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As complicadas gerações de mães e filhas na cultura pop

Lembro até hoje de estar no meio de um episódio de Sons of Anarchy quando a personagem Gemma Teller (Katey Sagal) diz que se tivesse tido uma filha, seu primeiro impulso seria afogá-la pois, segundo ela, lidar com meninas é simplesmente insuportável. Fiquei impressionada com a cena e dali para frente, passei a reparar mais na forma como as futuras mães falavam sobre o possível sexo biológico dos seus bebês. A maioria delas diziam que preferiam ter meninos porque “eles são mais fáceis de criar, com menos intrigas”. Não estou dizendo, claro, que elas seriam tão cruéis quanto Gemma e sua falta de inclinação para filhas mulheres, mas percebi que existia um estigma em relação a criar uma menina. As mães querem filhos homens porque eles são mais “fáceis”, enquanto os pais querem filhos homens para ensiná-los a apreciar as mesmas coisas que eles. Não voltei a pensar nisso até minha maratona recente de Parenthood, quando a matriarca Camille (Bonnie Bedelia) diz para uma das suas meninas que o relacionamento entre mães e filhas é complicado. E que as filhas podem até ir embora, mas eventualmente elas voltam. Isso me levou, eventualmente, até um novo pensamento: entre todas as obras sobre paternidade, as que abordam a relação entre mães e filhas são as mais complexas e satisfatórias.

Sempre que pensamos na relação entre mãe e filha nas séries de TV (ou até mesmo do cinema), o primeiro exemplo que vem a cabeça, com certeza, é Gilmore Girls. A relação entre Lorelai Gilmore (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel) é realmente inspiradora, cheia de cumplicidade, amor, referências a cultura pop e muito café, algo que fez com que o seriado se tornasse amado, cultuado e se prolongasse como uma referência por décadas. Mas na ficção, ou até mesmo no dia a dia do mundo real, a maioria dessas relações não são tão perfeitas como mostradas na produção criada por Amy Sherman-Palladino no começo dos anos 2000. Apesar da minha experiência pessoal se aproximar muito mais daquele vista entre as garotas Gilmore, relações plurais, complicadas e nem sempre perfeitas entre mães e filhas sempre foi um tema recorrente dentro das maiores obras populares.

Um exemplo bem próximo da realidade se encontra até mesmo na história de Gilmore Girls, entre a própria Lorelai e sua mãe, Emily (Kelly Bishop). As duas — que sempre foram pessoas muitos distintas entre si, com valores completamente diferentes —, carregam um relacionamento que é muito baseado em mágoas e ressentimento. Quando a série começa, Lorelai visita os pais apenas em feriados importantes e quando é obrigada a pedir ajuda financeira. A relação fria e distante que eles mantêm se dá ao fato de que sua gravidez precoce, aos 16 anos, a levou por um caminho inesperado e que não envolvia um casamento ou sequer manter vivos os valores conservadores dos seus pais. É por isso que quando ela e Rory começam a participar de jantares semanais com Emily e Richard (Edward Herrmann), começa a nascer aos poucos uma nova vertente da relação entre Lorelai e sua mãe.

mães e filhas

Emily é uma mulher tão complicada e plural quanto Lorelai e Rory, e tem um dos desenvolvimentos mais interessantes da série. Em Um Ano Para Recordar, ela tem que lidar com a perda do marido e mais uma vez lidar com as problemáticas do seu relacionamento com a filha. É interessante perceber como ela, quando livre do que considera seu dever como esposa, começa a reencontrar seu lugar no mundo ao mesmo tempo em que tenta finalmente entender um pouco mais a cabeça de Lorelai e o que realmente aconteceu durante os anos que elas ficaram separadas, assim como os sentimentos que uma nutre pela outra.

