Categorias: LITERATURA

Habitar: uma leitura de A Gorda

“[…] Explico-lhe que há coisas que não estão destinadas a acontecer, que não depende da nossa vontade. Estamos totalmente nas mãos da história que trouxemos inscrita para cumprir.”

Descobri A Gorda, primeira obra da portuguesa Isabela Figueiredo publicada no Brasil (Todavia, 2018), passeando por uma livraria numa tarde qualquer alguns anos atrás. Nunca tinha ouvido falar da obra ou da escritora, mas me encantei pela capa (quem nunca?). Assim, na minha busca incessante por conhecer mais escritoras, peguei o livro, li a primeira página e senti que eu precisava vivenciar a história que ele guardava. Vocês têm isso, de sentir quando precisam ler um livro? Bom, li e me envolvi tanto com o texto, senti tanto o que era dito, que na época indiquei a leitura para todo mundo. Mas é curioso como a memória nos prega peças. Depois de um tempo, me restou quase que somente a lembrança de ter amado o livro. Os trechos grifados, lidos em voz alta pareciam ter simplesmente fugido de mim. Achei tão injusto o meu esquecimento que resolvi viver de novo a história desse romance, relembrar os porquês de eu ter gostado tanto dele. E é com a perspectiva desse novo olhar que escrevo este texto.

Em A Gorda, Maria Luísa, com seu sotaque português que ressoa a cada linha, nos conta a história de sua vida. Ela nos narra a relação com os pais, com os amores, com seu corpo, gordo desde a infância, com seus pensamentos. Mas antes de olharmos um pouco mais de perto a vida de Maria Luísa, é preciso dizer que esse livro inicia-se com a seguinte advertência: “Todas as personagens, geografias e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade.”

Vamos nos atentar, então, a uma pequena informação: a autora, Isabela Figueiredo, nasceu em 1963, em Lourenço Marques (hoje, Maputo), Moçambique, e se mudou para Portugal em 1975. Maria Luísa, narradora-personagem do livro, também nasceu em Lourenço Marques e se mudou para Portugal em 1975. Ou seja, parecem existir certas coincidências entre a vida da autora da obra e a vida da figura central da história. Temos em mãos, portanto, uma narrativa que parece entrelaçar realidade e ficção.

Nós, como leitores da obra, não sabemos exatamente o que aconteceu de fato na vida de Isabela e o que se deu apenas na história criada — a menos que conheçamos de antemão toda a biografia da escritora. Existe, assim, um jogo narrativo no livro, evidenciado na advertência, que esfumaça as fronteiras entre o real e o ficcional. A autora parece, assim, desejar que leiamos a história em meio a essa dúvida, o que não nos impede, de maneira alguma, de mergulhar no que Maria Luísa, e somente ela, nos conta. Sabemos que alguma coisa dali vai além das páginas que temos em mãos, vai além de uma criação, mas é injusto com a obra pensar apenas nisso. 

A Gorda

História-casa

Em A Gorda, para contar sua história, Maria Luísa abre as portas de sua casa — para ser mais exata, de seu apartamento na cidade de Almada, Portugal, onde morou com os pais grande parte da vida. Cada um dos capítulos da narrativa tem como título um cômodo da casa: Porta de entrada, Sala de estar, Casa de banho… E antes que qualquer coisa seja contada, costumeiramente há uma pequena descrição do ambiente.

Quarto de solteira

“Situa-se na parte de trás do prédio, virado a Oriente, com porta à esquerda da entrada do apartamento, aberta na mesma parede. O compartimento acede a uma varanda fechada, transformada em marquise, da qual se avista o rio Tejo e o Mar da Palha banhando Lisboa, Barreiro, Montijo e Alcochete. De manhã, o sol incide plenamente no quarto. Na porta que o separa da marquise pendem cortinas de shantung cinzento, diminuindo a abundância da luz.”

Após contar como materialmente é a parte da casa em questão, Maria Luísa começa a narrar lembranças que de alguma maneira se mostram relacionadas ao cômodo. Ela vai e volta em memórias recentes e longínquas, num ziguezague de recordações. As lembranças não se repetem, de fato, mas a cada cômodo visitado são retomadas e aprofundadas, nos mostrando mais e mais detalhes dos acontecimentos vividos.

Não me sai da cabeça ser muito simbólico e certeiro abrir as portas de uma casa para contar uma história de vida. Nossa casa é algo íntimo, fechado a todo aquele que não deixamos entrar. Teoricamente, nada que acontece ali dentro pode ser conhecido por outro alguém se não permitirmos. As paredes guardam os acontecimentos vividos, os objetos têm em si as marcas do tempo, de quem esteve ali, de quem deixou de estar ali, de quem já fomos um dia ou desejamos ser. “Acredito que os objetos têm uma aura, uma relação com os seus companheiros humanos, uma vida”, diz Maria Luísa nas primeiras páginas do livro.

Porém, em A Gorda, o significado de casa pode ir além de um espaço físico.

Família-casa

Quando Maria Luísa é enviada pelos pais para Portugal em 1975, ela está no fim da infância, início da adolescência. Os pais, portugueses que se mudaram para a África na busca de uma vida melhor, voltam ao seu país de origem apenas dez anos depois, em 1985 (Moçambique era colônia de Portugal até 1975, após a independência, os portugueses que lá viviam começaram a deixar a região). No momento que a família se reúne e passa a viver junta novamente diversos conflitos começam a surgir.

