexistem em harmonia perfeita na tela do YouTube ao nos apresentar o mundo de Brenda e Suas Princesas. A primeira música, “Nasceu Caetana” faz uma introdução do que está por vir: o espaço em que o espectador está inserido não é um palco tradicional de teatro, mas também não é um estúdio ou externas tentando simular a vida “real”. É mistura dos dois, que nos faz adentrar num mundo que sabemos ser ficcional, mas que conta histórias reais. A câmera, que por vezes acompanha personagens, não deixa o espectador esquecer da boca de quem está saindo essa história: mulheres trans e travestis.

Com elenco quase totalmente formado por pessoas transfemininas, o musical mostra a vida de Brenda Lee (interpretada por Verónica Valenttino), mulher travesti famosa na noite paulistana no final dos anos 1980 e começo dos 1990 que, ao se deparar com a crise da AIDS ao seu redor, decide transformar a própria casa, uma pensão, em abrigo de pessoas diagnosticadas com HIV, pessoas muitas vezes renegadas pelas famílias e humilhadas em hospitais. Com a parceria feita por Brenda com a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, ela consegue transformar a casa em um local oficial de tratamento do vírus (no musical isso se dá por intermédio do personagem Pedro (Fábio Redkowicz), que junta duas figuras reais: Paulo Roberto Teixeira, que comandava o programa de combate à AIDS da Secretaria de Saúde de São Paulo, e Jamal Suleiman, médico do Hospital Emílio Ribas que tratava dos pacientes na Casa de Apoio). Antes chamado Palácio das Princesas, o local se torna Casa de Apoio Brenda Lee.

O espectador acompanha não apenas a vida de Brenda desde o início do acolhimento de outras meninas em sua casa, ainda Palácio das Princesas, até seu assassinato; mas também de outras cinco personagens fictícias que compõem exemplos de histórias de vida transtravesti. Cinthia Minelli (Marina Mathey), estilista famosa de família rica, aceita na alta sociedade e uma espécie de “inimiga” de Brenda, só pode recorrer a ela ao receber seu diagnóstico. O definhamento causado pelas doenças oportunistas do vírus é visível na personagem, que mesmo à beira da morte nunca perde a pose. Criada pela madrinha em situação análoga à escravidão, Raíssa (Olivia Lopes), ganha a “liberdade” mas acaba por conhecer um mundo que tenta a fazer ser alguém que não é a todo o momento. Blanche de Niège (June Weimar), mostra a solidão da mulher trans e os relacionamentos abusivos a que estão sujeitas ao ser feita de mula pelo namorado, que também alimenta seu vício em drogas. Isabelle Labete (Ambrosia) representa a conquista do ensino superior, e Ariella del Mare (Tyller Antunes) as moças que emigra(ra)m para a Europa em busca de uma vida sem violência.

A vivência dessas mulheres não é apenas transtravesti, mas uma vivência transtravesti no Brasil dos anos 1980, que tinha a Operação Tarântula como herança da Ditadura Militar. Se, ainda hoje, esse é o país que mais mata pessoas trans no mundo, nos anos 1980 em São Paulo era um lugar que fazia apologia à caça à existência LGBTQIA+. Uma higienização da sociedade às custas de vidas humanas. A luta de Brenda para amparar pessoas HIV positivo — visto à época como um vírus restrito a pessoas que se “desviavam da norma” — de forma tão aberta e franca fez dela persona non grata na sociedade paulistana. Se antes era convidada para bailes e programas de TV, depois da Casa de Apoio vivia apenas para cuidar das pessoas que se abrigavam ali. Mas, como a própria Brenda disse, não se importava em não ir mais a festas. Era como se tivesse encontrado seu propósito de vida.

Brenda Lee, que apesar de conhecida como “anjo da guarda das travestis”, foi personalidade por muito tempo esquecida até mesmo no meio LGBTQIA+, tem finalmente sua voz ampliada através do musical de Fernanda Maia, pelas músicas de Rafa Miranda e pela direção de Zé Henrique de Paula. Mas quem conta essa história é Verónica Valenttino, Marina Mathey, Ambrosia, Tyller Antunes, June Weimar e Olivia Lopes. Não só a de Brenda, mas também de outras mulheres trans e travestis que claramente inspiraram as personagens fictícias.