Durante um discurso quando está prestes a se formar no ensino médio, Rory diz que Lorelai encheu a casa das duas com livros, músicas e referências para ela se inspirar e se tornar qualquer tipo de mulher que ela quisesse, mas que sua maior inspiração sempre foi a sua própria mãe. Acho que esse é um resumo muito pertinente entre a relação vista entre as duas principais dinâmicas maternais da série. Apesar de Rory e Lorelai serem de gerações diferentes, a forma como elas se tratam é baseada em uma modernidade quase recém conquistada por muitas mulheres. Já Emily é de uma geração mais distante. Apesar de ter estudado História, grande parte da sua vida foi dedicada a criar Lorelai, cuidar do marido e administrar a casa em que eles vivem. Para Emily, essa era uma vida segura e cheia de significado, e foi difícil perceber que Lorelai aspirava coisas diferentes. O conflito entre elas veio dessa mudança radical na forma como, aos poucos, mulheres foram encontrando e entendendo seu papel na sociedade. Nenhuma das duas está errada, apenas têm percepções diferentes dentro do contexto em que estão inseridas.

Essa não é a única série de Amy Sherman-Palladino a explorar essa quebra de gerações de uma maneira eficaz. Em The Marvelous Mrs. Maisel, Midge (Rachel Brosnahan) e sua mãe, Rose (Marin Hinkle), são duas mulheres bem diferentes também. Apesar delas se deram relativamente melhor do que Emily e Lorelai — e até mesmo compartilharem alguns gostos materiais —, quando a protagonista escolhe se divorciar do marido que a tinha traído e tenta seguir uma carreira como comediante, Rose tem sérias dificuldades em aceitar sua vocação. Ao invés de assumir uma posição mais conflitante como Emily fazia com as escolhas de Lorelai, aqui ela toma atitudes que são mais passivas, e passa a ignorar a profissão da filha e tenta a qualquer custo encontrar outro marido para ela. Afinal, na sua cabeça, Midge só pode encontrar conforto e segurança se for amparada pelo salário estável de um homem (de preferência um médico, banqueiro, etc).

Apesar de parecer absurdo que o conflito possa surgir por um assunto tão tradicional quanto esse, só fui realmente entender personagens como Rose ou Emily quando reli Orgulho e Preconceito. No livro de Jane Austen, e na sua adaptação para o cinema de 2005, a história acompanha a Sra. Bennet, uma mulher desesperada para casar suas cinco filhas, já que elas não podem herdar a casa e a pequena fortuna do pai porque são mulheres. Elizabeth (Keira Knightley), no entanto, não aceita se envolver com qualquer pessoa apenas pelo conforto, e só irá aceitar se casar quando realmente amar seu futuro companheiro. É claro que esse é um dos maiores catalisadores para o conflito entre mãe e filha. Não me entenda errado, eu acho que a Sra. Bennet é realmente fofoqueira e um pouco pomposa, muito ligada a questões materiais e inclinada a contar uma ou duas mentiras para conseguir o que quer. Ao mesmo tempo, se pararmos para analisar, não é difícil entender seu desespero em arrumar um casamento para suas filhas: sem isso, existe uma grande possibilidade delas irem parar na rua após a morte do próprio pai.

mães e filhas

Desde o século XIX e em contextos sociais completamente diferentes — no mundo de Jane Austen ou na sociedade moderna —, a relação entre mães e filhas foram pautadas por preocupações e certas atitudes que são esperadas de mulheres. Enquanto o mundo cobra certas coisas de suas filhas, as mães sentem que é seu papel guiá-las na direção certa. Ou pelo menos, na direção que elas pensam ser a certa. Isso não faz delas péssimas pessoas, ou nem sequer mães ruins, apenas humanas.

