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Bê-á-bá do autoritarismo em Como se Tornar um Tirano

“Quando se olha para a história humana, a liberdade não é a norma”, diz Andrew Sullivan, escritor e comentarista político, nos minutos iniciais do primeiro episódio da série documental da Netflix Como se Tornar um Tirano. Aos desavisados, segue o alerta: nossa democracia se aproxima cada vez mais da ruína, e esse é um movimento mundial.

Desde a sua criação, em 2014, o Instituto V-Dem, da Suécia, realiza um levantamento global dos regimes políticos e os resultados dos últimos anos apontam para um retrocesso na democracia em todos os cantos do mundo.

A preocupação com o status da democracia vem ganhando força com a eleição de presidentes como Donald Trump, mas já era objeto de análise há muito tempo. Baseada no livro de 2011, The Dictator’s Handbook: Why Bad Behavior is Almost Always Good Politics, escritos pelos cientistas políticos Bruce Bueno de Mesquita e Alastair Smith, a série documental revisita governos ditatoriais do século XX e XXI na Europa, Ásia e África e sinaliza que movimentos ditatoriais não são uma história acabada.

Narrado pelo ator Peter Dinklage, que atua também como produtor de Como se Tornar um Tirano, o documentário estadunidense apresenta por meio de seis episódios um manual de como se tornar um tirano. O passo a passo para atingir o poder nos regimes autoritários e para a manutenção das ditaduras é exemplificado através de ações de figuras notórias pelo cerceamento de direitos, perseguição política e massacres de milhares de civis. Apesar dos nomes citados na série compartilharem características descritas na “cartilha do autoritarismo”, como se autoproclamar um “homem do povo” para se aproximar do cidadão comum, cada episódio foca sua narrativa em um ditador e um aspecto de como o déspota conquistou o poder.

Adolf Hitler cercado por seus oficiais

Tome o poder

O primeiro episódio é centrado em Adolf Hitler, o artista fracassado que comandou multidões e se tornou um dos ditadores mais brutais da história. Ressentido com o resultado da Primeira Guerra Mundial, Hitler usou seu carisma e oratória para canalizar a frustração, raiva e descontentamento de grande parte da população alemã ante a situação em que o país se encontrava no pós-guerra.  Sua principal estratégia, como sabemos, e que é comum a todos os regimes autoritários, é eleger o grande inimigo da nação, responsável por todo e qualquer revés. Seu breve, porém sangrento, regime só obteve sucesso graças a importantes aliados, e a série da Netflix destaca a poderosa máquina de propaganda nazista.

Acabe com os rivais

O ditador iraquiano Saddam Hussein e a violência com que ameaçou e aniquilou opositores é o tema do segundo episódio. Antes mesmo de tomar o poder, Hussein, filiado ao partido Ba’ath, participou da tentativa de assassinato de Abd Al-Karim Qasim, então primeiro ministro iraquiano. Seu descontentamento com membros do partido o levou a forçar um líder político, mediante a tortura e ameaça, a confessar um plano conspiratório para derrubar seu governo e a denunciar os supostos conspiradores, todos presentes numa sala do congresso. A série aborda outros episódios de violência cometidos por Saddam Hussein, que não poupou membros da própria família.

Reine pelo terror

O próximo “capítulo” do manual adverte para o que pode ser uma grande pedra no sapato dos ditadores: a população. Para governar, é melhor ser temido ou amado? Idi Amin Dada, ditador de Uganda, escolheu a primeira opção, é claro. A série documental aponta que, ao longo dos oito anos do governo de Idi Amin, cerca de 300 mil ugandenses foram mortos ou desapareceram. Para apaziguar o povo que sofria com o desemprego e a miséria, Idi Amin expulsou a comunidade asiática presente no país. Nem mesmo os nascidos em Uganda tiveram misericórdia. A expulsão fez com que a popularidade de Idi Amin aumentasse, no entanto, foi também o início da sua ruína.

Controle a verdade

“Fatos alternativos”. O termo pode ser novo, mas a tática de manipular a verdade, um dos grandes inimigos dos ditadores, não é novidade. Joseph Stalin usou de propaganda, censura, combate à ciência e a rejeição de fatos que fossem contrários a sua ideologia, tudo para garantir que a sua versão da história fosse a oficial. Com a manipulação da verdade e da mente da população, fazendo as pessoas crerem que não podiam confiar em ninguém exceto seu grande líder, Stalin realizou seu expurgo. Conhecido como Grande Terror, a campanha sistemática stalinista de perseguição matou mais de 750 mil pessoas em dois anos.

Crie uma nova sociedade

Munidos do discurso de que tudo o que fazem é pelo bem na nação, aponta Como se Tornar um Tirano, ditadores almejam criar uma versão utópica do próprio país. O quinto episódio sugere que quem mais se empenhou nisso foi Muammar Gaddafi. O déspota líbio encontrou na carreira militar a saída para a pobreza e atingiu o poder aos 26 anos, por meio de um golpe de estado. Gaddafi proibiu sindicatos, ingestão de bebidas alcoólicas e até mesmo ações mundanas, como chamar um táxi. O tirano também escreveu o Livro Verde, leitura obrigatória nas escolas, cujo objetivo era reger a vida social, política e econômica da Líbia. A utopia de Gaddafi, como se sabe, não se concretizou.

