Categorias: CINEMA, MÚSICA

Elza nos habita

Este artigo começou a ser gestado antes que Elza Soares (1930-2022) viesse a falecer. Como é dito no documentário Elza Infinita, da GNT (2021): “é uma honra homenageá-la e oferecer-lhe flores em vida.” Infelizmente, não deu tempo. Aos 91 anos, ela estava no ápice de sua carreira. Foi enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel (2020) e tema do documentário Elza Infinita (2021), que tem como ponto de partida o Musical Elza (2018).

No documentário da GNT, as atrizes do Musical Elza compartilham suas vivências relacionadas à trajetória de Elza Soares. Janamô, Júlia Tizumba, Késia Estácio, Khrystal, Verônica Bonfim, Laís Lacôrte e Larissa Luz representam as muitas vidas de Elza Soares. Vinícius Calderoni, autor do texto, aponta que “são sete atrizes negras e múltiplas, como a Elza é”. O espetáculo já ganhou os seguintes prêmios: Shell (Melhor Música), APCA (Melhor Dramaturgia), Cesgranrio (Melhor Direção e Melhor Elenco) e Reverência (Melhor Espetáculo, Direção, Autor e Categoria Especial).

elza infinita

Nascida na Vila Vintém, Rio de Janeiro, Elza casou-se aos 12 anos, obrigada pelo pai, após sofrer uma tentativa de abuso por parte de um jovem. Ao todo, perdeu quatro filhos, dois deles para a desnutrição. Cedo ficou viúva e partiu em busca do sonho de se manter com a música e ter uma vida melhor. Teve um relacionamento duradouro e tumultuado com o jogador de futebol Mané Garrincha, além de altos e baixos em sua carreira a ponto de considerar desistir da música — o que ela não fez (ainda bem!).

Aqui, não se pretende reduzir a sua trajetória ao sofrimento ou à dificuldade, embora essas tenham estado presentes. Ela não se define pela dor. Como disse a multiartista Grada Kilomba, é um desafio criar este novo discurso que não reduza a biografia de mulheres negras aos seus dissabores. Por isso, disse Elza: “muita gente fala o quanto eu apanhei, mas ninguém fala o quanto eu bati”. A sua trajetória remete ao poema “Assim Eu Me Levanto”, de Maya Angelou:

“Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo-se como a maré.”

Elza fazia jus ao fato de ser filha de Iansã, senhora da ventania e do trovão, personificação das mulheres independentes e desbravadoras. Em constante recriação, cantou do samba ao hip-hop, em parcerias com grandes nomes da música brasileira contemporânea. Aclamada pela imprensa internacional, encantou Louis Armstrong, cantou em um festival com Aretha Franklin, chegou a substituir Ella Fitzgerald em uma turnê e foi homenageada por Beyoncé.

Ao ser perguntada no Roda Viva (2002) de onde vinha a sua força, ela respondeu:

“Eu me amo. Eu amo a vida. Você tem que continuar vivendo, você tá aí. Se você me perguntar o que é isso, nem eu sei. […] Acredito na vida, ainda acredito no ser humano. Ainda pode ser revertida esta história triste. Acredito muito na mulher brasileira e na mulher em geral. Acho que o que me faz viva é acreditar no ser humano.”

elza infinita

É por acreditar na mulher que as suas últimas obras a exaltaram: A Mulher do Fim do Mundo (2015) e Deus é Mulher (2018). Segundo o depoimento da atriz Késia Estácio, sobre como foi interagir com Elza Soares: “Ela olha dentro dos seus olhos, pega na sua mão, fala com você, diz coisas bonitas, te exalta, te fortalece. Em cinco minutos com a Elza, você sai um pouco deusa também”.

A forma como se fala, ou se canta, é diretamente influenciada pela subjetividade do indivíduo. Assim, a voz de Elza não poderia ser outra: ela declarou que a técnica que utilizava, o scat singing, vem como um gemido, que dói. A voz do milênio — segundo a Rádio BBC de Londres — era assim, gutural, e foi utilizada para dizer “o que se cala”. Não é somente a voz deste milênio, mas de todos, do agora. Ela afirmou-se mulher do fim do mundo, que canta até o fim, mas não há fim, porque Elza se expande infinita.


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