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A jornada das heroínas e a busca por liberdade

“O quanto disso é realmente meu? 
Minhas palavras estão envoltas na linguagem dos outros
Minhas imagens são derivadas da arte dos outros
O que é realmente meu?” — Trecho do livro A Jornada da Heroína, de Maureen Murdock

Você com certeza já ouviu algo parecido: quando procura poder, um homem vai atrás de grandes posições dentro ou fora da sua jornada de trabalho, de se tornar um líder ou até mesmo crescer financeiramente. Para a mulher, no entanto, poder é sinônimo de liberdade.

Independente das discussões entre Marvel e Martin Scorsese (do qual mantenho a opinião de que precisam acabar), os filmes de super-heróis — ou pelo menos aqueles que se utilizam e retratam o que ficou conhecido como “a jornada do herói” — são a maior metáfora que temos hoje para falar de assuntos pertinentes, atuais e humanos. Isso não quer dizer que eles não falhem: pelo contrário, existem muitos defeitos nessas produções, muitos dos quais não prejudicam a experiência completa, mas levantam bandeiras vermelhas em relação a forma como absorvemos e interpretamos o mundo ao nosso redor. Até pelo menos cinco anos atrás, muitos desses filmes também eram predominantemente masculinos, não apenas porque narravam histórias pensadas para um público masculino, mas porque eram estrelados, dirigidos e escritos por homens — 99% das vezes brancos, devo acrescentar.

Isso não quer dizer que algumas histórias não sejam universais, mesmo que suas determinações sejam feitas por um ponto de vista que é, de certa forma, estreito. Apesar de hoje ver algumas pessoas que têm uma reação neutra em relação a Clark Kent e ao que ele representa, a trajetória do Super-Homem é principalmente sobre aceitação e pertencimento. Já a do Capitão América é sobre um homem deslocado do seu tempo, mas que sempre escolhe fazer a coisa certa, é sobre propósito. Abraçamos as jornadas masculinas como se fossem nossas, já que algumas narrativas são realmente universais. Ainda assim, fica a sensação vazia de que falta alguma coisa na equação.

Como os filmes de super-heróis eram (e são) feitos por meio de uma visão que é limitada a um tipo de experiência, esses mesmos longas acabam representando e perpetuando esse fator. Existe a possibilidade de identificação com esses personagens por parte de mulheres, mas é importante ressaltar que as narrativas femininas (em particular, aquelas baseadas na “jornada da heroína”) vão ser diferentes das jornadas masculinas e, consequentemente, vão abordar temas distintos, ainda que seja possível traçar um paralelo entre os métodos por qual ambos são feitos. Existem assuntos que são universais e experiências que falam com todos (como amadurecer), mas as discussões sobre “female gaze” e “male gaze” são fortes hoje por um motivo: a chegada de uma geração em que o espaço mainstream abre cada vez mais as portas para tramas diferentes e diversas.

Para se aprofundar no assunto, é importante entender exatamente o que é a jornada da heroína, estudada por Maureen Murdock. Em 1990, Murdock escreveu The Heroine’s Journey, livro que funciona praticamente como uma espécie de contraponto para A Jornada do Herói, de Joseph Campbell, publicado em 1990. No livro, a autora mistura uma narrativa de estudo com experiências pessoais, explorando a trajetória de heroínas, como elas se assemelham e suas dificuldades.

“(…) é uma jornada interna importante para se tornar um ser integrado, equilibrado e inteiro. Como a maioria das jornadas, o caminho da heroína não é fácil; não existem indicações demarcadas ou tours reconhecíveis. Não existe mapa, uma carta de navegação ou uma idade certa para começá-la. Essa jornada não segue linhas retas. É uma jornada que raramente recebe validação do mundo real; para falar a verdade, o mundo real às vezes sabota e interfere com a mesma”

As mudanças que vêm acontecendo no mundo, que começam dentro do escopo de movimentos sociais e crescem para abranger outras partes da sociedade, estão alcançando Hollywood aos poucos. Existe muito a se dizer sobre a forma como a indústria do cinema incorpora essas pautas, mas evitar que esses assuntos estejam dentro de novas histórias, de forma superficial ou não, é algo impossível. E essa inclusão é também um fator positivo. Um longa é montado pela visão de diversas pessoas: diretores, roteiristas, atores, figurinistas, editores. Todas essas pessoas dão sua contribuição e visão para formar o produto final. Quanto mais diversidade existir dentro desta estrutura, mais fácil será criar histórias que saiam do lugar do comum e representem pessoas e culturas diferentes da forma certa.

