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Good Girls, 2ª temporada: crime, consequência e amizade feminina

A primeira temporada de Good Girls me deixou querendo mais. Então, enquanto navegava pela segunda temporada, procurei como os novos episódios estavam (ou não) resolvendo essas pendências. A série que traz três amigas que tentam equilibrar suas vidas de donas de casa com uma participação crescente no mundo do crime organizado parece estar se encontrando no andar da carruagem. A segunda leva de episódios trouxe novas camadas para a trama, caminhou no desenvolvimento de personagens e encontrou um bom balanço entre drama e comédia. Mas ainda não alcançou tudo o que poderia ser.

Aviso: este texto contém spoilers!

Depois de decidirem roubar um supermercado para pagar as dívidas e acabarem enterradas até o pescoço nas atividades de uma gangue de lavagem de dinheiro, Beth (Christina Hendricks), Ruby (Retta) e Annie (Mae Whitman) são levadas a situações cada vez mais extremas. A primeira temporada acaba em suspense: Beth chega em casa e encontra Rio, o chefe de gangue perigosamente charmoso e misterioso interpretado por Manny Montana, sentado à mesa com seu marido, Dean (Matthew Lillard). A protagonista tem uma arma entregue em suas mãos e a cobrança para que tome uma decisão, provando se está dentro ou se está fora desse mundo do crime que passou a perseguir. Essa cena final é quase como uma introdução a um tema que vai voltar várias vezes ao longo da segunda temporada: o de que o envolvimento com o crime não é brincadeira e tem consequências.

O tema, que é recorrente no desenvolvimento da trama, é uma das facetas que leva a série para mais perto do drama que da comédia nessa nova temporada. Esse movimento já começa na resolução do dilema da season finale: Beth se recusa a fazer o que Rio impõe e o chefe da da gangue retalia atirando em Dean. O clima da segunda temporada já começa sombrio, com Beth limpando sangue do chão de sua casa e seu grande terror pairando no ar: que Dean acorde no hospital e a denuncie para a polícia.

A temporada segue com uma sequência de roubos, tráfico, violência e assassinato figurando na vida de Beth, Ruby e Annie tanto quanto os cuidados com os filhos, as tarefas de casa, o casamento. Jenna Bans, a criadora da série, abraça um mix de ideias que faz com que muita coisa aconteça ao longo dos 13 episódios, salpicando doses de drama, tragédia, humor e suspense — e acertando no tom algumas vezes. O debate moral permeia todo o decorrer do seriado, ora jogando a luz sobre as ações das protagonistas, ora questionando a postura da polícia que está cada vez mais na cola das três mulheres.

O ponto mais forte de Good Girls continua sendo o elenco. Christina Hendricks, Retta e Mae Whitman formam um trio poderoso de protagonistas e carregam a série nas costas muitas vezes. A qualidade da trama ainda precisa crescer muito para alcançar o potencial das três atrizes principais. De certa forma, a segunda temporada não trouxe tantas coisas novas e circulou os mesmos problemas que já apareceram na temporada de estreia. Por outro lado, sinto que a segunda temporada também trouxe um avanço no desenvolvimento das personagens e conseguimos conhecer um pouco mais de cada uma.

Beth

Beth Boland é dona e proprietária da história de Good Girls. Por mais que o relacionamento das três mulheres seja o que guia a série, Beth é a personagem que mais tem destaque e que, de fato, movimenta o decorrer da narrativa. Já na primeira temporada, Beth é a personagem que mais é desenvolvida e, nos novos episódios, ela continua sob os holofotes. Não estou reclamando. Christina Hendricks lida muito bem com a responsabilidade.

