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SZA, IZA e Lorde: o novo papel das mulheres na indústria da música

Historicamente, mulheres têm uma participação complexa na sociedade, cheia de altos e baixos, de opressão, assim como de conquistas que (nos) fizeram guerreiras. O crescente, e recente, debate nos EUA sobre a desigualdade de gênero na indústria do entretenimento, alimentado por escândalos sexuais e de desigualdade salarial, que se espalhou pelo mundo com movimentos como #MeToo e TimesUp, mostrou que é preciso ampliar o debate e sair da esfera do audiovisual, como a última premiação do Grammy e o discurso equivocado de seu presidente nos mostrou. A indústria da música, que é extremamente influente em escala global, também precisa de seu momento TimesUp, e a ideia desse texto é trazer uma reflexão de como tal indústria tem se reinventado, um passo de cada vez, por meio de três jovens cantoras.

Olhar para as histórias dessas cantoras, vindas de três diferentes países e realidades, promove um pequeno recorte: exceções a sua própria maneira e que têm um grande impacto no mainstream, por meio das histórias de SZA, IZA e Lorde, a ideia aqui é abordar o que cada uma delas tem feito em um meio de trabalho extremamente cruel com mulheres e que não estende a elas as mesmas cortesias que estendem a homens (brancos). Importante lembrar que boa parte desse olhar ocorre por meio de uma perspectiva estrangeira, portanto com claras limitações culturais que impedem de ter uma visão mais aprofundada dos casos particulares relacionados às cantoras.

SZA

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“Por que não posso ficar sozinha comigo mesma?
Queria estar confortável apenas comigo mesma
Mas eu preciso de você, preciso de você, preciso de você”

Se você está atenta à indústria musical estadunidense certamente já viu e ouviu bastante esse nome. Solána Imani Rowe, de 27 anos, é uma das grandes e mais recentes revelações da música norte-americana e com seu álbum de estreia Ctrl, lançando em junho de 2017, logo se tornou uma estrela em ascensão. Com um profundo e sensível álbum que fala sobre amor e perda, a cantora expõe a si mesma e não tem medo de fazê-lo, o que faz sua força surgir quando olha fundo para si mesma, nos seus mais intensos e complexos sentimentos, e encara seus demônios. Dentre todas as canções do álbum, “Supermodel” é a minha preferida e acredito que seja um ótimo começo para quem ainda não conhece a artista.

Sei que os fãs gostam mais de “Love Galore” ou “The Weekend”, então vamos apenas dizer que escolher “Supermodel” é algo totalmente pessoal, vindo de alguém que se identificou muito com a letra e seu tom ora triste, ora irritado e frustrado, mas também aliviado. No entanto, indo muito além da música, SZA representa uma exceção nas várias áreas da sociedade na qual está inserida. Primeiramente, a cantora brilhou em um ano de dominação masculina na música americana: Ctrl, além de ser um sucesso de crítica, também é um sucesso comercial e fez com que SZA conquistasse a terceira posição na badalada parada musical, a Billboard 200. A cantora também se tornou a primeira mulher a assinar com a gravadora de R&B e Hip Hop Top Dawg Entertainment, em 2013. Além disso, ela recebeu cinco indicações ao Grammy 2018, foi a mulher com o maior número de indicações, mas, infelizmente, saiu de mãos vazias em uma noite dominada por Bruno Mars e Kendrick Lamar. A artista também é uma mulher no show business o que significa dizer, basicamente, que SZA é uma mulher dentro de uma indústria controlada por homens. De produtoras, passando pelas gravadoras e chegando nas plataformas de streaming e downloads, eles são os líderes dessas plataformas, e SZA tem aberto seu caminho com talento e muito trabalho.

Negra e vinda de uma família cristão-muçulmana, criada como muçulmana ortodoxa, em um país onde as manifestações de intolerância racial e religiosa experimentam uma perigosa ascensão, SZA sabe bem qual é o seu lugar no mundo. Os casos de violência contra negros que originaram o movimento Black Lives Matter em 2013, a eleição do polêmico e extremamente conservador Donald Trump em 2016, sua decisão de proibir a entrada nos EUA de cidadãos originários de países de maioria muçulmana, além da marcha neonazista em Charlottesville, ambas em 2017, são alguns dos eventos recentes difíceis de esquecer. Portanto, SZA é uma bela ironia que tem muito potencial para brilhar ainda mais.

IZA

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“Colorindo a vida, elevando o nível 
Fale o que quiser mas eu não borro o meu rímel,
Pode aceitar, nós somos o brilho do mundo com muito orgulho
Dorme com esse barulho, eu quero ver você dormir com esse barulho
Não sou daquelas que fica em cima do muro
Esse brilho é meu e ninguém vai tirar”

Em 2017, IZA fez sua estreia oficial na música e não poderia ter sido melhor. “Pesadão” foi a canção responsável por mudar a vida de Isabela Lima, de 27 anos, que apenas alguns anos atrás trabalhava com publicidade. A canção facilmente se tornou um sucesso, chegando ao Top 20 da Billboard Brasil com as músicas mais tocadas da semana nas rádios. “Pesadão” também está há meses entre as 50 músicas mais ouvidas no Spotify Brasil.

A cantora, que se inspirou por nomes como Rihanna, Lauryn Hill e Tina Tuner, traz o empoderamento feminino e negro para a música brasileira. Embora não seja seu maior sucesso, “Esse Brilho É Meu” é uma canção incrível e que vem com um discurso que se encaixa perfeitamente nessa premissa, uma música que traz uma forte mensagem contra o machismo e o racismo. O vídeo também reflete essa questão, sendo uma parceria entre a L’Oréal Paris, a empresa Musickeria e a Warner Music, e que tem a participação especial de Taís Araújo, uma das poucas atrizes negras de destaque no país.

Também vale destacar o mais recente single da cantora, “Ginga”, que é fiel às bandeiras levantadas por IZA desde o princípio. IZA talvez seja a cantora mais política da lista, possivelmente um reflexo do país no qual ela está inserida e o momento em vivemos no Brasil: extremamente instável politicamente e inflamado por crises em diversos setores.

Embora as mulheres estejam vivendo um momento interessante na música, emplacando diversos hits no país, um cenário certamente encabeçado por Anitta, (que, vale ressaltar, é um exemplo de mulher que é líder dentro do seu mercado e que tem amplo poder de decisão sobre sua carreira), em muitos aspectos elas ainda estão em posições de desvantagem. De acordo com dados do IBGE relativos ao ano de 2016, ainda que as mulheres representem mais da metade da população em idade de trabalhar, os homens conquistaram 57.5% dos postos de trabalho. As mulheres ganham uma média salarial de R$ 1.836, equivalente a 22.9% menos que os homens, R$ 2.380. No contexto racial, a média salarial de todos os trabalhos das pessoas brancas é de R$ 2.810, equivalente a 45% a mais do que a média de pessoas negras e pardas; R$ 1.547 e R$ 1.524, respectivamente.

Vinda de uma família de classe média baixa e tendo estudado em escolas privadas, IZA não corresponde ao estereótipo do negro no Brasil, mas seu status enquanto exceção permitiu que ela estivesse em lugares onde o negro é minoria e nesses lugares o preconceito sempre esteve presente. A cantora admitiu em entrevista para a Marie Clare Brasil que no passado já chegou a ser a única pessoa de cabelos crespos na escola e que teve dificuldades em se aceitar fisicamente: “passei quase dez anos alisando os fios e escondendo a bunda. Agora sei o quanto tudo isso me empodera”. IZA está apenas começando, mas já é um exemplo de artista disposta a não apenas mostrar seu talento musical, como também sua voz frente a problemas sociais que precisam de mudanças.