Especialista em explorar relações entre mães e filhas, outra dinâmica fictícia de Lauren Graham chamou minha atenção recentemente. Na série Parenthood, que foi ao ar entre 2010 e 2016, Graham viveu Sarah, uma mulher que tem muitas coisas em comum com a própria Lorelai — inclusive a forma como as duas se comunicam com outras pessoas (falando o mais rápido possível) e como elas vêem o mundo. Sua relação com Amber (Mae Whitman), no entanto, não poderia ser mais diferente do que vimos em Gilmore Girls. Se Rory não via a hora de crescer e ser como sua mãe, Amber é o completo oposto e possui uma das síndromes mais comuns entre os adolescentes do mundo inteiro: ela quer ser diferente dos seus pais e conduzir escolhas distintas das deles. Sarah é uma mulher recém-divorciada de um homem alcoólatra e violento. Ela tem dificuldades para manter um emprego e vive saindo e entrando em relacionamentos complicados, mas sua relação com os filhos é bem amorosa, ainda que conturbada por assuntos comuns da adolescência.

Entre as seis temporadas do seriado, Sarah e Amber brigam pelas coisas mais bobas e até mesmo clichês: um namorado que a mãe não gosta, um professor na qual as duas estão apaixonadas, ou até mesmo para decidir o que a filha vai fazer no futuro — Sarah quer que ela entre na faculdade, enquanto ela resiste à ideia. Mas quanto mais o tempo passa, mais elas encontram um meio-termo na relação e conseguem começar a se entender. As brigas simplesmente não desaparecem, mas aos poucos Sarah entende que precisa dar espaço para a filha aprender com os seus erros e ser quem ela é, ao mesmo tempo que Amber percebe a genuinidade e o amor por trás de todas as intenções de sua mãe. É uma construção gradual, mas ao mesmo tempo muito satisfatória, e é interessante perceber como Camille se mantém longe da conflito direto das duas, mas dá conselhos pertinentes para todas as situações, já que enfrentou os mesmos problemas em uma época diferente.

De certa forma, a relação entre Sarah e Amber também lembra muito aquela que foi apresentada no longa de Greta Gerwig, Lady Bird. A história acompanha Christine (Saoirse Ronan) e sua mãe, Marion (Laurie Metcalf), e o relacionamento complicado e frustrante que elas construíram ao longo dos anos. Na jornada de autodescoberta da protagonista, sua mãe representa um ponto fixo na sua vida: dura e disposta sempre a cobrar dela uma posição sempre melhor. As brigas retratadas no longa são tão verdadeiras que é impossível não traçar um paralelo com casos da vida real, mas eventualmente elas acabam entendendo (pelo menos um pouco) a origem do sentimentos que cada uma carrega.

Marion: “Eu só quero que você seja a melhor versão de você mesma.”
Lady Bird: “E se essa for a melhor versão?”

Recentemente também entrei uma maratona da série Never Have I Ever, da Netflix. Criada por Mindy Kaling, a história acompanha Devi (Maitreyi Ramakrishnan), uma menina de descendência indiana que vive nos Estados Unidos com sua mãe Nalini (Poorna Jagannathan). Quando a história começa, faz apenas oito meses que o pai da protagonista morreu após sofrer um ataque cardíaco, e as duas enfrentam grandes problemas entre elas. A série é uma pequena produção com dez episódios de um pouco mais de 20 minutos, e tem vários méritos sendo um deles a forma como retrata Devi — uma menina que sente pouco norte-americana perto dos colegas, e pouco indiana perto da família, um sentimento muito comum para a experiência de pessoas imigrantes. Mas o que mais chama atenção é, com certeza, a forma como a narrativa tenta desenvolver a relação entre mãe e filha.

Um pouco depois que seu pai morre, Devi perde a habilidade de mover as pernas e acaba usando cadeira de rodas por meses a fio. Ela também bloqueia todas as memórias dos momentos que antecederam a morte, o que inclui uma briga gigante que tinha tido com a mãe, onde elas trocam ofensas sérias e que realmente não pensam uma da outra. Grande parte dos episódios são focados na menina tentando recuperar esses fragmentos que foram perdidos, e trabalhando com eles uma forma de superar seu luto e entender os sentimentos da sua mãe, que encontra dificuldade para se comunicar com Devi.