Embora as três amigas tenham entrado no crime para resolver alguma questão pontual em que era preciso conseguir dinheiro rápido, Beth vai descobrindo cada vez mais que ela gosta disso. Planejar roubos e esquemas de lavagem de dinheiro fazem com que ela se sinta viva. O quanto isso está relacionado apenas com uma sede de poder é que é a questão. Na segunda temporada, vemos Beth assumir uma posição de liderança em casa, invertendo a rotina que ela tinha até então com seu marido — que era quem trabalhava fora, em uma concessionária, enquanto ela ficava em casa cuidando dos filhos, cozinhando e participando de atividades escolares. Beth descobre que, por mais que ela ame sua família, essa vida já não é mais suficiente para fazê-la feliz. Mas aqui o buraco é mais embaixo. Em dado momento, Beth coloca Dean em casa e parte para o trabalho na concessionária. Ela chega cheia de ideias, pronta para transformar o negócio, atingir um novo público e prosperar, longe das atividades criminosas. Mas isso também não é o suficiente.

Beth vai e volta nas suas decisões de se envolver mais ou deixar para trás de vez os esquemas criminosos. Por mais interessante que seja ver a personagem se debatendo entre a descoberta de que ela realmente gosta da sensação de estar no poder e o sentimento aterrador de que está falhando como mãe ao colocar sua família em risco, tenho as minhas dúvidas a respeito de como esse jogo é trabalhado. É pouco crível toda a “sorte” que Beth parece encontrar, independente do que decida fazer. Rio é um chefe de gangue que faz pressão e a submete a situações complicadas, para dizer o mínimo, mas que ao mesmo tempo parece relevar um bocado de acontecimentos que meteriam qualquer outra pessoa em apuros. O recente envolvimento romântico/sexual dos dois não me parece ser uma explicação muito convincente para essa tolerância. Porém, Beth segue nesse vai e vem, tentando achar um equilíbrio e viver com segurança nos dois mundos, sem se comprometer 100% com nenhuma das duas vidas que leva — pelo menos, até agora. Os últimos instantes da temporada deixam antever uma possível mudança de rumo e um passo a mais para um envolvimento mais profundo com uma dessas vidas.

Ruby

Por mais que Beth seja a personagem com mais destaque, é pelas cenas de Ruby que eu anseio enquanto vejo a série. Retta faz um trabalho fenomenal e domina tanto os momentos mais sérios e dramáticos quanto as cenas de humor. Nessa temporada, o relacionamento de Ruby com o marido, Stan (Reno Wilson), é uma das dinâmicas mais bacanas de acompanhar. Quando Stan fica sabendo no que Ruby se meteu para conseguir dinheiro para os tratamentos de saúde da filha dos dois, a reação não é nada boa. Mas, acompanhamos o processo de mudança de pensamento do marido, que acaba por decidir que, sim, cometer crimes é errado, mas Ruby fez isso pelo bem da família e por isso é perdoada. Mais ou menos na pegada do casal principal de Santa Clarita Diet, Ruby e Stan levam toda a cumplicidade que sempre tiveram no casamento também para essa nova realidade.

O debate da moralidade é frequente nesse núcleo. Ruby continua sendo a personagem que mais entra em conflito com as atividades criminosas, ainda que isso não a impeça de fato de participar delas. Além disso, Stan é policial, o que faz com que a investigação do FBI, liderada pelo agente Turner (James Lesure), ronde a família mais de perto. No meio disso tudo, também é colocada em pauta a ética na postura do FBI e da polícia na investigação, a transmissão e a percepção de valores do que é certo e errado pelas crianças. O arco do problema de saúde de Sara (Lidya Jewett), a filha de Ruby e Stan, fica para trás nessa temporada e abre caminho para essas outras discussões que giram em torno da possibilidade do casal ser preso.

Essa questão também é o gancho para um dos momentos de aprofundamento de personagens. Quando Ruby se vê na posição de ter que escolher entre colocar a liberdade de seu marido em risco ou denunciar Beth para o FBI, Good Girls nos mostra uma série de flashbacks que recupera a origem da amizade entre Ruby e as irmãs Beth e Annie. Os flashbacks nos mostra como as três se conheceram na adolescência e como ficaram amigas, construindo o laço tão forte de amizade que é o principal destaque da série. Bom também ver que a série não está disposta a jogar essa amizade fora tão fácil, e mesmo com o conflito, Beth e Ruby continuam firmes.