Com a necessidade de expandir o viés presente nos seus filmes e sair um pouco do mundo ditado pelos Tony Starks e Bruce Waynes da vida, tanto a Marvel quanto a DC dão os primeiros passos para um universo expandido mais inclusivo. Em 2017, Diana Prince, a Mulher-Maravilha, ganhou um longa solo pela primeira vez, com Gal Gadot; pouco tempo depois, a Capitã Marvel de Brie Larson chegou aos cinemas; seguido por Aves de Rapina (2020), onde Arlequina (Margot Robbie) pode, pela primeira vez nos cinemas, alcançar todo seu potencial como personagem; e, finalmente, Viúva Negra (Scarlett Johansson) ganhou um longa que faz justiça para uma personagem que, durante muito tempo, foi negligenciada dentro do próprio estúdio. Apesar de serem filmes muito diferentes entre si, com tons que variam, existem dois fatores que ligam todas essas produções: a busca da heroína por sua identidade e seu papel no mundo, assim como a procura pela liberdade de fazê-lo.

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Atenção: este texto contém spoilers

Em A Jornada da Heroína, Murdock descreve a jornada como um “road of trials” (uma estrada de desafios, em tradução literal). Como a autora Jey aponta no texto “Jornada da Heroína: A Ascensão Feminina da Vida Real à Cultura Pop”, publicado pelo Valkirias, existe uma seleta de fases nesta trajetória, que começa com a separação do feminino, tem o momento de provações (desafios e conflitos) e vai até o ponto em que ela se reconcilia com o feminino. Nesse processo, sentimentos como perda, isolação, alienação são relativamente comuns, assim como a sensação crua de ter sido virada do avesso.

Ainda no texto, Jey cita:

“A teoria desenvolvida por Murdock começa descrevendo uma mulher que tenta se libertar dos arquétipos femininos impostos a ela com a intenção de buscar aprovação e reconhecimento em uma sociedade dominada por homens, obrigando-a a agir como tal. A heroína passa por conflitos e pela perda de sua própria identidade.”

Durante muitos anos, Natasha Romanoff foi deixada de lado dentro do universo da Marvel para que os filmes pudessem desenvolver seus colegas homens. Com sua primeira aparição em Homem de Ferro 2, a Viúva Negra foi hipersexualizada e mal desenvolvida, mas mesmo assim se tornou parte dos Vingadores. Quando finalmente ganhou uma parte da trama, foi apenas para desenvolver um romance aleatório com Bruce Banner (Mark Ruffalo). Com o passar dos anos, no entanto, ela cresceu. O público passou a amá-la, apesar de reconhecer as falhas da sua jornada, e foi apenas em Vingadores: Ultimato que as coisas começaram a mudar para a personagem, que se torna uma força da natureza e segura as pontas quando seus colegas desaparecem e ninguém mais consegue fazê-lo. Não que isso seja uma obrigação dela, mas mostra exatamente que tipo de protagonista Natasha se tornou (mesmo com pouco esforço por parte dos próprios roteiristas, que até mesmo aqui demonstram um pouco de crueldade em relação à mesma): uma que é empática, resiliente e vulnerável. Apesar dessa “evolução”, ainda existiam muitas lacunas na sua história, que tentam ser preenchidas pelo filme solo da heroína, lançado com muitos anos de atraso.

Dirigido por Cate Shortland e escrito por Jac Schaeffer (que também criou WandaVision), o longa acontece entre Capitão América: Guerra Civil e a última vez que a personagem aparece em Vingadores: Ultimato. Em fuga por causa dos eventos que transcorreram entre Steve Rogers (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.), Natasha é contatada por sua irmã, Yelena (Florence Pugh), que precisa da sua ajuda para acabar de vez com a Sala Vermelha e o comando de Dreykov (Ray Winstone).