É interessante ver também como a série aborda o fato de que elas são mulheres indianas, originadas de uma mesma cultura, mas de gerações completamente diferentes — algo que reflete completamente na forma como elas lidam com o mundo ao seu redor e até mesmo com seus sentimentos. Isso fica claro pela forma que a mãe vê o casamento e protege sua filha de conceitos básicos da adolescência, ao mesmo tempo que Devi tenta buscar independência sexual, cultural e até mesmo na forma de pensar. Não que ela tente ignorar completamente suas origens, pelo contrário. Mas tentar adquirir novas e diferentes experiências dentro do seu contexto como adolescente é algo comum e saudável, ainda que gere conflitos com a mãe e sua forma de pensar. A superproteção é pautada pela falta de comunicação e pelo luto, sendo uma forma de tentar poupá-la de adquirir novas experiências dolorosas e eventualmente perder os movimentos da perna outra vez.

Outra série que retrata esse mesmo aspecto geracional tão bem quanto é Jane The Virgin, exibida na emissora CW de 2014 até 2019. A história de Jane (Gina Rodriguez), uma virgem de quase 30 anos que foi inseminada artificialmente sem querer por sua ginecologista, parece absurda demais para abordar qualquer tópico com um viés sério, mas depois de cinco temporadas fica claro que não existe nada mais importante para os roteiristas do que contar a história das três gerações de mulheres Villanueva com dignidade e respeito.

A trajetória delas começa quando Alba Villanueva (Ivonne Call) foge da Venezuela com seu futuro marido para procurar uma vida melhor nos Estados Unidos. Durante sua jornada, ela tem Xiomara (Andrea Navedo), que cresce, naturalmente, em um ambiente que é muito mais confortável e seguro do que o de sua mãe. Afinal, eles conquistam uma situação financeira melhor ao longo dos anos. Mesmo que a vida seja menos complicada, a forma distinta de como elas foram criadas cria uma certa distância entre personalidade nas duas. Alba é uma mulher religiosa e com muitos costumes conversadores, algo característico da sua geração, enquanto Xo é sexualmente livre e extrovertida, catalisador de vários atritos. Quando sua filha fica grávida de Jane ainda adolescente, Alba propõe que ela realize um aborto, algo que ela se nega a fazer até o fim. A dinâmica complicada entre elas se estende até mesmo a forma como Jane é criada e vê questões como amor e sexo.

mães e filhas

Apesar de compartilharem uma paixão por telenovelas e viverem em um lar que é cheio de afeto e ternura, Jane cresce com uma visão diferente de sexo, principalmente para uma garota da sua geração. Quando a série começa, ela é uma mulher de quase 30 anos que nunca se envolveu sexualmente com um homem — apesar de estar noiva —, e espera o dia do seu casamento para perder a “virgindade”. Esse é o resultado de uma promessa que ela fez para Alba quando era ainda pequena, onde a vó faz uma analogia com uma flor e como depois de amassada, ela nunca mais volta a ser a mesma. A flor, no caso, representa a virgindade de Jane. Xo não aprova a forma como sua mãe aborda o assunto, mas tampouco tira a liberdade da filha de fazer sua escolha.

É impressionante como grande parte de Jane The Virgin é baseada na relação das três mulheres — explorando como elas são diferentes, ou como elas são iguais. O conflito cultural, religioso e até mesmo comportamental entre as três é incrível, e aos poucos são apresentadas e exploradas pelas contradições entre elas. Em uma das temporadas, por exemplo, Xo descobre que Alba teve um caso antes de casar com o seu pai, com um homem que reaparece de repente na vida da mulher. Como ela foi julgada ao se envolver com vários homens antes de se casar, o conflito entre elas aqui começa a se aprofundar. É compreensível a forma como Xiomara se sente, mas as intenções de Alba, apesar de serem hipócritas, não chegam com o intuito de machucar ou humilhar sua filha. Apenas tentar protegê-la do mesmo erro que ela cometeu outrora. Naquelas ocasiões, ela realmente acha que está fazendo o bem.

