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Crítica: O Destino de Uma Nação

9 de maio de 1940. O então primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain (Ronald Pickup), perde formalmente o apoio majoritário do Parlamento, fator este que vai determinar sua renúncia ao cargo. Na época, Chamberlain era considerado incapaz de conduzir o Reino Unido frente à ameaça nazista, em especial após a quebra do Acordo de Munique pelos alemães, em 1939. O documento fora assinado no ano anterior e determinava que o território correspondente à antiga Checoslováquia deveria ser entregue à Alemanha, que concordava em não reivindicar quaisquer outros territórios. Era um importante passo para a manutenção da paz, Chamberlain acreditava, ou em suas palavras exatas “I believe it is peace for our time” (“Acredito que será a paz para o nosso tempo”, em tradução livre), e tanto o povo quanto o próprio Parlamento acreditavam junto com ele. A invasão alemã à Polônia, contudo, pôs fim ao acordo e também à política de apaziguamento adotada pelo governo britânico, que não viu outra saída senão declarar guerra — o que vai evidenciar o despreparo do então primeiro-ministro diante do conflito. Após a renúncia, coube ao próprio Chamberlain indicar um sucessor apto a governar o país, fosse durante a guerra, fosse em tempos de paz. Entre os nomes sugeridos, destaca-se, inicialmente, o do Conde de Halifax (Stephen Dillane), que à época atuava como Secretário de Relações Exteriores, mas não é preciso ir muito longe para saber que Halifax jamais chegou a ocupar o cargo.

Quando Winston Churchill (Gary Oldman) assume como primeiro-ministro, o país está em uma posição bastante vulnerável (a fraca condução de Chamberlain, afinal, fez seu estrago) e é com alguma desconfiança que seu nome é recebido pelo Parlamento, e também pelo Rei George VI (Ben Mendelsohn), que muito pouco pode fazer diante da nomeação. Embora fosse um homem experiente, sobretudo em conflitos armados, tendo servido ao Exército Britânico e lutado tanto na Segunda Guerra Boer quanto na Primeira Guerra Mundial, em retrospecto, algumas de suas falhas pesavam em desvantagem (como a Campanha de Galípoli e o fim do padrão-ouro no Reino Unido), mas isso jamais parece se tornar um problema para o próprio Churchill, que tem mais dificuldade em lidar com as pessoas ao seu redor do que com opiniões exacerbadas ao seu respeito. Em contraste com os tempos inegavelmente escuros sobre os quais o filme se debruça e que são referenciados em seu título original, a primeira aparição de Churchill não tem a pompa, tampouco a circunstância que são características das grandes figuras políticas da História. Antes dos títulos e dos feitos, é preciso que conheçamos o homem, e esse homem, por vezes, é apenas um velho rabugento de roupão em um quarto claustrofóbico. 

O Destino de Uma Nação

Joe Wright e Anthony McCarten, respectivamente diretor e roteirista, optam por uma representação mais humana e vulnerável do então primeiro-ministro, que se apresenta a um olhar mais gentil e aberto a esse tipo de nuance. Longe de ser uma alternativa nova (“Assassins”, nono episódio da primeira temporada de The Crown, já havia sido bastante eficiente em explorar o lado mais humano e frágil de Churchill na tela pequena, por exemplo), O Destino de Uma Nação acompanha um período em que esses traços ficam menos óbvios e perdem espaço diante do contexto — justamente quando ascende como um grande líder.

Enquanto The Crown se utiliza de um cenário em que a fragilidade torna-se mais compreensível, até mesmo natural, e é identificada com maior facilidade, O Destino de Uma Nação constrói uma narrativa que, na contramão, busca explorar os bastidores daquele que foi o maior momento da carreira de Churchill. É evidente que suas maiores dúvidas e conflitos, sejam pessoais ou nem tanto, continuam a ser resultado de situações muito específicas, que se relacionam intimamente com o período em que se ambienta a história — que no filme se restringe ao espaço de tempo retratado pelos seus primeiros meses como primeiro-ministro, ao passo que a série vai limitar-se ao período que corresponde ao seu segundo mandato. Em perspectiva, os problemas enfrentados em meio a uma guerra são substancialmente maiores do que as adversidades que permeiam o segundo mandato, que vão desde a resistência do Partido Conservador em mantê-lo no cargo, até sua dificuldade em aceitar a verdade inescapável, que é a de que está ficando… velho. A forma como vai lidar com cada um desses problemas, no entanto, é o que mantém todas essas questões unidas, separadas por uma linha tão tênue que se torna um desafio separar a pessoa Winston Churchill do político, orador notável, maior britânico de todos os tempos, etc. etc.