A Sala Vermelha em questão é o lugar que representa crueldade e subjugação, onde a própria heroína e sua irmã foram treinadas para se tornarem espiãs. No decorrer do primeiro ato do longa, ela descobre que Dreykov usa tecnologia para manter as espiãs que treina sob sua influência o tempo todo, fazendo com que elas não consigam machucá-lo ou abandonar seus respectivos postos. Empenhadas em acabar com o esquema do vilão, Natasha e Yelena têm a oportunidade de conversar e entender o trauma que passaram juntas pela primeira vez desde que foram separadas pelo governo do que, até então, era a União Soviética.

Viúva Negra é um filme que tem no seu cerne a questão da liberdade. Não apenas porque elas lutam para liberar as espiãs de Dreykov de anos de abuso e sofrimento, mas também porque a própria Natasha tem que enfrentar seu passado. Sim, ela conseguiu fugir e encontrou uma espécie de família ao lado dos Vingadores, mas não enfrentou realmente as consequências dos abusos que sofreu quando era criança, além da separação da sua família e a solidão que permeia sua vida. Pela primeira vez durante toda a sua trajetória dentro do MCU, Natasha tem que enfrentar seus sentimentos e descobrir qual o seu papel no mundo, buscando pela liberdade de finalmente poder seguir em frente e não deixar que o trauma defina sua vida e escolhas. Ao mesmo tempo que ela liberta as milhares de espiãs de Dreykov, ela também se despede das amarras da sua vida passada. O trauma talvez esteja sempre lá, mas ele já não a limita e prende. Liberdade, afinal.

O que faz com que seu destino no último filme dos Vingadores seja ainda mais cruel e problemático, mas isso é assunto para outro texto.

Apesar de ser um filme com cenas de ação bem trabalhadas e divertidas, a melhor parte de Viúva Negra é, obviamente, quando Natasha tem a oportunidade de falar e refletir sobre as consequências do que aconteceu quando era criança, ao lado de Yelena. O que, surpreendentemente, acontece com uma frequência estável durante os dois primeiros atos. Talvez isso não seja o suficiente para apagar todas as problemáticas da sua trajetória, mas ajuda na hora de entender um pouco a personagem, que sempre sofreu com a instabilidade dos próprios roteiros.

Também é possível  analisar Viúva Negra por outro aspecto que Murdock aponta no seu livro: a separação da mãe. Segundo a autora, muitas filhas experimentam um conflito entre “querer se separar da mãe e ainda assim querer seu amor e aprovação”. No segundo ato do longa, tanto Natasha quanto Yelena vão visitar Melina (Rachel Weisz), a mulher que criou a ambas como filhas. Uma espiã que, primeiramente, parece ser totalmente fiel a Dreykov e seus esquemas, Natasha foi na direção oposta por querer se distanciar da rotina que sua mãe de criação tinha, mas ao mesmo tempo sente pela vida que tinham antes, tentando desesperadamente fazer com que Melina vá ajudá-las, garantindo assim a aprovação pela mulher que ela se tornou.

No final, Melina realmente passa a ajudá-las, colocando pontos finais e finalizando os passos na jornada de Natasha: sua reconexão com a mãe e a irmã e, portanto, com seu lado feminino. E, por fim, sua conexão com a liberdade que lhe faltou durante a vida. É possível ver um pouco disso também no primeiro longa da Mulher-Maravilha.

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Em Mulher-Maravilha, dirigido por Patty Jenkins, Diana Prince luta constantemente para conseguir sair da ilha das Amazonas e buscar por algo “diferente”, também se encaixando na teoria da “separação da mãe”, citada anteriormente. Apesar de amar o contexto em que cresceu e admirar suas companheiras femininas, inclusive sua mãe, a jornada de Diana é sobre descobrir quem ela é para além de uma Amazona, o que a leva a se afastar da mãe para seguir sua jornada em busca do próprio lugar no mundo, em companhia do seu interesse amoroso, Steve Trevor (Chris Pine). No mundo real, ela encontra seu papel, além de se apaixonar pela primeira vez e descobre a verdadeira extensão dos seus poderes (e como eles podem ajudar outras pessoas). Livre das expectativas de viver como Amazona, Diana rompe com a mãe e enfrenta uma jornada que é, essencialmente, sobre descoberta. Mais tarde, para conseguir vencer o vilão, ela retorna à suas origens e àquilo que sua mãe lhe ensinou para conseguir fazê-lo, mesmo que ainda seja a protagonista da sua própria história.