“Quando os papás chegaram de Moçambique e visitámos o apartamento que estava à venda, em 1985, apaixonámo-nos pela luz e pela vista das traseiras. Era uma casa aérea, suspensa no ar e com amplos horizontes. A mamã dizia que em casa onde há luz ninguém ralha e todos têm razão, mas, para dizer a verdade, na nossa casa foi-se ralhando periodicamente, ao longo dos anos, com e sem razão, como em qualquer outra.”

Existia, para além de um desconforto com o retorno da convivência depois de muitos anos, um conflito de gerações. Quando Maria Luísa deixa os pais, como dito, é ainda muito nova. Já quando a volta a conviver com eles é uma jovem mulher, que cresceu com certa liberdade longe dos pais, que tem seus próprios desejos, anseios, costumes e crenças. Maria Luísa acha os pensamentos dos pais, as maneiras, antiquados.

“Considerava-a (a mãe) uma pessoa de prolixo mau gosto, antiquada e assaloiada. Tinha vergonha do tropicalismo e desdenhava a casa. Destilando minha raiva em sugestões desagradáveis sobre seu aspecto, com secura e amargor. Não se podia negar que eu tinha nascido em Moçambique, que estava impregnada desses coloridos ares do sul, mas todos os meus amigos eram portugueses, e entre nós não se falava de África, que tinha ficado para trás. Odiava os papás acabados de chegar de Moçambique.”

Contudo, apesar dos conflitos, Maria Luísa se reconhece ao olhar para os pais. Existe uma consciência de que ela é formada por aquelas pessoas, pela história delas, pelo que elas são. Existe uma consciência de que essas pessoas são, também, sua casa, seu lar.

“[…] Pomos a mesa. Preparamos rapidamente uma taça de salada de alface com tomate e pepino e fritamos batatas em palitos. Venha o franguinho ‘à cafreal’!
Neste momento exato estou esquecida de que detesto os papás, que não os quero de volta, que bem podiam ter ficado por Moçambique, deixando-me crescida e só, e sopra a aragem indecifrável da harmonia familiar, da casa dentro da casa. Gémeos triplos monoplacentários. Três num único organismo.”

Para além, é possível ver ao longo das páginas uma admiração pelos pais e um amor incondicional, “Abro e fecho, a cada momento, as portas do passado onde habito com os papás o laço de ferro incorruptível que nos estreita e aglutina, e sei que a vida inteira continua insuficiente para o amor.”

Corpo-casa

Parágrafos atrás eu disse que, dentre outras coisas, o livro fala da relação de Maria Luísa com seu corpo, gordo desde a infância. A gorda leva, então, esse nome, pois sua personagem principal é uma mulher gorda, essa é uma de suas características. Apesar disso, a gordura não é verbalizada incessantemente a cada página. E aqui cabe um pequeno causo.

Em 2018, em uma mesa da FLIP denominada Obscena, de tão lúcida (existe um áudio do evento no YouTube, recomendo), Isabela Figueiredo conta à plateia que um dia estava procurando na internet o que as pessoas andavam dizendo sobre o seu romance e encontrou um comentário de uma leitora que dizia que o livro não tinha gordura suficiente, ou seja, A Gorda não falava o bastante de um corpo gordo. E a autora pensou algo como “claro que não”, afinal, é um livro que fala da vida de um alguém que ama, sofre, dorme, acorda. E em meio a toda essa vida que possui muitas questões, existem as que são sobre o corpo. Ou seja, não é porque se trata de uma personagem gorda que esse seja o único assunto possível de ser trabalhado por ela.

Contudo, quando o tema emerge entre as páginas, não raro é de maneira bastante dolorida. Maria Luísa habita um corpo que os outros renegam e que ela também acaba por renegar, “Não suportava meu corpo porque, tal como as pessoas com as quais me cruzo, também aprendi a rejeitar o invulgar, o excessivo”. Ela se diz anormal, porque o normal é o padrão de corpo magro imposto pela sociedade, e apenas esse corpo aceito pelo olhar dos outros pode, por exemplo, ser plenamente amado.

“[…] Olhar o David evocava a realidade. Todo esse discurso confirmava a minha impossibilidade de inclusão no mundo feminino. Eu não era uma mulher, mas uma massa disforme de carne sem valor.
O David amava-me e rejeitava-me sem distinção. ‘Adoro o peso das tuas mamas’, e sentia-lhes o peso. ‘Adoro o volume da tua barriga’, e lambia-a. ‘Deixa-me morder este naco da tua coxa’, e mordia. ‘Não vás a minha casa. Os meus amigos gozam-me por tua causa.’ E eu não ia. O meu corpo não servia ao David nem a ninguém.”

A Gorda é, assim, um livro de narrativa simples e fluida, apesar das idas e vindas das lembranças de Maria Luísa, que nos leva a mergulhar nas pequenas alegrias e nas dores mais pungentes de uma vida. Ele nos faz pensar na nossa própria vida, nos nossos olhares para o outro, na nossa família, no que nos faz ser o que somos, nos lugares que habitamos.


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