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Good Girls, primeira temporada

“Hoje em dia, garotas podem ser qualquer coisa: CEOs, medalhistas olímpicas, até juízas da Suprema Corte. Finalmente quebramos as barreiras e, uau, com certeza é uma bela visão do topo.” Assim começa o primeiro episódio de Good Girls, série da NBC que estreou em fevereiro com todas as boas promessas possíveis. Good Girls é estrelada por três atrizes que conhecemos e amamos há algum tempo: Retta, de Parks and Recreation, Mae Whitman, de Parenthood e Christina Hendricks, de Mad Men. A proposta também soa interessante: acompanhamos as trajetórias de três mulheres que levam uma vida típica da classe média estadunidense e que, ao se verem no limite, resolvem assaltar um supermercado para resolver seus problemas — o que acaba levando o trio a se afundar cada vez mais no mundo do crime. Good Girls surgiu como uma excelente oportunidade para vermos atrizes brilhantes em personagens incríveis mas, quando cheguei ao final do episódio dez, o último da primeira temporada, a sensação foi a de que tinha sido enganada.

Atenção: este texto contém spoilers!

A série começa nos apresentando um momento comum de caos na vida das três personagens principais. Beth Boland (Christina Hendricks) é uma dona de casa casada, com quatro filhos pequenos e que acaba de descobrir que o marido a está traindo com a secretária e que a família está cheia de dívidas. Annie Marks (Mae Whitman) tem uma filha adolescente e é divorciada do marido que, ela descobre, vai entrar na justiça pela guarda da filha — e isso exige um advogado que está além do que seu salário como caixa de supermercado consegue cobrir. Já Ruby Hill (Retta) tem um casamento feliz com o marido, mas está em um momento difícil: sua filha tem uma doença séria e a família luta para pagar os tratamentos.

Para resolver os problemas com grana, elas decidem assaltar o supermercado em que Annie trabalha, usando máscaras de esqui e armas de brinquedo. O assalto dá certo, mas o cofre tem muito mais do que os 30 mil dólares que elas esperavam que tivesse e o roubo rende meio milhão, o que começa a deixar as três preocupadas com o desenrolar do caso. A preocupação tem fundamento: o dinheiro é de uma gangue que aparece na casa de Beth para cobrar o valor de volta. É a partir disso que Beth, Annie e Ruby começam a misturar suas vidas normais com uma vida paralela no mundo do crime, desenvolvendo uma relação com a gangue de quem elas roubaram sem saber.

Good Girls

Tudo isso pode render uma boa história, ainda que esse recorte de “cidadão de bem” frustrado que recorre ao crime seja um tanto problemático. Não por acaso vimos Breaking Bad — série com uma proposta parecida — ser celebrada com sucesso por cinco temporadas. Good Girls, porém, tem um bom caminho a percorrer se quiser chegar com glória a novas temporadas. A proposta do seriado é fazer uma mistura de drama e comédia, e é aqui que mora o primeiro problema: as partes de comédia não são tão engraçadas assim, enquanto as cenas de drama não são suficientemente profundas. A receita de uma dramédia é outra coisa que vemos funcionar com grande alegria na televisão e Crazy Ex-Girlfriend está aí para provar que esses dois gêneros podem ser equilibrados muito bem. Good Girls, no entanto, ainda não chegou lá e a impressão que fica é de uma série rasa. Embora a trama passe por uma série de assuntos relevantes, que poderiam discutir questões importantes, esses tópicos são abordados de qualquer jeito, sem um desenvolvimento maior que caberia bem na proposta da produção. É uma decepção, visto que a criadora da série, Jenna Bans, tem passaporte carimbado em Shondaland e já escreveu para Grey’s Anatomy e Scandal, dois seriados que entendem bem como fazer um drama bem desenvolvido para a televisão.

As protagonistas

O que me atraiu em Good Girls foi a produção estrelada por mulheres e com um elenco principal formado por atrizes tão queridas. Assim, as protagonistas já trouxeram uma relevância muito maior do que a história em si — afinal, é frequente que bons personagens segurem as pontas em roteiros medianos. Em parte, é isso o que acontece na primeira temporada, embora ainda haja um grande espaço para o desenvolvimento de cada uma das personagens.

Good Girls

Beth Boland é a líder do grupo. Construída com base no mais típico estereótipo televisivo da mãe de classe média estadunidense que se dedica à casa e aos filhos, participa da associação de pais na escola e dirige uma minivan, Beth se transforma quando descobre a traição do marido, Dean Boland (Matthew Lillard). Ela toma as rédeas da situação, manda o marido para fora de casa, dá a ideia do assalto e paga as dívidas da família. A partir daí, ela passa a ocupar a posição de liderança, sendo a principal conexão do grupo com Rio (Manny Montana), líder da gangue para quem as três amigas acabam “trabalhando” em um esquema de lavagem de dinheiro. É Beth quem tem a ideia de entrar no esquema da lavagem de dinheiro, que aprimora as operações criminais com planos mirabolantes e que desafia os criminosos nos momentos de tensão e violência. Ao longo dos episódios, percebemos que, embora as três personagens tenham entrado nesse universo por conta do desespero, Beth começa a gostar da vida de crime muito mais do que da vida que levava antes.

