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“Existe algo em minha alma que não compreendo”: Mary Shelley e o abandono

A história d’O Ano Sem Verão deve ser uma das mais famosas na literatura. Protagonizada por Mary Shelley, sua meia-irmã, Claire Clairmont, Lorde Byron, seu médico John Polidori e Percy Shelley, o tédio produzido pelo verão chuvoso e nublado de 1816 nos cinco jovens resultou no nascimento da obra mãe da ficção científica: Frankenstein ou O Prometeu Moderno.

Muito se sabe e se discute sobre essa obra, a triste história da criação do Dr. Victor Frankenstein, o monstro que queria ser Adão, mas que era anjo um caído. Porém, a vida de sua autora é bem menos conhecida. O filme Mary Shelley, dirigido por Haifaa al-Mansour e escrito por Emma Jensen, faz um excelente trabalho em preencher essa lacuna.

Logo em sua primeira cena, Mary (Elle Fanning) escreve furiosamente ao lado do túmulo de sua mãe — local que fora seu santuário e se tornaria palco de seus encontros secretos com Percy Shelley. Filha de Mary Wollstonecraft, pioneira do feminismo e autora do livro intitulado Uma Reivindicação Pelos Direitos da Mulher, de 1792, e do filósofo William Godwin (Stephen Dillane), Mary Wollstonecraft Godwin fora profundamente influenciada pelas ideias da mãe, muito embora ela tenha falecido somente dez dias após o seu parto, e queria não apenas escrever, mas ser reconhecida por isso. Seu pai, por mais que incentivasse a leitura, desaprovava os livros de terror que a filha tanto gostava, enquanto sua madrasta (Joanne Froggatt) não aceitava seu jeito livre e selvagem. Fanning entrega uma Mary Shelley cheia de paixão pela vida, pela leitura e pela escrita, e são esses atributos, também, que chamam a atenção de seu futuro marido, Percy Shelley (Douglas Booth).

Aos dezesseis anos, Mary via em Percy tudo aquilo em que acreditava: a literatura, a liberdade e a paixão. Por isso, não é de se surpreender que os dois tenham logo embarcado em um romance secreto e, mais tarde, tenham fugido para ficar juntos diante da reprovação do pai de Mary. Por mais que tenha sido um radical e grande entusiasta do amor livre em sua juventude, William Goldwin era incapaz de aceitar que sua filha vivesse esse amor com medo da rejeição que ela sofreria em sociedade. Shelley era casado, tinha uma filha e, mesmo que não tivesse mais nenhum laço afetivo com sua esposa, assumir um novo relacionamento seria um grande escândalo.

Um dos grandes méritos do roteiro de Emma Jensen é o profundo entendimento dos temas da obra principal de Mary Shelley e de como ela foi influenciada pela própria vida da autora. O real conflito na obra não vem do fato de Victor Frankenstein ter criado uma vida, mas sim por ter abandonado sua criatura que, por conta disso, se tornou um monstro. Mary passa o filme todo se sentindo abandonada: primeiro por sua mãe e criadora, depois por seu pai, diariamente por Percy e por toda a sociedade londrina quando ela passa a se relacionar com um homem casado. Frankenstein é sobre o que acontece depois do ato de criação, é um livro que lida com a responsabilidade e as consequências.

Além de Mary, duas outras mulheres que conhecemos no filme também sofrem terríveis abandonos. Tanto Claire (Bel Powley), meia-irmã de Mary Shelley e amante de Byron, quanto Harriet (Ciara Charteris), ex-esposa de Percy, engravidam e são abandonadas pelos pais de seus filhos. Essas mulheres são testemunhas oculares e provas vivas de que a liberdade do “amor livre” tão pregado pelos poetas e intelectuais da época possui sentidos e produz consequências diferentes para homens e mulheres. Enquanto Percy e Byron podem continuar suas vidas livremente como grandes heróis românticos, Harriet e Claire têm que lidar com as consequências e com a rejeição da sociedade sozinhas, assim como muitas outras mulheres.

