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Três Línguas: o jogo linguístico de Verônica Ramalho

Três Línguas nos tocam no livro da escritora paulista Verônica Ramalho. Premiado pelo Programa de Ação Cultural São Paulo e publicado pela Editora Córrego, a obra permite que leitores tenham um contato específico com o órgão localizado na boca, um músculo forte que prova sabores e texturas e também é anatomicamente responsável pela produção da segunda língua da qual fala o título: o conjunto de elementos que compõem a linguagem falada ou escrita. A terceira língua que a autora nos deixa provar é a língua portuguesa, cujos sons e significados são explorados ao longo das páginas, que recebem ilustrações e capa de Gabriela César.

Talvez o livro não seja palatável a todos, mas a intenção da autora parece ser justamente deixar a angústia atravessada em nossa garganta, atravancando os caminhos das três línguas para que só assim possamos senti-la. Como quando nos machucamos, e só aí percebemos o quanto uma parte do corpo é importante para nós. Os poemas curtos podem parecer enigmáticos se levarmos em conta apenas o sentido das palavras, e também podem ser trava-línguas que exploram sonoridades novas.

O livro mistura os sentidos do som com os sentidos da grafia, levando leitores a uma experiência única de experimentações e entendimentos da linguagem. Dividido em três partes onde códigos distintos se formam, “Deos”, “Antígona” e “Jardim” exploram imagens, sons e significados que vão construindo uma identidade única para cada uma das divisões.

Ainda que abra a possibilidade para outras camadas de entendimento, “Deos” propõe a língua principalmente como órgão do sentido e vai traçando significados para o contato entre o falar e o dizer representados pelas imagens da língua e da orelha. Nos poemas curtos, que podem ser compreendidos como trechos de uma só obra mais longa ou ainda como peças de um quebra-cabeça que ainda assim formam imagens por si só, a investigação do sentido busca preencher as possibilidades de compreensão das palavras e também diversos vazios que vão sendo observados nesta primeira parte. Os trechos brincam bastante com os sons e vão remetendo à anatomia e à biologia para nos despertar imagens sonoras confusas, como um recém-chegado ao mundo tentando captar com órgãos do sentido o lugar que acaba de acontecer.

“Antígona” sai desse circuito língua-orelha-vazio e começa a explorar sobretudo o ambiente urbano em poesias um pouco mais longas. Aqui, talvez, seja o espaço aonde somos levados depois de compreender minimamente o mundo. Nestes lugares com elementos cotidianos, o corpo — antes apenas percebido com os sentidos — vai aprendendo uma língua — como uma criança que começa a aprender a falar. A linguagem sucinta acompanha este segundo momento e propõe novas formas de sentir as palavras, fazendo com que saiam, em alguns momentos, das classes gramaticais e ordens sintáticas esperadas, sugerindo a quem lê novas formas de pensar significados conhecidos. Também há uma gama de palavras pouco usuais que começam a surgir, nos convidando a redescobrir novos percursos onde se pode passar com a língua portuguesa.

Se nos remetemos ao mito grego de Antígona, em que a personagem título vive um dilema para conseguir enterrar o corpo de um familiar amado, a tragédia registrada por Sófocles aponta novos sentidos. Esta coleção de poemas talvez se refira tanto a elementos próximos ao chão por nos lembrar que, por mais doloroso que seja, enterrar nossos mortos é necessário pois nossa história com aquilo que se foi é como uma semente: uma parte nossa que morre para que algo maior germine.

Ao contrário da morte natural e dos processos de decomposição, enterrar nossos mortos é um ritual de colocar sob a terra, como no cultivo de plantas. Talvez essa seja a razão para termos uma terceira parte com o nome de “Jardim”. Nesta divisão, continuamos com poemas não tão curtos quanto os da primeira parte. Agora eles são um pouco mais extensos, como os da segunda, e as palavras remetem a este lugar entre a natureza e o cultivo, onde os elementos biológicos e fisiológicos encontrados em “Deos” se encontram com algo de urbano de “Antígona”. Esta última divisão é um híbrido entre a atenção ao som e ao significado presentes anteriormente, onde também há a proposta de surpreender leitores com palavras pouco conhecidas e inesperadas. É neste jardim que há um renascimento dos sentidos e uma ideia de retorno livre ao primeiro passo dessa jornada de entendimento do mundo.

três línguas

O livro de Verônica Ramalho pode não ser de fácil compreensão para quem não tem o costume de brincar com as palavras. Se deparar com palavras em jogo talvez seja um ritual do qual estejamos afastados, como sugere o filósofo Byung-Chul Han em O Desaparecimento dos Rituais.

“A linguagem como meio de informação não tem brilho. Não seduz […]. Nos poemas a linguagem joga. Por esse motivo não temos lido mais poemas. Poemas são cerimônias mágicas da linguagem. O princípio poético restitui á linguagem o desfrute, na medida em que quebra radicalmente com a economia da produção de sentido. O poético não produz. A poesia é, por isso, uma ‘insurgência da linguagem contra suas próprias leis’ que servem á produção de sentido. Nos poemas a gente desfruta da própria linguagem. A linguagem trabalhadora, informacional, ao contrário não pode ser desfrutada. O princípio do trabalho é oposto ao princípio do desfrute.”

A angústia do caos talvez tenha um brilho forte demais para quem tem medo de línguas desorganizadas, absurdas, surreais e querendo nada mais que explorar tudo ao redor, nesse jogo de entendimento, sentimento e falta de sentido. Mas é justamente esta liberdade que é bonita de se ver na poesia de Verônica Ramalho: um jogo mágico, místico e sobretudo linguístico.


O exemplar foi cedido como cortesia pela autora.

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