O Destino de Uma Nação

É Clementine (Kristin Scott Thomas), esposa de Churchill, quem vai chamar a atenção para como a carreira pública do marido sempre interferiu em sua vida privada. Em uma pequena reunião familiar, na presença dos filhos e do marido, ela conta que sempre soube que se casara com um homem público, a quem a carreira sempre estivera em primeiro lugar, o que significava estar sempre, ela mesma, em segundo plano. Não há qualquer traço de rancor, tampouco arrependimento em suas palavras, mas é notório como elas soam melancólicas. O incômodo surge não sem alguma razão, principalmente se pensarmos em uma inversão de papéis, cujo resultado dificilmente seria o mesmo. É curioso, no entanto, como o roteiro se apropria de uma situação complicada não como forma de colocar em xeque o casamento ou questionar se existe amor entre eles — o que, pelo contrário, jamais é posto sob qualquer dúvida —, mas de modo a revelar uma relação tão complexa quanto as pessoas que dia após dia a constroem. Clemmie serve, em grande medida, para humanizar a figura de Churchill e nos apresentar ao homem por trás dos títulos (“quero que os outros te amem e respeitem como eu”, ela vai dizer durante mais um dos acessos de grosseria do marido), mas não é só isso. Clemmie existe, para além de Churchill, como uma mulher multifacetada, que vai enfrentar as próprias questões e ter conflitos muito particulares. O Destino de Uma Nação é, inegavelmente, um filme sobre Winston Churchill e todos os outros personagens são, para o bem ou para o mal, coadjuvantes que vão orbitar ao seu redor. Clemmie está, de certa forma, próxima e distante disso: ela ainda é a primeira-dama sempre impecável, a quem se reserva a tarefa de fazer tudo para tornar mais fácil a vida do marido, ainda que isso signifique tornar a sua mais difícil em comparação, mas consegue ir além, sendo desde a esposa apaixonada até o pilar da família, ou então a mulher que admite para si mesma, na frente do espelho, estar sempre muito cansada.

Nada disso a torna necessariamente uma protagonista — ela não chega a ter presença suficiente para isso —, mas são nuances que a estabelecem como uma figura importante, e muitas vezes decisiva, na manutenção da vida pública de Churchill. O Destino de Uma Nação chama a atenção para um trabalho que acontece principalmente nos bastidores, escondido pela pompa e pela circunstância, mas tão fundamental quanto aquele realizado frente ao público. Diferente de personagens que existem apenas para isso ou aquilo — como o próprio Conde de Halifax, a quem é atribuída a tarefa de ser a grande pedra no sapato de Churchill —, Clemmie consegue ser uma mulher tão complexa quanto complicada, que pode ser isso e também aquilo, tudo ao mesmo tempo; o que, se não a torna uma protagonista, ao menos a faz uma coadjuvante memorável.

O mesmo não pode ser dito sobre Elizabeth Layton (Lily James), a jovem secretária pessoal de Churchill. É ela quem conhecemos primeiro, naquele que seria seu primeiro dia de trabalho, e seu olhar conduz parte dos acontecimentos do filme, numa época em que mulheres não eram permitidas ter conhecimento sobre aquilo que realmente estava acontecendo; ela mesma uma espectadora de seu tempo. Na vida real, Layton (Nel, após o casamento) foi, de fato, secretária pessoal de Churchill, de 1941 até 1945, período que mais tarde seria destrinchado em seu livro de memórias, intitulado Mr. Churchill’s Secretary, em sua primeira edição, e Winston Churchill By His Personal Secretary Elizabeth Nel em edição mais recente, lançada pouco antes da morte da autora, aos 90 anos. Em O Destino de Uma Nação, Ms. Layton, como fica conhecida, é uma presença constante: ela está lá em momentos importantes da história do Reino Unido — como o famoso discurso de posse, redigido por ela, em que Churchill vai dizer não ter nada a oferecer, exceto sangue, suor e lágrimas, não necessariamente nessa ordem — ou para a história do mundo — como o planejamento do que mais tarde viria a ser a Operação Dínamo, cuja execução é explorada em outro filme indicado ao Oscar, Dunkirk, e pelo próprio Joe Wright, em Desejo e Reparação —, mas seu papel dificilmente seria considerado fundamental.

O Destino de Uma Nação

Se lhe falta voz ativa, no entanto, o filme é apropriadamente sensível ao construir sua relação com Churchill, que em muito se assemelha a de aprendiz e mentor, embora não exatamente. Elizabeth não possui conhecimentos a respeito de estratégias de guerra, tampouco tem acesso à maior parte das informações sobre aquilo que acontecia no front e que circulavam em seu local de trabalho — essas, quase sempre, reservadas aos homens. Eram as regras, muitos diriam, e nada disso era realmente necessário para o desempenho de sua função como datilógrafa, mas enquanto cidadã, Layton desejava ter acesso àquelas informações, como muitos cidadãos desejavam, mas não tinham, fossem homens, fossem mulheres. A população, efetivamente, muito pouco sabia sobre a guerra ou a situação do país no conflito, embora fossem seus familiares a morrer no campo de batalha. É Elizabeth quem vai jogar luz sobre aquilo que acontecia longe dos olhos do Comitê de Guerra ou do próprio Parlamento, sobre a realidade daqueles que ficavam em casa. Quando Churchill revela seus planos sobre a Operação Dínamo, dos quais já não tem mais tanta certeza, Layton, num misto de tristeza e empatia (porque isso não vai trazer seu irmão morto de volta, mas pode trazer os irmãos de outras pessoas de volta), conta que perdera um irmão em Dunquerque, na França, uma revelação que, no filme, vai motivar o próprio Churchill a tornar a operação um feito real. Anos mais tarde, Layton escreveria que:

