Categorias: TV

A influência de Cris Morena na ficção infantojuvenil

Existem algumas memórias ficcionais coletivas entre as gerações de crianças e adolescentes que cresceram a partir dos anos 2000. Uma delas é ouvir uma canção de Quase Anjos ou Floribella e ser transportada diretamente para a frente das televisões de tubo enquanto as novelas passavam na Bandeirantes. E seja a geração de Chiquititas de Fernanda Souza, Carlas Dias ou Giovanna Grigio, a história das crianças do orfanato Raio de Luz estão marcadas nas memórias afetivas. Enquanto que o sucesso do comeback do RBD mostrou como anos após o término da versão mexicana de Rebeldes, a história ainda está viva na mente do público. Além de serem todas produções latinas e um enorme sucesso no Brasil, essas histórias têm outro ponto em comum: as versões originais foram criadas pela argentina Cris Morena. A produtora é responsável por 14 formatos próprios reproduzidos em 40 países, 73 álbuns musicais com mais de 14 milhões de cópias vendidas e 70 prêmios argentinos e internacionais, segundo o site do Cris Morena Group.

María Cristina de Giacomi, nome verdadeiro de Cris Morena, é uma atriz, apresentadora, compositora, produtora e diretora argentina. Ganhou destaque ao apresentar Jugate Conmigo, um programa de variedades transmitido por quatro anos, entre 1991 e 1995, e primeira ligação de Cris com o público adolescente. Logo após o fim de Jugate Conmigo, produziu a telenovela infantil mais comercializada até hoje: Chiquititas. A trama acompanhava as crianças do orfanato Raio de Luz e suas mentes cheias de imaginação enquanto cresciam e viviam aventuras. A versão original foi ao ar entre 1996 e 2006 e transmitida em 36 países. No caso do Brasil, a novela ganhou duas versões nacionais, produzidas pelo SBT em parceria com Cris Morena. A primeira delas foi ao ar entre 1997 e 2001, e revelou artistas como Bruno Gagliasso e Fernanda Souza. Entre 2013 e 2015, uma nova versão foi exibida e mesmo cinco anos depois do fim, o fato da novela não sair do top 10 mais assistidos da plataforma de streaming Netflix até virou meme nas redes sociais.

Para a pesquisadora Gabriela Tudela Ramos, a partir de Chiquititas, Cris Morena desenvolveu e aperfeiçoou sua narrativa guia para todas as futuras produções: o dia a dia de protagonistas adolescentes que convivem com música, dança e magia. O que a produtora faz é vender formatos de programas para serem adaptados à realidades locais. É o caso de Chiquititas, que tem versões no Brasil, México e Romênia, e de várias outras histórias criadas por ela. Uma das características das produções é a transmissibilidade, isso quer dizer que além das histórias das novelas, o público continua consumindo as produções por meio dos álbuns de músicas, filmes, revistas, peças de teatro e shows ao vivo. E apesar do grande fluxo de conteúdos, Cris Morena é conhecida por acompanhar todas as etapas de produção. Além disso, o merchandising é muito forte nas obras. Com base nas novelas são criados bonecos, materiais escolares, maquiagens, figurinhas, doces, vestidos, entre outros. Não é vendida apenas uma história na televisão, mas toda uma cultura relacionada a narrativa das novelas. Da versão brasileira de 2013 de Chiquititas, por exemplo, as mechas coloridas da personagem Bia (Raissa Chaddad) se popularizaram rapidamente entre a audiência da novela.

Outra das características de suas produções é a estreia de atores juvenis que, a partir de seus desenvolvimentos, se consolidam no mercado. Foi em novelas de Cris Morena que artistas argentinas como Lali Esposito, Candela Vetrano e Oriana Sabatini fizeram suas estreias. No caso brasileiro, remakes de produções originais da produtora revelaram, por exemplo, Sophia Abrahão, Giovanna Grigio e Chay Suede. Esse formato de produzir consolidado fez com que outras produções originais Cris Morena alcançassem sucesso na Argentina e em âmbito internacional.