Em uma série com um tom completamente novelesco e com grandes histórias de amor, é quase surpreendente que os momentos melhores venham de cenas simples onde as três deixam claro o quanto elas significam uma para a outra. Até mesmo Petra (Yael Grobglas), que começou como uma vilã nada multifacetada, ganha uma dinâmica interessante nesse aspecto: ao engravidar de meninas gêmeas, ela entra em contato com um lado seu jamais visto antes. Um lado complicado, inseguro e triste, que foi crescendo devido aos abusos que sofreu durante muitos anos pela sua mãe. Apesar de ter uma relação completamente diferente com a sua família do que é mostrado em Alba, Xo e Jane, é interessante ver um lado da maternidade distinto, já que ela é diagnosticada com depressão pós-parto e tem que lidar com todos os absurdos que sua mãe lhe fez ao longo da sua vida (o que não foi pouco), e tentar criar algo diferente para o seu futuro e o das filhas.

Assim como em Jane The Virgin, One Day at a Time também analisa a relação entre mães e filhas por meio de três  gerações de mulheres latinas. Mas ao invés de serem venezuelanas, elas são cubanas. É possível traçar um paralelo muito claro entre as duas matriarcas: tanto Alba quanto Lydia (vivida pela incrível Rita Moreno) são duas mulheres extremamente religiosas, com pensamentos tradicionais em relação ao casamento; elas também são protetoras em relação a sua família, e mantêm uma dinâmica amorosa com os netos. Mas a diferença entre gerações nas mulheres Alvarez ficam ainda mais evidentes no que das Villanueva — já que na série da CW, as três são mulheres heterossexuais.

Lydia e sua filha Penelope (Justina Machado), uma ex-militar que agora trabalha como enfermeira em uma pequena clínica, tem pequenos conflitos em relação a forma que elas veem relacionamentos amorosos, por exemplo. Lydia não se conforma como Penelope pode ter deixado seu ex-marido “escapar”, assim como não entende sua decisão de continuar criando seus filhos sozinha, sem se casar outra vez. Além disso, Lydia também tem dificuldade de entender a depressão da filha e o seu trauma após a guerra, onde ela presenciou coisas que mudaram completamente sua percepção do mundo. Esses fatos induzem conflitos que se expandem durante as três primeiras temporadas, sendo que o maior ponto de ruptura é representado por Elena (Isabella Gomez).

Elena Alvarez é latina, lésbica, ativista e uma menina que não tem dificuldade alguma de se posicionar e lutar pelo o que quer. Apesar de ter uma família tecnicamente tradicional, com uma avó católica que tem uma foto do Papa pendurada no seu quarto, sua personalidade funciona como uma espécie de rompimento entre as gerações, levando-as para frente. Mais de uma vez, Elena fez uma espécie de alerta para as duas mulheres, falando sobre como a vida delas foi e é moldada pelos estigmas do patriarcado, da saúde mental feminina ou até mesmo da cultura norte-americana em si. E em resposta, tanto Lydia quanto Penelope dizem o quanto amam Elena ao escutá-la e procurar entender sobre o que ela está falando. Entre os diálogos da série que reforçam esse aspecto, consigo pensar na ocasião que a avó simplesmente trabalha e supera sua homofobia em questões de segundos para o bem-estar da neta, ou quando Elena tenta explicar para elas a questão do “consentimento” e como ele não é tão complicado assim.

Em One Day at a Time, a diferença entre as três gerações é clara como água, mas nem tudo é preto e branco. O mais bonito da série é como os roteiros mostram as Alvarez tentando lidar com o que é ser mulher, mãe, avó e filha na sociedade atual, ao mesmo tempo que ressaltam as pequenas diferenças entre elas como latinas.