Por tratar de temas considerados controversos, a obra de Mary Shelley, primeiramente publicada sem autor e com um prólogo de Percy Shelley, encontrou diversas críticas da parte mais conservadora da sociedade, mas foi aclamada pelos intelectuais. Sua autora, no entanto, provocou um estranhamento ainda maior e em todas as partes da sociedade. As pessoas não acreditavam que era possível que uma mulher tivesse escrito sobre temas como esses ou, se acreditavam, não era de bom tom que ela o tivesse feito. Até mesmo o próprio Percy sugere que Mary escreva algo mais esperançoso, que transformasse seu monstro em um anjo para transmitir uma mensagem de esperança e perfeição à humanidade, em uma atitude tipicamente romântica e, ao mesmo tempo, tipicamente masculina. Mas Mary queria escrever sobre a verdade; muito pouco em sua vida fora esperançoso e perfeito. Às vezes a verdade não rima.

Em uma das cenas finais e mais emocionantes do filme, Claire conta aos prantos para Mary suas impressões sobre a obra da irmã. Existe uma grande identificação entre a criatura do livro e a meia-irmã da autora, assim como há entre a própria Mary Shelley e o monstro de Frankenstein. Ambas as mulheres foram repetidamente abandonadas e rejeitadas, mas, no fim, sempre tinham uma a outra. Desde a gravidez e eventual morte da primeira filha de Mary, aos problemas financeiros de Percy e a rejeição de Byron, as duas mulheres eram as únicas que sobravam para lidar com os escombros e recolher os cacos resultados de ações pelas quais elas não eram as únicas responsáveis.

— Acabou de ler?
— Sim. Fiquei toda arrepiada.
— É bom ler uma história de terror de vez em quando.
— Nós duas sabemos que não se trata de uma história de terror. Jamais li uma descrição tão perfeita de como é se sentir abandonado. (…) Imagino quantas almas se identificam com os tormentos de sua criatura.

Nesse momento, Shelley percebe o poder da obra que criou. Conta-se que a autora frequentemente se referia a Frankenstein como sua “offspring“, sua prole, sendo o livro seu próprio monstro. Criatura e criadora, Mary Shelley entendia profundamente a responsabilidade que possui sobre sua obra e os efeitos que ela podia ter sobre as pessoas que entravam em contato com ela. E isso não é algo assustador, mas maravilhoso.

A verdade é que todos os seres humanos sentem o abandono, todos os dias, de diferentes formas. A existência precede a essência, sem manual de instruções — ou com manuais demais. A única certeza é a de que a consciência é só uma fase. Por isso, talvez, o sentido da vida esteja nos momentos de reconhecimento no outro do que há de mais profundo e doloroso em si mesmo. A compreensão de que não somos os únicos que sofrem. Há alguém lá fora agora, e havia há mais de 160 anos atrás, que entende. E é então que a literatura se torna uma das armas mais poderosas e um dos remédios mais potentes.

Rafaela Morelli é estudante de Letras, amante de poesia marginal e sociolinguística. Se diverte em museus e escolheu a tosquice como sua estética de preferência. Prefere Taylor Swift a Shakespeare, acha que seria melhor amiga do Tom Zé e se preocupa demais. É 60% Corvinal e 40% Lufa-lufa. Twitter | Instagram

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2 comentários

  1. Quando ela vai descobrindo mais sobre Ciência e conectando com a ideia do livro, a percepção da sua realidade usada como metáfora, isso me fez ficar super inspirada em relação a minha escrita, me fez abrir os olhos. Ela é pura inspiração, na verdade, e só me fez ansiar muito para ler o livro.

  2. “A verdade é que todos os seres humanos sentem o abandono, todos os dias, de diferentes formas.”
    Nossa sim
    Já tenho um filme pra ver nesse fds frio