Apesar do êxito de Chiquititas desde sua versão original de 1996 e da próxima produção de Cris, Verano Del 98 (1998-2000), a produtora e o canal Telefe tiveram desentendimentos criativos e rompem a relação. Cris atribui parte do sucesso de suas produções a sua liberdade de criação, como falou em entrevista: “Sempre escolhi meus projetos durante toda a minha vida, nunca fiz nada por encomenda. Nunca. Não sou uma produtora comissionada, como a maioria dos produtores. Eu faço o que gosto e se não gosto, não faço ou faço com outras pessoas que me dão o que eu quero, e não é financeiramente” (tradução nossa — “Siempre elegí toda mi vida mis proyectos, nunca hice nada por encargo. Nunca. Yo no soy una productora de encargos, como la mayoría de las productoras. Hago lo que a mí me gusta y si no me gusta no lo hago o lo hago con otra gente que me dé lo que yo quiero, y no es en lo económico”). Em 2002, após o corte com a Telefe, Cris se torna a primeira mulher argentina a criar sua própria produtora de televisão, o Cris Morena Group.

A produção pioneira do grupo foi Rebelde Way (2002-2003), que acompanhava adolescentes de diferentes classes sociais convivendo em um colégio interno de elite. A novela foi criticada por parte da sociedade argentina, como mostrava cenas de sexo, transtornos alimentares, uso de drogas e relações de corrupção entre pessoas do poder. Um de seus remakes foi a versão brasileira, chamada de Rebelde e produzida pelo Grupo Record em 2011 e 2012. A novela teve uma média entre 6 e 9 pontos de audiência no Ibope. Porém, a versão que se tornou mais conhecida em toda a América Latina foi a mexicana, produzida entre 2004 e 2006 e que deu origem à banda RBD. O grupo até 2009, ano em que se separou, conquistou seis discos de diamante, 82 de platina e 71 de ouro. Em setembro de 2020, a discografia do RBD foi liberada em plataformas de streaming e bateu novos recordes. No final de 2020, quatro dos membros originais do RBD se reuniram para a transmissão de uma live com músicas da banda e uma nova turnê será realizada em 2022, mais de 10 anos depois do fim da novela e separação do grupo.

Em 2004, Floricienta foi lançado no Canal 13, uma emissora argentina pequena se comparada com a Telefe que havia exibido suas produções até então. Porém, a novela chamada de “Cinderela dos Anos 2000” também faz sucesso e é exportada para outros países. Já em 2005, Cris produz uma sitcom na Argentina chamada de Amor Mío, e em 2006 lança Alma Pirata, que não repercutem no âmbito internacional como outras produções. Baseado em Floricienta, em 2005 a Bandeirantes lançou Floribella e teve uma média entre 3 e 5 pontos de audiência. A trama acompanha Maria Flor, uma jovem de origem humilde, vocalista de uma banda, que trabalha como babá para uma família rica e se encanta por Frederico Fritzenwalden, irmão mais velho das crianças que cuida. Recentemente, a novela foi reprisada pela Bandeirantes e manteve o canal na 4º colocação de audiência.

Casi Ángeles, outro dos sucessos de Cris Morena, foi lançado na Argentina em 2007 e teve quatro temporadas até 2010, ano em que chegou ao Brasil pela Bandeirantes, com o título de Quase Anjos. Ao contrário de outras novelas que ganharam novas versões, a trama original foi exibida no Brasil. A história mistura três dos elementos característicos da produtora: música, dança e magia, e gira em torno de cinco órfãos que vivem em uma fundação e são explorados pelo diretor da instituição que os obriga a trabalhar em uma fábrica. Após fugirem, eles se juntam ao Circo Mágico. No desenvolvimento da trama, os cinco formam o grupo musical Teen Angels, encontram seres místicos e desenvolvem habilidades mágicas, como viagem no tempo. A transmissão da novela triplicou a audiência da Bandeirantes.