Para as outras Amazonas, liberdade talvez seja viver na ilha, lutar, crescer com suas companheiras e servir um propósito. Para Diana, no entanto, era algo mais. Algo diferente.

A jornada de Carol Danvers e Mar-vell (Annette Bening) também se encaixa neste padrão, que mistura os elementos de Murdock com o chamado pela liberdade.

Existe um consenso geral de que a visão feminista presente em Capitã Marvel é uma que, essencialmente, não passa do nível superficial. No artigo “Captain Marvel’s Shallow Take on Feminism Doesn’t Land”, a autora Jesse Joho chega a comparar o filme com alguns comerciais que ela viu sobre empoderamento feminino. “A única coisa que realmente parece ‘retrô’ em Capitã Marvel é sua visão superficial do feminismo, que deveríamos estar deixando para trás e não usando como uma bengala. Os grandes momentos feministas do filme não apenas parecem insinceros, como também parecem que caem na categoria da vingança fantasiosa, misturada com tons de batalha dos sexos”, explica.

Até certo ponto, Joho está certa. O feminismo em Capitã Marvel, dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck, não deve ser levado como um guia do empoderamento (assim como todas as outras obras de cultura pop) e em alguns momentos parecem realmente desconexos com a realidade. Mesmo assim, a narrativa explana os mesmos temas que podem ser vistos em Viúva Negra e Mulher-Maravilha, por exemplo. Na sua essência, a luta pela liberdade é algo intrínseco dentro da jornada de Carol.

No começo do filme, a protagonista luta ao lado de Yon-Rogg (Jude Law), que resgatou Carol quando ela perdeu suas memórias. Sem saber quem é ou qual é realmente a extensão dos seus poderes, ela lembra mais ou menos de Mar-vell, que acredita ser a pessoa que prejudicou suas memórias, alguém que a faz mal. Com uma trajetória que foca na recuperação das suas memórias, e consequentemente da sua identidade, Carol é incentivada por Yon-Rogg a controlar suas emoções, a domar o seu lado “irracional”. A narrativa não diz, mas é o lado considerado “feminino”. Anteriormente, quando ainda era uma pilota no exército, ela fazia a mesma coisa para se encaixar no padrão dos seus colegas homens.

Existe o rompimento do seu lado feminino, em momentos onde ela se aproxima daquilo que Yon-Rogg planeja como o “ideal” para os seus poderes. E ela só consegue se libertar dessa pressão quando passa a entender que suas emoções são, no final, parte daquilo que faz com que suas habilidades sejam tão poderosas. Algo parecido acontece em Mulher-Maravilha, quando Diana Prince diz que o “amor” é a solução para os problemas. Apesar de ser uma parte muito criticada, o amor vem em diversas formas e jeitos. Para Diana, naquele momento, ela não se referia apenas ao amor romântico, mas também à forma como sua mãe a criou, fazendo com que acreditasse em um mundo melhor e mais justo. Quando Carol levanta, pela primeira vez, ciente dos seus poderes e do seu lugar no mundo, é o amor próprio que encerra o seu ciclo ao lado de Yon-Rogg, e grita liberdade.

Com o desenrolar da história, e com a ajuda de Maria Rambeau (sua melhor amiga, vivida por Lashana Lynch), Carol eventualmente recupera suas memórias, entende sua conexão com Mar-vell (que é uma espécie de figura materna para a mesma) e alcança o verdadeiro potencial do seu poder, assim como a liberdade de saber quem é. Um momento que Murdock chama de Descida para a Deusa. Yon-Rogg não está mais reprimindo suas memórias e suas emoções.

É por isso que, no final, quando ela diz para o vilão “não tenho nada para provar para você” e se recusa a cair na sua manipulação, as coisas parecem se encaixar.  A jornada de Carol Danvers não é sobre provar algo para o mundo, mas sobre descobrir quem ela é, entender sua identidade, o alcance do seu poder e qual é o seu papel no mundo. Principalmente, é sobre se libertar das amarras que a definiram a vida inteira. Como aponta a própria Murdock, essa é uma jornada interna, nem sempre aprovada pelas pessoas que estão de fora.