Lorde

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“Porque todas as coisas que estamos tomando
Porque somos jovens e estamos envergonhados 
Nos enviam para lugares perfeitos
Todos os nossos heróis estão desaparecendo 
Agora eu não suporto ficar sozinha 
Vamos para lugares perfeitos”

Com seu álbum de estreia Pure Heroine, em 2013, Lorde conquistou a indústria fonográfica mundial, considerando o quão bem o projeto se saiu entre a crítica e o público. O sucesso a levou a inúmeras “primeiras vezes”: a primeira artista neozelandesa a conquistar um certificado de diamante nos EUA, a mais jovem artista a chegar ao topo da Billboard 100 em 26 anos, uma das artistas mais jovens a ser indicada — e a ganhar — um Grammy e a chegar ao topo da parada britânica. Sua idade, na época, apenas 16 anos, tornou os feitos ainda mais impressionantes.

Então, Ella Yelich-O’Connor, com 21 anos, já é uma exceção a nível internacional e com seu segundo álbum, Melodrama, lançado em junho de 2017, ela expandiu seu sucesso. A questão é que Lorde é muito diferente dos artistas da sua geração e desde sua estreia, em 2013, foi definida como exótica, andrógena, uma outsider. Com as canções voltadas para o público adolescente sendo globalmente dominadas por nomes como Taylor Swift, Justin Bieber e One Direction, não havia ninguém como a cantora no cenário mainstream. Dessa maneira, Lorde abraçou o título que foi impresso em sua imagem pública, usando roupas de cores escuras, cabelo bagunçado e mantendo sua personalidade introspectiva. E em sua música não foi diferente; ela continuou a falar sobre os problemas da sociedade pelos olhos de uma outsider.

Lorde capturou o interesse de uma audiência adolescente que também se via como outsider, que não se encaixava em um rótulo específico e pré-estabelecido e que tinha muitas visões críticas sobre o mundo ao seu redor. E mesmo considerando Melodrama um trabalho mais comercial, a Lorde outsider ainda está lá, agora mais madura, dizendo adeus a adolescência, que agora é mais ativa em sua própria visão crítica, visão essa que pertence a realidade de uma garota que está tentando se tornar adulta. As primeiras bebedeiras, o coração partido, o sentimento de se sentir perdida, a imperfeita e finita juventude. Está tudo lá, em cada parte desse álbum. E com “Perfect Places”, que não é nada perfeito, essa juventude parece ainda mais real.

Melodrama também trouxe outras “primeiras vezes” ou talvez o termo correto seja “exceções”. Assim como SZA, Lorde brilhou em um ano dominado pelos homens na música americana. Ela se tornou a única mulher a ser indicada a Álbum do Ano no Grammy 2018, uma premiação que, convenhamos, não é lá um grande exemplo de diversidade. O feito chocante adiciona um novo sentido para o seu antigo status: no Grammy, Lorde foi a outsider feminina.

Essas mulheres, portanto, representam diferentes mudanças em diferentes indústrias, unidas como exceções. A palavra prova que o caminho é longo para uma completa igualdade, não apenas de gênero, dentro da indústria e se torna ainda mais difícil considerando os contextos nos quais essas mulheres estão inseridas. O problema vai além da música, como também vai além do show business. Ao mesmo tempo em que elas desafiam o sistema, são produtos dele. Suas escolhas, suas conquistas, seus erros, limitações, como elas são retratadas, está tudo ligado ao sistema no qual elas estão.

A boa notícia é que elas podem mudá-lo, melhorá-lo — o que, na verdade, já estão fazendo. Uma música de cada vez.

Isa de Oliveira é potiguar e formada em Jornalismo pela UFRN. Tem experiência com redação de web e assessoria de imprensa. Considera-se uma aspirante a pesquisadora. É apaixonada por cultura pop. Torcedora do Bayern de Munique e não, não tem problema em gostar de time estrangeiro, quem foi que disse?

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