Já no âmbito pessoal, 2010 foi o ano em que a filha de Cris Morena, Romina Yan, faleceu de parada cardíaca aos 36 anos. Romina foi a protagonista da versão original de Chiquititas e da sitcom Amor Mío. Após a perda, Cris ficou afastada por um tempo do trabalho para lidar com seu luto. O retorno como produtora foi na novela Aliados (2013-2014), série de duas temporadas transmitida pela Telefe, na Argentina. A trama foi negociada para exibição pela Bandeirantes no Brasil, mas o acordo não foi concretizado. A história acompanha seres de luz, que são enviados para ajudar seis jovens com diferentes problemas sociais a mudar de vida e provar que a humanidade tem salvação.

Entre os temas abordados na trama estão transtornos alimentares, dependência química, bullying, doenças mentais, relacionamentos abusivos e relação com a morte. Como em outras produções, a música, dança e magia são elementos centrais no decorrer da narrativa. A história nasceu a partir da canção “Amor Mío”, interpretada por Oriana Sabatini e composta por Cris enquanto recordava Romina. A música fala sobre um amor eterno, a dor da perda e a esperança no reencontro. A produtora dedicou Aliados à sua falecida filha e em entrevista falou que a produção do seriado foi sua forma de lidar com o luto e voltar a se concentrar na arte de produzir e criar histórias.

Entre os trabalhos mais recentes de Cris Morena como produtora executiva está a série canadense do Discovery Kids, Big Top Academy, que acompanha um grupo de jovens em um colégio circense interno. Na Argentina, ela anunciou em março de 2020 a iniciativa Otro Mundo, que funciona como uma incubadora de novos artistas. Crianças e adolescentes participam de diversos treinamentos artísticos e têm a chance de serem vistos por produtoras, canais de televisão e plataformas digitais. Neste ano, Cris anunciou que está produzindo um documentário sobre a vida de Romina, a filha que faleceu em 2010, mas não há previsões de novas produções ficcionais para a televisão argentina.

Em entrevista, Cris Morena justificou o afastamento das emissoras locais porque na atualidade as empresas do país não estão investindo em produções voltadas ao público infantojuvenil: “Nós éramos os grandes exportadores de projetos, principalmente para crianças e adolescentes, que ainda são vistos em todo mundo a todo momento. E passamos a estar muito atrás de outros países, como Israel e Espanha, porque deixamos de fazer produções com qualidade para exportação” (tradução nossa — “Nosotros éramos los grandes exportadores de proyectos, sobre todo con proyectos de niños y jóvenes, que se siguen viendo en todo el mundo todo el tiempo. Y pasamos a estar mucho más atrás de otros países como Israel, España, porque se dejaron de hacer cosas realmente de calidad para exportación”).

Porém, nesse período produções argentinas destinadas ao público infantojuvenil foram exportadas para outros países, como é o caso de produções da Disney, como Violetta e Sou Luna, e da Netflix, como Go! Viva do seu Jeito e Kally’s Mashup. Vale destacar que as quatro séries argentinas com reproduções internacionais têm elementos de música e dança, características das produções de Cris Morena e que se tornaram marcas do audiovisual argentino infantojuvenil. Apesar de não estar produzindo no momento, os traços da influência da produtora estão vivos em diferentes obras audiovisuais e também em histórias marcadas na memória do público.


REFERÊNCIAS:

CONTO, Fernando de. GARAVELLO, Renan Valente. Movida Entretenimento e a venda de formatos: um novo nicho de mercado.
RAMOS, Gabriela Tudela. Construyendo identidades globales adolescentes: La serie de  televisión juvenil Casi Ángeles y su rol en la formación  de la identidad y adopción de valores en los adolescentes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *