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A ascensão das mães superprotetoras nas séries de TV

A adaptação para a TV de Little Fires Everywhere, baseada no livro homônimo de Celeste Ng, chegou em 2020 pela plataforma Hulu e com apenas oito episódios mostrou um trabalho que pecou em captar tanto a essência dos personagens como também em explorar a síntese da história. A minissérie acompanha Mia Warren (Kerry Washington) e Elena Richardson (Reese Witherspoon), duas mulheres que tiveram vidas completamente diferentes. Mia é uma mulher negra, artista e mãe solteira, que nunca mora em um lugar fixo por muito tempo. Elena, por sua vez, é branca e trabalha no jornal Shaker Times, que leva o nome da cidade onde viveu durante a maior parte da sua vida e cria seus quatro filhos com o marido Bill (Joshua Jackson). Existe apenas um fator que une as duas: a superproteção que existe em relação aos seus respectivos filhos. 

Antes de explorar o caso das duas em específico, é possível ver um certo crescimento gradual dentro da TV em narrativas que abordam a mãe superprotetora e que dedica sua vida aos filhos. Por causa dos padrões estabelecidos pela sociedade, durante muitos anos a representatividade feminina nas telas se resumia apenas a ser mãe — ou no máximo, o interesse amoroso que, mais tarde, se tudo desse certo e ela fosse uma companheira digna, se tornaria mãe. Mas a demanda para mostrar mulheres diferentes, interessantes e plurais começou a crescer (ainda mais) dentro da cultura pop. O objetivo era não só mostrar personagens que tinham uma vida além da maternidade, como também lidavam com tal assunto de formas diferentes. Smilf, por exemplo, é uma série recente da Showtime, que acompanha Bridgette (vivida por Frankie Shaw, que também assina a criação), uma mãe solteira que tem que lidar com sua sexualidade, sua vontade de crescer e encontrar um lugar no mundo e um bebê pequeno — tudo isso sem a ajuda de uma figura paterna. Better Things também é um bom exemplo nesse sentido e mostra as cargas sociais modernas esperadas de uma mãe (Sam Fox, interpretada por Pamela Adlon), e como isso afeta sua vida em todos os aspectos.

Em Little Fires Everywhere, no entanto, Elena representa um outro tipo de mãe — uma representação que é relativamente comum na TV e com certeza na vida real. Obcecada com a perfeição e como ela pode passar cada um dos seus pequenos valores pretensiosos para os filhos, a personagem lida com Trip (Jordan Elsass), Lexie (Jade Pettyjohn), Moody (Gavin Lewis) e Izzy (Megan Stott) de maneiras bem diferentes, sendo que o maior problema está na forma como ela lida com as duas garotas. É preciso entender que Elena é, acima de tudo, alguém que foi moldada pelas suas frustrações. O fato de que ela ficou grávida quatro vezes seguidas ou que teve que abandonar uma possível carreira como uma grande jornalista em Nova York fez com que ela depositasse todas as suas expectativas em Lexie, cujos problemas também ressoam a partir de tamanha pressão. A sua filha mais velha namora um homem negro e um dos maiores conflitos no relacionamento vem do fato de que sua mãe e a própria Lexie não conseguem “enxergar cor nos seres humanos”, como elas mesmas apontam. Mais de uma vez, Elena tenta justificar sua criação protetora para a filha argumentando que não existe nada de errado em ser privilegiado, ou alcançar as coisas de uma forma mais fácil, algo que afeta todos os relacionamentos da menina. Ela não consegue ver o namorado como um homem negro, ou sequer entende que não pode usar o nome de Pearl (Lexi Underwood), filha de Mia, para fazer aborto em uma clínica local. Parte desse comportamento vem do que sua mãe ensinou, e da forma como ela a protege sempre.

Já com Izzy, que tem um comportamento mais rebelde e não consegue se encaixar na escola por ser lésbica (a história acontece em 1997, quando era ainda mais difícil ser diferente), existe certa hostilidade pela parte da mãe. A necessidade de controlar e proteger, além de garantir um futuro brilhante para sua caçula, é enorme. Mas, ao contrário dos seus irmãos, Izzy não precisa — ou quer — ter sua mãe como guia, tentando fazer suas decisões sozinha. Ela quer escolher suas roupas, admirar arte que chama sua atenção e criar um futuro brilhante para si, de forma independente. Algo que causa grande conflito dentro da sua mansão, já que Elena não consegue abrir mão do controle.

Mia, por outro lado, também é superprotetora e muito presente na vida da filha, mas de uma forma bem diferente. Para começar, a dinâmica entre as duas é muito distinta. Ela e Pearl são, além de tudo, amigas. Sem muitas pessoas para se apoiarem ou correrem quando tem algum problema, elas se apoiam uma na outra e é por isso que as várias mudanças de cidade são relativamente mais fáceis. A maior discordância entre elas é o passado de Mia e a forma com que ela esconde os acontecimentos de Pearl, algo que é uma verdadeira fonte de gatilho quando as duas chegam em Shaker Hights e começam a ter contato com a família dos Richardson.

Mães superprotetoras

É na procura de um apartamento para as duas ficaram durante um tempo que Mia conhece Elena, sendo que a última lhe oferece um apartamento para locação e um emprego na sua casa, onde Mia iria complementar sua renda como artista e ajudá-la ao redor da casa com pequenos afazeres domésticos. Apesar de nos primeiros episódios a dinâmica entre elas já se mostrar complicada e relutante, ambas desenvolvem uma espécie de “quase” amizade, que se perde na medida em que a história vai sendo explorada. A série, que tem uma trama completamente dramática, tenta incorporar a essência do mistério ao abordar um pouco mais sobre o passado de Mia e porque, afinal, ela é tão superprotetora com Pearl. Ou como Elena se tornou o que é.

Quando ela ainda estava na faculdade de artes em Nova York, Mia conheceu um casal que tinha dificuldades em conceber filhos. Por causa da sua semelhança com a mulher, Joe Ryan (Jesse Williams) propõe que ela sirva de barriga de aluguel para eles em troca de uma quantia generosa de dinheiro. Como ela vinha sofrendo para se manter em uma cidade tão grande, logo aceita a proposta mas, por causa da morte precoce do seu irmão — que chamava Warren, daí seu sobrenome fake — e também do amor da sua vida, uma das sua ex-professoras, ela acaba fugindo com Pearl. Sua decisão chegou em um momento de completo desespero, onde Mia sentiu que não existia nada e ninguém para ela e por ela no mundo, e sua decisão acabou afetando a forma como elas levaram a vida até então: sempre fugindo, correndo de cidade em cidade para nunca serem pegas, além da proteção constante e cerrada na filha. Isso sem mencionar que Pearl não estava exatamente ciente do seu passado.

Na medida em que Elena vai descobrindo a história de Mia, e como os eventos se desenrolaram no seu passado, ela começa a perder o controle dos eventos ao redor. Algo que é perpetuado pelo aparecido de Bebe Chow (Lu Huang), uma imigrante chinesa que perde o seu bebê, que acaba sendo adotada pela família dos McCullough, amigos dos Richardson. Sentindo empatia pela forma como Chow sofre com a perda da filha, e fazendo um paralelo com a sua própria história, Mia começa a ajudá-la a recorrer pela guarda da criança na corte, algo que afeta ainda mais a dinâmica de Mia com Elena.

Little Fires Everywhere deixa muitos assuntos sem uma abordagem profunda, algo que afeta completamente a narrativa. Os problemas de classe e raça são explorados de forma superficial, apesar de estarem sempre presentes em cada minuto dos oito episódios da série. Esse aspecto é perpetuado, principalmente, pela forma racista com que Elena trata Mia, ou como ela vê pessoas negras. Mia joga algumas verdades na sua cara, mas nada parece ser tão definitivo. A história de Izzy, a forma como Lexie se sente pressionada e até mesmo como Pearl é uma garota solitária também podiam tomar mais espaço na trama, que acabam negligenciando pequenas partes interessantes da composição geral. Por outro lado, a construção das duas protagonistas é algo muito satisfatório na obra em si. Mia e Elena são, como apontado antes, mulheres completamente diferentes, cujo único aspecto em comum é a maternidade. Mesmo com características superprotetoras, ambas lidam com as situações de formas distintas e pontuadas pelas performances exemplares de Witherspoon e Washington, aspecto que se torna o maior (e talvez um dos únicos) trunfo da série.