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Por fim, a questão do amor próprio e da liberdade também se faz presente em Aves de Rapina, da diretora Cathy Yan. Com um elenco completamente feminino, cada uma das protagonistas está em busca de um tipo de liberdade: Canário Negro (Jurnee Smollett) quer se livrar do chefe abusivo e problemático; A Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) procura se vingar da família para se ver livre da pressão da sua história; Renée Montoya (Rosie Perez) é uma policial mais velha que nunca foi levada a sério pelos seus colegas homens e, por isso, nunca conseguiu crescer dentro da própria profissão, frustada por nunca ter conseguido ser livre para fazer o que realmente ama.

No centro de tudo isso, está Arlequina. Com um tratamento mais justo não apenas por causa da visão da diretora, mas também por Robbie (que claramente ama a personagem), Arlequina luta para se livrar da sombra do seu relacionamento abusivo com o Coringa, além de tentar distanciar sua imagem do mesmo. Sem abandonar a personalidade expansiva da personagem, ela encontra conforto na dinâmica que surge com as outras personagens, além de ter entender o que aconteceu quando estava vulnerável ao seu ex-abusador. Por ser um filme que fala muito sobre o coletivo, as protagonistas alcançam a sensação de liberdade ao explorar o relacionamento genuíno que nasce entre elas. Ou seja, elas se conectam ao feminino juntas, com um ponto final que deixa ainda mais claro que, não importa o contexto, a procura pela liberdade é algo comum na vida de todas as mulheres.

Subversão do poder = liberdade

Em certa parte de A Jornada da Heroína, Murdock define o caminho das mulheres como algo que transcende os limites do seu condicionamento. Ela diz:

“É uma jornada particularmente angustiante, uma aventura repleta de medos, lágrimas e traumas. Quando criança e adolescente, a heroína foi moldada para cumprir um papel determinado pelas expectativas dos pais, professores e amigos. Para ir além deles, ela deve fugir dos captores de seu condicionamento, deixar o Jardim da Proteção para trás e matar o dragão de suas dependências e dúvidas. É uma jornada perigosa.”

A aventura que Murdock descreve como perigosa, consequentemente acaba com a heroína se reconectando sua essência feminina e sua identidade. Essa jornada é de muitas formas considerada uma subversão do seu poder. Ela abandona o status quo de um sistema patriarcal para abraçar seu propósito.

Na quarta temporada da série Wynonna Earp, a protagonista que leva o nome do título (interpretada por Melanie Scrofano), começa a se libertar de uma maldição que foi criada e perpetuada por homens e colocou vários problemas em seu caminho. Chamada de A Maldição da Herdeira, Wynonna tem uma longa jornada para entender que ela não precisa viver isolada e com medo constante, e que pode contar com a ajuda das pessoas ao seu redor. Na última temporada de Buffy, algo parecido acontece: para vencer o último “big bad” da série, a protagonista, com a ajuda da sua melhor amiga bruxa, Willow (Alyson Hannigan), quebra o sistema que permitia apenas uma slayer por vez, dando poder para todas as meninas que tem o gene dentro de si. Se antes as caçadoras eram obrigadas a se isolar para lutar, a mando de um bando de homens com poder demais nas mãos, agora elas contam com a ajuda uma da outra. De certa forma, também uma liberdade.

É verdade que a jornada da heroína pega alguns elementos do livro original de Campbell, mas é também possível ver uma narrativa completamente única, que busca explorar assuntos que fogem do ponto de vista endocêntrico. A existência da mulher na sociedade é, afinal, muito diferente da existência do homem. Existe uma necessidade de abraçar as narrativas femininas e entender que, no geral, elas vão realmente ser diferentes das histórias centradas em homens. E tudo bem. Ao mesmo tempo, elas vão ser plurais e subversivas. Com a narrativa das protagonistas dos quatro filmes citados neste texto é possível ver essa mistura muito bem: todas têm experiências completamente diferentes, mas todas também experimentam a busca pela liberdade e identidade.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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