Se em One Day at a Time e Jane The Virgin as semelhanças e diferenças entre as gerações de mães e filhas são apontadas por meio do amor e da cumplicidade, em Mad Men o oposto ocorre com Betty Draper (January Jones) e sua filha Sally (Kiernan Shipka). A trajetória de Betty desenvolve cada vez mais uma mulher presa às limitações de ser uma dona de casa, que é frustrada, insegura e projeta cada um desses aspectos na filha. Se existe dúvida de a jornada delas se fecha em um ciclo completo, a última cena de ambas, onde Betty aparece sentada na mesa fumando um cigarro enquanto Sally lava as louças para a mãe, é uma prova concreta. Essa, tampouco, é a única personagem de Jones que tem essas características embutidas na sua essência. Recentemente, a atriz viveu também Carol Baker em Spin Out. Na série da Netflix, Baker é mãe da protagonista, Kat (Kaya Scodelario), e de Serena (Willow Shields). Apesar das duas terem herdado seus dons para a patinação no gelo, a mais velha também herdou os genes da bipolaridade, algo que afeta constantemente a relação entre elas — baseada na busca pela perfeição no esporte e na aprovação constante.

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Esse último aspecto, inclusive, lembra muito a relação entre Meredith Grey (Ellen Pompeo) e Ellis Grey (Kate Burton), na série Grey’s Anatomy. Assim como Carol, Kat e Serena, Meredith herdou da sua mãe não só uma grande habilidade como cirurgiã, mas também possivelmente o gene do Alzheimer. As duas mantiveram um relacionamento complicado durante anos que também era baseado na busca pela perfeição e aprovação, sendo que Ellis cobrava constantemente esses aspectos na sua filha — chegando até mesmo a dizer que ela era sempre uma decepção e que ela se arrependia de tê-la. Além disso, Carol e Ellis têm algo em comum que possivelmente definiu suas experiências como mãe e, consequentemente, como mulheres: ambas não tiveram uma figura masculina para ajudá-las, e carregaram o fardo de criar as filhas sozinhas. Algo que, devo acrescentar, sempre se prova uma tarefa complicada, sendo que cada mulher lida com isso de formas diferentes, cada uma com as suas limitações. Afinal, nenhuma delas são super-heroínas, são apenas mães.

Em This is Us, o estigma da perfeição parte muito mais de Kate (Chrissy Metz) do que da mãe, Rebecca (Mandy Moore). Insegura sobretudo por questões corporais, que moldaram sua adolescência, e de não conseguir ser tão boa quanto a mãe na música, Kate e Rebecca carregam uma relação complicada durante anos, que só começa a se acertar quando Kate começa a se aceitar e lidar com as mesmas inseguranças. Ainda sim, a conexão entre elas é uma das mais complexas e bonitas da série.

Todas as mães citadas e exploradas no texto tem um papel grande, forte e importante na maternidade, mas elas não são representadas apenas por esse lado. Mulheres complexas e com mais de uma faceta, as relações com suas filhas são geralmente moldadas por suas qualidades, motivações, inseguranças, medos e até mesmo seus talentos. Projetar é comum, assim como consertar os erros e desenvolver relações. Ao analisar como o comportamento de uma mãe afeta outras gerações de mulheres da sua família, fica claro que essas relações são muito mais complexas do que a ficção jamais vai conseguir captar e reproduzir. Mas ela tenta e, às vezes, chega bem perto. Até mesmo Lorelai e Rory — que tem uma dinâmica quase perfeita —, tem uma dinâmica que se baseia um pouco em projeção e erros. Mesmo que Lorelai seja liberal, progressista e a mais moderna das mães, quando se trata de garotos, ela coloca um medo irracional em Rory, projetado pelos erros no passado e sua gravidez precoce, algo que ela faz sem perceber ou muito menos por mal. Como resultado, isso prova que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Ou nesse caso, como nossas mães.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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