Annie

Annie ainda é uma personagem pouco explorada. A segunda temporada segue batendo na mesma tecla do relacionamento de Annie com o ex-marido, Gregg (Zach Gilford), e quando isso finalmente acaba, coloca outro homem na vida da personagem de Mae Whitman. Dessa vez, Annie começa um relacionamento com Noah (Sam Huntington), seu novo chefe no supermercado em que trabalha. Ao longo dos episódios descobrimos que Noah é, na verdade, um agente do FBI disfarçado em busca de informações para colocar as três mulheres atrás das grades. Não chega a ser uma grande descoberta porque tudo o que isso levanta são questões largamente abordadas em filmes e seriados diversos de por-que-sempre-me-apaixono-pelo-cara-errado, será-que-ele-realmente-gosta-de-mim-ou-só-está-me-usando, isso-tudo-foi-real etc. Não que não sejam questões válidas, só não trazem uma coisa nova.

Para mim, tudo isso é só um desvio do que poderia ser o foco: a relação de Annie com Sadie (Isaiah Stannard). Na segunda temporada, Sadie conta para Annie que é um homem trans. A cena dura poucos minutos e o fato é mencionado poucas vezes desde então, uma escolha que transita entre ser mais um caso em que Good Girls falha em se aprofundar em um tema e não ter o gênero como a única característica que define o personagem. Em uma entrevista para a Variety, a criadora Jenna Bans conta que essa narrativa não estava nos planos originais da série e nasceu com a aquisição de Isaiah Stannard, que se identifica como menino, para o elenco. Nas palavras de Jenna Bans:

“Nós percebemos que tínhamos uma ótima oportunidade de contar uma história sobre um personagem que não se adequa aos papéis de gênero tradicionais, mas ao mesmo tempo não tem que ser necessariamente o que guia a história. O mais importante para o personagem e a história que estamos contando de Sadie e Annie é o laço entre Sadie e sua mãe. Nós gostamos da ideia de que o personagem de Sadie está explorando sua expressão de gênero na série, mas acho que respondemos mais ao fato de que a personagem de Mae Whitman não se importa com isso.”

De fato, dentro da história, Sadie tem a experiência de expressar sua identidade bem recebida: todos os personagens passam a tratá-lo por pronomes masculinos e Annie menciona que agora um dos motivadores por sua busca por dinheiro é a necessidade de pagar a terapia hormonal para a transição do filho. Mas a narrativa não se desenvolve muito além disso. Sobre Sadie, continuamos a saber muito pouco.

O que esperar do futuro

É inegável: ainda que não seja perfeita, Good Girls tem o poder de te prender. A terceira temporada já está confirmada e é difícil não alimentar expectativas de que a série cresça e, quem sabe, atinja todo o seu potencial nos episódios que estão por vir.

Assim como na primeira, a segunda temporada termina com um gancho que promete mudar toda a dinâmica do que vem por aí. Beth, Ruby e Annie estão diante da ideia de se envolverem de vez com as atividades criminosas, agora que acreditam ter chegado a um ponto mais seguro com relação à investigação do FBI e se livrado das ordens de Rio. É uma oportunidade para avançar ainda mais no drama ou na comédia — de ambas as formas é possível ter ótimos resultados, desde que a série esteja disposta a se comprometer de verdade com um desses lados e se jogue de cabeça.

Good Girls aposta ainda em algumas tramas tão absurdamente malucas que até chegam a funcionar. Um exemplo é a descoberta que o corpo que Mary Pat (Allison Tolman) tinha no freezer é, na verdade, o corpo de seu marido, que sofreu um infarto e morreu em casa. Encarar a morte do marido faz com que Mary Pat perceba que, sem o dinheiro que ele recebia, criar os quatro filhos sozinha seria uma situação ainda mais difícil. Em um flash, ela evolui desse pensamento para a decisão de picotar o corpo, escondê-lo no freezer de casa, não registrar essa morte oficialmente e continuar recebendo a pensão que sustenta a família.

O que falta, ainda, é mais evolução de personagens, o aprofundamento em alguns temas e o aproveitamento real de tudo o que a trama tem para oferecer, sem pressa. O que sinto é que eu e Good Girls estamos vivendo um clima de paquera, mas ainda preciso que ela me ofereça mais para entrarmos em um relacionamento sério. Que venha a terceira temporada!

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