“Sometimes [while dictating a letter] his voice would become thick with emotion, and occasionally a tear would run down his cheek. As inspiration came to him, he would gesture with his hands, just as one knew he would be doing when he delivered his speech, and the sentences would roll out with so much feeling that one died with the soldiers, toiled with the workers, hated the enemy, strained for victory… That great man — who could at any time be impatient, kind, irritable, crushing, generous, inspiring, difficult, alarming, amusing, unpredictable, considerate, seemingly impossible to please, charming, demanding, inconsiderate, quick to anger and quick to forgive — was unforgettable. One loved him with a deep devotion. Difficult to work for — yes, mostly; loveable — always; amusing — without fail.”

“Às vezes, [ao ditar uma carta] a voz dele soava carregada de emoção, e ocasionalmente uma lágrima escorria pela sua bochecha. Quando a inspiração lhe vinha, ele gesticulava as mãos, da maneira que qualquer um sabia que ele faria quando estivesse discursando, e as frases saíam com tanto sentimento que as pessoas morriam junto com os soldados, labutavam com os trabalhadores, odiavam o inimigo, se esforçavam pela vitória… Aquele grande homem — que poderia, a qualquer momento, ser impaciente, gentil, irritável, esmagador, generoso, inspirador, difícil, alarmante, divertido, imprevisível, atencioso, aparentemente impossível de agradar, encantador, exigente, imprudente, rápido em se enraivecer e perdoar — era inesquecível. As pessoas o amavam com profunda devoção. Difícil trabalhar para ele — sim, na maior parte; amável — sempre; divertido — sem dúvida.”

Em sua crítica para o The GuardianPeter Bradshaw chama a atenção para algumas semelhanças entre produções centradas na figura de Winston Churchill — como a sempre presente secretária jovem e bonita ou a esposa dedicada que está sempre lá para vesti-lo —, evidenciando o óbvio: já ouvimos essa história antes. O que salva O Destino de Uma Nação de se tornar ordinário e, pelo contrário, o transforma em um filme realmente ambicioso e diferente dos demais, Bradshaw diz, é a performance de Oldman, tão inegavelmente ambiciosa em si mesma. Há alguma verdade em sua afirmação, e várias premiações já foram mais rápidas em validá-la como tal, mas vou além: se existe algo realmente extraordinário sobre O Destino de Uma Nação (e aqui é preciso lembrar que extraordinário e revolucionário têm definições bastante distintas) é sua imensa capacidade em olhar para aquilo que existe de mais humano e vulnerável em seu protagonista, sem jamais ignorá-las ou tratá-las como algo inferior. Como o próprio Bradshaw nos lembra, existe espaço para uma abordagem mais cética sobre a vida de Churchill. No entanto, se vivemos em um mundo onde homem que é homem não chora, Churchill é não apenas um homem que chora, que se emociona, que se sente inseguro e vulnerável, que é gentil e encantador, mas também o homem que salvou uma nação inteira sendo todas essas coisas. Há muito espaço para esse tipo de abordagem.

O Destino de Uma Nação é, por vezes, um filme que se desloca de sua própria realidade para imaginar um Winston Churchill que pega o metrô como um cidadão qualquer porque seu carro ficou preso no trânsito, que conversa com o povo e lamenta junto com ele. Um Churchill que chora em um quarto escuro porque não sabe o que está fazendo, porque todos os seus planos caíram por terra, e é só quando o próprio Rei da Inglaterra vem lhe dar algum apoio, em um momento tão bonito quanto vulnerável, é que ele se permite acreditar de novo. Só Deus sabe como precisamos voltar a acreditar também.

O Destino de Uma Nação recebeu 6 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Ator (Gary Oldman), Melhor Fotografia (Bruno Delbonnel), Melhor Maquiagem e Cabelo (David Malinowski, Lucy Sibbick e Kazuhiro Tsuji), Melhor Figurino (Jacqueline Durran), Melhor Design de Produção (Sarah Greenwood e Katie Spencer).


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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1 comentário

  1. Adorei! Eu adoro ver David Strathairn participando de filmes, sigo muito o trabalho deste ator, sempre me deixa impressionada em cada nova produção. Eu gostei e você? Me surpreendeu o ator. Seu trabalho é excelente como neste filme. Sigo muito os filmes com David Strathairn, sempre me deixa impressionada em cada nova produção. O vi recentemente em um bon filme chamado Meu Jantar com Hervé, foi um dos melhores filmes de açao, se você esta procurando assistir filme drama eu recomendo!, o êxito do filme se deve muito ao grande elenco que é bastante conhecido pelo seu grande trabalho. Foi o meu filme preferido.