Muammar Gaddafi

Governe para sempre

Desejo de todo ditador, manter o poder não é tarefa fácil. Todos os governos ditatoriais mencionados anteriormente morrem junto com seus tiranos. Para concluir seu manual da tirania, a série aborda a ditadura que sobreviveu ao tempo. A dinastia Kim da Coreia do Norte teve início com Kim Il-sung, conhecido como  Líder Eterno ou Grande Líder, o primeiro presidente do país após sua libertação do Japão. Para manter a população sob seu controle, Kim Il-sung isolou a nação e criou a filosofia Juche, que significa autossuficiência, cuja ideia central é que a Coreia do Norte depende apenas de sua própria força e da orientação do seu líder.  Herdeiro “do trono”, o filho mais velho de Kim II-sung, Kim Jong-il não mediu esforços para fabricar narrativas que mantivessem a família no poder, lançando mão de sequestro e cárcere privado. Gerando medo internacional com a ameaça de uma guerra nuclear, Kim Jong-il e, agora seu sucessor, Kim Jong-un, mantém o país longe de interferência externa e com a família Kim no comando.

Breve passeio pela tirania

Possivelmente um dos objetivos da produção, Como se Tornar um Tirano é uma série documental que entretém. Narrado pelo Tyrion de Game of Thrones, os episódios mesclam imagens de arquivo e sequências de animações que ilustram momentos notórios dos tiranos retratados e que procuram contribuir na construção do tom sombrio que uma narrativa que trata de regimes repressores pede. Ao mesmo tempo, concebem uma linguagem mais popular, capaz de atrair quem torce o nariz para documentários repletos de imagens em preto e branco. Esses elementos são costurados a entrevistas com historiadores, escritores e cientistas políticos, e revelam os instrumentos usados pelos ditadores para construir e manter seus regimes tirânicos.

O tom sarcástico e irônico da série, que se descreve como uma manual para se tornar um ditador, não se mantém constante durante a narrativa. Ao mesmo tempo em que é uma cartilha para a tirania, com o passo a passo para que aqueles que desejam soberania eterna, a série documental expressa de forma categórica que as figuras retratadas não passam de narcisistas cruéis e criminosos. O que, de fato, eles são. Mas seria muito mais ousado se a série se mantivesse restrita a sua premissa, o que exigiria um olhar mais crítico do público e, sobretudo, maior sofisticação do roteiro para evitar ruídos na comunicação.

A pouca complexidade revela o que Como se Tornar um Tirano realmente é: um apanhado geral sobre como se erguem governos ditatoriais. Divertida, é fácil acompanhar os seis episódios, cuja duração de apenas 30 minutos cada não permite um mergulho profundo nos meios usados para atingir o poder — como o apoio financeiro externo a muitas ditaduras e a cegueira voluntária de potências mundiais ante violações de direitos —, tampouco viabiliza o exame da vida dos ditadores apresentados.

Idi Amin Dada

Para quem nada conhece do tema, a produção é valiosa por introduzir fatos sobre algumas das figuras mais tenebrosas de nossa história, seus crimes hediondos e o que eles possuem em comum. Muitos podem se surpreender com o pouco que sabem sobre alguns deles, como Idi Amin e Muammar Gaddafi, figuras pouco ou nada exploradas nas aulas de história da escola ou na mídia quando o assunto é despotismo.

Para aqueles que já estão a par dos métodos básicos usados para derrubar democracias — e que percebem atualmente movimentos rumo a esse caminho —, falta um aceno mais explícito ao momento em que vivemos. É evidente que censurar, desacreditar a ciência e perseguir opositores políticos ainda são armas poderosas, mas governos autoritários não mais nascem de golpes de estado — com exceções, como Mianmar. Em diversos lugares, presidentes eleitos democraticamente flertam com o fascismo e desejam governar seus países como autocracias. Um exemplo é o polonês Andrzej Duda, cuja campanha de reeleição foi centrada na proteção da família contra uma suposta ameaça LGBT. No Brasil, os militares surfaram na popularidade de Jair Bolsønaro para retornar ao poder, fazendo o uso do mesmo bode expiatório que serviu como justificativa para sequestros, torturas e assassinatos na ditadura militar.

O presidente brasileiro — notório pelos seus esforços em promover desinformação e cercear liberdades —, assim como Trump e muitos outros, se beneficiaram dos algoritmos das redes sociais, que estão mudando a forma como nos relacionamos. O escândalo da Cambridge Analytica, o papel do Facebook também na crise em Mianmar e a promoção de vídeos de discurso de ódio e desinformação pelo YouTube revelam as novas formas de manipular a verdade e controlar informações. Pessoas com fantasias fajutas de Zé Gotinha não precisam mais se reunir no porão da casa da mãe de alguém ou queimar cruzes na calada da noite. Elas agora encontram segurança e um suposto anonimato em fóruns onde podem vomitar seu ódio, capaz de nutrir governos antidemocráticos.

É fato que as redes sociais ou fóruns de discussão não são os grandes culpados pelo cenário perigoso em que diversas nações se encontram, mas extermínios em massa como o holocausto, o genocídio armênio ou de Ruanda, que antes levaram décadas ou até mesmo  séculos para serem concretizados, hoje podem ocorrer muito mais rápido do que se imagina em virtude da velocidade e descontrole com que as informações — e as fake news — se propagam.

Essas discussões poderiam ser abordadas numa possível segunda temporada, atualizando assim o “manual” e aproximando ainda mais o público da realidade atual. No mais, Como se Tornar um Tirano é uma porta de entrada para os meandros do poder ditatorial e traz falas importantes, como a do escritor e historiador britânico Guy Walters, ao comentar sobre a resignação do povo alemão ante o fascismo: “Se acreditarmos genuinamente que temos um inimigo em nosso meio, vamos querer que nossos políticos façam algo a respeito. É muito fácil ficarmos de braços cruzados e dizermos: ‘eu nunca cairia nos encantos sedutores de um tirano como Hitler’. Garanto que você cairia.”

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