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Medo Imortal: resgatando o sobrenatural brasileiro

Vamos começar esse texto com um exercício: se eu te pedir para pensar em autores de livros sobrenaturais, quais os nomes surgem primeiro em sua memória? Dos clássicos aos contemporâneos, é possível que você só tenha conseguido se lembrar de nomes estrangeiros — o que, até pouco tempo, também teria sido algo que eu faria. Após ler Medo Imortal, antologia publicada pela DarkSide Books, eu redescobri autores nacionais que também mergulharam no desconhecido e criaram contos arrepiantes, autores que eu não fazia ideia de que também haviam enveredado pelo terror e o extraordinário aqui mesmo em terras brasileiras.

Com organização do jornalista Romeu Martins e ilustrações de Lula Palomanes, Medo Imortal reúne treze grandes nomes da literatura nacional escolhidos entre os patronos, fundadores e primeiros eleitos para ocupar os assentos da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897. Entre os nomes de prestígio presentes no livro estão Machado de Assis, Álvares de Azevedo e Aluísio de Azevedo, apenas para citar alguns, além de Júlia Lopes de Almeida — Júlia, ainda que não tenha sido eleita uma imortal da ABL, esteve desde o início por dentro da criação da instituição e teve seu lugar negado entre seus primeiros membros apenas pelo fato de ser mulher. Mas já chegamos nessa história.

Medo Imortal, além de contar com as tramas sobrenaturais de tantos autores clássicos brasileiros, é recheada de informações retiradas de teses, dissertações e artigos escritos por pesquisadores do terror brasileiro, especialmente do Grupo de Estudos do Gótico no Brasil, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com produções científicas de enorme importância. É realmente interessante acompanhar as notas e pesquisas indicadas por Romeu Martins durante todo o livro e entender o motivo pelo qual, por tantos anos, só identificamos como literatura nacional de qualidade aquela que se relaciona com o realismo e o naturalismo, como o jornalista destaca em determinado momento da introdução escrita por ele para a antologia:

“Após a proclamação da República em 1889, a intelectualidade brasileira desejava cortar todos os laços que nos prendiam ao passado colonial e às influências europeias, então consideradas nocivas, e pavimentar um futuro baseado em uma literatura acima de tudo realista, que tratasse dos nossos cenários e do nosso povo.”

Foi assim, buscando por uma literatura que correspondesse a essa nova visão da produção cultural brasileira, que textos de excelência de autores nacionais foram caindo no esquecimento: a produção inspirada em Lorde Byron, poeta gótico inglês responsável por promover o encontro na Suíça onde John Polidori e Mary Shelley escreveram O Vampiro e Frankenstein, respectivamente, foi substituída por textos ao estilo de Victor Hugo, autor francês responsável por Os Miseráveis, obra realista publicada em 1862 repleta de críticas sociais.

As consequências dessa investida, de acordo com Martins, culminaram no esquecimento proposital de parte da literatura brasileira que se identificava com a fantasia, o sobrenatural e a ficção científica — temas que, menciona o jornalista, são facilmente encontrados hoje em dia nas listas de mais vendidos em qualquer livraria do nosso país se escritas por autores estrangeiros. Medo Imortal vem justamente para mostrar ao grande público que fantasia e ficção científica não são “baixa literatura” e que muitos de nossos autores mais importantes fizeram do fantástico sua ferramenta de trabalho. Com base em pesquisas — referenciadas durante todo o livro de quase 500 páginas, um belo calhamaço de capa dura e folhas douradas —, Romeu Martins organiza um verdadeiro tesouro do sobrenatural brasileiro, valorizando e resgatando textos dos primeiros cem anos de produção literária de horror no Brasil, produzida entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX.

O sobrenatural brasileiro

Medo Imortal tem início com seis textos de Machado de Assis, um dos fundadores e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Considerado de maneira unânime como o maior de nossos escritores, Machado de Assis escreveu de romances a contos, de poesia a crônicas, e não deixou o horror passar sem ser por ele notado. Um de seus romances mais meritórios, Memórias Póstumas de Brás Cubas, como bem lembra Romeu Martins na introdução ao autor, é narrado por um defunto e ainda que não seja considerada uma obra de horror, já demonstra o quanto Machado tem a dizer a respeito do sobrenatural. É interessante apontar que boa parte do material sobrenatural escrito por Machado de Assis foi publicado no Jornal das Famílias, um periódico fundado em 1863, voltando ao público feminino e que colocava, lado a lado, dicas de tricô e crochê com as tramas criadas por Machado, estas repletas de canibais, esqueletos e muita morbidez. É assim que Machado de Assis publica “A Igreja do Diabo, de 1884, e “Um Esqueleto”, de 1875, apenas para citar alguns dos meus contos favoritos presentes na antologia.

“As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.” — A Igreja do Diabo

Medo Imortal também destaca “Noite na Taverna”, escrito pelo ultrarromântico Álvares de Azevedo, em que ele narra em capítulos as desventuras bizarras e sobrenaturais de um grupo de amigos. Em sete atos, Azevedo entra em um crescendo de horrores e escatologias, onde cada um dos amigos tem uma história mais estranha do que a outra para contar até chegar em uma conclusão inesperada. Dos rincões do Brasil vieram outros contos favoritos: Inglês de Souza narra em “O Gado do Valha-me Deus” a saga de dois amigos em busca de gado perdido apenas para encontrarem situações inexplicáveis; em “Acauã”, uma trama baseada na fama agourenta do gavião acauã, pássaro típico da região Norte do Brasil, o autor conta a história da pobre Aninha e seu pai, Jerônimo Ferreira; e em “O Baile do Judeu”, acompanhamos uma dança frenética que mistura um horror tétrico, tenebroso e triste.

Um dos meus textos favoritos de toda a antologia certamente é “Demônios”, de Aluísio de Azevedo. Conhecido por obras como O Mulato, de 1881, e O Cortiço, de 1890, o autor naturalista mergulha em um universo fantástico repleto de bizarrices em sua trama sobrenatural, transformando o sempre ensolarado Rio de Janeiro, de maneira inexplicável, em um mundo de trevas e silêncio assustador. Em “Demônios”, escrito como folhetim e publicado no jornal Gazeta de Notícias em 1891, acompanhamos um jovem que acorda em um mundo de escuridão e estranheza. Não há ninguém na cidade além dele mesmo, e as trevas tomam conta de tudo ao redor. A narrativa de Aluísio de Azevedo é capaz de fazer com que o leitor sinta a urgência e o pânico tomando conta do personagem que percorre o Rio de Janeiro praticamente às cegas em busca de sua noiva com a esperança de que pelo menos ela tenha sobrevivido ao estranho fenômeno que varreu a vida e a luz da cidade. Os onze capítulos que formam “Demônios” são assustadores, intensos e bizarros de uma maneira que só um conto de horror é capaz de ser.

“Que significaria isto?… que estranho cataclismo abalaria o mundo?… Que teria acontecido de tão transcendente durante aquela minha ausência da vida, para que eu, à volta, viesse encontrar o som e a luz, as duas expressões mais impressionadoras do mundo físico, assim trôpegas e assim vacilantes, nem que toda a natureza envelhecesse maravilhosamente enquanto eu tinha os olhos fechados e o cérebro entorpecido?!…” — Demônios

Outro favorito, “O Monstro”, do maranhense Humberto de Campos, é um conto que em meras duas páginas de frente e verso consegue criar todo um universo em que a “Morte e a Dor” andam juntas às margens do Rio Eufrates durante a criação da Terra e dão vida a uma criatura que não deveria existir. Os temas abordados pelos escritores presentes em Medo Imortal são os mais variados, mas os arrepios são certeiros em cada uma de suas tramas — nem sempre por medo propriamente dito, mas por bizarrices e escatologias que só verdadeiros mestres da literatura poderiam conceber. Demônios, espíritos, esqueletos, mortos-vivos, a morte… não há um tema que não tenha sido abordado de forma ímpar por esses treze autores.

Medo Imortal também é o resgate de Júlia Lopes de Almeida  

Desde o momento em que comecei a leitura de Medo Imortal, tive que refrear minha curiosidade para não avançar até o final do livro, pulando os doze autores anteriores, para ler a produção sobrenatural de Júlia Lopes de Almeida. Nascida em setembro de 1862 no Rio de Janeiro, Júlia acumulava funções: além de escritora, ela também foi cronista, teatróloga, abolicionista, escrevia artigos para jornais e também atuou como uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, ainda que tenha sido impedida de participar do grupo que ajudou a criar.

Criada nos moldes da instituição cultural similar que existia na França desde 1635, os homens fundadores da ABL optaram por não permitir que mulheres fizessem parte da organização. Embora Júlia Lopes de Almeida tenha participado de várias reuniões e se mobilizado para a criação da Academia Brasileira de Letras, ela não foi um dos quarenta membros fundadores e não pode opinar na escolha dos quarenta patronos das cadeiras que eles ocupariam até suas mortes. A cadeira de número 3, que seria de Júlia, foi concedida ao seu marido. A ABL só passou a aceitar mulheres, reparando um erro histórico, em 1977 quando Rachel de Queiroz se tornou a primeira mulher entrar para a academia.

