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Viva Elza, a mulher do fim do mundo

Elza Soares sempre foi verbo.

Verbo daqueles no sentido muito cru da definição, daqueles que determinam o tempo, e forte como a certeza de que tudo que é vivo, morre. Hoje (20), fez a passagem um dos verbos mais bonitos, intensos e apaixonados da música e da cultura brasileira.

Quando, em 1961, ela disse que o samba era Elza Soares, não foi uma descrição, um desejo, uma projeção. Foi apenas a constatação de um fato. Quando Elza começou a cantar, mudou a música para sempre. A minha e a sua.

Quando, na década de 80, foi esquecida, não aceitou e se fez vista, se fez ouvida. E em 2015, como A Mulher do Fim do Mundo, ela pede que a gente a deixe cantar até o fim, e a gente deixou. O tempo foi passando e Elza foi verbo, ela mesma provando para uma nova geração de apaixonados pela música tanto quanto ela, que poderia cantar para qualquer pessoa. Podia cantar qualquer ritmo. Poderia ser qualquer mulher.

Contanto que todas essas mulheres fossem Elza.

Foi apaixonada intensamente — por si mesma, a ponto de jamais desistir de se mostrar enquanto mulher, enquanto preta e enquanto artista, e pela música, mostrando que desde de samba e bossa negra a eletrônico, podia fazer de tudo.

Elza também foi apaixonada por Manoel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, considerado o melhor driblador da história do futebol. Os dois tiveram um relacionamento de 17 anos, manchado pelas agressões e humilhações que sofria de Garrincha, que era alcoolista. Mesmo assim, em entrevista ao Pedro Bial, ela disse que o maior amor de sua vida foi ele.

Mas não se engane, Elza sabia que era Elza, e dizia que Garrincha que era “marido da Elza”, não era ela que era “mulher do Garrincha”. E é bem verdade. Tanto que, 39 anos depois, Elza morre no mesmo dia, uma última mensagem ao eterno de que ela sempre foi mais importante. Em entrevista à Veja Rio, ela diz: “se pudesse, tinha casado comigo.”

Em 2020, o enredo da Mocidade cantou Elza, a própria música. “Eis a estrela/ Teu povo esperou tanto pra revê-la”. A verdade é que não precisava esperar, ela sempre esteve lá, e sempre estará. E não estava só para a música, estava para as causas LGBTQIA+, para as causas negras e para lutar pela demarcação indígena.

Elza Soares

Na roda de samba do Brasil, a cadeira de Elza sempre estará vazia, e nós, passando muitas horas tristes.

Mas vamos deixar a tristeza na roda e botando o samba pra tocar, que a música só termina quando a última pessoa para de cantar. E a única coisa que a gente não pode deixar é deixar de cantar Elza.

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