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Valencia Perez: a complexidade possível de uma coadjuvante

Falar sobre as metamorfoses de uma mulher como Valencia (Gabrielle Ruiz) e não cair no clichê da loira turbinada que encontra um livro na rua e se torna uma morena de óculos é um desafio. Não porque ela tenha encontrado a intelectualidade formal no meio do caminho e então tenha se tornado um ser humano respeitável aos olhos daqueles que não conseguem conceber uma mulher ao mesmo tempo desejável e capaz de concluir uma linha de raciocínio, mas porque encontrou uma nova Valencia Perez ao longo das três temporadas de Crazy Ex-Girlfriend, e a mudança, apesar de ter refletido em sua aparência, em nada tem a ver com ela.

Na primeira temporada de Crazy Ex-Girlfriend somos apresentados a Valencia: professora de ioga, bonita, magra, sensual e dona de grande flexibilidade, aquela que separa a (anti)heroína Rebecca Bunch (Rachel Bloom) e seu objeto de desejo, o ex-namorado Josh (Vincent Rodriguez III). Valencia é tudo que a protagonista não é. Inicialmente, a personagem é mostrada sem aprofundamentos e regada a estereótipos. Sua primeira aparição tem o combo cabelos esvoaçantes, vestido justo e salto alto em pleno supermercado e deixa logo a saber: aquela é a mulher mais gostosa que Rebecca já havia visto na vida.

O objetivo inicial não é que o público estabeleça qualquer relação de identificação com Valencia. Falemos a verdade: somos mulheres na faixa dos 25 anos assistindo a uma comédia romântica musical. Estamos de pijama e cabelos despenteados, talvez comendo algo que não fará bem às nossas saúdes à longo prazo, muitas lutando contra os males da insônia. Naquele momento, somos muito mais Rebecca: confundida com uma mendiga procurando calmantes e guloseimas nos corredores de um supermercado. A simples presença de Valencia parece dizer “skrull you, you’re fat” (“dane-se você, você é gorda”, em tradução livre). E Valencia? Tão elegante, tão inatingível, é, por alguns minutos, a vilã.

Nas cenas seguintes, ainda no mesmo episódio, os estereótipos começam a se quebrar e Valencia começa a se parecer mais com um ser humano. Vítima do mito da competição feminina, a professora se empolga com a aproximação — infelizmente, com fins escusos — de Rebecca e chega a revelar à nova amiga que não mantém uma relação de amizade com outras mulheres desde que foi vítima de fofocas no colegial. Valencia inicia, então, sua metamorfose aos olhos do espectador: a mulher sensual, elegante e posicionada no topo da cadeia dos padrões de beleza também busca acolhimento e aceitação.

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A partir desse momento, Valencia revela inseguranças, além de se decepcionar com Rebecca e também com Josh. Ela, que o acompanhara há 15 anos, se percebe emocionalmente negligenciada e toma a difícil decisão de abandonar um relacionamento tão longo.

O término é o verdadeiro objeto encontrado no meio do caminho que faz com que Valencia, primeiro, conheça o fundo do poço e, depois, possa se reinventar. Arrasada, a mulher perfeita se entrega a carboidratos e acaba deixando de lado o emprego como professora de ioga. Sofrendo com o descaso do ex-companheiro, chega a se unir aos planos malucos de Rebecca, mas, muito antes que a (agora sim) amiga, consegue processar suas emoções. A personagem se levanta da cova em que se enfiou, usa seu tempo livre para realizar novos sonhos e emprega sua veia de liderança para iniciar um novo negócio.

A cena em que explica seus motivos para ter deixado o namoro é uma das mais marcantes, além de representar uma realidade comum às mulheres inseridas em relações heterossexuais. Responsável pela iniciativa de colocar um fim em seu relacionamento, Valencia simplifica suas emoções dizendo que foi obrigada a tomar uma posição, já que não observava a recíproca em Josh. Desabafando com Rebecca, ela conta: “Josh me magoou tanto. Eu rompi com ele, mas a verdade é que ele me deixou muito antes, emocionalmente. Eu matei o relacionamento porque eu tive que matar. Já estava morta”.

O momento de abertura e vulnerabilidade ao contato com outra mulher é bonito e repleto de humor. As duas reconhecem, definitivamente, as características positivas uma da outra (inteligente, líder, valente, deusa) e passam, dali em diante, a se ancorarem como amigas, apesar das diferenças. Ter encontrado amizades femininas verdadeiras é crucial na metamorfose de Valencia. Vivendo uma Friendtopia ao lado de Rebecca, Heather (Vella Lovell) e Paula (Donna Lynne Champlin), Valencia encontra um lugar de pertencimento.

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Seu visual não é mais o centro das atenções — mas não haveria problema se ainda o fosse. A transformação de Valencia nunca se propôs a ser uma grande imagem da loira que encontra um livro na rua e tem sua aparência transformada. A agora promotora de eventos não dá pistas de ter deixado a vaidade (nem o narcisismo) completamente de lado e continua muito ligada às redes sociais. O que vemos é que ela parece ter construído uma relação mais saudável e confortável com o próprio corpo e se reinventou como considerou mais adequado.

Na terceira temporada, mais uma surpresa: sem dramas e questões muito bem desenvolvidas, Valencia se descobriu bissexual e conseguiu se entregar novamente a um amor. Encarando Josh de frente com maturidade e sabendo aceitar o passado, finalizou de vez um ciclo que, se não tivesse existido, não teria culminado em sua formação como mulher poderosa de dentro pra fora e amparada por pessoas que a querem bem.

O crescimento de uma personagem secundária que não deixa de ter nuances e não experimenta somente uma metamorfose do ruim para o bom é um dos trunfos de Crazy Ex-Girlfriend, que tem como característica narrativas não maniqueístas. A história de Valencia fala sobre rupturas, mudanças e ciclos e é um modelo encenado do desejo deixar ir para reconstruir, é uma alegoria que defende o direito da mudança e ilustra uma complexa personalidade feminina.

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