Júlia Lopes de Almeida foi uma das escritoras mais publicadas da Primeira República, período que engloba os anos de 1889 a 1930, com uma carreira profícua que incluía romances, contos, crônicas, ensaios, peças de teatro e livros infantis. A escritora era ferrenha defensora da abolição da escravatura e ousava escrever — e publicar — em um período em que das mulheres esperava-se apenas que elas ficassem restritas à vida doméstica e aos cuidados dos filhos. Ao longo de quarenta anos, Júlia foi considerada um sucesso de público e crítica, sendo comparada por José Veríssimo a Machado de Assis e Aluísio de Azevedo por sua qualidade literária.

“Ninguém pode fugir ao destino, diziam todos; estaria então escrito que a sua sorte fosse essa que o pai lhe prometia — de matar a fome aos porcos com a carne da sua carne, o sangue do seu sangue?!” — Os Porcos

Preterida na Academia Brasileira de Letras por conta de seu gênero, Júlia Lopes de Almeida é resgatada em Medo Imortal e colocada junto aos seus pares. Para a antologia, Romeu Martins selecionou de Ânsia Eterna, coletânea publicada por Júlia aos 41 anos, seis contos: “As Rosas”, “Os Porcos”, “O Caso de Ruth”, “A Neurose da Cor”, “A Valsa da Fome” e “A Alma de Flores”. É nítida a diferença com que Júlia aborda o sobrenatural em seus contos se comparada com os outros autores presentes em Medo Imortal — sem desmerecer nenhuma das partes, é evidente que apenas uma mulher enxergaria o terror em certos temas, como é o caso, por exemplo, da trama de “Os Porcos”.

De inspiração gótica, como relata Martins com apoio da dissertação intitulada O Gótico Feminino na Literatura Brasileira: Um Estudo de Ânsia Eterna de Júlia Lopes de Almeida, de autoria da pesquisadora Ana Paula A. Santos, tanto Júlia quanto outras autoras contemporâneas a ela — Maria Firmina dos Reis, Ana Luíza Azevedo e Castro e Emília Freitas, autoras de Úrsula (1859), D. Narcisa de Villar (1859) e A Rainha do Ignoto (1899), respectivamente —, abordavam de maneira diferente o sobrenatural em suas obras: ao contrário dos homens, sempre escrevendo mulheres tão trágicas quanto sensuais, as escritoras trabalhavam suas tramas de maneira a gerar empatia pelas personagens femininas em questão, sem partir para sua erotização.

Não é exatamente uma novidade o fato de que mulheres são constante apagadas e invisibilizadas em seus trabalhos. Júlia Lopes de Almeida não pode assumir seu lugar de direito entre os membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, mas a qualidade de seu trabalha fala por si — os contos presentes em Medo Imortal, por exemplo, são apenas uma amostra do talento da escritora que consegue construir a tensão em sua narrativa de maneira ímpar. Entre os contos, meus favoritos da escritora são “A Neurose da Cor”, a história da Princesa Issira no antigo Egito, uma mulher que não media esforços para ter o que desejava — mesmo que esse algo fosse sangue fresco — e “O Caso de Ruth”, uma trama tão próxima da realidade que isso é tudo o que ela precisa para ser arrepiante.

“A beleza de Issira deslumbrou a corte; sua altivez fê-la respeitada e temida; a paixão do príncipe rodeou-a de prestígio e a condescendência do rei acabou de lhe dar toda a soberania. O seu porte majestoso, o seu olhar, ora de veludo, ora de fogo, mas sempre impenetrável e sempre dominador, impunha-na à obediência e ao servilismo dos que a cercavam.” — A Neurose da Cor

Medo Imortal é um livro precioso e imprescindível para quem deseja conhecer o outro lado dos imortais aqui eternizados e seus contos de horror e sobrenatural equiparam-se facilmente com escritos cultuados de autores estrangeiros como H.P Lovecraft e H.G. Wells. Aliado a essa produção impecável está, é claro, o resgate da importância de Júlia Lopes de Almeida na criação da Academia Brasileira de Letras e seu trabalho frutífero, eternizado ao lado de quem lhe negou espaço. A edição da DarkSide Books repete o capricho de sempre — capa dura, folhas com laterais douradas, e os tons em verde e dourado complementam o brasão que decora o livro, emulando as cores do fardão acadêmico usado até hoje pelos imortais da ABL.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a DarkSide Books.


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2 comentários

  1. Nossa, Thay, nem tenho palavras para agradecer ou mesmo dizer o quanto fiquei feliz com este seu texto! Que excelente análise de Medo Imortal, o texto mais completo que li desde o lançamento do livro. Muitíssimo obrigado, fico honrado mesmo com uma avaliação tão detalhada e tão criteriosa da obra.

    1. Oi Romeu! Muito obrigada pelo comentário, fico contente que tenha gostado do texto! Adorei ‘Medo Imortal’ e fico bem feliz de poder ter feito um texto que você considere completo e criterioso, tentei fazer justiça ao conteúdo do livro – que é excelente.