Já Annie Marks, irmã mais nova de Beth, é o retrato oposto da irmã “certinha”: Annie é a garota um pouco irresponsável, com a casa bagunçada e pose de festeira, que acha toda essa história de assaltos e lavagem de dinheiro um tanto divertida. É a Annie que a série recorre em grande parte das cenas cômicas — missão que Mae Whitman domina muito bem. Ainda que sua relação próxima, porém complexa, com o ex-marido Gregg, (Zach Gilford) seja abordada, é seu relacionamento com a filha, Sadie (Izzy Stannard), o que mais se destaca. As duas formam um bom time e têm uma dinâmica meio Lorelai e Rory Gilmore, na qual a filha é quem “toma conta” da mãe. Sadie é, aliás, uma personagem que poderia ser muito melhor explorada na trama. Só o que sabemos é que ela se desdobra dividindo-se entre a mãe e o pai (com sua nova esposa) e sofre bullying de seus colegas de escola por se vestir de uma forma considerada masculina. Sabemos também que Annie faz de tudo pela filha, e é essa a maior motivação da personagem ao longo da história.

Por fim, temos Ruby Hill. Fechando um trio inseparável com as duas irmãs, Ruby é casada com Stan (Reno Wilson), com quem tem um relacionamento muito bom, cheio de brincadeiras, sinais de amor e cumplicidade. A grande questão de seu núcleo familiar é que a filha mais velha, Sara (Lidya Jewett), está doente e os tratamentos, remédios e médicos não podem ser bancados como deveriam com o curto salário de segurança de Stan ou de garçonete de Ruby. A saúde de Sara é o que motiva Ruby a ocupar seu papel nos esquemas de crimes, ainda que ela seja a personagem que mais apresenta resistência a isso. É a Ruby que a série mais frequentemente aponta para cenas mais densas e dramáticas, apoiando-se na doença da filha, no desconforto em guardar segredos do marido e nas situações de humilhação e exaustão no ambiente de trabalho. Isso é ótimo: a Retta que temos na memória é a hilária Donna Meagle de Parks and Recreation e agora temos a oportunidade de assistir a atriz em um papel com uma nota totalmente diferente e uma oportunidade para mostrar um outro lado de seu talento; e Retta se sai brilhantemente nessa empreitada, ainda que não tenha tanto destaque quanto poderia ter.

A dinâmica entre as protagonistas é algo que funciona muito bem ao longo dos episódios. Vemos as três formarem uma intensa rede de apoio umas para as outras, dando e recebendo suporte em todos os problemas e situações, em uma amizade que parece vir de muito tempo. É bacana ver que, mesmo que todos os outros relacionamentos da série sejam questionados, a relação entre Beth, Annie e Ruby segue firme e consistente, mesmo que elas tenham personalidades completamente diferentes e discordem entre si.

O que esperar das próximas temporadas

A NBC, emissora responsável pela transmissão original da série, já confirmou que Good Girls terá sua segunda temporada. Ao longo dos dez episódios da primeira temporada, a produção manteve um bom índice de audiência nos Estados Unidos e, segundo a criadora Jenna Bans, deve trazer na nova leva de episódios uma “mistura sombria e engraçada do inesperado e de certas coisas que a audiência parece desejar”.

Good Girls

Não sei o que a audiência norte-americana deseja, mas o que espero é que, com a segurança de novos episódios e uma primeira temporada com números sólidos, a trama deixe de ser corrida e tire um tempo para contar mais sobre quem são todas essas pessoas em Good Girls. A história parece ter pressa, empilhando acontecimentos sem se preocupar muito com uma construção mais aprofundada de personagens, e é essa pressa também que passa por cima de tramas que deveriam ser tratadas com muito mais cuidado. Um exemplo é uma tentativa de estupro sofrida por Annie logo no início da temporada, e que acaba desembocando em cenas com ímpeto engraçadinho para depois ser jogada para escanteio.

O final da primeira temporada de Good Girls abre a porta para novos episódios interessantes. Annie parece resolver os problemas com o ex-marido, o que pode deixar o caminho limpo para, enfim, conhecermos Sadie como pessoa. Ruby e Stan chegam em um ponto de conflito que promete mudar a dinâmica da família, algo que — espero — faça com que conheçamos ainda mais sobre Ruby e traga muitas cenas preciosas de Retta nessa sua faceta mais séria como atriz. Beth é quem estrela a cena que fecha a season finale, com um momento crítico que pode ditar toda a trama da segunda temporada: ela se vê em uma situação decisiva com o líder da quadrilha com quem estão envolvidas e seu próximo passo pode afundar ainda mais as três protagonistas nesse universo do crime. Sinto que Beth é a personagem que mais conseguimos conhecer ao longo dos dez episódios da primeira temporada de Good Girls, enquanto a vemos se sentir mais independente e no controle, planejando assaltos e lavagem de dinheiro e não se limitando ao papel de esposa — é um novo lado de sua personalidade, e estou curiosa para ver como a série vai mostrar essa trajetória.

Queremos, sim, mais séries (e filmes e minisséries e livros e desenhos animados!) protagonizados por mulheres. E queremos ver isso acontecer com todo o potencial que sabemos que existe nessas produções. É o que desejo para Good Girls.

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1 comentário

  1. Maratonei!!!! Enredo interessante e ótimas interpretações. Beth precisa se sentir viva e em vários momentos foi possível perceber essa liberdade a partir da traição do marido. Será q ela vai ter um momento pegação com Rio? Ansiosa para a segunda temporada!!!