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Um teto todo meu: a autonomia do trabalho criativo e o preço do aluguel

Em julho deste ano, a autora Victoria Aveyard (autora da série A Rainha Vermelha) publicou em sua conta no TikTok uma resposta à pergunta “A escrita é seu único trabalho?” O vídeo com a resposta dela apareceu para mim no Twitter em meio a uma longa discussão sobre a carreira na escrita e como muitos autores lidam com isso, e no começo fui assistir meio que no grande automático da verborragia de informação que é a internet. Mas depois não consegui mais parar de pensar naquilo.

No vídeo, a autora destaca que sim, escrever atualmente é o único trabalho dela, mas que ela é incrivelmente sortuda por conta disso. “Depois da faculdade, eu pude morar com meus pais e ser incluída no plano de saúde deles por conta do Obamacare. A Rainha Vermelha foi vendido 11 meses depois de eu me formar, um mês antes de meus empréstimos estudantis começarem a ser cobrados e enquanto eu estava procurando um emprego.” Algumas chances, sem dúvida, se mostram em momentos improváveis, e a autora corrobora essa ideia ao destacar: “Quando alguém fala para você ‘largue seu trabalho, escreva um livro, se eu consegui, você consegue’, tenha certeza de que você conhece o pano de fundo dessa pessoa, quais são as condições em que essa pessoa vive.”

Vendo os depoimentos de diversos autores brasileiros contemporâneos no Twitter discutindo essa temática me fez refletir muito sobre isso. Diversas pessoas destacaram o tanto que essa fala era importante. Quais são as perspectivas reais, por exemplo, de um autor brasileiro contemporâneo viver exclusivamente de livros? Estar em uma grande editora pode garantir estabilidade para pagarmos as contas que crescem tão rapidamente em meio à crise econômica que estamos enfrentando?

Sem dúvida vivemos uma realidade editorial muito diferente da estadunidense, de onde a autora provém. Não entrando no mérito do acesso à literatura por parte dos leitores, a indústria livreira ainda encontra-se bastante concentrada no sudeste do Brasil, apesar dos recentes esforços de trazer mais vozes à tona. Do lado do leitor, por sua vez, é importante considerarmos, também, que uma parte significativa da literatura que consumimos é uma literatura traduzida, especialmente quando levamos em conta o mercado de fantasia, romance e ficção científica, por exemplo.

No livro Um Teto Todo Seu, Virginia Woolf afirma: “A liberdade intelectual depende de coisas materiais. A poesia depende da liberdade intelectual.” Sem dúvida, passamos muito tempo alimentando uma narrativa de que a boa poesia é feita em meio ao sofrimento, mas a verdade é que produzir arte tem um custo, e viver traz contas que precisam ser pagas de alguma maneira. O artista não se forma sem consumir alguma arte (o que tem um custo), ou sem estudar de alguma forma a sua arte, ou sem investir de alguma forma naquela arte. Como posso esperar pagar pouco por um bordado que demorou muitas horas para ser concluído, ou pela apresentação de um músico (que teve que trazer os próprios instrumentos caros), ou pelo trabalho criativo de anos de um escritor? Ao não oferecer um pagamento justo pela arte do artista, não estamos considerando a gasolina para ir até o lugar, o material para fazer o artesanato, o custo de manutenção do instrumento, as contas de luz, água, internet, entre tantas outras coisas. Por que ainda parece aceitável não considerar a arte, o trabalho criativo, como uma profissão?

victorya aveyard

Eu costumo brincar que escritor foi uma das primeiras profissões que fizeram home office — inclusive sem ser remunerado para isso. Nós, artistas, somos levados a investir dinheiro em cursos e passar anos produzindo arte antes de conseguir alguns trocados — que não pagam o aluguel. Se estendermos essa lógica a uma enorme gama de trabalhos criativos, não apenas na arte, mas na pesquisa, também, vemos um cenário pouco acolhedor. Quais são os espaços que nos são permitidos? E o que nos restou na enorme devastação deixada para trás nesta pandemia que não apenas ceifou vidas, como também fechou portas e interrompeu caminhos?

Eu confesso que ao ver a discussão trazida por Victoria Aveyard, eu consegui suspirar um “é isso”. Existem muitas nuances — muitas, inúmeras, incontáveis — na nossa existência como artistas. Não precisamos, se não quisermos, viver exclusivamente de arte, e não é em trabalhar e ser artista que reside o problema. O problema está em quando não nos é dada a possibilidade concreta e acessível (e não reduzida a um número muito pequeno de pessoas) de escolher esse caminho sem um custo altíssimo (e muitas vezes sem retorno ou compensação — por exemplo com a própria saúde). Quando fechamos as portas para tantos artistas ao não darmos espaço, quem estamos permitindo que produza e, principalmente, que consuma cultura?

Agora que parei um pouco para respirar, vi que abri muitas perguntas invés de respondê-las, mas a verdade é que para a maioria dessas perguntas não tem respostas ou soluções. Resta apenas pensar no grande clichê que é: “O que nos restaria se toda a Arte que existe fosse extinta?” Como tantas coisas nas nossas vidas, esse é um aspecto tão incrustado na existência humana, que, para mim, é mais fácil imaginar um mundo sem a roda do que sem Arte. Podemos, até mesmo, nos perguntar: por que, apesar das condições desfavoráveis desde que o mundo é mundo, continuamos produzindo Arte? Se a Arte não existisse, acredito que alguém já teria dado um jeito de inventar.

Permito-me ter uma chama de esperança ao ver como, de um modo geral, nos voltamos para livros, filmes, séries, bordados, pães e tantas coisas durante o período mais restrito do isolamento social no mundo inteiro. A Arte mantém muitas pessoas respirando, ainda. E resta a todos nós, para trazer esse florescer de modo geral ao mundo — e não a um pequeno pedaço dele — permitir que os artistas também continuem respirando. E vivendo. E sentindo.

E criando. Sob um teto que seja seu.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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