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The Lobster: o casamento como pilar de uma sociedade distópica e surreal – mas não impossível

Uma sociedade pautada pelo casamento, na qual ninguém pode permanecer solteiro, nem mesmo caminhar sozinho sem um certificado de união estável em mãos: esta é a distopia retratada por Yorgos Lanthimos em The Lobster. O longa lançado em 2015 conta a história de uma sociedade na qual todos, sem exceção, são obrigados a casar a partir de determinada idade. Os solteiros, viúvos e divorciados são imediatamente levados a um hotel de luxo, onde devem permanecer por 45 dias para que encontrem um cônjuge no local. Caso a pessoa falhe nessa missão de vida, será transformada (literalmente, por meio de cirurgia) no animal de sua preferência.

O protagonista, David (Colin Farrel), é abandonado por sua esposa, o que o obriga a ir para o hotel, ainda que a contragosto. No local, maior símbolo do sistema opressor apresentado pelo filme, os hóspedes são constantemente lembrados de que não podem viver sozinhos, que a vida em dois é muito melhor. Há propagandas diárias sobre o casamento, em uma pressão que muito se assemelha à exercida por famílias que impõe, principalmente sobre as mulheres, o casamento. Não é atoa que, no Brasil e em diversos outros países, por exemplo, existe o hábito de chamar mães solo de “mães solteiras”, ainda que o estado civil nada tenha a ver com a criação dos filhos.

Imediatamente após sua chegada, David é obrigado a passar um dia com uma das mãos imóvel, tendo que se virar somente com uma mão livre — metáfora que sinaliza que dois é sempre melhor que um. A masturbação, por sua vez, é proibida, mas as camareiras visitam os quartos dos homens diariamente para simular o sexo, estimulando-os, como animais, a encontrarem uma parceira. Não fosse doentio o suficiente, os opositores ao sistema, aqueles que querem ficar sozinhos, vivem em grupos, escondidos na floresta, e são chamados de solitários. Para os que vivem no hotel, existe a opção de aumentar o tempo de estadia ao capturarem um “solitário” durante caçadas periódicas, e a cada indivíduo, eles ganham um dia extra para encontrar o par perfeito. É uma guerra pelo bem comum: o casamento. Mas e o amor, onde fica nessa história?

O conceito de amor é completamente plastificado nessa sociedade, construído com base em características físicas em comum. Basta que duas pessoas tenham sangramento nasal para se apaixonarem, sentirem-se almas gêmeas. Nem mesmo os nomes importam — os personagens são chamados de “mulher míope” e “homem com a língua presa”, por exemplo. Dessa forma, as relações são vazias e superficiais — uma crítica ao monótono amor moderno, assim como é feito em Her (2013), distopia de Spike Jonze. Embora se passe em um futuro próximo, no entanto, The Lobster não menciona nada sobre redes sociais e tecnologia, como acontece em Her, o que é surpreendente. O filme ataca diretamente os relacionamentos modernos, sem profundidade e assentados em ferramentas como o Tinder que, como no longa, se utiliza de características que distinguem as pessoas na esperança de encontrar um match, ou par. Em determinado momento, o protagonista diz que “é mais difícil fingir que sente algo quando não está sentindo do que fingir que não sente quando está sentindo”, o que diz muito sobre o contexto daquele universo.

Quando David foge do hotel e se junta ao grupo de solitários, ele encontra seu amor verdadeiro, a mulher míope (Rachel Weisz), também narradora da história. O romance deles precisa ser clandestino, o que representa a dificuldade em encontrar a felicidade no amor. E, mesmo assim, eles sentem que necessitam ter algo em comum para ficar juntos — como o final do filme demonstra. Ou seja, mesmo entre os opositores ao sistema a opressão é algo enraizado.

À primeira vista, o universo de The Lobster parece distante da realidade por ser um sistema com posições iguais para homens e mulheres. Contudo, ao assisti-lo, é difícil não pensar na situação de países do Oriente Médio e da África, por exemplo, nos quais mulheres sofrem com a pressão do casamento desde cedo. Segundo dados da ONG inglesa Save The Children, a cada sete segundos uma menina com menos de 15 anos é obrigada a se casar no mundo, sendo a Índia o país no primeiro lugar do ranking mundial de casamentos infantis. O Brasil, no entanto, não está muito longe dessa realidade: ocupamos o 4º lugar na lista, atrás de países como Bangladesh e Nigéria, segundo a ONU Brasil.

Em todo o mundo, 15 milhões de meninas menores de 18 anos são submetidas a casamentos forçados anualmente, conforme o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). O casamento forçado é um problema real e atual, não apenas no mundo afora, mas também no Brasil. E quem mais sofre com isso são as meninas. Ou seja, na vida real a situação também é doentia, assim como The Lobster, mas talvez seja mais assustadora ainda.

Por outro lado, pelo menos no Brasil, não há nenhuma medida do governo para mudar esse quadro. Em vez disso, Damares Alves, ministra da pasta do Governo Federal — o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos — tem feito declarações favoráveis para uma deterioração do problema. “Como eu gostaria de estar em casa, toda tarde, numa rede, me balançando e o meu marido ralando muito, muito, muito para me sustentar e me encher de joias e presentes. Esse seria o padrão ideal da sociedade”, disse a pastora no dia 8 de março do ano passado, em entrevista. Ela também tem comentado sobre a falta de políticas públicas de planejamento familiar. Mas, afinal, que planejamento será este idealizado por ela?

Ainda que o Brasil tenha diversos agravantes, como o abuso sexual infantil por parte de familiares e o alto índice de feminicídios, que não são novidade para ninguém, é válido levantar esse debate quando se fala em sociedade, opressão e casamento. Mesmo que deixe algumas questões de fora, a distopia de Yorgos Lanthimos possui personagens femininas complexas e representa uma versão selvagem da realidade. A lagosta, animal escolhido por David caso tivesse de ser transformado, é um animal solitário, assim como as pessoas do filme — e da nossa sociedade.

Sofia Lungui é um projeto de jornalista e ex-musicista com as emoções à flor da pele. Tenta parecer menos pisciana neurótica do que realmente é. Santista perdida em Porto Alegre que sente falta da praia mas adora explorar os sebos. Sonha com uma vida em que não seja necessário dormir para que possa assistir e ler tudo o que gostaria.

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