O documentário Dores de Amor (Douleur D’amour), produção sueco-brasileira de 1987 de Pierre Alain-Meier e Matthias Kälin, apresenta Brenda Lee (Caetana) e várias moças que moravam em sua casa contando sobre suas vidas, seus medos, anseios, desejos; assim como também mostra entrevistas com outras mulheres trans e travestis famosas da época: Thelma Lipp, Condessa Mônica (também conhecida como Condessa de Nostro Mondo, pois foi uma das sócias da Boate Nostro Mondo, primeiro clube LGBTQIA+ — na época ainda referidos pelas siglas LGBT ou GLS — do Brasil), Andréia de Mayo, Cláudia Wonder entre outras menos conhecidas (como Kassandra, creditada ao final, e Tina). É uma obra que acrescenta à documentação da transcestralidade, mostrando o caminho que transtravestis brasileiras vêm percorrendo em nossa sociedade. Essas histórias muitas vezes se perdem na expectativa de vida baixíssima dessa parte da população (apenas 35 anos) e o documentário é essencial para fazer com que a memória do passado continue viva.

É nessa linha da memória da transcestralidade que Brenda Lee e o Palácio das Princesas vem acrescentar, de modo um tanto ficcional, a multipluralidade de histórias transtravestis. Fernanda Maia tira muitas falas do musical diretamente de entrevistas de Caetana dadas a canais de televisão e jornais, documentadas em vídeos, o que aproxima ficção e realidade e acrescenta liricismo e glamour às letras das músicas. Os números musicais da obra parecem ter grande influência das apresentações feitas pelas mulheres trans, travestis e transformistas (drag queens) em boates paulistanas que foram sucesso entre as décadas de 1970 e 1990 como a Nostro Mondo, Medieval, Corintho, Val-Improviso, Prohibidus, Homo Sapiens e outras.

As conversas entre Brenda e as moças que moram em sua casa são espelhos de anseios e realidades de mulheres que apareciam na mídia naquela época, principalmente em programas de auditório — Thelma Lipp no Bolinha, Roberta Close no Planeta Xuxa e diversos nomes na Hebe (como Rogéria) —, as poucas documentações em vídeo que temos hoje dessas pioneiras. Foram elas que abriram espaço para que hoje pessoas transtravestigêneres sejam vistas com mais naturalidade. A sociedade se encaminha, a passos lentos, para uma maior abertura em espaços antes negados, de salas de universidades (tanto como alunas como professoras) à política.

É imprescindível o resgate da memória LGBTQIA+ por meio de obras tanto fictícias, de época, quanto não ficcionais. Dos livros de João Nery e Amara Moira, passando pelo audiolivro de Chico Felitti Rainhas da Noite, aos documentários em vídeo como Dzi Croquetes, São Paulo Hifi, Divinas Divas, Laerte-se, Indianara, etc — talvez uma das formas mais fiéis de resgatar o passado. Canais do YouTube também vem fazendo séries documentais curtas de entrevistas com pioneiros LGBTQIA+. É necessário dar atenção aos projetos atuais, como os das próprias atrizes do musical: a protagonista, Verónica Valenttino é vocalista na banda Verónica Decide Morrer, Marina Mathey assina uma coluna no UOL, e a carreira musical de Tyller Antunes.

As casas de apoio LGBTQIA+ precisam, mais que nunca, de defesa. São locais sistematicamente destruídos por falta de verba. A própria Casa de Apoio Brenda Lee se dissolveu depois da morte de sua idealizadora, com um pequena sobrevida, e atualmente não existe mais. Em São Paulo, os projetos Casa 1, Casa Chama e Casa Florescer seguem o legado de Brenda acolhendo LGBTQIA+, assim como a Casa Nem no Rio de Janeiro, Casa Aurora em Salvador, Casa Miga em Manaus. A Casa de Brenda foi, além de pioneira, uma das mais longevas na história transtravestigênere brasileira, e Brenda Lee e o Palácio das Princesas não apenas honra sua memória como também amplia o conhecimento de Casas de Apoio que estão atualmente em atividade. O musical vem para ampliar vozes e passados travestis no país que mais odeia trans do mundo.

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