Mas Elena não é a única personagem complicada e maternal de Reese Whiterspoon nos últimos anos. É possível argumentar que Madeline, de Big Little Lies, também tenha características que a classificam como uma mãe superprotetora. Assim como em Little Fires Everywhere, ela pressiona para a filha mais velha adotar posições que não são necessariamente o que ela quer (como entrar em uma faculdade da ivy league), além de querer manter a aparência de perfeição na pequena (e rica) comunidade onde vive. Seu instinto protetor é algo evidente do começo ao fim, e fica claro que ela não pensa muito quando se trata de agir em prol das pessoas que ama — com ênfase, claro, nos filhos. Esse, aliás, é um tema muito frequente na produção em si. Celeste (Nicole Kidman) tenta proteger seus filhos da verdade absurda sobre o pai, um homem abusador e violento; enquanto Jane (Shailene Woodley) também coloca uma barreira entre o seu filho e o estupro que sofreu, onde ela engravidou dele; mas, talvez, a que mais representa esse aspecto é Renata (Laura Dern) que é capaz de lutar e brigar (literalmente) pela saúde e o bem-estar da filha, além de mimá-la com absolutamente tudo que existe de melhor no mundo, coisas que servem para recompensar o fato de que ela é uma mulher bem sucedida e que, de muitas formas, dá prioridade para sua carreira. Algo pouco aceito pela sociedade no geral, e inclusive reforçado por Madeline em vários momentos.

Mães superprotetoras

Elsa Gardner (Jennifer Jason Leigh), de Atypical, também tem uma boa construção e com certeza pode ser considerada uma mãe superprotetora. Sua trajetória dentro da série da Netflix é uma das mais complicadas e interessantes da obra, justamente por causa da forma com que ela, aos poucos, vai se tornando alguém independente e segura. Sua jornada é grandiosa o suficiente para um texto só para isso, mas é importante ver seu papel como mãe de um menino que está no espectro. Ao longo de quatro temporadas, Sam (Keir Gilchrist) cresce, evolui, se forma no ensino médio, namora, trabalha e até mesmo começa a estudar na faculdade. Tudo isso é possível porque, desde o começo, Elsa se dedicou o suficiente para estudar e aprender a lidar com uma criança autista e como criar um ambiente saudável para que ela pudesse prosperar e dar o seu melhor, sempre. Se o patriarca Doug (Michael Rapaport) fugiu quando o diagnóstico oficial do filho foi dado, ela ficou e não hesitou em nenhum momento, ainda que estivesse com medo e assustada. Essa dinâmica com Sam afetou grande parte da sua vida. Sua relação com a filha mais nova, Casey (Brigette Lundy-Paine), é realmente complicada, assim como parte da sua persona como mulher se perdeu. Mas essa é a beleza da jornada de Elsa: ela aprende aos poucos que não deveria abrir mão de outras partes da sua vida para se dedicar 100% a ser mãe. Isso não é tudo que a define, apesar de ser uma grande parte, já que seu instinto maternal e a atenção que Sam exige é máxima. Ela não precisa ser uma mãe que fica em casa, ou se dedica completamente ao marido. Ela também pode ser mulher, profissional ou amiga, pode errar e se desculpar. Algo que ela só descobre com o tempo.

O caso mais complicado quando se trata de superproteção pode ser visto em Gemma Teller (Katey Sagal) em Sons of Anarchy. Mãe do protagonista Jax Teller (Charlie Hunnam), Gemma é uma espécie de matriarca do grupo de motoqueiros Samcro, que fica na cidade de Charming, na Califórnia. Ela cresceu em um ambiente de crime e prosperou, algo que passou diretamente para o filho e que pretende também passar para os netos. A personagem é manipuladora, tem uma moral completamente duvidosa e exibe comportamentos que não só são machistas, mas também extremamente violentos. Para proteger a vida que ela acha melhor para o filho, mente e mata (inclusive a esposa de Jax, Tara). Sua trajetória é dolorosa de assistir (contando com um estupro completamente desnecessário para impulsionar os personagens masculinos) e ao final, quando Jax acaba com sua vida, o evento é uma das coisas mais angustiantes de se ver. O maior legado de Gemma é que essa mulher extramente leal e capaz de fazer tudo por causa do amor absurdo que sentia pelo filho, foi o grande catalisador para fazer com que o protagonista finalmente decida interromper o ciclo de violência sem fim que ele e sua família estão há anos — e que ele pudesse libertar seus filhos de seguir o mesmo destino.

Ainda que todas essas personagens tenham o fator da maternidade e da superproteção em comum, cada uma delas tem suas motivações e vivem dentro de universos que são completamente diferentes e únicos. Com trajetórias que não são necessariamente perfeitas, é importante reconhecer que essas personagens têm vontades, desejos e sonhos próprios e a forma como elas lidam com os filhos não é nada mais do que um reflexo dessas pequenas complexidades, mas também do ambiente que as cercam.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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